Holy Spider (2022). Dir: Ali Abbasi. Netflix. Filme bastante pesado baseado na história real de um assassino em série que, entre 2000 e 2001, matou dezesseis prostitutas na cidade de Mashad, no Irã. O assassino não se considerava um criminoso, mas sim alguém que estava "limpando a cidade do pecado". Uma jornalista de Teerã, Arezoo Rahimi (Zar Amir Ebrahimi), vai até Mashad investigar as mortes e se depara com uma polícia inerte e um jornalismo amador.
A moça também tem que enfrentar o machismo da cultura local; quando chega em um hotel, sozinha, o gerente lhe diz que houve um erro na reserva dela e que ela deve ir embora. Quando ela revela ser jornalista, o "erro" desaparece e acabam dando um quarto a ela. O filme não tenta fazer suspense sobre quem é o assassino. Ele é mostrado logo no início, um pedreiro comum, com esposa, duas filhas e um filho, Saeed Azimi (Mehdi Bajestani) é ex-combatente na guerra Irã-Iraque e religioso fanático. Ele pega as prostitutas de moto, à noite, e as leva para seu apartamento. As cenas em que ele as estrangula são bem fortes e violentas.
Além de ser um thriller de suspense, o filme também é um retrato de uma sociedade machista/religiosa. Quanto mais mulheres Saeed mata, mais apoio ele tem da população em geral, que acha que ele está fazendo um bem para a sociedade. A mãe de uma das vítimas diz à jornalista que a polícia não tem interesse em prendê-lo pois ele está limpando a cidade para eles. Ebrahimi, que faz a jornalista, ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes e recebeu centenas de ameaças de seu país de origem. O filme foi feito fora do Irã (filmado na Jordânia) e foi condenado pelo governo.
"Holy Spider" é pesado e difícil de assistir, mas poderoso. Tá na Netflix
Força Maior (Force Majeure, 2014). Dir: Ruben Östlund. Amazon Prime. Comédia dramática desconfortável de se assistir, "Força Maior" é um estudo que trata principalmente da fragilidade masculina (embora também trate da fragilidade dos relacionamentos e da autoridade materna/paterna). Um casal sueco vai passar as férias em uma estação de esqui no Alpes Suíços. Eles levam junto os filhos (uma menina com uns 13 anos e um garoto de uns seis anos), para passar um "tempo em família". Eles parecem a família perfeita, sorrindo para fotos no topo da montanha. No segundo dia de férias, porém, eles estão em um restaurante na montanha e testemunham uma avalanche. O que começa como um belo espetáculo da natureza, no entanto, se transforma rapidamente em uma ameaça. A avalanche se aproxima rapidamente do restaurante onde a família está e parece que todos serão engolidos. As crianças gritam desesperadas e a mãe as abraça. O pai, assustado, sai correndo. Tudo acontece muito rápido mas, ao contrários das aparências, não havia perigo; a avalanche para e eles são apenas cobertos pelo vapor do gelo.
Apesar de tudo terminar "bem", o evento paira desconfortavelmente sobre a família. O pai teria realmente abandonado esposa e filhos e corrido para se salvar? É assim que a esposa, Ebba (Lisa Loven Kongsli) interpreta a situação; já o marido, Tomas (Johannes Kuhnke) não lembra desta forma. As férias continuam mas ninguém mais está se divertindo. O roteiro (do diretor) é muito bom em criar cenas desconfortáveis; o hotel é de luxo e as paisagens são deslumbrantes, mas o clima entre o casal se torna mais frio do que as pistas de esqui. Há um ótimo uso do som (e imagem) das explosões controladas que a estação de esqui faz para soltar a neve das montanhas. Vemos os clarões, à noite, enquanto o casal conversa sobre o ocorrido, e parece que estamos vendo uma cena de guerra. Há muitos sussurros e idas ao corredor do hotel para discussões do casal ("por causa das crianças"), mas o diretor faz questão de mostrar que as crianças sabem que o casamento vai mal e sofrem com isso.
É dramático mas, ao mesmo tempo, curiosamente engraçado. O modo como o marido se recusa a admitir o que fez revela sua fragilidade. A mulher, por outro lado, parece usar a situação para por o casamento em cheque (ela fica muito curiosa sobre a história de uma amiga casada que deixa marido e filhos em casa e sai em férias de vez em quando, acompanhada por outros homens). É um filme bem europeu, muito bem fotografado por Fredrik Wenzel. A última parte se alonga um pouco, com vários "falsos finais". Soube que cometeram uma versão americana com Will Ferrell (imagino que mataram toda a sutileza deste enredo). Disponível na Amazon Prime.
Em "AQUARIUS" Kleber Mendonça Filho trás de volta temas já explorados em seu ótimo filme de estreia, "O Som ao Redor", que era uma curiosa observação sobre o cotidiano de uma vizinhança do Recife, Pernambuco. É como se naquela mesma paisagem morasse uma jornalista e escritora aposentada chamada Clara (Sônia Braga, em grande sacada de Mendonça na escolha do elenco); ela tem 65 anos e mora sozinha em um prédio de dois andares chamado "Edifício Aquarius". Todos os apartamentos foram comprados por uma construtora que, quase que diariamente, assedia Clara para que ela também deixe o prédio. Em troca, eles oferecem uma compensação financeira acima da média do mercado.
