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segunda-feira, 1 de abril de 2024

Holy Spider (2022)

Holy Spider (2022). Dir: Ali Abbasi. Netflix. Filme bastante pesado baseado na história real de um assassino em série que, entre 2000 e 2001, matou dezesseis prostitutas na cidade de Mashad, no Irã. O assassino não se considerava um criminoso, mas sim alguém que estava "limpando a cidade do pecado". Uma jornalista de Teerã, Arezoo Rahimi (Zar Amir Ebrahimi), vai até Mashad investigar as mortes e se depara com uma polícia inerte e um jornalismo amador.

A moça também tem que enfrentar o machismo da cultura local; quando chega em um hotel, sozinha, o gerente lhe diz que houve um erro na reserva dela e que ela deve ir embora. Quando ela revela ser jornalista, o "erro" desaparece e acabam dando um quarto a ela. O filme não tenta fazer suspense sobre quem é o assassino. Ele é mostrado logo no início, um pedreiro comum, com esposa, duas filhas e um filho, Saeed Azimi (Mehdi Bajestani) é ex-combatente na guerra Irã-Iraque e religioso fanático. Ele pega as prostitutas de moto, à noite, e as leva para seu apartamento. As cenas em que ele as estrangula são bem fortes e violentas.

Além de ser um thriller de suspense, o filme também é um retrato de uma sociedade machista/religiosa. Quanto mais mulheres Saeed mata, mais apoio ele tem da população em geral, que acha que ele está fazendo um bem para a sociedade. A mãe de uma das vítimas diz à jornalista que a polícia não tem interesse em prendê-lo pois ele está limpando a cidade para eles. Ebrahimi, que faz a jornalista, ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes e recebeu centenas de ameaças de seu país de origem. O filme foi feito fora do Irã (filmado na Jordânia) e foi condenado pelo governo.

"Holy Spider" é pesado e difícil de assistir, mas poderoso. Tá na Netflix

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Louca Obsessão (Misery, 1990)

 
Louca Obsessão (Misery, 1990). Dir: Rob Reiner. Amazon Prime Video. A notícia da morte de James Caan me fez procurar este filme, que achei na Prime Video. É um bom suspense de Rob Reiner baseado em um livro de Stephen King (os dois já haviam colaborado no ótimo "Conta Comigo", de 1986). James Caan é Paul Sheldon, um escritor que ficou famoso por uma série de livros sobre uma personagem chamada Misery; só que ele estava cansado da personagem e resolveu "matá-la" em seu livro mais recente. Dirigindo durante uma nevasca, Sheldon sofre um acidente e é resgatado, vejam só, por sua "fã número um", Annie, interpretada por Katy Bates.

A não ser por pequenos papéis secundários, o filme é quase todo dos dois atores. A mulher leva o escritor para a casa dela e o mantém em cárcere privado. Ela quer que ele escreva outro livro ressuscitando a personagem de Misery. Katy Bates ganhou um Oscar pelo papel de Annie, o tipo de fã que é o pesadelo de todo escritor. O filme é de 1990 mas é curioso como ela se parece com a maioria dos fãs "tóxicos" que existem hoje na internet, falando mal de seus ídolos e ficando bravos quando suas franquias favoritas não seguem seus desejos.

James Caan, que morreu hoje, está muito bem como Paul Sheldon, que provavelmente é baseado em alguma história pessoal de Stephen King (ele deve ter alguns fãs bem estranhos). Assim como James Stewart em "Janela Indiscreta", de Hitchcock, Caan passa grande parte do filme preso a uma cadeira de rodas ou deitado em uma cama. O final é bastante violento. O roteiro é do veterano William Goldman, de clássicos como "Butch Cassidy" e "Todos os Homens do Presidente". Disponível na Amazon Prime Video.

domingo, 23 de janeiro de 2022

O Assassino de Clovehitch (The Clovehitch Killer, 2018)

O Assassino de Clovehitch (The Clovehitch Killer, 2018). Dir: Duncan Skiles. Netflix. Suspense razoável que funciona muito melhor na primeira metade, "O Assassino de Clovehitch" se passa em uma cidade pequena dos EUA. Um serial killer havia matado dez mulheres na região há uma década, mas a cidade ainda está em luto pelas vítimas. Os crimes pararam de repente, mas todos os anos a cidade faz uma homenagem aos mortos. Tyler (Charlie Plummer) um típico adolescente de 16 anos, vive com uma família religiosa comandada pelo seu pai, Don (Dylan McDermott); Don é sempre alto astral e é líder dos escoteiros da cidade, o que significa que ele é bom em fazer nós.

