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segunda-feira, 1 de abril de 2024

Holy Spider (2022)

Holy Spider (2022). Dir: Ali Abbasi. Netflix. Filme bastante pesado baseado na história real de um assassino em série que, entre 2000 e 2001, matou dezesseis prostitutas na cidade de Mashad, no Irã. O assassino não se considerava um criminoso, mas sim alguém que estava "limpando a cidade do pecado". Uma jornalista de Teerã, Arezoo Rahimi (Zar Amir Ebrahimi), vai até Mashad investigar as mortes e se depara com uma polícia inerte e um jornalismo amador.

A moça também tem que enfrentar o machismo da cultura local; quando chega em um hotel, sozinha, o gerente lhe diz que houve um erro na reserva dela e que ela deve ir embora. Quando ela revela ser jornalista, o "erro" desaparece e acabam dando um quarto a ela. O filme não tenta fazer suspense sobre quem é o assassino. Ele é mostrado logo no início, um pedreiro comum, com esposa, duas filhas e um filho, Saeed Azimi (Mehdi Bajestani) é ex-combatente na guerra Irã-Iraque e religioso fanático. Ele pega as prostitutas de moto, à noite, e as leva para seu apartamento. As cenas em que ele as estrangula são bem fortes e violentas.

Além de ser um thriller de suspense, o filme também é um retrato de uma sociedade machista/religiosa. Quanto mais mulheres Saeed mata, mais apoio ele tem da população em geral, que acha que ele está fazendo um bem para a sociedade. A mãe de uma das vítimas diz à jornalista que a polícia não tem interesse em prendê-lo pois ele está limpando a cidade para eles. Ebrahimi, que faz a jornalista, ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes e recebeu centenas de ameaças de seu país de origem. O filme foi feito fora do Irã (filmado na Jordânia) e foi condenado pelo governo.

"Holy Spider" é pesado e difícil de assistir, mas poderoso. Tá na Netflix

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Zona de Interesse (The Zone of Interest, 2023)

 
Zona de Interesse (The Zone of Interest, 2023). Dir: Jonathan Glazer. Cinema, disse Martin Scorsese, é decidir o que está ou não dentro do frame. Às vezes, porém, o que não está também é importante. Neste filme de Jonathan Glazer a câmera faz o possível para olhar para o outro lado. Talvez seja a atitude de muitos alemães durante a 2ª Guerra Mundial?

A família de Rudolf Höss (Christian Friedel) vive em uma bela casa. Há uma piscina, um jardim florido, uma horta. A esposa, Hedwig (Sandra Hüller, a ótima atriz de "Anatomia de uma Queda"), tenta manter tudo limpo e organizado. As crianças brincam no jardim ou nadam em um rio próximo. Rudolf Höss é comandante do campo de concentração de Auschwitz, cujos muros fazem divisa com sua casa. De vez em quando, oficiais nazistas entram para discutir a construção de novos fornos ou outras questões logísticas. Höss descobre que vai ser transferido e fica preocupado com a reação da esposa. À noite, o clarão das chaminés ilumina os quartos.

Se não fosse um filme sobre o Holocausto, poderia ser o retrato de uma família comum. O pai, tentando fazer seu trabalho direito mas, também, atento à família (ele lê contos de fadas para as filhas todas as noites). A mãe, cuidando da casa e preocupada com a educação dos filhos. O cachorro tentando pegar a comida da mesa. Os empregados (judeus), limpando a casa e escutando broncas da patroa. Quanto mais comum, mais arrepiante. Glazer mantém a câmera quase sempre estática, o que aumenta a angústia. A imagem clara e límpida (direção de fotografia de Lukasz Zal), parece curiosamente atual; o filme não tem aquele "ar" de velho, da 2ª Guerra, o que deixa o filme ainda mais assustador. Só a trilha de Mica Levi, bastante estranha, tenta nos mostrar que algo está muito errado. "Zona de Interesse" está indicado aos Oscar de melhor filme, direção, roteiro adaptado, som e melhor filme internacional. Muito bom. Nos cinemas.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

O Menino e a Garça (Kimitachi wa dou ikiru ka, 2023)

O Menino e a Garça (Kimitachi wa dou ikiru ka, 2023). Dir: Hayao Miyazaki. Como falar do novo filme de Hayao Miyazaki? A sensação é a de estar vendo um sonho. Há passagens sérias e realistas como quando um garoto perde a mãe em um bombardeio em Tóquio, na 2ª Guerra Mundial; há, também, cenas que mostram periquitos gigantes e coloridos fazendo bolos e se preparando para cortar o mesmo menino em pedaços. Cenas cheias de simbologia e seriedade são entrecortadas por imagens de seres "fofinhos" que flutuam no ar como balões de festa (para, em seguida, serem devoradas por pelicanos famintos).
Miyazaki está com 83 anos e tem um modo todo particular de trabalhar. Há um documentário bem interessante na internet sobre os bastidores de "Ponyo" (2008), em que vemos o mestre japonês pensando em como começar o filme. Animações americanas, por serem caras e trabalhosas, costumam ser pré-produzidas nos últimos detalhes, com criação de storyboards precisos e gravação das vozes. Já Hayao Miyazaki parece criar conforme vai produzindo, o que pode explicar o sentimento de "sonho" ou "fluxo de consciência" presente em várias de suas animações.
O roteiro de "O Menino e a Garça" é remotamente baseado em um livro de Genzaburō Yoshino, de 1937 (que, aliás, aparece no filme). A trama, no entanto, teria sido baseada na infância de Miyazaki. O garoto Mahito (Soma Santoki), depois que perdeu a mãe, é levado pelo pai para uma enorme mansão no interior do Japão. Lá ele conhece sua nova "mãe", Natsuko (Yoshino Kimura) que é sua tia e está esperando um bebê. A casa em estilo europeu, no meio da floresta, lembra um pouco a casa das garotas em "Meu amigo Totorô" (1988). Mahito começa a ser visitado por uma enorme garça real, que o provoca e fala que ele tem que "salvar sua mãe". Há uma estranha torre perto da mansão e a garça atrai o garoto para lá, e então para uma espécie de mundo interior, em que começa a parte mais fantasiosa do filme.
O roteiro está longe de ser linear ou mesmo coerente como de animações anteriores, como "Nausicaä do Vale do Vento" (1984) ou "Castelo no Céu" (1986). O ar de sonho lembra filmes posteriores como "A Viagem de Chihiro" (2001) ou "O Castelo Animado" (2004). É uma viagem. A animação (feita, em grande parte, à mão) é maravilhosa, assim como a trilha sonora de Joe Hisaishi, colaborador habitual de Miyazaki. É o tipo de filme que deve ser visto diversas vezes, creio, para conseguir apreender tudo que acontece na tela.
Hayao Miyazaki fala que vai se aposentar desde que fez "Princesa Mononoke" (1997). Felizmente, ele sempre volta atrás. Agora, aos 83, ele fala em aposentadoria novamente, mas vamos torcer para que seja outro alarme falso. "O Menino e a Garça" concorre ao Oscar de melhor animação e há grandes chances do prêmio ir para as mãos de Miyazaki. Nos cinemas.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Os Rejeitados (The Holdovers, 2023)