Mas Clara não está interessada no dinheiro. Até porque ela o tem (e, aparentemente, muito; ela declara em uma cena que tem 5 apartamentos e várias outras fontes de renda). O apartamento no Edifício Aquarius é, ao mesmo tempo, o refúgio e a cápsula do tempo de Clara, que mora ali há décadas, criou os filhos, escreveu seus livros e enterrou o marido. Ela agora vive cercada por centenas e centenas de discos de vinil, livros, fotos (em papel) e móveis. Uma empregada "da família" é, ao mesmo tempo, cozinheira, babá dos netos de Clara e confidente. Os filhos grandes procuram não se envolver, a não ser Ana Paula (Maeve Jinkings), que é claramente a favor de que a mãe deixe o prédio. Ela inclusive entrou em contato com a construtora e andou conversando pelas costas da mãe (senti uma referência sutil a "O Poderoso Chefão" na cena em que Clara diz a Ana Paula que ela não deve negociar pelas costas dela). O filme é envolvente, embora extremamente lento. É necessário se adaptar ao ritmo da vida de aposentada de Clara, que passa os dias a escutar discos, ir à praia e visitar amigas e parentes. A intromissão da construtora afeta esta vida cuidadosamente controlada e revela uma Clara diferente da impressão calma que passa.
Com duas horas e vinte e dois minutos, há momentos que poderiam ter sido descartados na edição, como um prólogo passado na década de 1980, por exemplo, que não é tão relevante (a não ser fazer parte da viagem saudosista do roteiro e estabelecer que Clara havia tido um câncer, mas isto fica bem claro em outras partes do filme). Há cenas de sexo bastante explícitas que inclusive levaram, inicialmente, a uma classificação indicativa de 18 anos (baixada para 16 depois da pressão pública). Às vezes a tensão causada pela pressão da construtora acaba se perdendo em cenas um tanto repetitivas de Clara escutando discos ou em mais uma reunião de família. Neste ponto, achei que "O Som ao Redor" foi um trabalho melhor finalizado. Mas é um filme que cresce no espectador. Sônia Braga, estrela internacional que se encontrava praticamente aposentada, ganha nova vida com este filme e ela realmente está muito bem.
Ali (Matthias Schoenaerts) é um bruto; ele é alto e forte como um touro. Quanto tem fome, ele se alimenta. Quando quer sexo, transa com a professora da academia, ou com a babá do filho de cinco anos, Sam. Imigrante belga, chega à França com o garoto e a roupa do corpo, indo morar com uma irmã que não via há cinco anos, Anna (Corinne Masiero). Ela lhe consegue um emprego como segurança em uma casa noturna, e é lá que Ali conhece Stéphanie (Marion Cotillard, de "Piaf, um hino ao amor"). Na primeira cena em que a vemos, ela está com o nariz sangrando, resultado de uma briga, provavelmente com um homem que avançou o sinal. Ali a leva para casa e lhe deixa seu telefone.
Stéphanie, de aparência frágil e olhar triste, está acostumada a lidar com grandes animais. Ela trabalha como adestradora de baleias Orca em um show aquático. Durante uma apresentação acontece um acidente grave, e Stéphanie é quase esmagada por uma baleia. Quando acorda no hospital, horas mais tarde, ela descobre que perdeu as duas pernas, abaixo do joelho. Meses depois, deprimida e morando sozinha em um apartamento de frente para o mar, ela liga para Ali. Começa assim um relacionamento difícil de definir.
Georges não se recorda do nome do filme, mas lembra que ficou muito emocionado enquanto o assistia. Mais do que isso; ao encontrar um colega, na volta para casa, não pôde conter as lágrimas ao lhe narrar a história. "Por que você nunca me contou isso?", pergunta a esposa de Georges, Anne, que acabou de sofrer um derrame e está com o lado direito do corpo paralisado. Cenas como esta, de um casal ainda surpreendendo um ao outro mesmo depois de décadas de intimidade, é que fazem de "Amor", o novo filme do austríaco Michael Haneke, mais do que uma história sobre velhice e doença. Georges e Anne são interpretados por duas lendas do cinema francês, Jean-Louis Trintignant (de "Um homem e uma mulher") e Emmanuelle Riva (de "Hiroshima, moun amour") , e "Amor" venceu o último Festival de Cannes. É uma pequena obra-prima. É também, surpreendentemente, um filme muito sensível e mesmo "gentil" quando comparado à obras anteriores de Haneke, um mestre da frieza, como "Caché" e "A Fita Branca".
Não que "Amor" seja um filme fácil. A lenta desintegração física e mental pela qual passa Anne no desenrolar da trama é tão desoladora quanto inevitável. Haneke filma em planos longos, quase teatrais. Há uma conversa entre Georges e a filha Eva (a sempre competente Isabelle Huppert, de "Minha Terra, África" e "Copacabana") em que a câmera fica em um canto da sala, imóvel, por minutos a fio enquanto pai e filha falam sobre a família. Eva é casada com um músico inglês que tem casos com outras mulheres; os filhos estão em internatos ou não falam com os pais. É um contraste grande com o Amor (com letra maiúscula) que existe entre Georges e Anne. Haneke os filma com carinho lidando, a princípio com um choque disfarçado, com os primeiros sinais da doença. Anne, apesar de precisar de muitos cuidados, é uma mulher inteligente e muito consciente dos esforços do marido em tratar dela. Ela o faz prometer que nunca vai levá-la a um hospital ou casa de repouso e, no início, o casal parece ter a situação sob controle. É então que Anne sofre um segundo derrame e fica naquele estado semi vegetativo em que não se sabe se a pessoa está consciente ou não, e é um tormento tanto para Georges quanto para o espectador testemunhar a mudança na mulher. Há uma cena extremamente corajosa de Riva em que ela (que tem 85 anos) é vista nua enquanto uma enfermeira lhe dá banho, e a atriz se entrega totalmente ao papel; não por acaso, ela foi indicada ao Oscar de melhor atriz. Jean-Louis Trintignant também oferece uma interpretação sincera e emocionante como o marido devotado que sofre dia e noite para cuidar da esposa e lidar com as cobranças da filha.