Ok, uma noite Tyler sai para namorar na van do pai e a garota encontra uma foto perturbadora de uma mulher nua, amarrada em pose sadomasoquista. Logo a cidade toda acha que Tyler é um "pervertido", mas o rapaz começa a desconfiar que o pai, religioso e "homem de bem", não é o que parece. Como agir quando se desconfia que o próprio pai seja um serial killer? Esta primeira metade do filme, como disse, é a melhor e cria um bom suspense. Mais para frente, no entanto, os acontecimentos se tornam meio forçados e difíceis de acreditar. Tyler é auxiliado na investigação pela garota "nerd" da cidade, Kassi (Madisen Beaty), que obviamente tem um motivo pessoal para procurar pelo assassino.

O filme não é ruim, mas não me envolveu muito. As crises de consciência do rapaz por desconfiar do próprio pai não me soaram honestas e a relação entre os dois me pareceu mais a de um tio e sobrinho do que entre pai e filho. Há uma reviravolta interessante no terceiro ato mas o final, se você pensar um pouco, não faz muito sentido. Tá na Netflix.

domingo, 2 de janeiro de 2022

Tempo (Old, 2021)

 

Tempo (Old, 2021). Dir: M. Night Shyamalan. Depois de tantos "filmes Netflix" ou similares, que bom ver um filme começando com a vinheta da Universal e com um diretor que, aos trancos e barrancos, sabe o que está fazendo. "Tempo", de M. Night Shyamalan, está longe de ser perfeito, mas enquanto ele é bom, ele é bom (e então fica
genericamente ruim).

Uma família modelo chega a um resort de luxo (que me lembrou muito a série "The White Lotus", da HBO). Eles são Gabriel Garcia Bernal (Guy) e Prisca (Vicky Krieps), acompanhados por um filho e uma filha. O casamento, apesar de parecer feliz, está com problemas, e talvez esta seja a última viagem deles como uma família. O gerente do hotel lhes oferece um dia em uma praia exclusiva e eles são levados para lá em uma van guiada por M. Night Shyamalan em pessoa (ele gosta de fazer pontas em seus filmes). Eles não estão sozinhos, no entanto. Na praia também estão um médico (Rufus Sewell), a esposa mais nova, a mãe idosa e outra criança. O grupo também é formado por um enfermeiro, uma psicóloga e um rapper.

Não demora muito para eles perceberem algo assustador. As crianças estão crescendo a olhos vistos. Todos, na verdade, estão envelhecendo rapidamente. Quando alguém tenta fugir da praia, a pessoa acaba acordando de volta nela, com dor de cabeça. É um cenário de "Além da Imaginação" que Shyamalan filma muito bem. A câmera, inquieta, faz vários movimentos entre os personagens e, por vezes, as crianças já são vistas interpretadas por outros atores mais velhos (como a ótima Thomasin McKenzie). Os adultos tentam achar uma explicação racional para o que está acontecendo. As crianças procuram nos pais um porto seguro (e não encontram).

Todos nós ficamos mais velhos, um dia de cada vez, então é fácil se identificar com o terror dos personagens, envelhecendo anos em questão de horas. O filme funciona muito melhor nestas sequências em que ninguém sabe o que está acontecendo. O problema é que Shyamalan tenta jogar para a plateia (que gosta de tudo mastigado) e termina com uma "explicação" decepcionante (qualquer explicação seria, provavelmente). Mas, como disse, enquanto é bom, o filme é bom. Há uma bela sequência na praia, quando as crianças estão brincando, em que câmera para sobre uma delas, brincando de "estátua", como se quisesse parar o tempo. Filme lançado só nos cinemas (mas já estão circulando cópias boas internet afora).

