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terça-feira, 17 de agosto de 2021

Beckett (2021)

Beckett (2021). Dir: Ferdinando Cito Filomarino. Netflix. Thriller com John David Washington que nunca cumpre a boa promessa inicial. Washington é Beckett, um turista que está passeando pelas montanhas da Grécia com a namorada (Alicia Vikander). Os dois se envolvem em um grave acidente de carro e Beckett se vê em um pesadelo; ao invés de ajudá-lo, policiais tentam matar Beckett logo que ele sai do hospital. Sem falar a língua e ferido, ele tenta sobreviver enquanto foge da polícia e tenta chegar a Atenas, na esperança de encontrar refúgio na embaixada americana.

Há algo de Hitchcock nessa premissa; o mestre inglês do suspense adorava colocar pessoas comuns em situações extraordinárias (Intriga Internacional. O Homem que Sabia Demais, etc); o problema é que o roteiro de "Beckett" fica só na promessa. A situação em que ele se encontra é intrigante, mas depois de um tempo esperamos algo mais do que cenas repetitivas de encontros violentos com os perseguidores e fugas mirabolantes.

Vicky Krieps, de "Trama Fantasma" (de Paul Thomas Anderson) e do recente "Tempo" (de Shyamalan), interpreta uma ativista que o personagem de Washington encontra pelo caminho; Boyd Holbrook (de "Narcos" e "Logan"), é um funcionário da embaixada americana. O filme foi coproduzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, da RT Features ("Frances Ha", "Me Chame pelo seu Nome") e tem trilha sonora do grande Ryuichi Sakamoto. John David Washington apanha um bocado e faz o que pode com o roteiro pouco desenvolvido. 


 

quarta-feira, 1 de março de 2017

O Silêncio do Céu (2016)

Bom exercício de suspense dirigido por Marco Dutra (que fez o ótimo Trabalhar Cansa). O filme é uma co-produção uruguaia e é falado quase todo em espanhol. Carolina Dieckmann é uma estilista que, no início do filme, é estuprada em uma cena bastante perturbadora. O marido dela, Mario (Leonardo Sbaraglia) é um homem que sofre de diversas fobias (praticamente de tudo). O filme mostra a sequência de estupro por outro ângulo e descobrimos que Mario assistiu a tudo, mas ficou paralisado por seus medos. Quando o estupro termina ele até tenta ir atrás dos culpados, mas não consegue alcançá-los. Começa então um curioso jogo em que a esposa não conta para o marido que foi estuprada e o marido não conta para a esposa que ele assistiu a tudo.

Dutra usa muita metalinguagem ao revelar que Mario é um roteirista de cinema. Ele começa a nos narrar a história e, enquanto tenta encontrar os estupradores da esposa, começa a criar um personagem novo para ele mesmo, um homem capaz de enfrentar suas fobias e esconder a verdade da esposa. A direção de fotografia é de Pedro Luque (O Homem nas Trevas) e a câmera (bastante estática no início do filme) vai ganhando movimento conforme Mario também se torna mais ativo. Senti toques de "Um Corpo que Cai", obra prima de Hitchcock, no roteiro de "O Silêncio do Céu". Mario, assim como James Stewart, é um homem que tem que superar uma fobia e, de certa forma, recriar uma nova mulher a partir do estupro sofrido pela esposa.

Nem tudo funciona, porém. Achei que as narrações de Mario eram, por vezes, desnecessárias. Mais para o final a personagem de Carolina Dieckmann também passa a narrar a história e, de novo, me pareceu redundante, mais para explicar pontos obscuros do roteiro do que para realmente avançar a trama. Mas é um bom filme de suspense, gênero que poderia ser mais explorado pelo cinema brasileiro. "O Silêncio do Céu" está disponível na Netflix.