Os Rejeitados (The Holdovers, 2023). Dir: Alexander Payne. Paul Giamatti é Paul Hunham, professor de História em um internato para garotos no leste americano. Paul é universalmente odiado por professores e alunos. Durante o Natal de 1970, ele fica responsável por tomar conta dos alunos que, por algum motivo, não podem voltar para casa nas férias. É o caso de Angus Tully (Dominic Sessa), um rapaz que é deixado para trás pela mãe porque ela saiu em lua-de-mel com o novo marido. Assim, Paul, Angus e a cozinheira da escola, Mary, acabam ficando sozinhos no campus, tendo que arrumar o que fazer durante o período de férias.

Dirigido pro Alexander Payne (de "Sideways", também com Giamatti), "Os Rejeitados" é uma delícia de filme (desde que você não espere por muita ação). Giamatti está excelente, no tipo de papel que sabe fazer bem, um cara meio deprimido, meio raivoso. Dominic Sessa, o rapaz, está em seu primeiro filme e é excelente. Mary (Da'Vine Joy Randolph), a cozinheira, é uma mulher vivida que está de luto pela morte do filho no Vietnam. Esse trio, mais alguns poucos outros personagens, acabam descobrindo que talvez não sejam tão "rejeitados" como diz o título. A vida é dura, mas também pode ser bela.

Tecnicamente, "Os Rejeitados" é feito como se tivesse sido produzido na década de 1970. Os créditos iniciais usam uma vinheta antiga da Universal e criaram vinhetas "vintage" para a Focus Features e Miramax. Apesar de gravado em digital, a imagem parece película antiga e a edição usa longas transições de imagens, como era comum na época. As locações reais te transportam para outra época. A trilha, cheia de canções de Natal, contrastam com o humor dos personagens, mas trazem muita nostalgia. Paul Giamatti já ganhou alguns prêmios pelo papel e, quem sabe, talvez até consiga desbancar Cillian Murphy, de Oppenheimer, no próximo Oscar.

O Homem dos Sonhos (Dream Scenario, 2023)

O Homem dos Sonhos (Dream Scenario, 2023). Dir: Kristoffer Borgli. Filme bastante curioso que lembra os tempos em que o roteirista Charlie Kaufman era novidade e escrevia filmes como "Quero ser John Malkovich", "Adaptação" ou "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças". Nicolas Cage é Paul Matthews, um pacato professor de biologia evolutiva. Barba comprida, careca, óculos, usando sempre as mesmas roupas, ele é um tipo bastante comum.

Um dia um fenômeno estranho acontece e as pessoas começam a ver Paul em seus sonhos. No começo, são pessoas próximas, como família e amigos. Depois, o fenômeno se espalha pelo mundo inteiro. Paul fica assustado, a princípio, com a fama repentina mas, ei, as pessoas estão finalmente prestando atenção nele, achando-o "interessante". Logo ele está dando entrevistas e uma empresa quer associá-lo a vários produtos. O problema é que, de repente, os sonhos das pessoas com ele se tornam pesadelos terríveis e violentos. Amigos não querem mais vê-lo. A própria família está assustada.

"O Homem dos Sonhos" é uma sátira bem interessante sobre a fama e seus efeitos no mundo de hoje. Paul se considera um acadêmico sério e sonha em escrever um livro sobre a evolução das formigas, mas o mundo quer usá-lo para vender refrigerante. Quando ele está no alto da onda, no entanto, ele é "cancelado" pelas mesmas pessoas que o veneravam. Nicolas Cage, famoso por suas interpretações exageradas, está ótimo aqui como uma pessoa comum que, por um momento, acha que tirou a sorte grande. Há várias sequências interessantes e, em vários momentos, você não sabe se está vendo o mundo real ou se estamos dentro do sonho de alguém. A produção foi rodada em filme 16mm, com cores saturadas que lembram filmes antigos de família ou documentários. É curto, uma hora e quarenta de duração, e o final é interessante, embora poderia ter rendido mais.

Vidas Passadas (Past Lives, 2023)

Vidas Passadas (Past Lives, 2023). Dir: Celine Song. Belíssimo filme para começar bem o ano. "Vidas Passadas" é o longa metragem de estreia da coreana-canadense Celine Song, e é um deleite. O filme se passa em um período de 24 anos, mas o início se dá no encontro de um garoto e uma garota de 12 anos, Na Young e Hae Sung, em um parque de Seoul. Os dois estudam juntos e são apaixonados. As mães organizam um encontro em que os dois brincam, se divertem e voltam para casa de mãos dadas. O problema é que a menina está de partida para o Canadá, onde vai morar. O encontro, na verdade, havia sido uma despedida.

Eles poderiam nunca mais ter se visto mas, 12 anos depois, Na Young (Greta Lee), morando em Nova York, encontra o antigo "namoradinho" no Facebook. Os dois começam a conversar via Skype e descobrem que ainda há uma grande atração entre eles. Só que eles estão separados por milhares de quilômetros... o que fazer? Anos novamente se passam, até que Hae Sung (Teo Yoo), o rapaz, resolve finalmente ir até Nova York ver a moça.