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Beckett (2021)

Beckett (2021). Dir: Ferdinando Cito Filomarino. Netflix. Thriller com John David Washington que nunca cumpre a boa promessa inicial. Washington é Beckett, um turista que está passeando pelas montanhas da Grécia com a namorada (Alicia Vikander). Os dois se envolvem em um grave acidente de carro e Beckett se vê em um pesadelo; ao invés de ajudá-lo, policiais tentam matar Beckett logo que ele sai do hospital. Sem falar a língua e ferido, ele tenta sobreviver enquanto foge da polícia e tenta chegar a Atenas, na esperança de encontrar refúgio na embaixada americana.

Há algo de Hitchcock nessa premissa; o mestre inglês do suspense adorava colocar pessoas comuns em situações extraordinárias (Intriga Internacional. O Homem que Sabia Demais, etc); o problema é que o roteiro de "Beckett" fica só na promessa. A situação em que ele se encontra é intrigante, mas depois de um tempo esperamos algo mais do que cenas repetitivas de encontros violentos com os perseguidores e fugas mirabolantes.

Vicky Krieps, de "Trama Fantasma" (de Paul Thomas Anderson) e do recente "Tempo" (de Shyamalan), interpreta uma ativista que o personagem de Washington encontra pelo caminho; Boyd Holbrook (de "Narcos" e "Logan"), é um funcionário da embaixada americana. O filme foi coproduzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, da RT Features ("Frances Ha", "Me Chame pelo seu Nome") e tem trilha sonora do grande Ryuichi Sakamoto. John David Washington apanha um bocado e faz o que pode com o roteiro pouco desenvolvido. 


 

domingo, 5 de outubro de 2014

Garota Exemplar

Ok, por onde eu começo? Provavelmente, por David Fincher. Que diretor hoje teria a capacidade de pegar uma trama rocambolesca e novelesca como a de "Garota Exemplar" e conseguir, primeiro: lhe  dar coesão; segundo: não entregar uma telenovela? Não conheço o livro de Gillian Flynn que serviu de base para o roteiro (adaptado pela própria Flynn), mas ele parece ter todos os elementos de um best seller de sucesso sensacionalista escrito por figuras como Sidney Sheldon ou Patricia Highsmith.

Fincher é um técnico consumado que construiu sua carreira a partir de videoclips meticulosamente dirigidos (como Vogue, de Madonna), comerciais de TV e como técnico da ILM, a empresa de efeitos especiais de George Lucas. Apesar de uma estréia cinematográfica mal sucedida em "Alien³" (1992), estabeleceu sua visão de mundo um tanto sinistra em filmes como "Se7en - Os Sete Pecados Capitais" (1995), "Clube da Luta"(1997) e o excepcional "Zodíaco" (2007). Apaixonou-se pelo cinema digital (Fincher é um dos principais usuários das câmeras RED) e levou a técnica ao limite em filmes como "A Rede Social" (2010), "Os homens que não amavam as mulheres" (2011) e a série "House of Cards", da Netflix. Fez até algumas bobagens pelo caminho, como "O Curioso Caso de Benjamin Button" (2008) e filmes divertidos, mas menores, como "Quarto do Pânico" (2002).

Todo este preâmbulo para voltarmos a "Garota Exemplar", do qual é difícil falar da trama (ou das múltiplas tramas) sem revelar seus segredos. Fincher subverte as convenções do thriller e entrega algo a mais, um olhar afiado sobre a sociedade do espetáculo criada pela mídia com a colaboração do público.

No dia do quinto aniversário de casamento de Nick (Ben Affleck, de "Argo") e Amy (Rosamund Pike, de "Jack Reacher - O Último Tiro"), ela desaparece em pleno ar. A polícia encontra traços de sangue pela casa e outras pistas de um suposto crime. Nick é o principal suspeito, mas ele parece tão perdido que, a princípio, a polícia pega leve com ele. Amy era muito bonita e havia sido uma escritora de sucesso; seu desaparecimento poderia ter sido causado por algumas figuras do passado, como um obcecado ex-namorado, Desi (interpretado por Neil Patrick Harris, da série "How I met you mother").


