O Lobo Atrás da Porta (2013). Dir: Fernando Coimbra. Netflix. Bom suspense brasileiro na Netflix, o filme trata do desaparecimento de uma menina, Clarinha, na porta da escola. A investigação policial inicia uma série de flashbacks (nem todos confiáveis) que contam a mesma história de diversos pontos de vista. O pai da menina, Bernardo (Milhem Cortaz), tem certeza que a culpada pelo sequestro da filha é Rosa (Leandra Leal), sua jovem amante de 25 anos. Fabíula Nascimento completa o elenco como Sylvia, esposa de Bernardo.
Fernando Coimbra, que fez sucesso com vários curtas antes de estrear na direção e roteiro deste filme, dirige com maestria o bom elenco, auxiliado por uma direção de fotografia inspirada de Lula Carvalho (Tropa de Elite, Bingo). Há vários planos estáticos longos, em que os atores interpretam por vários minutos, sem cortes. Quando a câmera se movimenta, porém, é em elegantes planos que acompanham os personagens pelas ruas do Rio de Janeiro. A edição de Karen Ackerman consegue criar sentido a partir dos vários pontos de vista que contam a história. O final pode ser um pouco clichê, mas é potente e apropriado a um filme de gênero como este. Tá na Netflix.
"O Amor não foi feito para sermos felizes, e sim para nos sentirmos vivos". Assim fala Paulo José em um de seus vários monólogos durante "Insolação", filme de Daniela Thomas e Felipe Hirsch. Em cartaz no Topázio Cinemas, em Campinas, o filme é extremamente autoral e se encaixa perfeitamente naquele rótulo de "filme de arte". O roteiro, fragmentado, foi escrito por dois americanos, Will Eno e Sam Lipsyte, a pedido dos diretores, e é baseado na literatura romântica russa.
Não há uma trama no sentido tradicional, com começo, meio e fim. "Insolação" é formado por fios entrelaçados de situações e histórias baseadas no amor, suas alegrias e tristezas. Paulo José, sempre magnífico, é uma espécie de mestre de cerimônias, falando diretamente para a câmera. Seu rosto marcado e seus olhos fundos sugerem experiência e maturidade mas, principalmente, ainda a vontade de tentar aprender e desvendar a vida. Ele vai a um quiosque repetidas vezes pedir um café (que não é vendido no local) para se encontrar com os outros personagens do filme. La está Lucia (Simone Spoladore), uma mulher em busca do sentimento físico do amor, praticando sexo com diversos homens em curto espaço de tempo. Já Leo (Leonardo Medeiros) trabalha para um homem poderoso e está apaixonado por Ana (Maria Luíza Mendonça), uma jornalista que ama outra pessoa. A pequena Zoyka (Daniela Piepszyk), de 13 anos, está apaixonada por Leo. Há outra história de amor envolvendo uma criança e um adulto. O garoto Vladimir (Antonio Medeiros) está apaixonado por Liuba (Leandra Leal), paciente do pai dele.
Estas e outras histórias se passam em uma Brasília totalmente deserta. A maravilhosa direção de fotografia de Mauro Pinheiro Jr revela uma cidade filmada com sol a pino, com os personagens vagando aparentemente sem rumo por paisagens desoladas. A câmera de Mauro gosta principalmente de Simone Spoladore (além de Paulo José, claro), o que rendem belas imagens com muito trabalho de foco e movimento de câmera. Há um plano que vale o ingresso, quando uma chuva cai sobre o rosto de Paulo José e sobre o corpo distante de Spoladore, deitada no chão de concreto.
Não é um filme convencional, o que assustou vários frequentadores, que abandonaram a sala. O ritmo é bastante lento e cabe totalmente ao espectador o trabalho de fazer algum sentido da sequência de cenas aparentemente desconexas. A trilha sonora de Arthur de Faria dá alguma cor aos longos silêncios. Um filme que começa com a palavra "tristeza" sendo escrita no caderno de Paulo José, "Insolação" fala sobre amor e perdas, e não é um trabalho fácil de se ver.