(aviso de possíveis spoilers, não vou revelar o final, mas alguns detalhes sobre a vida dos personagens que talvez você não queira saber)

Se fosse uma simples comédia romântica, provavelmente tudo daria certo e as duas "almas gêmeas" terminariam o filme se beijando no topo do Empire State, mas não é esse tipo de filme. O tempo passou, Na Young está casada e estabelecida em Nova York. Ainda assim, é inegável que ela está curiosa com esse homem que resolveu visitá-la depois de 24 anos. "Ele é tão coreano", diz ela ao marido. "Quando estou com ele me sinto menos coreana mas, ao mesmo tempo.... mais coreana".

O que é que eles sentem um pelo outro? Há longas cenas de silêncios entre os dois, quando estão passeando por marcos turísticos de Nova York (muito bem filmada pelo diretor de fotografia Shabier Kirchner). Na última vez que estiveram juntos, eram crianças de 12 anos, em outro país, com a vida inteira pela frente. O que teria acontecido se ela não tivesse deixado a Coréia, ou se ele tivesse ido vê-la em Nova York antes? Estariam destinados a se reencontrar? A que custo? Tudo é lidado com muita sensibilidade e belos diálogos. O personagem do marido, que poderia render cenas de ciúmes e até violência, é muito bem desenvolvido pelo roteiro. Um dos melhores filmes de 2023.

 

domingo, 22 de outubro de 2023

Assassinos da Lua das Flores (Killers of the Flower Moon, 2023)

Assassinos da Lua das Flores (Killers of the Flower Moon, 2023). Dir: Martin Scorsese. Um filme novo de Scorsese nos cinemas é um evento que deve ser visto em uma sala de cinema. Não pude fazer isso com seu último trabalho, "O Irlandês", que saiu na Netflix, e a diferença é considerável. "Assassinos da Lua das Flores" mostra um Scorsese maduro, ainda tentando coisas diferentes aos 80 anos de idade. A diferença aqui é o ponto de vista feminino, na forma de uma índia da tribo Osage chamada Mollie (Lily Gladstone). Sim, Robert De Niro está lá (excelente). DiCaprio está lá. Assassinatos, violência, gângsters... ingredientes de um filme "normal" de Scorsese, mas talvez com um toque extra de crueldade e tristeza.

A trama se passa nos anos 1920 em Oklahoma, EUA. Leonardo DiCaprio é Ernest, um soldado voltando da Primeira Guerra Mundial para trabalhar para o tio, Willian Hale (De Niro). Os índios da nação Osage ficaram ricos quando petróleo foi descoberto em suas terras. Aparentemente, eles vivem bem, têm casas enormes, carros, joias; mas uma das qualidades deste filme de Scorsese é como ele mostra, bem lentamente, que as aparências enganam. Não é segredo que este é um filme (bem) longo, são quase três horas e meia de duração. A editora habitual de Scorsese, Thelma Schoonmaker, faz um belo trabalho em apresentar os personagens e manter as tramas compreensíveis ao longo de vários anos (e longos minutos de filme), mas é discutível se qualquer filme precisa ter três horas e meia de duração, mas essa é outra questão.
Como disse, creio que o que chama atenção nesta obra é o modo como Scorsese apresenta o "mal". Sem entrar no terreno de spoilers, o filme é excelente em apresentar eventos que, mais tarde, descobrimos serem terríveis, mas que aparentam ser inocentes no começo. O mais desconcertante é o caso de amor entre o personagem de DiCaprio e Millie, cheio de camadas e nuances. Ela, forte, decidida, dona do nariz, mas humana. Ele, fraco, indeciso, aparentemente apaixonado por ela mas incapaz de ir contra um sistema que a vê como algo descartável.
O roteiro, inicialmente, daria ênfase aos agentes federais que vêm para a cidade investigar a morte de vários índios Osage. DiCaprio interpretaria um deles, em um papel mais heroico. Ele e Scorsese acabaram mudando o foco para o ponto de vista das vítimas e o filme ganhou muito com isso. É um trabalho de fôlego que vai colocar lenha na fogueira das premiações do ano que vem, que pareciam estar definidas entre a "Barbie" de Greta Gerwig e o "Oppenheimer" de Nolan.
Com relação à duração do filme, temos que levar em conta que ele foi coproduzido pela Apple para seu canal de streaming. O mesmo aconteceu com "O Irlandês' e a Netflix. Coincidência ou não, são dois filmes com três horas e meia de duração, o que leva a crer que foram editados mais com os serviços de streaming na cabeça do que as salas de cinema. Ridley Scott vai lançar seu "Napoleão" com duas durações, uma mais curta nos cinemas e outra mais longa no streaming. Seria uma nova tendência? É esperar para ver.

quinta-feira, 27 de julho de 2023

Oppenheimer (2023)

Oppenheimer (2023). Dir: Christopher Nolan. Depois de meses de uma das campanhas publicitárias mais massivas (e estranhas) de todos os tempos, chega finalmente aos cinemas o mais novo filme de Christopher Nolan. Juro que tentei ver na estreia, mas fui afogado por um mar de pessoas usando rosa.

"Oppenheimer" é um filme de Christopher Nolan, o que já carrega algumas coisas: é longo (são três horas de duração), é pesado e teatral (as paredes literalmente tremem quando Oppenheimer está nervoso), os personagens não param de falar (até em uma cena de sexo Oppenheimer está lendo um livro em sânscrito), a trilha sonora é constante e opressora (surpresa, não é de Hans Zimmer, mas o compositor Ludwig Göransson está fazendo uma imitação perfeita), e o visual é incrível (o filme foi feito em película Kodak, em IMAX 70mm, pelo diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema).