Em uma época de relacionamentos rasos e com os índices de divórcio atingindo novos recordes, a relação mostrada em "Amor" pode parecer tanto uma benção quanto um tormento. O filme fala sobre o que todo mundo já sabe, ninguém consegue fugir da morte. O difícil é saber lidar com isto de forma digna e corajosa.
ps: falando em Oscar, "Amor" surpreendeu ao ser indicado em cinco categorias: Melhor Filme Estrangeiro (o virtual vencedor), Melhor Diretor (Michael Haneke, que pode tirar de Steven Spielberg seu terceiro prêmio), Melhor Roteiro (também de Haneke), Melhor Atriz (a já citada Emmanuelle Riva) e Melhor Filme de 2012.
"Meu pai me tocou no bumbum", diz a menina à policial. Um pai conta que dá banho na filha e, sim, a lava nas partes íntimas. Uma mãe diz que o filho dorme melhor quando ela o masturba à noite. Estas declarações, e outras mais chocantes, são ouvidas durante "Políssia" (forma propositalmente errada de grafar a palavra "Polícia"), filme escrito, dirigido e interpretado por Maïwenn Le Besco (que assina apenas "Maïwenn"). O filme mostra, quase como em um documentário, o cotidiano de uma equipe da Brigada de Proteção aos Menores de Paris. É trabalho destes policiais (além de psicólogos e assistentes sociais) investigar casos como os vistos acima e tentar descobrir quais deles são evidência de abuso sexual, pedofilia, estupro ou violência relacionada a menores. Não é tarefa fácil, e mais difícil ainda é manter uma vida pessoal diante do estresse relacionado à profissão.
Maïwenn dirige um elenco numeroso com competência, embora por vezes fique difícil entender os relacionamentos entre os personagens. Há Íris (Marina Foïs), uma mulher fria que esconde dos colegas que sobre de bulimia e está sempre interferindo na vida da colega Nadine (Karine Viard), que está se separando do marido. Baloo (Frédérick Pierrot) é o chefe de equipe que não consegue enfrentar os burocratas e, por isso, causa atrito com os subordinados. Fred (o rapper Joeystarr) vive com os nervos à flor da pele e não é capaz de manter distância emocional dos casos. Há uma cena impressionante em que um garoto é separado da mãe,o menino se põe a chorar desesperadamente e Fred tenta acalmá-lo. A dor do menino é tão convincente que é de se imaginar como a cena foi filmada. A própria Maïwenn interpreta uma fotógrafa chamada Melissa, e a presença da diretora no filme é questionável. Metade da trama ela passa muda, de cabelos presos e óculos, parecendo completamente perdida enquanto fotografa os policiais em ação. É possível que a personagem seja assim de propósito, mas o problema é que a presença dela é totalmente desnecessária. Ela então passa por uma transformação rápida, e pouco convincente, quando Fred se interessa por ela. De cabelos soltos, olhos claros e beleza de modelo, a personagem Melissa ganha importância na trama, mas ainda dá a impressão de habitar um filme diferente dos outros personagens.
O roteiro também trata dos problemas raciais e de imigração que são constantes na França. Há uma cena em que um suspeito desrespeita uma policial muçulmana, que tira o Alcorão do armário e lhe passa um sermão sobre o que é ser um bom muçulmano. As relações de abuso de poder entre os gêneros, seja de homem contra mulher ou, nos dias de hoje, mulher contra homem, também são mostradas. O filme soa realista e tem diálogos e cenas bastante fortes (como um aborto feito por uma garota que havia sido estuprada). Só que se alonga demais, com duas horas e quinze minutos de duração. "Políssia" faz parte do "Festival Varilux de Cinema Francês 2012", que está em cartaz em 33 cidades do país e traz 17 filmes inéditos. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.
"O Porto" é uma pequena obra-prima. Dirigido pelo finlandês Aki Kaurismäki, o filme brinca com clichês, subverte gêneros e é de uma aparente simplicidade que engana. Na cidade francesa de Le Havre, Marcel Marx (André Wilms) é um velho engraxate que, apesar de pobre, leva uma vida regrada. Após passar o dia à procura de clientes (sempre de olho no que os transeuntes estão calçando, a maioria tênis) ele volta para casa à noite, onde sua esposa Arletty (Kati Outinen) o aguarda com o jantar. Os dois têm aquele tipo de casamento que dura décadas, e um observador incauto imaginaria que são infelizes. Uma noite Marcel chega em casa e a esposa está tendo uma crise. No hospital ela implora ao médico que não conte ao marido que não há esperanças. "Ele é como uma criança", diz ela.
Marcel também não é o que parece. A figura ranzinza esconde uma alma boa que se revela com a doença da esposa e com um fato inusitado; uma família de imigrantes ilegais africanos é encontrada dentro de um conteiner no porto (em uma bela cena orquestrada por Kaurismäki), e um garoto chamado Idrissa (Blondin Miguel) consegue escapar da polícia. Ele é encontrado por Marcel, que o coloca sob sua proteção. O filme vê com olhar carinhoso a vizinhança em que Marcel mora, com o vendedor de frutas e verduras, a padeira, a dona de um bar. No início do filme, todos fugiam de Marcel pois ele não tem dinheiro para pagá-los. Com a mulher dele no hospital e o aparecimento do imigrante, todos passam a ajudá-lo com abrigo e comida, ou para despistar a polícia. O lendário ator francês Jean-Pierre Léaud, que trabalhou com Truffaut e Jean-Luc Goddard, faz uma aparição especial como um vizinho que tenta informar a polícia do paradeiro do garoto. Destaque também para a figura do Comissário de Polícia, o policial Monet (Jean-Pierre Darroussin). Enquanto a mídia, em uma ironia do roteiro, faz ligações entre o imigrante africano e a rede terrorista Al-Qaeda e o prefeito pressiona a polícia para encontrar o garoto, o policial Monet mantém os olhos abertos e vigia Marcel de perto, mas tem planos próprios sobre o que fazer com o garoto.