João Solimeo

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Locke (Netflix)

Alfred Hitchcock tinha tal domínio sobre o que fazia que gostava de se desafiar com situações limitantes. Fez um filme inteiro passado em um bote em "Um Barco e Nove Destinos" (1943); em "Festim Diabólico" (1948), uma série de planos sequência simulavam um movimento contínuo de câmera, em tempo real; em "Janela Indiscreta" (1954), colocou James Stewart preso a uma cadeira de rodas e fez todo o filme do ponto de vista dele. Hitch, provavelmente, aprovaria "Locke", filme escrito e dirigido por Steven Knight, disponível na Netflix.

Ivan Locke (Tom Hardy, de "Os Infratores") é um empreiteiro responsável pela construção de um novo edifício em Birmingham, Inglaterra. Na véspera do dia crucial para o projeto, quando mais de 200 caminhões virão despejar toneladas de concreto nas fundações do prédio, Locke entra em sua BMW e parte para Londres, em uma viagem que vai mudar sua vida. Em uma proeza técnica considerável, os 85 minutos do filme se passam dentro do carro de Locke; Tom Hardy é o único ator  que vemos durante toda a produção.

Ele não está sozinho, no entanto. As vozes de uma série de personagens podem ser ouvidas pelo viva voz do seu celular, e Locke tem que resolver problemas em três frentes distintas: o canteiro de obras que ele deixou para trás, com várias pessoas desesperadas precisando da orientação dele; sua família, composta pela esposa e dois filhos, entusiasmados pela transmissão de um jogo importante de futebol e o aguardando em casa; e Bethan (Olivia Colman), uma mulher que está em Londres em trabalho de parto de um filho ilegítimo de Locke. Os dois haviam dormido juntos por uma única vez no ano anterior, nas comemorações de uma obra bem sucedida. Locke tem consciência de que fez algo errado e decidiu, justo nesta noite, quebrar com uma vida regrada e íntegra para consertar este erro, nem que tenha que destruir sua carreira e casamento no processo. (leia mais abaixo)


Filmes vistos por um único ponto de vista não são novidade; em 2010, Ryan Reynolds passa o tempo inteiro dentro de um caixão em "Enterrado Vivo", angustiante filme de Rodrigo Cortés. Robert Redford também é o único ser humano visto pelos 144 minutos de "Até o Fim", dirigido por J.C. Chandor em 2013. E Colin Farrell fez um filme praticamente solo em "Por um Fio", em 2002, dirigido por Joel Schumacher.

Assim como nestes outros exemplos, o que marca "Locke", além do feito técnico, é o lado humano. Ivan Locke está longe de ser perfeito. Ele é sem dúvida um workaholic, embora tenha uma visão bastante filosófica sobre seu trabalho. "Concreto é delicado como sangue", diz ele a um subordinado desesperado. Tudo isto é apresentado ao espectador como em uma rádio novela, enquanto Locke viaja pela noite inglesa. Tom Hardy carrega o filme nas costas, mas também é digno de nota o ótimo trabalho vocal realizado pelos atores invisíveis com quem ele dialoga pelo telefone.

Apesar de seu deslize conjugal, Locke é um homem íntegro e responsável. Por que, então, ele arriscaria um trabalho de milhões de libras por causa do bebê de uma mulher que ele mal conhece? Por que abrir o jogo com a esposa esta noite? O que seu próprio nascimento tem a ver com isso?

É interessante notar o significado do seu nome; John Locke, um filósofo do século 17, desenvolveu uma teoria conhecida por "tabula rasa", ou "folha em branco". Ivan Locke, nesta longa viagem noturna, decidiu zerar sua vida e recomeçar do zero. Imperdível.

Câmera Escura


sábado, 31 de julho de 2010

Meu Malvado Favorito

Correndo por fora em um ano que teve animações da Pixar (Toy Story 3) e DreamWorks (Shrek), "Meu Malvado Favorito" surpreendeu público e crítica com um filme divertido e despretensioso. Produção da novata "Illumination Entertainment", a animação é dirigida por Pierre Coffin e Chris Renaud.