Isto posto, "Oppenheimer" é um grande filme. Cillian Murphy está excelente como um cientista brilhante com uma vida pessoal conturbada. J. Robert Oppenheimer foi um dos primeiros físicos a descrever um buraco negro, mas também sabia ler Karl Marx no original, aprendeu holandês em seis meses e lia em sânscrito. Também flertou com o Partido Comunista Americano (embora nunca tenha se filiado) e mandava dinheiro para os refugiados da Guerra Civil Espanhola; ao mesmo tempo, ajudou a criar uma arma de destruição em massa que matou perto de 200 mil pessoas.

O filme de Nolan conta a vida e "obra" de Oppenheimer partindo de dois julgamentos (ou melhor, "audiências"); em uma, o próprio Oppenheimer tem sua credibilidade posta em cheque em uma audiência que pretende revogar suas credenciais. Em outra, no Senado americano, o personagem de Robert Downey Jr., Lewis Strauss, tenta confirmar sua indicação a um alto posto no governo. Nolan, como de costume, não conta as histórias de forma linear e alterna várias linhas de tempo misturando preto e branco e colorido. Em uma decisão ousada, Nolan não coloca datas na tela e cabe ao espectador usar sua bagagem cultural para entender em que fase da História (com H maiúsculo) estamos. Às vezes fica bem confuso.

Até a explosão da primeira bomba atômica no teste de Trinity, no Novo México, diria que o filme é brilhante. Nolan consegue mostrar o processo de recrutamento dos cientistas para o Projeto Manhattan, a construção da base secreta em Los Alamos, a vida pessoal complicada de Oppenheimer, entre vários outros assuntos, de forma muito bem montada. A cena do primeiro teste nuclear, a propósito, é ótima (e você tem que ver este filme em uma tela IMAX gigante, com o som fazendo a cadeira tremer). O filme perde bastante o ritmo em sua hora final. Nolan exagera em seus maneirismos e fica difícil entender o que seu personagem está pensando quando o cenário está literalmente tremendo, a música está estridente e uma luz brilhante cega tudo por vários segundos (e não estou falando do teste nuclear, mas um simples interrogatório na tal audiência). É aposta certa que o filme vai render várias indicações ao Oscar. Resta saber se a bomba atômica, para Nolan, não vai se chamar Barbie. 

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Império da Luz (Empire of Light, 2022)

Império da Luz (Empire of Light, 2022). Dir: Sam Mendes. Star+. Superficialmente, "Império da Luz" é um filme belíssimo. Passado, em grande parte, em um luxuoso cinema, a direção de arte de Mark Tildesley e a fotografia de Roger Deakins transformam cada plano em uma pintura. Tudo isso embalado por uma bela trilha de Trent Reznor e Atticus Ross. A grande Olivia Colman encabeça um elenco que ainda conta com Colin Firth e Toby Jones, entre outros. Tudo é ricamente mostrado, interpretado e bonito de se ver.

No entanto, nem tudo funciona direito. O roteiro de Sam Mendes atira para todos os lados. O filme lida com vários assuntos relevantes como saúde mental, racismo e feminismo. No meio destes assuntos pesados, tenta também encaixar uma "carta de amor ao cinema" aos moldes de "Cinema Paradiso" (Giuseppe Tornatore, 1981) ou, talvez, "A Rosa Púrpura do Cairo" (Woody Allen, 1985). O resultado, no entanto, soa artificial. Colman interpreta Hillary, a gerente de um cinema em uma cidade costeira da Inglaterra. Ela é solitária, toma ansiolíticos e tem um "relacionamento" com o dono do cinema (Colin Firth), que mais parece uma série de abusos sexuais.

Um dia começa a trabalhar no cinema um rapaz negro e bonito chamado Stephan (Micheal Ward). Hillary se apaixona pelo moço, que corresponde, mas fica difícil entender a relação entre os dois. É amor? Carência? Há uma cena (até bonita) envolvendo um pombo com a asa quebrada que carrega demais no simbolismo. O fato de Stephan ser negro rende algumas cenas de racismo, mas o filme não perde o tom de um belo cartão postal nem em uma cena que deveria ser violenta. Há subtramas que não vão a lugar algum (como uma ex-namorada de Stephan que aparece e desaparece sem efeito nenhum). Há alguma cenas melodramáticas quando Hillary para de tomar os remédios.

No meio de tudo isso ainda há o "amor pelo cinema", em sequências perdidas como uma premiere de "Carruagens de Fogo" (Hugh Hudson, 1981) ou quando Hillary assiste, sozinha, a "Muito Além do Jardim" (Hal Ashby, 1979). Enfim, um filme tecnicamente belíssimo mas, ao contrário da fotografia do mestre Roger Deakins, bastante sem foco. Disponível na Star+.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Os Fabelmans (The Fabelmans, 2022)

 
Os Fabelmans (The Fabelmans, 2022). Dir: Steven Spielberg. Por muitos anos, o diretor Steven Spielberg foi considerado um cineasta puramente técnico, alguém focado só em efeitos especiais e em grandes bilheterias. Com o tempo, porém, percebeu-se que por trás de filmes como "E.T. - O Extraterrestre", "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" se escondia alguém contando a própria história. A história de um garoto judeu em uma família dividida pela traição e pelo divórcio.


Após anos "se escondendo" atrás de metáforas, Spielberg resolveu contar sua vida de forma mais direta; o estopim foi a pandemia, quando o diretor se viu preso em casa. Ele e o co-roteirista Tony Kushner escreveram o filme em uma série de sessões de conversas pelo "Zoom". O resultado é extremamente pessoal, claro, e mais franco do que eu imaginava. Como alguém que não só assistiu aos seus filmes como leu todas as entrevistas e biografias que conseguiu encontrar, o filme também foi estranhamente familiar para mim.