"O Porto" é uma comédia inteligente e comedida. A trama aparentemente simples carrega várias pistas da situação caótica em que se encontra a Europa, com problemas políticos e econômicos. A imigração ilegal tem sido tema de vários filmes ultimamente, mas neste ela é tratada de uma forma ao mesmo tempo direta (todos se unem para tentar enviar o garoto a Londres, seu destino original) e carinhosa. Interessante também a história de amor entre Marcel e a esposa Arletty. Sim, eles são de outra época, em que o marido trabalhava fora e a mulher ficava em casa, mas com que sensibilidade o diretor/roteirista mostra a relação dos dois. A cena final é pura poesia. "O Porto" ganhou o prêmio da crítica no Festival de Cannes, em 2011. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.
Há um profundo sentimento de "carência" nos filmes destes dois irmãos belgas, Jean-Pierre e Luc Dardenne. Seu filme mais recente, "O Garoto da Bicicleta" (em cartaz) trata da história de um garoto que é abandonado pelo pai em um orfanato. O garoto procura pelo pai e é auxiliado por uma bela cabeleireira (Cécile de France). O pai, encontrado, diz que não quer ficar com o filho. Da mãe nem se fica sabendo. Um filme frio? Na verdade não.
É mais uma bela obra dos belgas que começaram no cinema como documentaristas. Este texto trata de "Rosetta" (1999), vencedor da Palma de Ouro em Cannes e de "O Filho" (2002), filme seguinte de Luc e Jean-Pierre.
Em ambos percebe-se o sentimento de que falta alguma coisa. Isso se traduz esteticamente na forma como os diretores acompanham seus personagens. Tanto a jovem Rosetta (Émilie Daquenne) quando o carpinteiro Olivier (Olivier Gourmet) são acompanhados de forma claustrofófica pela câmera o tempo todo. É como se os diretores estivessem tentando traduzir o quanto o mundo interior destes personagens é reprimido e como lhes é difícil socializar com as outras pessoas. "Rosetta" acompanha a história de uma jovem que mora com a mãe alcoólatra em um trailer. O filme começa com a garota sendo demitida, aos berros, da firma em que trabalhava. A reação de Rosetta não é só a de quem está perdendo um emprego; sim, ela precisa do dinheiro, mas o problema é outro. Rosetta sonha com uma "vida normal", que ela imagina conseguir estando empregada. Os irmãos Dardenne, usando da experiência como documentaristas, constroem uma série de "rituais" que a garota executa todos os dias para tentar manter uma rotina. Nos fundos do acampamento em que o trailer está estacionado, Rosetta pula o alambrado e, com uma armadilha artesanal, pesca peixes em um riacho; aparentemente, eles são para comer. Ela também percorre lojas de roupa tentando vender peças usadas. E está sempre à procura de um emprego. Ela faz amizade com um rapaz que vende "waffles" em uma banca, e o chefe dele (Olivier Gourmet, o mesmo ator de "O Filho") , a contrata por alguns dias (para, depois, dispensá-la novamente). A amizade com o rapaz da banca é confusa. Ele está interessado nela, mas Rosetta parece incapaz de corresponder. Há uma cena perturbadora em que o rapaz cai em um riacho e fica gritando por socorro por um longo tempo; Rosetta finalmente o salva, mas suas ações estão longe do que se espera da protagonista de um filme tradicional. Até que ponto ela está disposta a arrumar um emprego? O que ela faz com o rapaz no decorrer do filme é necessidade financeira ou um grito de socorro?
"O Filho" (2002)
Em "O Filho" acompanha-se os passos do carpinteiro Olivier, um homem metódico que trabalha em uma oficina do governo para a reabilitação de jovens. Um dia Olivier recebe um novo aprendiz, um jovem chamado Francis (Morgan Marinne), que acabara de passar cinco anos preso por um roubo de carro que causou a morte de uma criança. Fica claro que Olivier tem algum interesse no rapaz, mas o espectador não sabe qual é. Os diretores apenas o mostra seguindo o rapaz à distância, descobrindo onde ele mora e inspecionando seu apartamento. Também se descobre que Olivier está separado da esposa, que vem lhe dizer que está grávida de um novo relacionamento. O trabalho de Olivier na marcenaria é tão detalhado que, novamente, tem-se a impressão de se estar assistindo a um documentário. Aos poucos, através de pequenos detalhes e frases trocadas por Olivier e a ex-mulher, descobre-se que o casal havia perdido um filho de forma violenta e que Francis, o aprendiz, havia cometido o crime aos 11 anos de idade. Os irmãos Dardenne são mestres em quebrar as espectativas do espectador; em um filme tradicional, o que se poderia esperar do encontro entre um pai e o assassino do filho? O ator Olivier Gourmet faz um trabalho excepcional. É notável o modo como ele consegue mostrar a raiva reprimida do carpinteiro que perdeu o filho e o casamento de forma violenta, e agora trababalha na recuperação de jovens. A sequência final é passada em um lugar distante em que estão apenas os dois personagens; o que vai acontecer? Seria este um filme de vingança tradicional, em que o pai resgata a "honra" do filho com outro ato de violência? Os irmãos Dardenne mostram que, na vida e no cinema, pode haver outros caminhos.