Orkut. Blog. Fotolog. MSN. MySpace. Hotmail. Google. Skype. Youtube. Gmail. Blogger... há dez anos, grande parte destas palavras sequer existia. Hoje há pessoas que passam suas vidas, ou grande parte delas, se expondo online através destas ferramentas. Eu não sou exceção e, se você está lendo este texto agora, é bem possível que também não seja. "Nome Próprio" é um filme forte e atual sobre uma moça que é personagem de si mesma. Uma mulher que decidiu que vai "viver intensamente" e que, quando a vida não é intensa por si só, faz alguma coisa para puxar o próprio tapete. Uma pesquisa rápida no orkut pelas palavras "viver intensamente" retorna mais de mil resultados. Nestas comunidades você lê descrições como: "VIVA A VIDA INTENSAMENTE, CURTA CADA MOMENTO DE SUA VIDA", ou "A vida acontece sempre no presente.. não devemos economiza-la!O melhor sempre acontece no AGORA!...". É de se pensar que tipo de felicidade é esta que se busca a qualquer preço, a qualquer momento.
O filme é estrelado por Leandra Leal, que se entrega totalmente a seu personagem, uma blogueira chamada Camila Lopes. Leandra, assim como seu personagem, se expõe despudoradamente para as lentes do diretor Murilo Salles. O filme começa com Camila, nua, sendo expulsa de casa pelo namorado, que a acusa de traição. Camila tem outra opinião. Segundo ela, ela deu apenas seu corpo, enquanto Felipe, o namorado da vez, está traindo a si mesmo. Expulsa de casa, ela logo vai morar no apartamento de outro rapaz. A primeira coisa que faz é comprar muita bebida e tirar dinheiro para poder pagar, adiantado, a conta do telefone. Seu blog vira espaço para expor publicamente sua briga com o namorado e detalhes do seu relacionamento. A web tem mão dupla e, em pouco tempo, há outros sites perguntando o que ela teria feito com o namorado. Camila então faz a seguinte declaração:
DECLARAÇÃO:Meu blog não é um diário. Aqui escrevo e ponto.Escrevo porque preciso. Melhor, vivo porque escrevo. Não quero saber de opiniões, nem de julgamentos. Não devo nada a ninguém. Por isso, meu blog não tem comentários. Menos ainda sobre minha vida. Isto aqui não é uma página interativa. Não gostou? Não lê. Simples assim.
Claro que é uma contradição. Se ela escreve só porque precisa, por que publicar na internet? O filme é muito inteligente em expor este aspecto da vida online. Por um lado, o escritor está sozinho do seu lado da tela. Mas a internet permite que, ao clicar do mouse, alguém lá na Austrália leia em poucos minutos o que você fez ontem à noite, ou veja fotos da sua última balada. Viver apenas o "agora" implica em uma vida sem conseqüências. Paixões sem amores. Causas sem efeitos. É um drama interessante "viver porque se escreve". Você escreve o que você viveu ou você vive porque vai escrever a respeito depois? No fundo, Camila é uma pessoa só e egocêntrica, que não consegue ver além dos limites do seu mundo. Sua relação com os homens também é complicada. A escolha entre transar com alguém ou não parece tão irrelevante quando clicar ou não em um link, e Camila troca constantemente de "namorados" para, em seguida, relatar suas aventuras online. Em uma espécie de feminismo às avessas, ela usa os homens para que eles lhe paguem um lugar para morar e, o mais importante, um lugar onde ela possa instalar seu computador conectado à internet. Há uma incômoda ligação entre suas ações e a prostituição. E nesta era online nem o sexo é tão simples. Em dado momento Camila passa a noite no apartamento de um nerd que é seu fã. Ela está dormindo profundamente e o rapaz lhe tira as roupas e tira algumas fotos com sua câmera digital. Ao invés de transar com a moça, ele passa as fotos para o computador e, com Camila dormindo nua às suas costas, se masturba diante do monitor.
O filme tem censura 18 anos e, de fato, há algumas cenas fortes. Emulando o aspecto "voyer" que existe na internet (com sua profusão de fotos e videos pornográficos) acompanhamos uma longa (e incômoda) cena de sexo entre Camila e um rapaz que ela conhece em um bar. O plano é feito sem cortes e, repito, Leandra Leal se entrega totalmente ao papel, de modo a desaparecer sob a personagem de Camila. Ela se expôe nua por tanto tempo na tela, aliás, que depois de certo tempo deixamos de notar sua nudez e a encaramos com estranha intimidade.
"Nome Próprio" tem, claro, vários sites na internet. Camila pode ser um exemplo extremo do internauta de hoje. Mas ela é um quadro bastante complexo da juventude atual e da cultura do "agora". Uma cultura que exige fidelidade sem praticá-la. Que quer ser livre mas ainda fala de amor. Que quer ficar com todo mundo mas, no fundo, ainda espera a chegada do "príncipe encantado". Nem que ele venha por e-mail.