A versão de Spielberg em "Os Fabelmans" é um rapaz chamado Sam (Mateo Zoryan, quando criança, e Gabriel LaBelle quando adolescente). Sam foi levado pelos pais para assistir ao filme "O Maior Espetáculo da Terra" (1952), de Cecil B. de Mille, quando pequeno, e ficou obcecado por uma cena em que um trem atropela um carro. O garoto tentou reproduzir a cena diversas vezes, em casa, com um trem de brinquedo, para desespero do pai (Paul Dano). A mãe (Michelle Williams, ótima) então deu ao garoto uma câmera amadora de 8mm, com a qual ele recriou a cena vista no cinema. Este foi o início de uma vida dedicada a criar e reproduzir (e manipular) imagens. Com o passar dos anos, o jovem Sammy estaria sempre com uma câmera na mão, fazendo filmes amadores de guerra, westerns e ficção científica com as irmãs ou com colegas da escola e escoteiros.

O filme, porém, não é somente sobre o surgimento de um cineasta, mas o modo como ele interpretava a vida por detrás das lentes. O pai era um homem extremamente técnico, um dos primeiros especialistas em computadores; o trabalho o obrigava a mudar frequentemente de cidade em cidade com a família. A mãe era pianista clássica, uma pessoa sensível e volúvel. Havia outra pessoa nessa dinâmica, um amigo pessoal do pai chamado Bennie (Seth Rogen, surpreendente), que se tornou um "amigo" especial da mãe. Esse triângulo amoroso era visto, mas inicialmente não percebido, por Sammy e pelas irmãs.

Spielberg lentamente introduz o conceito da traição através de imagens que acontecem às margens da ação principal. De forma genial, ele também mostra como Sammy só se dá conta do que está acontecendo ao editar um filme caseiro de uma viagem em família (mais o "amigo" Bennie). É bem típico de Spielberg que a cena não tenha diálogos, só imagens do jovem olhando, assustado, para os trechos de filme Super8 que ele está editando.

Curioso como, apesar da infidelidade ter partido da mãe, Spielberg tenha culpado o pai em seus filmes. Em "ET", é o pai que "está no México com a Sally"; em "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", é o pai que abandona a família e parte para o espaço com os aliens. Separações apareceriam também em trechos de "Império do Sol", "Inteligência Artificial", "Guerra dos Mundos", "Prenda-me se for capaz", entre vários outros filmes da carreira do diretor. Em "Os Fabelmans", o jovem Sammy resolve esconder a traição da mãe tirando fora os trechos comprometedores do filme caseiro que mostra à família (assim como ele faria, depois, em sua carreira).

É um filme e tanto, um prato cheio para cinéfilos (há uma ótima cena que mostra o diretor John Ford) e fãs de Spielberg. O último plano é genial. Nos cinemas.

Aftersun (2022)

Aftersun (2022). Dir: Charlotte Wells. "Aftersun" é uma pequena joia de um filme. Passado em um hotel à beira-mar na Turquia, a trama acompanha alguns dias de férias de um pai e sua filha. Ele é Calum (Paul Mescal) e ela é Sophie (Frankie Corio, uma extraordinária atriz de 12 anos). Não sabemos muito da história dos dois... apenas que são pai e filha e o pai não mora com a mãe da garota. Os dois alternam cenas de extrema proximidade com outras em que há "algo" errado entre eles; há uma sensação estranha de que alguma ameaça pairando no ar, mas você nunca sabe exatamente porquê. Quem é pai vai reconhecer o sentimento de medo de que alguma coisa vai acontecer com os filhos, e vice versa. O filme brinca com essa sensação em várias cenas, como uma vez que o pai faz um mergulho no mar e não o vemos surgir de volta à superfície. Em outro momento, ele passa atrás de um ônibus e escutamos uma buzina. A garota entra na piscina, sozinha, e achamos que ela está em perigo. Interessante como o filme "brinca" com a plateia. Como já vimos muitos filmes antes, achamos que alguma coisa TEM que acontecer; na vida, geralmente, nada acontece, mas quem nunca ficou apreensivo sem motivo? (não vou dar SPOILER sobre se, ou quando, algo acontece, mas a sensação está sempre presente).

Outro tema recorrente é o da memória. Imagens em vídeo, de uma câmera que os dois usam, frequentemente aparecem na tela. São ângulos diferentes ou conversas entre os dois gravadas em estilo amador, e o pai revê várias cenas da filha quando esta está dormindo, como que tentando passar ainda mais tempo com ela. A garota, pré-adolescente, observa à distância a interação entre rapazes e moças mais velhas, flertando, bebendo, se beijando. A atriz que faz a garota é tão boa que vemos as dúvidas, confusões e expectativas que passam pela cabeça dela. Paul Mescal também está muito bem como um pai separado, claramente tentando compensar a falta com a viagem com a filha, se desculpando o tempo todo, gastando além do que pode e tentando preencher o espaço entre os dois. Fica a sensação de que tudo tem um fim (o que é verdade), tudo passa, e pai e filha tentam aproveitar ao máximo o tempo que têm juntos. Belíssimo. Disponível nos cinemas ou no Mubi (serviço de streaming)

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

A Luz é para Todos (Gentleman´s Agreement, 1947)

 
A Luz é para Todos (Gentleman´s Agreement, 1947). Dir: Elia Kazan. Star+. De vez em quando gosto de ver algum filme antigo, principalmente quando está escondido em um serviço de streaming. Este é de 1947 e venceu os Oscars de "Melhor Filme", "Diretor" (Kazan) e "Melhor Atriz Coadjuvante" (Celeste Holm). Gregory Peck é um jornalista da Costa Oeste que se muda para Nova York para escrever um artigo sobre antissemitismo para uma revista. Cristão, ele passa algumas semanas sem saber como abordar o tema quando... eureka! Ele decide que vai se apresentar como judeu a todos que encontrar, incluindo companheiros de trabalho e os familiares da nova namorada, Kathy (Dorothy McGuire). O roteiro, escrito por Moss Hart e adaptado de um livro de Laura Z. Hobson, é cheio daqueles "discursos" que você escuta de personagens em filmes mais antigos (ou alguns filmes brasileiros, hoje, rs). Não é uma reclamação, é só um fato... interpretação, diálogos e a própria cadência das falas eram mais teatrais naquela época (Hollywood havia saído dos filmes mudos há duas décadas).