Palma de Ouro: (Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives) directed by Apichatpong WEERASETHAKUL Grand Prix: DES HOMMES ET DES DIEUX (OF GODS AND MEN), de Xavier Deaubois Ator: Javier Bardem, por Biutiful. Atriz: Juliette Binoche Roteiro: Poetry Prêmio do Júri: Un Homme qui Crie Curta: Micky Bader e Chienne D'Histoire.
A figura mítica de Robin Hood já foi mostrada no cinema em diversos filmes. Já no cinema mudo, em 1922, Douglas Fairbanks encarnou o "príncipe dos ladrões", imortalizado depois por Errol Flynn em filme de 1938. Uma das versões mais modernas trazia Kevin Costner no papel, em 1991, sem se preocupar com o sotaque americano. Até "007", Sean Connery, viveu um Robin Hood de meia idade, contracenando com Audrey Hepburn como Lady Marion, em filme dirigido por Richard Lester em 1976.
Agora é a vez da dupla formada pelo diretor Ridley Scott e o ator Russell Crowe (que juntos fizeram "Gladiador", "Um Bom Ano", "O Gângster" e "Rede de Mentiras") de darem sua visão da história. Robin Hood é uma lenda com várias versões. Algumas o mostram como um valente cruzado que lutou ao lado do rei Ricardo Coração de Leão e se tornou protetor dos pobres na Inglaterra. Outras o colocam como simples fora-da-lei que se refugiava na floresta de Sherwood, era bom com o arco e flecha e era apaixonado por Lady Marian. Crowe e Scott tentaram criar uma versão diferente para a lenda, mais realista e mostrando o que teria acontecido antes de Robin ser considerado um fora-da-lei. A intenção pode ter sido boa, mas falta foco ao produto final.
Nesta versão, Russell Crowe é Robin Longstride, um arqueiro do exército de Ricardo Coração de Leão (Danny Huston), um decadente rei da Inglaterra no caminho de volta das Cruzadas, após dez anos de campanha. O exército inglês se encontra na França e eles saqueiam tudo que encontram pela frente. As cruzadas (mostradas pelo próprio Ridley Scott em outro filme) são criticadas em um discurso de Crowe, que descreve como os ingleses massacraram mais de duas mil mulheres e crianças muçulmanas em uma cidade. Ricardo Coração de Leão morre de forma estúpida, atingido pela flecha de um cozinheiro francês, e sua coroa deve ser levada para a Inglaterra pelo cavaleiro Robert Loxley. Só que ele morre em uma emboscada de um traidor inglês, Godfrey (Mark Strong, de "Sherlock Holmes") e, por um golpe do destino, a coroa inglesa vai parar nas mãos de Robin Longstride, que assume a identidade de Robert Loxley e parte para a Inglaterra. Lá ele conhece Lady Marian (Cate Blanchett), esposa do verdadeiro Loxley, e Sir Walter Loxley (Max von Sidow), o pai dele.
Robin acaba tomando o lugar de Robert Loxley no coração de Marian e como filho substituto de Sir Walter, mas a situação nunca convence. E, a bem da verdade, será que tudo isso importa? Os personagens "tradicionais" das lendas de Robin Hood estão ali, como João Pequeno (Kevin Durand), o gordo Frei Tuck (Mark Addy), o Sherife de Nottinghan (Matthew MacFadyen) e o Príncipe João (Oscar Isaac), mas a trama, ao invés de focar no herói Robin Hood, envereda por intrigas políticas, longas discussões na corte inglesa e francesa e em um contexto "social" que tenta discutir a opressão da monarquia sobre o povo comum. Tudo muito "nobre", mas será que isso deveria ser o foco principal em um filme sobre Robin Hood?
Ridley Scott, é fato, é um artista, e fotografia, figurino, direção de arte e cenários (que parecem realmente estar lá, ao invés de serem criados em computação gráfica) são impecáveis. Mas roteiro e edição, estranhamente, cometem falhas flagrantes. Há uma gigantesca cena de batalha entre ingleses e franceses que mostra Robin no topo dos penhascos da Inglaterra e, praticamente ao mesmo tempo, cavalgando contra os franceses na praia, lá embaixo. Igualmente confusa é uma sequência em que o vilão Godfrey ataca a propriedade de Lady Marian.
Longo, com quase duas horas e meia de duração, o filme acaba deixando a platéia inquieta pelo passo lento e pelas opções do roteiro. A idéia de dar outra versão à história de Robin Hood pode ter sido boa, mas a execução, infelizmente, fica devendo.
“No meu lugar” marca a estréia de Eduardo Valente (curtametragista premiado em Cannes) na direção de longas metragens. O filme foi exibido no II Festival Paulínia de Cinema na segunda feira, 13 de julho, com recepção mista. Não é um filme fácil, com ritmo lento e estrutura não linear, o que confundiu parte do público.