O bem humorado roteiro trata da história do auto-intitulado vilão Gru (voz de Steve Carrell, no original), um cara que não é mau de verdade, mas gostaria de ser. Vaidoso, mas ainda dominado pela mãe e por lembranças da infância, Gru usa seu poder para cortar filas na lanchonete ou arrumar um lugar para estacionar. Em sua mansão ele domina um grupo de centenas de "minions", empregados que lembram muito os alienígenas de brinquedo de Toy Story. Gru está mal humorado porque um novo vilão está atraindo a atenção da mídia, o mimado Vetor, que acabou de roubar uma das pirâmides do Egito. Para tentar superá-lo, Gru bola um daqueles planos mirabolantes apropriados a um super vilão: ele vai roubar a Lua! Mas, para isso, ele precisa de uma máquina encolhedora que está na fortaleza de Vetor. É então que surgem três garotinhas órfãs que, vendendo biscoitos, serviriam de porta de entrada para Gru. O vilão adota as meninas e as leva para casa. Sim, é o velho clichê do vilão duro que vai ter o coração amolecido pela inocência das crianças. Mas isso é feito com tanta graça que o filme supera o lugar comum e faz o espectador torcer por Gru e as meninas.

Gru é um personagem muito bem escrito. Ele tem um estilo que lembra os vilões europeus dos filmes em preto e branco, com sua elegância e sotaque do velho continente. Interessante os flashbacks que mostram sua infância e como sua criatividade foi sendo tolhida e podada pela mãe dominadora. Em uma cena em que ele vai colocar as meninas para dormir, ele repete o que, provavelmente, era um ritual da sua infância, dizendo a elas que a casa está cheia de pulgas e que há monstros no armário. Engraçada também a cena em que, decidido a cometer seu "plano maluco", Gru primeiro tem que ir pedir um empréstimo no banco, cujo gerente é um tal de Sr. Perkins, referência a Anthony Perkins, que interpretou o assassino Norman Bates no filme Psicose, de Hitchcock. A própria silhueta de Gru, a propósito, lembra a figura do famoso diretor inglês, mestre do suspense. Divertido.



Câmera Escura

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O Clube do Filme

O escritor canadense David Gilmour (não confundir com o guitarrista do Pink Floyd, de mesmo nome) estava tendo problemas com o filho adolescente. Jesse, de 16 anos, mostrava total desinteresse pela escola. Um “garoto” de um metro e oitenta de altura, ele faltava às aulas para ir ao cinema, para namorar ou sair com os amigos. Mas, apesar de inteligente e entusiasmado, não encontrava motivação para aguentar a rotina escolar diária.

O pai, em um momento de desespero, lhe fez uma “proposta indecente”: ele gostaria de abandonar a escola? Jesse não pensou duas vezes e aceitou mais rápido do que seu pai gostaria. Mas havia algumas regras: Jesse não poderia se envolver com drogas em hipótese alguma e teria de assistir a três filmes por semana com o pai. Esta é a trama básica de “O Clube do Filme”, livro lançado no Brasil pela Editora Intrínseca após grande sucesso lá fora. Não é um trabalho de ficção. Gilmour, que é roteirista, escritor e crítico de cinema, conta de forma apaixonada, mas leve, como foi este tempo que teve perto do filho adolescente, um luxo que poucos pais têm hoje em dia.

A seleção de filmes (a lista chega a 113 obras) é bem eclética. Filmes clássicos como “Cidadão Kane” ou “Casablanca” são intercalados com mais recentes como “Instinto Selvagem”. Havia os filmes da nouvelle vague francesa, em que a cena final de “Os Incompreendidos”, de François Truffaut, serve de paralelo com a situação de Jesse; suspenses de Alfred Hitchcock (como “Intriga Internacional”, “Os Pássaros” e “Psicose”); comédias e dramas de Woody Allen (“Crimes e Pecados”, “Manhattan”, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”); uma série de filmes de terror para tentar fazer Jesse se esquecer de uma namorada (“O Exorcista”, “O Massacre da Serra Elétrica”, “O Iluminado”). Havia também sessões em que Gilmour escolhia um tema, como “O talento aflora”, e mostrava filmes em que algum desconhecido se destacava, como Samuel L. Jackson em “Febre na Selva”, de Spike Lee, ou Sean Penn em “Picardias Estudantis”, de Amy Heckerling, Audrey Hepburn em “A Princesa e o Plebeu”, de William Wyler ou o enorme talento que um jovem diretor chamado Steven Spielberg mostrou em seu primeiro filme, “Encurralado”.