Gregory Peck nasceu para fazer personagens íntegros e ele está muito bem no papel. O filme causou certa polêmica na época por expor o "acordo de cavalheiros" (título original do filme) que havia entre as pessoas de discriminar judeus no mercado de trabalho, nas escolas ou em contratos imobiliários. O personagem de Peck começa a ter problemas com a namorada porque, apesar dela apoiar a ideia, a coisa muda de figura quando ela tem que fingir que está se relacionando com um judeu.

É um bom filme, embora, visto hoje, pareça um pouco ingênuo. Como disse o crítico Peter Bradshaw no "The Guardian", simplesmente dizer que é judeu não torna uma pessoa um. Em nenhum momento Gregory Peck enfrenta problemas com a cultura judaica, a comida, religião, costumes, etc. Um judeu de verdade provavelmente perceberia que ele estava fingindo, mas ele interage com vários e ninguém percebe. O filme, hoje, provavelmente seria acusado de "lacração". A propósito: a cópia no Star+ está ótima, provavelmente passou por uma restauração.

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Louca Obsessão (Misery, 1990)

 
Louca Obsessão (Misery, 1990). Dir: Rob Reiner. Amazon Prime Video. A notícia da morte de James Caan me fez procurar este filme, que achei na Prime Video. É um bom suspense de Rob Reiner baseado em um livro de Stephen King (os dois já haviam colaborado no ótimo "Conta Comigo", de 1986). James Caan é Paul Sheldon, um escritor que ficou famoso por uma série de livros sobre uma personagem chamada Misery; só que ele estava cansado da personagem e resolveu "matá-la" em seu livro mais recente. Dirigindo durante uma nevasca, Sheldon sofre um acidente e é resgatado, vejam só, por sua "fã número um", Annie, interpretada por Katy Bates.

A não ser por pequenos papéis secundários, o filme é quase todo dos dois atores. A mulher leva o escritor para a casa dela e o mantém em cárcere privado. Ela quer que ele escreva outro livro ressuscitando a personagem de Misery. Katy Bates ganhou um Oscar pelo papel de Annie, o tipo de fã que é o pesadelo de todo escritor. O filme é de 1990 mas é curioso como ela se parece com a maioria dos fãs "tóxicos" que existem hoje na internet, falando mal de seus ídolos e ficando bravos quando suas franquias favoritas não seguem seus desejos.

James Caan, que morreu hoje, está muito bem como Paul Sheldon, que provavelmente é baseado em alguma história pessoal de Stephen King (ele deve ter alguns fãs bem estranhos). Assim como James Stewart em "Janela Indiscreta", de Hitchcock, Caan passa grande parte do filme preso a uma cadeira de rodas ou deitado em uma cama. O final é bastante violento. O roteiro é do veterano William Goldman, de clássicos como "Butch Cassidy" e "Todos os Homens do Presidente". Disponível na Amazon Prime Video.

domingo, 10 de abril de 2022

Deserto Particular (2021)

Deserto Particular (2021). Dir: Aly Muritiba. HBO Max. Filme brasileiro que foi o escolhido pelo país para tentar uma vaga no Oscar de Melhor Filme Internacional, mas não conseguiu (dizem que a falta de apoio e campanha atrapalharam bastante). É um filme com um belo visual (direção de fotografia de Luis Armando Arteaga), edição (Patricia Saramago), bom elenco e um tema que pode incomodar alguns, mas feito com sensibilidade.

Daniel (Antonio Saboia) é um policial de Curitiba que está afastado da corporação por ter agredido um recruta. Ele cuida do pai, que também havia sido militar e sofre de uma doença degenerativa. Daniel tem aquele jeitão rígido de policial, mas sofre de amores por uma mulher chamada Sara, com quem ele nunca se encontrou mas se comunica via Whatsapp; de uma hora para outra, Sara para de responder as mensagens de Daniel e desaparece. O rapaz resolve jogar tudo para o alto, entra no carro e parte para o nordeste, em uma longa viagem, em busca do amor da sua vida.

É um filme de vários silêncios e belas paisagens. O diretor gosta de fazer alguns takes longos, com a câmera fixa, em que os atores interpretam por vários minutos, sem corte. Um desses planos longos, passado em uma barcaça entre Sobradinho e Juazeiro, me lembrou o famoso plano sequência que Spielberg fez em "Tubarão", também passado em uma balsa entre dois portos. Há um aspecto da trama que pode se considerado um SPOILER, então esteja avisado caso queira parar por aqui. Não é muito difícil perceber que há algo "diferente" com relação a Sara e seus segredos. Daniel acaba tendo que entender os próprios desejos e lidar com seus preconceitos, e o filme vai para um lugar que eu não esperava. As interpretações são boas, embora, por vezes, soem teatrais.

"Deserto Particular" foi exibido no Festival de Veneza, onde ganhou o prêmio de público. Disponível na HBO Max.

domingo, 27 de março de 2022

A Pior Pessoa do Mundo (Verdens verste menneske, 2021)

A Pior Pessoa do Mundo (Verdens verste menneske, 2021). Dir: Joachin Trier. Acabei vendo só agora este filme da Noruega, que está concorrendo aos Oscars de roteiro adaptado e filme estrangeiro. Sem exagero, é um dos melhores do ano (e poderia facilmente estar no lugar de um dos dez indicados a melhor filme). É difícil de classificá-lo, mas ele está sendo chamado de "comédia romântica para adultos", rs. De fato, há vários momentos e tramas em "A pior pessoa do mundo" que lembram uma comédia romântica leve, mas o desenrolar da história é sempre mais adulto e realista.

Julie (uma excelente Renate Reinsve) é uma mulher que sempre lutou para ser a melhor em tudo. Tinha notas altas, o que a fez estudar Medicina. Só que, na faculdade, descobriu que estava mais interessada na mente das pessoas do que em seus corpos, e resolveu largar tudo para estudar Psicologia. Na faculdade viu que, talvez, sua verdadeira paixão fosse Fotografia... e assim por diante. Senti alguma influência da ótima série "Fleabag", de Phoebe Waller-Bridge, em Julie. Ela é uma mulher cheia de paixões e talento, mas sem muita direção.