Uma casa no Rio de Janeiro é o ponto em comum de três histórias interligadas por um crime. O policial Zé Maria (Márcio Vito, muito bem) está sob investigação após um tiroteio em que um homem é morto. Zé Maria é pai de Janaina (Nívea Magno), uma adolescente que não vê com bons olhos a degradação física e psicológica dele. O tiroteio aconteceu na casa de Elisa (Dedina Bernardelli), esposa do homem morto. Ela volta à casa um tempo após a morte do marido, com os filhos e um novo companheiro, Fernando (Licurgo Spinola). A casa está toda empoeirada e ainda apresenta marcas de tiros nas paredes. Elisa e família vieram de Curitiba, onde estão morando agora, para empacotar as coisas e vender a casa. Também acompanhamos a história de Sandra (Luciana Bezerra) e Beto (Raphael Sil). Ela é empregada na casa de Elisa e ele é o entregador do supermercado, e mora na favela. Os dois são namorados e, conforme a paixão aumenta, também aumenta a sensação de impotência diante da pobreza e dos problemas da vida no Rio de Janeiro.
Há um “truque” temporal na montagem que nunca é expresso abertamente, o que gerou certa confusão em parte da platéia. Não é nada exatamente novo, já visto em filmes fragmentados como “Crash”, “21 Gramas” e “Babel” e é uma faca de dois gumes neste filme. A estrutura em quebra-cabeças é interessante, fazendo com que o espectador tenha que prestar atenção para entender como o filme “funciona”. Por outro lado, assim que o “truque” se torna claro (cada trama está sendo vivida em uma época diferente), parte do interesse se perde. O ritmo é tão lento que acaba gerando desconforto em alguns momentos. Há planos que, mesmo após a ação ter sido terminada, continuam por mais alguns segundos na tela sem necessidade aparente. Fica a sensação de que algo está para acontecer, mas não acontece. O elenco é muito bom, mas o clima pesado cria um distanciamento entre os personagens. É tudo muito frio, melancólico, escuro. E o que dizer da relação entre o policial Zé Maria e Janaina, sua filha? Quando os vemos pela primeira vez, na escuridão de uma casa iluminada à luz de velas, temos a nítida impressão de estarmos vendo marido e mulher. E isso se repete por várias cenas até que, de repente, a moça começa a tratar Zé Maria como “pai”. A confusão só aumenta após uma cena em que vemos os dois acordando juntos, de manhã, dividindo a mesma cama de casal. Esta confusão é proposital ou um “erro” do filme? Escutei várias pessoas no cinema expressando a mesma sensação.
O filme é tecnicamente bem feito, com produção da Videofilmes, de Walter e João Moreira Salles. O final também não é do tipo “hollywoodiano”, em que tudo se explicaria de forma clara, o que não deixa de ser um anticlímax. A situação sugerida, mas não mostrada, no início do filme, é vista agora do lado dentro da casa. Fica certa frustração pela decisão de não mostrar o que aconteceu de forma clara novamente. Um filme denso e bem feito em que falta, talvez, um pouco mais de emoção.
Quando ficamos sabendo, em "Notorious", de Alfred Hitchcock, que Ingrid Bergman terá que se passar por esposa de Claude Rains para espioná-lo, intelectualmente sabemos que ela vai ter que dormir com ele. Mas em um filme de 1946, isto é apenas um detalhe que, na verdade, não podia ser mostrado de fato.
Em um filme de 2007 de Ang Lee, o cinema e a sociedade mudaram o suficiente para que este "detalhe" não seja apenas insinuado. Homens e mulheres se relacionam sexualmente na vida real e, nos dias de hoje, também no cinema. O ato, e suas consequências físicas e psicológicas, mudam quando vemos com nossos próprios olhos. Assim, o sexo em "Desejo e Perigo" está no limite do explícito. Na prática, é bem possível que os atores Tony Leung e Tang Wei, assim como seus personagens, também levaram o ato até o fim.
Isso posto, "Desejo e Perigo" ("Lust, Caution", no original, que descreve perfeitamente o enredo) é muito mais do que sexo. Ang Lee, depois de ganhar o Oscar nos EUA por "O Segredo de Brokeback Mountain", está de volta à China para fazer um dos melhores filmes sobre espionagem, guerra e relacionamentos dos últimos anos. Ele é impecável na recriação da China ocupada pelos japoneses antes e durante a II Guerra Mundial, nos figurinos, na bela direção de fotografia de Rodrigo Pietro e na música de Alexandre Desplat.
O enredo trata da jovem estudante Wong Chia Chi (Tang Wei) que, ao entrar para um grupo de teatro, também se envolve com o movimento contra a ocupação japonesa. Seus colegas de teatro estão dispostos a matar um colaboracionista chinês chamado Yee (Tony Leung, sempre excelente) e eles trocam as peças de teatro por uma "peça" muito mais perigosa e mortal. Wong Chia Chi começa a interpretar o papel da "Sra. Mak", a esposa de um rico homem de negócios e, nesta condição, consegue se aproximar da família do Sr. Yee. O filme é extremamente detalhado em mostrar esta aproximação e também a enorme e reprimida paixão que surge entre ela e o Sr. Yee. As ações do resto do grupo também são detalhadas e, por vezes, ingênuas. Há uma cena de assassinato extremamente violenta que também me lembrou Hitchcock, quando o grupo literalmente suja as mãos de sangue pela primeira vez e descobre, a duras penas, que matar um homem não é tão fácil quanto parece.
Há uma passagem temporal para três anos depois, em 1941, e a Sra. Mak volta a assediar e espionar o Sr. Yee em Shanghai. É então que a atração entre eles se consuma de forma violenta e apaixonada. Ang Lee não quer simplesmente nos chocar com as cenas de sexo. Há no ato dos dois algo de desesperado, seja do lado da garota, que tem que se entregar a alguém que ela está tentando matar, seja do lado do chinês que desconfia de tudo e de todos. É como se os dois soubessem que, no fundo, são inimigos, mas há um fogo e uma atração entre eles que os levam ao limite do amor físico. Mas seria realmente apenas físico? É possível se entregar a tal ponto a alguém sem que haja sentimento? Por que a "Sra. Mak" se doa com tanta paixão ao inimigo mas mantém uma relação apenas platônica com seu companheiro de resistência?
