Mostrando postagens com marcador daniela thomas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador daniela thomas. Mostrar todas as postagens

domingo, 15 de agosto de 2010

Insolação

"O Amor não foi feito para sermos felizes, e sim para nos sentirmos vivos". Assim fala Paulo José em um de seus vários monólogos durante "Insolação", filme de Daniela Thomas e Felipe Hirsch. Em cartaz no Topázio Cinemas, em Campinas, o filme é extremamente autoral e se encaixa perfeitamente naquele rótulo de "filme de arte". O roteiro, fragmentado, foi escrito por dois americanos, Will Eno e Sam Lipsyte, a pedido dos diretores, e é baseado na literatura romântica russa.

Não há uma trama no sentido tradicional, com começo, meio e fim. "Insolação" é formado por fios entrelaçados de situações e histórias baseadas no amor, suas alegrias e tristezas. Paulo José, sempre magnífico, é uma espécie de mestre de cerimônias, falando diretamente para a câmera. Seu rosto marcado e seus olhos fundos sugerem experiência e maturidade mas, principalmente, ainda a vontade de tentar aprender e desvendar a vida. Ele vai a um quiosque repetidas vezes pedir um café (que não é vendido no local) para se encontrar com os outros personagens do filme. La está Lucia (Simone Spoladore), uma mulher em busca do sentimento físico do amor, praticando sexo com diversos homens em curto espaço de tempo. Já Leo (Leonardo Medeiros) trabalha para um homem poderoso e está apaixonado por Ana (Maria Luíza Mendonça), uma jornalista que ama outra pessoa. A pequena Zoyka (Daniela Piepszyk), de 13 anos, está apaixonada por Leo. Há outra história de amor envolvendo uma criança e um adulto. O garoto Vladimir (Antonio Medeiros) está apaixonado por Liuba (Leandra Leal), paciente do pai dele.

Estas e outras histórias se passam em uma Brasília totalmente deserta. A maravilhosa direção de fotografia de Mauro Pinheiro Jr revela uma cidade filmada com sol a pino, com os personagens vagando aparentemente sem rumo por paisagens desoladas. A câmera de Mauro gosta principalmente de Simone Spoladore (além de Paulo José, claro), o que rendem belas imagens com muito trabalho de foco e movimento de câmera. Há um plano que vale o ingresso, quando uma chuva cai sobre o rosto de Paulo José e sobre o corpo distante de Spoladore, deitada no chão de concreto.

Não é um filme convencional, o que assustou vários frequentadores, que abandonaram a sala. O ritmo é bastante lento e cabe totalmente ao espectador o trabalho de fazer algum sentido da sequência de cenas aparentemente desconexas. A trilha sonora de Arthur de Faria dá alguma cor aos longos silêncios. Um filme que começa com a palavra "tristeza" sendo escrita no caderno de Paulo José, "Insolação" fala sobre amor e perdas, e não é um trabalho fácil de se ver.


sábado, 6 de setembro de 2008

Linha de Passe

“Linha de Passe" vem dez anos depois do sucesso internacional de "Central do Brasil", filme que catapultou o diretor Walter Salles ao mercado internacional. Em uma década, Salles fez os filmes "O Primeiro Dia", "Abril Despedaçado", "Diários de Motocicleta" e o "americano" "Dark Water", com Jennifer Connelly. Todos contando com algum financiamento do exterior para serem produzidos. Salles retoma a parceria com Daniela Thomas (com quem fez "Terra Estrangeira" e "O Primeiro Dia") e com Vinícius de Oliveira, o garoto de "Central do Brasil", para pintar um quadro sobre a periferia paulista, na visão de uma mãe solteira e seus quatro filhos. A mãe é Cleuza (Sandra Corveloni, que ganhou o prêmio de Melhor Atriz em Cannes pelo trabalho), uma empregada doméstica que faz o que pode para manter os quatro filhos na linha. Grávida de um quinto filho, toda manhã ela pega um ônibus lotado para ir limpar o apartamento de uma médica de classe média alta no centro de São Paulo. Seus filhos são Dario (Vinícius de Oliveira), um aspirante a jogador profissional de futebol; Denis (João Baldasserini), um motoboy que tem um filho pequeno e uma namorada que ele tenta sustentar com o serviço perigoso que é pilotar uma moto pelo trânsito da capital; Dinho (José Geraldo Rodrigues) é um frentista que virou "crente" e entregou a vida a Jesus, mas está em dúvidas com relação a sua fé. E há o caçula, Reginaldo (Kaique Jesus Santos, roubando a cena), que é negro e passa o dia andando de ônibus pela cidade, à procura do pai.

O tema da procura pela figura paterna também estava presente em "Central do Brasil", e aqui é bastante forte. Não sabemos quem são os pais dos filhos de Cleuza, nem do que está para nascer. O mais novo é quem está mais determinado a descobrir suas origens, e há ecos do seu personagem com o de Josué de "Central do Brasil", como a vontade de aprender a dirigir. A trama é linear e acompanha a trajetória destes cinco personagens, mãe e filhos, na luta para sobreviver e tentar melhorar de vida. Não é um tema fácil, mas achei que Salles e Thomas carregaram um pouco na mão. O início é muito bom. Uma montagem paralela estabelece a relação entre os personagens e as paixões típicas do brasileiro: futebol e fé. Dario é visto disputando uma seletiva para tentar ser escolhido para um time de futebol. Enquanto isso vemos sua mãe Cleuza em meio à gigantesca torcida corinthiana, no Morumbi, em um clássico contra o São Paulo. A montagem intercala planos dos jogadores profissionais com os de Dario jogando na várzea, com grande efeito. Também é interessante a ligação entre a fé dos torcedores misturada com cenas da fé de Dinho em um culto evangélico.

A direção de fotografia, de Mauro Pinheiro Jr, dá ao filme um tom semidocumental, com muita câmera na mão e iluminação natural. São Paulo é vista sempre com um visual "sujo" e sob chuva. A trilha "new age" é do oscarizado Gustavo Santaolalla. O roteiro (de Daniela Thomas e George Moura), nem sempre dá conta de acompanhar os personagens como deveria. O destino do motoboy, por exemplo, e sua transição para o crime, me pareceu um tanto simplista. O melhor desenvolvido é Dario, que representa o brasileiro comum, com muito talento, mas com falta de oportunidades para se desenvolver. Todos sabem que ele é um bom jogador de futebol, mas ele tem contra a idade (que já passou do ponto de corte dos clubes) e a falta de dinheiro para "molhar a mão" dos olheiros. Por um momento achei que o tom pesado do filme seria levado às últimas conseqüências, mas o final, em aberto, deixa lugar para alguma esperança. Mas sem dúvida não é o mesmo tipo de esperança do final de "Central". Uma década depois, o olhar de Walter Salles me pareceu mais pessimista e desesperançoso com relação ao Brasil e seus habitantes.