Ela se apaixona por um cartunista mais velho, Askel (Anders Danielsen Lie), com quem vai morar junto. Eles se dão muito bem mas, frequentemente, brigam por causa do desejo dele de ter filhos e começar uma família. Julie então conhece um rapaz chamado Eivind (Herbert Nordrum), em uma festa de casamento. Há uma sequência ótima em que Julie e Eivind resolvem se conhecer, mas sem "trair" ninguém. Outra sequência maravilhosa envolve Julie "parando o tempo" e correndo pelas ruas de Oslo. O filme é dividido em 12 capítulos curtos. Como disse, momentos de "comédia romântica" são intercalados com cenas mais adultas envolvendo sexo, doença e morte. Julie toma algumas decisões que podem parecer que ela é "a pior pessoa do mundo", ou talvez seja simplesmente "a vida". Renate Reinsve ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes e, por mim, estaria no lugar de Nicole Kidman (e sua máscara de maquiagem) no Oscar. Em cartaz nos cinemas.  

segunda-feira, 21 de março de 2022

No Ritmo do Coração (Coda, 2021)

No Ritmo do Coração (Coda, 2021). Dir: Sian Heder. Amazon Prime Video. Este é o filme "bonitinho" do ano. Em meio a tantos filmes pesados no Oscar, "No Ritmo do Coração" talvez seja o mais "família", mais "normal" de todos (apesar de tratar de uma família longe do considerado "normal"). "No Ritmo do Coração" trata de uma família de pescadores que são surdos; ou melhor, dos quatro membros da família, somente a filha mais nova, Ruby (Emilia Jones) consegue ouvir e falar. O pai (Troy Kotsur), a mãe (Marlee Matlin) e o filho mais velho (Daniel Duran) estão acostumados ao fato de que Ruby é a "tradutora oficial" da família, mesmo que isso possa atrapalhar a vida dela.

O caso é que Ruby gosta muito de cantar e, atraída por um garoto da escola, ela resolve entrar para as aulas de coral; ela acaba chamando a atenção do professor de canto, Bernardo (Eugenio Derbez), que acha que ela tem talento suficiente para tentar uma bolsa de estudos na faculdade de música. Apesar de alguns momentos dramáticos, o filme é bastante bem humorado e otimista. A família de Ruby é batalhadora e, apesar dos problemas, eles estão acostumados a fazer tudo juntos e a apoiar um ao outro. Quando Ruby conta para a mãe que ela entrou para o coral, no entanto, a mãe acha que é apenas rebeldia de adolescência. "Se eu fosse cega você entraria para uma aula de pintura?", provoca a mãe.

"No Ritmo do Coração" pode ser a "zebra" do próximo Oscar, que acontece no dia 27 de março. O filme ganhou prêmios importantes como o do SAG (o sindicato dos atores) e do sindicato dos produtores de Hollywood, o que pode significar uma vitória ao Oscar de Melhor Filme. O favorito, até semanas atrás, era "Ataque dos Cães", de Jane Campion, que também ganhou vários prêmios (como o BAFTA e da associação de críticos), mas as previsões estão divididas. É um filme gostoso de ver, apesar de previsível. Troy Kotsur, que faz o papel do pai, venceu vários prêmios e é aposta certa para o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Quanto ao prêmio de Melhor Filme, acredito que a Academia adoraria terminar a cerimônia com um grupo de atores surdos subindo ao palco. Não acho que seja o melhor filme do ano, mas é bastante bom. Disponível na Amazon Prime Video.  

quinta-feira, 10 de março de 2022

Belfast (2021)

 

Belfast (2021). Dir: Kenneth Branagh. Belo filme do ator, diretor, roteirista e produtor Branagh, que ganhou fama produzindo filmes de Shakespeare (e dinheiro dirigindo filmes por encomenda como "Thor" ou "Cinderella"). É, sem dúvida, seu trabalho mais pessoal. "Belfast" se passa em 1969, ano em que começou um conflito na Irlanda do Norte que durou quase 30 anos. Vizinhos que por anos eram amigos se viram divididos por uma disputa politico/religiosa entre católicos e protestantes.

Branagh era um garoto na época e faz um filme bastante autobiográfico, em que os personagens principais sequer tem nomes (há apenas "Pai", "Mãe", "Vô", "Vó"); até o protagonista é um garoto de nove anos chamado de "Buddy" (um ótimo estreante, Jude Hill). É pelos olhos dele que vemos a tranquila rua em que a família vivia se transformar em um campo de batalha. Assim como Alfonso Cuarón fez em "Roma", Branagh retrata sua infância em maravilhosa fotografia em preto e branco. O pai (Jamie Dorman), passa várias semanas fora, trabalhando na Inglaterra. A mãe (Caitríona Balfe, da série "Outlander", excelente) se vê dias a fio sozinha, tendo que tomar conta da casa e dos filhos. Ciarán Hinds e Judy Dench são os avós amorosos do garoto.

Em meio ao caos do mundo adulto, Buddy devota sua atenção a uma garota que se senta na sua frente, na sala de aula, e se apaixona por ela. Há também menções ao pouso na Lua pelos astronautas americanos. E há, claro, o cinema, onde Buddy vai com a família sempre que pode (em um toque genial, Branagh mostra os filmes em colorido, contrastando com o preto e branco da vida real). Com todos os problemas acontecendo em Belfast, a família fica em um dilema: ficar no lugar em que amam ou partir para procurar uma vida melhor? O filme é dedicado aos que ficaram, aos que partiram e aos que morreram no caminho. Belíssimo. (indicado aos Oscar de Melhor Filme, Diretor, Roteiro Original, Ator e Atriz Coadjuvantes, Melhor Som e Melhor Canção (de Van Morrison). Nos cinemas.

sábado, 5 de março de 2022

Luca (2021)

Luca (2021). Dir: Enrico Casarosa. Disney+. Ok, eu estava errado. Resolvi rever "Luca", da Pixar, despreocupadamente e o achei bem melhor do que da primeira vez. Como disse no outro texto, o nome "Pixar" levanta muitas expectativas, o que me fez achá-lo simples demais, feito só para crianças. Não é bem assim. Retiradas as expectativas, "Luca" é simples, sim, mas de forma singela; os personagens poderiam ter mais profundidade (sem trocadilhos), mas há uma leveza e inocência que eu não senti na primeira exibição.