O filme não foi bem nos Estados Unidos por causa da classificação NC-17 (geralmente associada a filmes pornográficos) e não repetiu o sucesso de filmes como "O Tigre e o Dragão" ou "Brokeback Mountain", mas Ang Lee venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza. Aqui no Brasil, chegou com dois anos de atraso. (Em Campinas, o filme está em pré-estréia no Topázio Cinemas.)
Keiko Fukushima chega em casa tarde da noite. Ela está bêbada. Acorda os quatro filhos, um de cada pai diferente, com suas risadas e histórias para contar. Akira, o mais velho, tem 12 anos, mas aparenta ser mais maduro do que a própria mãe. Com calma, ele separa a louça e prepara um chá para todos. Nenhum deles (dois garotos e duas meninas) freqüenta a escola. Com exceção de Akira, que foi apresentado aos senhorios do pequeno prédio de apartamentos onde vivem, nenhuma das outras crianças pode fazer barulho ou ser vista por ninguém. Oficialmente, elas não estão morando lá. Elas chegaram ao apartamento com a mudança, dentro das malas.
"Ninguém pode saber" (Daremo shiranai, 2004), do diretor Hirozaku Kore-eda, é um duro e cruel retrato do abandono infantil. A mãe, apesar de aparentar gostar dos filhos e fazer o possível para cuidar deles, tem o costume de desaparecer por uns tempos por causa de algum namorado novo. "Então eu não posso ser feliz?", ela reclama com o filho, quando este lhe pergunta sobre ir à escola. Uma manhã Akira encontra um bilhete da mãe, dizendo que iria ficar fora por uns tempos. Ela demora um mês para voltar e, logo em seguida, parte novamente, deixando as crianças abandonadas e com pouco dinheiro.
O jovem ator Yuya Yagira, com apenas 14 anos na época, venceu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes por seu ótimo retrato do garoto Akira. Na falta da mãe, ele tenta administrar a casa, cuidar dos irmãos e se virar com a falta de dinheiro. Mesmo se levando em conta que as crianças, no Japão, costumam ser mais independentes do que no ocidente, a tarefa é dura demais para um garoto de 12 anos. Kore-eda escreveu o roteiro baseado em uma história real acontecida em Tokyo nos anos 1980. Segundo artigo da Wikipedia, os fatos reais eram ainda mais terríveis do que os mostrados no filme. Um aspecto interessante das filmagens é que elas foram feitas cronologicamente, ao longo de um ano. Assim, as estações do ano e a própria mudança física das crianças foi capturada conforme iam acontecendo. Conforme os meses passam, Akira e os irmãos começam a passar fome e por apuros financeiros. A água e a eletricidade são cortados, e eles não querem pedir ajuda à polícia por medo de serem separados. Aos poucos, eles vão se arriscando mais e passam a sair do apartamento com mais frequência, seja para procurar comida ou lavar as roupas na torneira do parque. Outros personagens acabam aparecendo, como uma garota tímida que, por ser perseguida na escola, não frequenta as aulas e acaba conhecendo os irmãos.
Não é um filme fácil. É longo (duas horas e vinte minutos), lento e, a bem da verdade, cada vez mais deprimente. Tudo isso culminando em uma cena de arrepiar nos arredores de um aeroporto, à noite, com os aviões passando e duas crianças puxando uma mala. Filme disponível em DVD.
“Linha de Passe" vem dez anos depois do sucesso internacional de "Central do Brasil", filme que catapultou o diretor Walter Salles ao mercado internacional. Em uma década, Salles fez os filmes "O Primeiro Dia", "Abril Despedaçado", "Diários de Motocicleta" e o "americano" "Dark Water", com Jennifer Connelly. Todos contando com algum financiamento do exterior para serem produzidos. Salles retoma a parceria com Daniela Thomas (com quem fez "Terra Estrangeira" e "O Primeiro Dia") e com Vinícius de Oliveira, o garoto de "Central do Brasil", para pintar um quadro sobre a periferia paulista, na visão de uma mãe solteira e seus quatro filhos. A mãe é Cleuza (Sandra Corveloni, que ganhou o prêmio de Melhor Atriz em Cannes pelo trabalho), uma empregada doméstica que faz o que pode para manter os quatro filhos na linha. Grávida de um quinto filho, toda manhã ela pega um ônibus lotado para ir limpar o apartamento de uma médica de classe média alta no centro de São Paulo. Seus filhos são Dario (Vinícius de Oliveira), um aspirante a jogador profissional de futebol; Denis (João Baldasserini), um motoboy que tem um filho pequeno e uma namorada que ele tenta sustentar com o serviço perigoso que é pilotar uma moto pelo trânsito da capital; Dinho (José Geraldo Rodrigues) é um frentista que virou "crente" e entregou a vida a Jesus, mas está em dúvidas com relação a sua fé. E há o caçula, Reginaldo (Kaique Jesus Santos, roubando a cena), que é negro e passa o dia andando de ônibus pela cidade, à procura do pai.