A linguagem é simples e fluente. Gilmour não só conta os problemas do filho como os próprios. Desempregado por um longo período, um psicólogo provavelmente diria que ele resolveu tirar o filho da escola para lhe fazer companhia. É interessante também notar as semelhanças entre as “falhas” do pai refletindo no filho, como um gosto exagerado pela bebida e, sim, certa irresponsabilidade em lidar com algumas situações. O livro também é um retrato do quão difícil é ser um homem adolescente tendo que lidar com uma série de desilusões amorosas. Uma “personagem” recorrente é uma garota chamada Rebbeca (nome que, provavelmente, Gilmour usou em homenagem ao grande filme de Hitchcock). Ela é estonteante, e sabe disso, e usa o charme para fazer um jogo de sedução com Jesse que dura meses.

Em vários momentos acompanhamos as dúvidas do pai em relação ao tipo de educação que está dando ao filho. Inevitavelmente ele acaba se envolvendo com drogas, principalmente após desilusões amorosas, e em dado momento Jesse confronta o pai sobre o que ele acha ser uma “influencia excessiva” sobre ele. “O Clube do Filme” é uma leitura gostosa e cheia de citações cinematográficas, por vezes profundas, em outras superficiais, mas sempre interessante e divertido.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

O Açougueiro (1970)

Com o bom "Uma Garota Dividida em Dois" ainda nos cinemas, decidi assistir a alguns filmes mais antigos do mestre francês Claude Chabrol. Ele foi um dos jovens franceses da geração da nouvelle vague, cineastas que tinham formação original de críticos de cinema e se tornaram autores cinematográficos, como François Truffaut. Chabrol (assim como Truffaut), viu no inglês radicado nos Estados Unidos, Alfred Hitchcock, um gênio do cinema (na época, Hitch ainda era considerado um diretor "menor" nos EUA). Tanto Chabrol quanto Truffaut escreveriam verdadeiras teses sobre o mestre do suspense inglês, e Chabrol viria a ser, à moda francesa, um de seus seguidores.

O Açougueiro (Le Boucher, 1970) tem vários dos elementos hitchcockianos do suspense. Em uma pequena cidade do interior da França, uma bela mulher (loira e fria como as de Hitchcock), chamada Helene (Stéphane Audran) é professora e diretora de uma escola para crianças.

Um ex-soldado, o açougueiro Popaul (Jean Yanne) a conhece em uma festa de casamento que abre o filme. É curioso como a festa é filmada de modo quase documental, com muito uso de "zoom" e enquadramentos "desleixados". Quando Popaul e Helene saem da festa, o filme se torna meticulosamente filmado e enquadrado. Um longo plano contínuo acompanha o casal da festa até a casa da moça, que fica na própria escola. O suspense vai sendo criado aos poucos, nem tanto pelo que acontece na tela, mas sim fora dela. Uma garota é brutalmente assassinada em um bosque da cidade, mas Chabrol não mostra nem o crime nem o corpo. Apenas ficamos sabendo do fato por causa de uma conversa entre duas crianças, alunos de Helene, e pela presença da polícia correndo pela cidade.

Não é muito difícil saber quem é o assassino, mas esta não é a questão. Hitchcock já ensinava que suspense é diferente de surpresa. Em um filme em que se tem que descobrir o assassino geralmente há uma surpresa, algum acontecimento que ninguém esperava e que acaba revelando a identidade do criminoso. Suspense se cria quando o espectador já sabe de alguma coisa, mas não pode fazer nada. Uma bomba que explode de repente é surpresa. Saber que há uma bomba em um quarto, e imaginar se ela vai explodir ou não, é suspense. A relação entre a professora Helene e o açougueiro Popaul é claramente uma bomba esperando para explodir. Os dois passam a se ver com frequência, mas o caso não passa de amizade por causa de Helene. Em uma conversa no bosque (o mesmo em que foi encontrado o corpo, provavelmente) ela lhe diz que teve um grande amor no passado e que não quer sofrer novamente. Isso não impede que ela o convide para jantar, ou ao cinema.