Ao contrário da maioria dos roteiros da Pixar, que são sempre muito bem construídos (situação "A" leva a situação "B" que se resolve lá para o final, etc) em "Luca" as situações parecem que simplesmente vão acontecendo. Há uma questão de pai ausente que não se explica ou parece sem resolução, mas na verdade o garoto Alberto acaba ganhando um pai adotivo no pai da garota Giulia. Ainda acho que o vilão Ercole merecia uma história de fundo para explicar suas motivações, mas ele é simplesmente uma figura patética de um rapaz que já não é mais criança e age como um garoto mimado.

Por fim, tecnicamente o filme é muito bonito, a animação em computação gráfica chegou a um nível em que parece realmente desenhada e pintada à mão, os garotos têm um visual "cartunesco" que é interessante e aquela vila de pescadores é simplesmente linda. "Luca" está indicado ao Oscar de Melhor Animação, mas tudo indica que vá perder para o (muito) inferior "Encanto". Disponível na Disney+.

sexta-feira, 4 de março de 2022

West Side Story (2021)

West Side Story (2021). Dir: Steven Spielberg. Disney+. Chega ao streaming a versão de Spielberg para o clássico musical de 1961 (que, por sua vez, era baseado em uma peça musical). Apesar de saber que Spielberg trabalhou com vários gêneros durante sua longa carreira, ainda me causa certa estranheza sua decisão de refazer um musical. O que não deveria ser surpresa é o quão bom ele é como diretor; poucos cineastas sabem posicionar e mover uma câmera como Steven Spielberg, e sua versão de "West Side Story" é realmente bonita de se ver. É também bem mais "realista", parecendo se passar na Nova York dos anos 1950, ao invés de em um cenário ou em um palco da Broadway. Por outro lado, como estamos vendo um musical, leva um tempo para se acostumar com o fato de que as pessoas, de repente, saem dançando e cantando pela tela.

O roteiro de Tony Kushner mudou algumas canções de lugar e tentou dar mais "relevância" à trama; há diversas falas em espanhol que não são legendadas, para dar mais "autenticidade". A briga entre as gangues "Jets" e "Sharks" agora tem como pano de fundo a destruição de parte da cidade para dar lugar a prédios modernos (e ao Lincoln Center). Tecnicamente é um deslumbre, da direção de fotografia de Janusz Kaminski (colaborador de Spielberg desde "A Lista de Schindler"), aos belos cenários de Adam Stockhausen e figurinos de Paul Tazewell.

Tenho que confessar que não sou grande fã de musicais (apesar de gostar de vários... "Cantando na Chuva" é um dos meus filmes favoritos); com duas horas e trinta e oito minutos de duração, há alguns números musicais que, sinceramente, são bem chatinhos (e eu posso ter acelerado alguns para chegar à próxima cena). É inegável, porém, que a trilha original de Leonard Bernstein e letras de Stephen Sondheim tem alguns grandes clássicos, como "Maria", "Tonight", "Somewhere", ou "America". Há também números bem chatinhos como "One Hand, One Heart" ou "I feel pretty". O elenco é também bem mais diverso e "realista" do que na versão de 1961 (que escureceu a pele dos atores que interpretavam porto-riquenhos). Ariana DeBose está excelente como Anita, e Rachel Zegler é mais natural do que Natalie Wood como Maria. Já Ansel Elgort, apesar de bastante esforçado, às vezes parece estar em outro filme. Rita Moreno, que venceu um Oscar na versão de 1961, está de volta em um papel especialmente criado para ela.

Com altos e baixos, o filme de Spielberg é bastante sólido e tem grandes momentos. Talvez ele devesse ter tido menos reverência às fontes originais e cortado uma canção ou outra. O filme está indicado a vários Oscar (Melhor Filme, Diretor, Fotografia, Atriz coadjuvante, Figurino, Som e Direção de Arte). Disponível na Disney+.

 

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Licorice Pizza (2021)

Licorice Pizza (2021). Dir: Paul Thomas Anderson. O filme é uma delícia, embora desconfie que seja daquele tipo de filme mais amado por cinéfilos do que pelo público em geral. Paul Thomas Anderson produz, escreve, dirige e faz a fotografia deste retrato de Los Angeles no começo dos anos 1970. Não há exatamente uma "trama", mas uma série de eventos acompanhando um romance "diferente" entre um ex-ator infantil e uma moça (um pouco) mais velha. Ele é Gary Valentine (Cooper Hoffman, filho do grande Philip Seymour-Hoffman) e ela é Alana Kane (Alana Haim, cantora e música do trio de pop rock "Haim"). Os dois estão estrelando nos cinemas pela primeira vez, o que é impressionante; Alana é um furacão, natural como uma atriz veterana. Cooper Hoffman (ainda) não tem o talento do pai, mas está no caminho.

O roteiro mostra como pano de fundo para o "romance" entre Gary e Alana eventos dos EUA e do mundo nos anos 1970, como a Guerra do Vietnam e a crise do petróleo. Gary, que luta com a mãe solteira para sobreviver, está sempre atrás de um novo "esquema", e Alana (que aparentemente não quer romance mas está intrigada pelo garoto) se torna sua sócia. Juntos eles vendem colchões de água, fazem testes em filmes, se juntam a uma campanha para prefeito e embarcam na onda dos fliperamas. Astros como Sean Penn e Bradley Cooper fazem participações especiais. A família de verdade de Alana aparece como a família dela (pai, mãe e irmãs). Há momentos em que parece que estamos vendo um filme caseiro de alto orçamento. Há também algo de "Era uma vez... em Hollywood", de Quentin Tarantino, no modo como Anderson recria a Los Angeles da época. O filme está indicado aos Oscars de Melhor Filme, Diretor e Roteiro Original. Em cartaz nos cinemas.