O tema da procura pela figura paterna também estava presente em "Central do Brasil", e aqui é bastante forte. Não sabemos quem são os pais dos filhos de Cleuza, nem do que está para nascer. O mais novo é quem está mais determinado a descobrir suas origens, e há ecos do seu personagem com o de Josué de "Central do Brasil", como a vontade de aprender a dirigir. A trama é linear e acompanha a trajetória destes cinco personagens, mãe e filhos, na luta para sobreviver e tentar melhorar de vida. Não é um tema fácil, mas achei que Salles e Thomas carregaram um pouco na mão. O início é muito bom. Uma montagem paralela estabelece a relação entre os personagens e as paixões típicas do brasileiro: futebol e fé. Dario é visto disputando uma seletiva para tentar ser escolhido para um time de futebol. Enquanto isso vemos sua mãe Cleuza em meio à gigantesca torcida corinthiana, no Morumbi, em um clássico contra o São Paulo. A montagem intercala planos dos jogadores profissionais com os de Dario jogando na várzea, com grande efeito. Também é interessante a ligação entre a fé dos torcedores misturada com cenas da fé de Dinho em um culto evangélico.
A direção de fotografia, de Mauro Pinheiro Jr, dá ao filme um tom semidocumental, com muita câmera na mão e iluminação natural. São Paulo é vista sempre com um visual "sujo" e sob chuva. A trilha "new age" é do oscarizado Gustavo Santaolalla. O roteiro (de Daniela Thomas e George Moura), nem sempre dá conta de acompanhar os personagens como deveria. O destino do motoboy, por exemplo, e sua transição para o crime, me pareceu um tanto simplista. O melhor desenvolvido é Dario, que representa o brasileiro comum, com muito talento, mas com falta de oportunidades para se desenvolver. Todos sabem que ele é um bom jogador de futebol, mas ele tem contra a idade (que já passou do ponto de corte dos clubes) e a falta de dinheiro para "molhar a mão" dos olheiros. Por um momento achei que o tom pesado do filme seria levado às últimas conseqüências, mas o final, em aberto, deixa lugar para alguma esperança. Mas sem dúvida não é o mesmo tipo de esperança do final de "Central". Uma década depois, o olhar de Walter Salles me pareceu mais pessimista e desesperançoso com relação ao Brasil e seus habitantes.
Ontem, após uma abortada idéia de ir a Sampa ver algo do “É tudo verdade” (ainda há tempo), acabei indo até o Cine Jaraguá em Campinas assistir “Cada um com seu cinema”. É uma coletânea de curtas de vários cineastas famosos produzidos em homenagem aos 60 anos do Festival de Cannes. São 33 curtas de três minutos cada. O tema é o próprio cinema, o assistir cinema, o pensar cinema, o sentir cinema. Imagina-se que tamanha fragmentação poderia resultar confusa, mas não é o que acontece. Um curta acaba complementando o outro de modo aparentemente aleatório, mas todos passam principalmente o sentimento de amor por esta arte. Cineastas como o brasileiro Walter Salles, Takeshi Kitano, Lars Von Trier, Roman Polanski, entre outros, usam seus três minutos à sua maneira.
Engraçado que, apesar de todos os curtas serem resultado de cineastas, a maioria se revela o trabalho de cinéfilos. Não há menção ao se fazer cinema, mas sim o prazer de se assistir cinema...e NO CINEMA. Uma certa nostalgia e a sensação, talvez, de que esta seja uma arte em extinção (e me refiro à ARTE de se assistir cinema) também permeiam as obras. Há outros pontos em comum; o tema da LUZ, principalmente a luz do projetor e seu contrário, a escuridão, rendem alguns roteiros semelhantes. A escuridão dá margem a comportamentos escondidos, como namorar e fazer amor, ou criminosos mesmo, como no curta em que um garoto tateia por entre as poltronas para roubar espectadores incautos. Andrei Konchalovski usa a luz do projetor e a compara com a luz que vem da porta que dá para a rua, enquanto uma senhora se delicia assistindo “Fellini 8½” e um casal faz amor apaixonadamente entre as fileiras escuras. A vida vem da tela ou da rua?
Pode-se sentir também o fetiche do cinema como algo físico, representado pela figura do projetor, do ato de se passar o filme por entre as engrenagens, se ligar a grande máquina e escutar o barulhinho de cinema. Em “O primeiro beijo”, de Gus Van Sant, o projecionista é um belo adolescente que acaba subindo à tela para beijar uma garota na praia. “Cinema ao ar livre”, de Raymond Depardon mostra uma “sala” que funciona na cobertura de um prédio, a imagem projetada vindo do outro lado da rua. Claude Lelouch conta a história do encontro dos próprios pais em “O cinema da esquina”, uma comovente auto biografia através dos tempos por meio do cinema. E assim por diante.
Há também espaço para o humor, por vezes vindo de fontes inesperadas. Eu esperava algo hermético e “cabeça” vindo de Lars Von Trier, mas seu “Ocupações”, a história de um chato que fica querendo contar sua vida para o vizinho de poltrona, é hilariante, e o final, confesso, já me passou pela cabeça em várias ocasiões. Roman Polanski também surpreende com o humor de “Cinema Erótico”, em que um casal assistindo ao clássico “Emmanuelle” fica incomodado com os gemidos de um espectador inconveniente. Walter Salles mostra um duelo entre dois repentistas em “5557 Milhas de Cannes”, em que um deles tenta convencer o outro de que já esteve em Cannes.
Filmes feitos por cinéfilos e para cinéfilos... daqueles para quem o ato de se ir ao cinema é tão ou mais importante do que o que se vai assistir na tela.
ps: a publicidade dizia que havia um curta dos irmãos Coen entre os filmes, mas não é verdade. É fato que eles participaram da idéia e, de acordo com a internet, também tinham um curta entre os selecionados, mas na cópia que assisti, infelizmente, eles não estavam presentes.