Os pais de Amy, que haviam sido da alta sociedade de Nova York, organizam uma campanha na mídia para encontrar a filha e comovem a nação. O comportamento de Nick é considerado estranho. Ele não parece tão abalado com o sumiço da esposa e não consegue interpretar o papel do "marido desesperado" em frente às câmeras. Ele está escondendo alguma coisa?

Os segredos do casal são revelados aos poucos através de uma montagem paralela que mistura cenas do presente com trechos lidos por Amy diretamente do diário dela. Ela descreve um casamento que começou de forma perfeita mas, aos poucos, foi sendo minado pela crise financeira e supostos atos violentos por parte de Nick.

Fincher e o roteiro de Flynn brincam o tempo todo com a percepção do público. Logo descobrimos que não podemos acreditar piamente nas informações apresentadas, nem mesmo nos supostos flashbacks contando a história do casal (dizem que Hitchcock sempre se arrependeu de ter usado um falso flashback em um de seus suspenses, "Pavor nos Bastidores", de 1950, mas o recurso é muito bem utilizado aqui).

"Garota Exemplar" não tem a seriedade contida de filmes anteriores de Fincher, como "Se7en", cujo roteiro, racionalmente, também não fazia muito sentido. As várias reviravoltas transformam o filme em uma série de episódios cada vez mais absurdos, que Fincher contrabalança com o aumento da sátira e até mesmo com comentários metalinguísticos dos personagens. É bem vinda a entrada de um advogado interpretado muito bem por Tyler Perry, que faz uma espécie de contraponto satírico aos fatos da trama. Todo o elenco, aliás, está muito bem (a começar por Affleck e Pike); destaques para Carrie Coon (muito parecida com Joan Cusack), que interpreta a irmã gêmea de Affleck, e Kim Dickens como a policial que é a "voz da razão" do filme.

O final, bastante irônico, pode decepcionar àqueles que esperam uma resolução tradicional. "Zodíaco" também não terminava da forma "redonda" que muitos queriam. "Garota Exemplar", com sua mistura de suspense, sensacionalismo, sexo e muito sangue, porém, é um dos melhores filmes do ano.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Tese sobre um Homicídio

"Filme argentino com Ricardo Darín" já se tornou praticamente um chavão. O competente ator de 56 anos é figura quase obrigatória no cinema de nossos vizinhos (ou, talvez, só venham para cá os filmes em que ele interpreta?). O caso é que só neste site, nos últimos anos, resenhamos "Elefante Branco", "O Segredo dos seus Olhos", "Abutres", "Um Conto Chinês", "Amorosa Soledad", "A Dançarina e o Ladrão" e "O Filho da Noiva".

Darín está de volta com o mesmo visual e praticamente o mesmo personagem que fez em "O Segredo dos seus Olhos", ou seja, um advogado que se envolve com a investigação de um crime brutal cometido contra uma moça. Ele é Roberto Bermudez, um professor de Direito Criminal que testemunha, junto com sua sala de pós-graduação, a cena de um crime: em pleno estacionamento da imponente Faculdade de Direito de Buenos Aires é encontrado o corpo de Valeria Di Natale, uma garçonete que foi violentada, estrangulada e ainda esfaqueada. Um detalhe chama a atenção de Roberto; um pingente em forma de borboleta lhe faz lembrar de uma conversa que teve com um de seus alunos, Gonzalo (Alberto Ammann), que lhe dissera que "todos os dias uma borboleta é morta sem que seja feita justiça". Em uma daquelas montagens que lembram o seriado americano "CSI", Roberto imagina a cena do assassinato e fica convencido de que o criminoso é Gonzalo. O aluno é filho de um conhecido de Roberto e há uma suspeita de que, no passado, Roberto teria tido um caso com a mãe do rapaz.