É a própria Helene quem encontra o segundo corpo, durante uma excursão com suas crianças. Ela também encontra algo que pode indicar a identidade do assassino mas, curiosamente, ela não passa a informação para a polícia. As cenas finais são do mais puro suspense. Sozinha na escola, à noite, Helene vai fechando todas as portas e janelas do lugar em um ótimo jogo de luz e sombra, até o confronto final. A única coisa a se lamentar no filme é a trilha sonora, composta por uma série de sons dissonantes e claramente datados, típicos do final dos anos 1960. De resto, um belo trabalho do diretor francês, fazendo grande suspense e ótimo cinema.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Cinema - Entre a Realidade e o Artifício (livro)

Ótima dica para quem quer saber mais sobre a história do Cinema é este livro do crítico Luis Carlos Merten (O Estado de S. Paulo). Em "Entre a Realidade e o Artifício", Merten narra a tragetória da que viria a ser chamada de "a arte do século XX", que teve seu início em dezembro de 1885, em Paris, com a exibição dos irmãos Lumiére. O livro é didático sem ser técnico ou tedioso. Fica clara a paixão de Merten pelo assunto enquanto discorre sobre as várias fases do cinema, dos filmes mudos à revolução (?) digital pela qual estamos passando atualmente. O livro se inicia e termina com questão lançada pelo teórico francês André Bazin: "O que é o cinema, afinal?". Seria apenas entretenimento? Seria arte? Um filme feito em digital ainda é um "filme", ou é um "video"? Escrito em 2003, Merten questiona qual teria sido a melhor interpretação do ano de 2002: a resposta, um personagem que não existe, "interpretado" por pelos pixels digitais que formam a criatura "Gollun", de "O Senhor dos Anéis".

Mas as questões técnicas ficam em segundo plano. O livro é escrito em capítulos que procuram englobar certos diretores ou tendências cinematográficas, como o trabalho pioneiro e revolucionário do americano D.W. Griffith ou do russo Einsentein; o lado social do Neorrealismo Italiano; a genialidade de Orson Welles (criador do filme que é considerado o melhor de todos os tempos, "Cidadão Kane"); o suspense de Hitchcock; a revolução francesa da nouvelle vague, os westerns de John Ford; a estética de Glauber Rocha, e assim por diante.

Merten não se limita a citar datas e fatos. Ele faz verdadeiras análises de literalmente centenas de filmes e os compara à outra centena, comentando o estilo dos diretores, a contribuição dos atores e referências extra cinema bastante eruditas e bem informadas. Exercício interessante seria anotar todos os filmes citados por Merten no livro e separar, talvez, um ano (ininterrupto) para vê-los. É uma lista para deixar qualquer cinéfilo nas nuvens. Interessante comentar que Merten não fala apenas dos diretores mais óbvios, nem mesmo só de seus filmes mais conhecidos. No capítulo sobre Hitchcock, por exemplo, o esperado seria ler análises de seus filmes com James Stewart (a "trilogia" "Janela Indiscreta" (1954), "O Homem que Sabia Demais" (1956) e "Um Corpo que Cai" (1958) ), mas Merten prefere falar sobre o obscuro "Marnie, Confissões de uma Ladra" (1964), "Os Pássaros" (1963) e "Psicose" (1960, este sim, muito popular e influente).

Os últimos capítulos são dedicados à maravilhosa filmografia de Kieslowski ("Abrir-se para os outros significa criar laços que restringem nossa liberdade", diz Merten sobre "A Liberdade é Azul"), ao cinema iraniano e às experimentações com o plano sequência (como no filme de um só plano, "Arca Russa"), o fenômeno Quentin Tarantino (e sua eventual decadência) e as tendências para o futuro. Merten finaliza dizendo "o cinema ainda é uma arte criança. Um mundo imenso e complexo abre-se diante dele. Que nos traga filmes tão belos como aos que assistimos até aqui".