O filme, dirigido por Hernán Goldfrid, é tecnicamente competente (o trabalho sonoro é muito bem feito) e se baseia nas fórmulas clássicas do suspense. O roteiro de Patricio Vega pretende deixar uma dúvida na platéia: Roberto tem razão em suas suspeitas contra Gonzalo ou é tudo fruto da sua imaginação? Estaria Roberto agindo contra o aluno simplesmente pela arrogância do rapaz? Ou por estar obcecado com a garota morta? Suas ações se tornam ainda mais duvidosas quando ele se envolve com a irmã da vítima, Laura (Calu Rivero), a quem ele quer, ao mesmo tempo, proteger e usar para pegar o assassino. Há várias referências ao mestre do gênero, Alfred Hitchcock, como a cena em que Darín dá o pingente da morta para a irmã usar (em um plano tirado diretamente de "Um Corpo que Cai", de 1958). O último plano, então, é praticamente uma refilmagem do final de "Cidadão Kane", clássico de Orson Welles, de 1941. O final é problemático. É interessante a ideia de deixar o espectador na dúvida sobre o que aconteceu ou não, mas um thriller de suspense pede, mesmo que clichê, uma resolução, e fica a impressão que os realizadores não quiseram se comprometer. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.

sábado, 5 de novembro de 2011

A Pele que Habito

Há diversos momentos de repulsa em A Pele que Habito. Momentos em que a sensação de se estar testemunhando algo errado se faz sentir. Uma coisa de pele. Ao mesmo tempo, este é Pedro Almodóvar, com seus maravilhosos movimentos laterais de câmera, com a trilha impecável (à Bernard Hermann) de Alberto Iglesias e fotografia de José Luis Alcaine. E as mulheres de Almodóvar; neste filme, na falta de uma Penélope Cruz, há Elena Anaya, que interpreta Vera, uma misteriosa mulher que habita um quarto de uma mansão em Toledo, Espanha. Vera pratica yoga, faz esculturas, vê documentários e lê muito; veste uma roupa que, como uma segunda pele, a cobre do pescoço aos pés. Ela é prisioneira ou se mantém por vontade própria na casa de Robert (Antonio Banderas)? Ele é um cirurgião plástico que está estudando um método revolucionário de fabricar uma pele artificial, usando métodos discutíveis.

Como em vários filmes de Almodóvar, A Pele que Habito é multifacetado e flerta com o gênero do suspense; este, com toques claros de "filmes B" de terror. Banderas é o "cientista louco" que quer revolucionar a medicina estudando diretamente com seres humanos; Vera é sua cobaia. Ou será que não é assim tão simples? Aparentemente ao acaso, diversas tramas paralelas se amontoam no roteiro, e o filme, por certo tempo, parece não ter rumo. Há um filho perdido que à casa torna, vestindo uma segunda pele na forma de uma fantasia de tigre, durante o carnaval. Há flashbacks que revelam que Robert já fora casado e tinha uma filha, sendo que a duas morreram de forma trágica. A esposa foi carbonizada em um acidente de carro; a filha, após ter sido estuprada, pulou para a morte da janela da mansão de Robert. Há também uma trama envolvendo Vicente (Jan Cornet), um rapaz que vai a uma festa e, drogado, tenta transar com uma garota linda no jardim, contra a vontade dela. Ela é Norma, a filha de Robert, que planeja uma vingança contra o rapaz.

O filme é, ao mesmo tempo, fascinante e indigesto. Há certo atropelo no roteiro, que Almodóvar escreveu baseado no livro "Tarântula", do francês Thierry Jonquet, que não tem a mesma elegância genial de Má Educação, por exemplo. Há também uma tendência forte para o bizarro, e sequências improváveis, como a volta do personagem Zeca (Roberto Álamo), para visitar a mãe Maria (a ótima Marisa Paredes), empregada do Dr. Robert. Em poucos e atropelados minutos descobre-se que ele é fugitivo da lei e Almodóvar cria uma sequência de sexo das mais bizarras de seu cinema, que não é econômico em cenas do tipo. O filme se revela genial da metade para o fim, quando as histórias paralelas se encontram e formam um quadro cruel e assustador. Robert é parte Hannibal Lecter, parte Scottie Feguson (personagem que James Stewart interpretou em Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock) um homem tão obcecado com a imagem da antiga amada que tenta reconstruí-la.

O tema da sexualidade (e suas perversões) tão presentes nos filmes de Almodóvar, voltam com tudo em A Pele que Habito, mas não da forma cômica que é marca registrada do diretor espanhol. Os personagens são frios e cortantes como um bisturi. Só Vera tem alguns momentos mais passionais, como na incrível cena em que, aparentemente livre, ela entra em seu quarto e fica olhando para as paredes cobertas por inscrições, datas e desenhos feitos nos anos em que ali passou. Em cartaz no Topázio Cinemas.


PS: O trailer abaixo é muito ruim e não reflete o filme de forma adequada.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Um Homem Misterioso

George Clooney é um astro tão grande que pode se dar ao luxo de, de vez em quando, fazer um tipo de filme diferente. "Um Homem Misterioso" ("The American", no título original) começa com três mortes em menos de cinco minutos; uma delas é bastante surpreendente. Clooney é Jack, um americano que escapa de uma tentativa de assassinato na Suécia e foge para Roma, Itália. Lá ele liga para um homem chamado Pavel (Johan Leysen), que lhe dá as chaves de um carro e o manda para um pequeno vilarejo nas montanhas. Precavido (ou paranóico?) Jack se instala no vilarejo vizinho ao ordenado, e espera. Espera pelo que? Não sabemos. Jack passa seus dias fingindo ser um fotógrafo e tentando não chamar a atenção, mas não é bem sucedido. O padre local, Benedetto (Paolo Bonacelli) percebe que Jack é um homem em conflito, uma bomba relógio a ponto de estourar.

É então que Jack conhece Mathilde (Thekla Reuten), que tem uma encomenda para ele: uma arma. Com infinita paciência e atenção aos detalhes, é na fabricação de tal arma que Jack se revela um artista. Com equipe toda européia e dirigido pelo holandês Anton Corbijn (de "Control" e vários videoclips de bandas como U2), "Um Homem Misterioso" é um thriller despreocupado em criar cenas de ação desnecessárias. O filme é bastante lento e marcado por poucos diálogos. A rididez espartana de Jack se dissolve quando está fabricando a arma, lendo sobre borboletas ou quando está com Clara (Violante Placido), uma prostituta com quem fica envolvido. Há uma homenagem a Sergio Leone em uma cena em que "Era uma vez no Oeste" (1968) está passando na televisão, e a referência não é em vão. Há algo do diretor italiano nos longos planos abertos e no silêncio do personagem principal. É até possível imaginar Clint Eastwood fazendo o papel de Jack uns anos atrás. Clooney está muito bem em um papel atípico; Jack é um homem que pouco fala e muito menos sorri.

É na relação com as mulheres que está seu lado mais humano e, nesta profissão, o mais perigoso. Ao mesmo tempo em que percebe que está apaixonado por Clara, sente-se ameaçado pela frieza calculista da assassina Mathilde e vê possíveis ameaças em todo lugar. A relação com a prostituta também revela algo sobre ele mesmo, alguém pago para fazer algo eticamente imoral. Haverá saída para eles? Ou, como lhe diz o Padre Benedetto, a saída está no amor? Jack, com certa razão, acha que talvez seja tarde demais.


domingo, 26 de dezembro de 2010

72 Horas

"72 Horas" carece de foco. É um filme indeciso entre ser um thriller clássico de fugitivo, um drama familiar ou, ainda, a saga particular de um marido obcecado pela inocência da esposa. O marido, no caso, é Russell Crowe, carismático e competente como de costume e carregando o filme nas costas. Sua esposa Lara (Elisabeth Banks) foi condenada pelo assassinato da própria chefe e enviada para uma prisão municipal em Pittsburgh.

As "72 horas" do título, na verdade, demoram a começar. O drama se estende por mais de três anos, desde a prisão de Lara, e foca na vida do professor universitário John Brennan (Crowe) e seu filho pequeno Luke. Escrito e dirigido por Paul Haggis, o roteiro não tem pressa. Haggis foi para o time "A" dos roteiristas/diretores de Hollywood após ganhar o Oscar por dois anos seguidos, o primeiro pelo roteiro de "Menina de Ouro", de Clint Eastwood, e depois os prêmios de roteiro e direção por "Crash", filmes com duração longa. O cacife de Haggis é tão alto que, para "72 Horas", ele pode se dar ao luxo de ter coadjuvantes como Lian Neeson, que só aparece por alguns minutos, e Brian Dennehy, que interpreta o pai de Crowe e diz no máximo cinco frases.