Livro: Cinema - Entre a Realidade e o Artifício
Editora Artes e Ofícios, 246 páginas.

sábado, 27 de setembro de 2008

Morre Paul Newman

O cinema perde um de seus grandes astros, o ator Paul Newman (1925-2008), que faleceu de câncer sexta-feira, 26 de setembro. Conhecido pelos seus olhos azuis, o ator começou seguindo a linha de atuação "metódica" desenvolvida pelo Actor´s Studio, famosa escola de interpretação de onde saíram Marlon Brando, James Dean, Al Pacino e dezenas de outros. Newman era do tipo clássico do herói americano, rebelde, sarcástico, solitário. Mas alguns de seus maiores sucessos vieram com os dois filmes que fez com o colega Robert Redford. Em 1969 fez o western "Butch Cassidy and the Sundance Kid", retratando de forma romanceada a vida de dois assaltantes de trem. Das cenas famosas há a luta resolvida rapidamente por Newman com outro membro da gangue, um salto de um precipício para um rio e o famoso final, quando a dupla é emboscada em uma cidade da Bolívia. Em 1973 se juntou novamente com Redford e o diretor George Roy Hill e fez "Golpe de Mestre" (The Sting), que levou o Oscar de Melhor Filme. É dos melhores filmes de gângster do cinema e Newman faz o líder de um grupo que pretende dar um golpe em um gângster rival (vivido por Robert Shaw). Em tom nostálgico, o filme tinha bela direção de arte, a música de piano de Scott Joplin e um final surpreendente. No ano seguinte se juntou a um grande elenco para fazer "Inferno na Torre" (Towering Inferno, 1974), um dos vários filmes de desastre que se fez nos anos 1970. O filme contava com nomes como Steve McQueen, Fred Astaire, William Holden, Faye Dunaway no grande elenco.

Newman foi indicado ao Oscar de Melhor Ator diversas vezes, mas só levou em 1986 com "A Cor do Dinheiro", de Martin Scorsese. Newman interpretava Eddie Felson, papel que já havia vivido antes, em 1961, no filme "Desafio à Corrupção". Em "A Cor do Dinheiro", Newman é um vendedor de bebidas de segunda classe que fica impressionado com um jovem jogador de sinuca vivido por Tom Cruise. Ele se oferece para empresariar o jovem e sai Estados Unidos afora com Cruise e sua bela namorada (Mary Elisabeth Mastrantonio). Paul Newman havia completado 60 anos e era considerado um ator em decadência quando o filme saiu. O Oscar colocou o ator de volta no mercado e ainda gerou grandes interpretações como em "A Roda da Fortuna" (The Hudsucker Proxy,1994, dos irmãos Coen), ou "Estrada para a Perdição" (Road to Perdition, 2002, Sam Mendes). Uma de suas melhores interpretações, em minha opinião, foi em "O Veredito" (The Veredict, 1982, de Sydney Lumet), em que interpreta um advogado decadente e alcoólatra que é contratado para defender uma paciente vítiva de erro médico. Com elenco formado por atores como o grande James Mason e Charlotte Rampling, Neswman está estraordinário e vale o filme.

Casado com a atriz Joanne Woodward por mais de 40 anos, Newman também se interessava por corridas de carro (teve uma equipe de fórmula Indy) e tinha importante trabalho filantrópico, com uma linha de alimentos com seu nome cuja venda era revertida totalmente à obras de caridade. Ator que conseguiu prevalecer por várias fases do cinema, que trabalhou com grandes diretores como Alfred Hitchcock, Sidney Lumet, Robert Altman e Martin Scorsese, além de inúmeros outros, Newman fará falta por sua brilhante interpretação e por seu trabalho humanitário. Descanse em paz.