John Brennan fica obcecado com a idéia de, esgotadas todas as opções legais, tirar a esposa da prisão por outro meio. Lian Neeson, um criminoso que escapou sete vezes da prisão, lhe passa as informações necessárias para que ele bole um plano que requer a obtenção de documentos falsos, ter um meio de sair do país e, claro, conseguir tirar a mulher da penitenciária sem ser preso ou morto. A interpretação sincera de Crowe e o passo lento do roteiro até conseguem, por vezes, dar verossimilhança a esta premissa absurda. Interessante como Haggis mostra que é teoricamente possível, pesquisando vídeos e tutoriais na internet, aprender desde como se abre uma fechadura até arrombar um carro. O problema é que o roteiro vai se tornando cada vez mais absurdo e, quando o espectador imagina que o filme está para acabar, é como se outro se iniciasse, a partir da fuga de Lara da prisão. Só então "72 Horas" passa a ter aquele ritmo e trama esperados de um filme no estilo de "O Fugitivo", com o agravante que não é só uma pessoa tentando escapar da polícia, mas um homem, uma mulher e uma criança de seis anos.

Para quem gosta de boas interpretações e um ritmo de um cinema mais "clássico", "72 Horas" tem seus pontos de interesse. Mas a trama é cheia de furos e, acabada a sessão, o filme não se sustenta até o final dos créditos.


terça-feira, 29 de julho de 2008

Não Conte à Ninguém

"Não conte à ninguém" é um bom thriller francês dirigido por Guillaume Canet. Alex Beck (François Cluzet) é um pediatra que vai passear com a esposa, Margot (Marie-Josée Croze), em um lago. Em um momento em que estão separados, Alex escuta um grito da mulher, é atacado e perde a consciência, caindo na água. Oito anos depois, Alex ainda sente falta da esposa, que foi encontrada morta e desfigurada. Ela teria sido vítima de um serial killer que matou várias mulheres na mesma época. Mas a polícia tem suas dúvidas, e desconfia que foi Alex quem a matou. Ele fora encontrado desacordado fora do lago, e não se sabe quem o tirou da água, por exemplo. Agora, oito anos depois, dois corpos foram encontrados perto do lago e há indícios que podem implicar o pediatra.


A trama é complicada e bem escrita. Alex começa a receber e-mails com vídeos em que uma mulher misteriosa é vista de longe. A mulher é muito parecida com Margot, sua esposa. Estaria ela viva? Em caso positivo, como isso seria possível? E quanto ao corpo encontrado dilacerado na floresta? Por que ela estaria escondida este tempo todo? François Cluzet faz um bom trabalho como o amargurado Dr. Alex. Ele nunca mais se envolveu com ninguém depois da suposta morte da esposa e culpa a polícia por ter desconfiado dele. Todos os anos ele ainda visita os pais de Margot para relembrar a morte dela, mas parentes e amigos, como sua irmã e a esposa homossexual dela, Helene (interpretada por Kristin Scott-Thomas, de "O Paciente Inglês", que não tenho visto nas telas), acham que ele deveria virar a página. O problema é que a polícia está cada vez mais desconfiada e um novo crime acaba por incriminá-lo novamente. Alex é avisado por sua advogada e foge da polícia com um plano inteligente por parte do roteiro.

É necessária atenção para acompanhar o filme. Há uma série de tramas aparentemente desconexas que, aos poucos, vão se interligando e, ao contrário do que acontece em muitos filmes do gênero, a trama realmente faz sentido quando todas as peças do quebra-cabeças se juntam. Senti ecos de "Um Corpo que Cai", de Alfred Hitchcock, no fato da esposa (que começa o filme loira), aparentemente voltar dos mortos morena no desenrolar da trama. Boa pedida para ver em DVD.