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domingo, 22 de outubro de 2023

Elementos (Elemental, 2023)

Elementos (Elemental, 2023). Dir: Peter Sohn. Disney+. Como vários dos últimos filmes da Pixar, parece que faltou a "Elementos" aquela revisão final no roteiro, aquele esforço extra que sempre elevou as animações do estúdio acima dos concorrentes. "Elementos" é melhor, porém, do que se falou por aí. O filme teve uma estreia ruim nos cinemas e considerado um fracasso mas, aos poucos, conseguiu se manter em cartaz e fazer uma bilheteria considerável.


A trama parece ter saído do fundo do baú de ideias do estúdio. Depois de perguntar "o que aconteceria se brinquedos tivessem sentimentos?" (substitua "brinquedos" por peixes, insetos, carros, monstros... e os próprios sentimentos, para os outros filmes da empresa), a Pixar apresenta agora o que aconteceria se os quatro elementos fundamentais, Água, Fogo, Terra e Ar convivessem em uma terra fantástica.

A criação de mundo não faz muito sentido. Vemos uma família de Fogo chegar à cidade dos Elementos; aparentemente, o Fogo é uma "raça" discriminada e eles quase não conseguem se estabelecer. Anos depois, Pai e Mãe Fogo têm uma loja em um bairro da cidade. O sonho do Pai é que a filha, Faísca, assuma a loja e, aham... "carregue a chama" da família. Faísca é uma garota esquentada que acaba conhecendo um membro do elemento água, Gota, por quem ela vai se apaixonar mas, antes... um MONTE de coisas vão acontecer. Há uma questão de um vazamento que pode destruir a loja; há um problema burocrático que, também, pode levar ao fechamento da lojinha; há uma sequência passada em uma espécie de partida de basquete, com a torcida fazendo a "onda" (entendeu?). Em suma, há um bocado de complicações que o roteiro coloca na sua frente até que, depois de quase uma hora de filme, ele se lembra que é um romance e, meio aos trancos e barrancos, Água e Faísca começam a se apaixonar.

Como disse, várias coisas não fazem muito sentido. A mãe do Gota diz à Faísca que os prédios do centro da cidade são todos feitos de vidro, o que pressupõe que o Fogo deveria ser bastante importante nessa sociedade, e não marginalizado. Fica difícil também entender o que é inflamável ou não...em algumas cenas tudo que Faísca toca se transforma em cinzas; em outras, não. Os prédios (os que não são de vidro) precisam de Terra e Água para serem construídos, mas isso nunca é mencionado. Eu sei que é um "filme para crianças", mas esse tipo de detalhe e comentário social é algo que a Pixar, nos velhos tempos, era craque em fazer, e o conceito parece desperdiçado aqui.

Mas é um filme bonitinho. Quando o romance finalmente engrena, com todas as complicações esperadas, "Elementos" fica melhor e tem um final satisfatório, embora tranquilo. Disponível na Disney+.

segunda-feira, 14 de março de 2022

Red: Crescer é uma Fera (Turning Red, 2022)

Red: Crescer é uma Fera (Turning Red, 2022). Dir: Domee Shi. Disney+. Mais uma animação da Pixar que está indo direto para o streaming; dizem as más línguas que a Disney está tentando "enterrar" a marca Pixar... será? De qualquer forma, "Turning Red" é a estreia na direção de longa metragens de Domee Shi, que ganhou um Oscar pelo ótimo curta-metragem "Bao" (que falava sobre uma mãe que sentia falta do filho, que havia saído de casa). Aqui o tema é parecido, embora toda a sutileza do curta tenha sido trocada por um estilo acelerado e frenético.

A personagem principal é uma garota de treze anos chamada Meiling (voz de Rosalie Chiang). Ela é de uma família chinesa (olha a Pixar mirando no mercado da China) que mora em Toronto, Canadá. A mãe (voz de Sandra Oh) é super controladora e a menina faz de tudo para ser "perfeita"; só que ela está com 13 anos e os hormônios começam a tomar conta. A trama é bastante feminina, de forma até ousada para os padrões da Pixar (não estamos mais no mundo de "Monstros S.A."). O caso é que a menina é "abençoada" por uma magia familiar que faz com que as mulheres se tornem um grande panda vermelho quando atingem a puberdade. A metáfora com a menstruação é bem óbvia (a mãe controladora chega a envergonhar a menina levando absorventes para a escola, na frente de todos os colegas).

A trama é passada em 2002 (ou seja, é um "filme de época", socorro, estou velho), mas algumas gírias e atitudes me pareceram bem atuais. Mei tem três amigas que, como ela, são apaixonadas por uma "boys band" chamada "4 Town", e tudo o que elas querem é ir ao show que eles vão fazer na cidade. Só que Mei se tornou um panda vermelho gigante... e agora? Pode parecer simples, mas debaixo da edição frenética, das músicas pop da trilha (compostas por Billie Eilish) e do colorido de "anime" há uma trama emocionante sobre uma menina querendo se tornar uma mulher independente. Não é um conceito novo, longe disso, mas é bem feito. Tenho a sensação de já ter visto parte desta história antes, seja em "A Caminho da Lua", animação de Glen Keane, ou no filme da Awkwafina, "A Despedida", ambos falando sobre uma garota chinesa lidando com a família controladora. É um dos filmes mais adolescentes (e femininos) da Pixar. Disponível na Disney+.

sábado, 5 de março de 2022

Luca (2021)

Luca (2021). Dir: Enrico Casarosa. Disney+. Ok, eu estava errado. Resolvi rever "Luca", da Pixar, despreocupadamente e o achei bem melhor do que da primeira vez. Como disse no outro texto, o nome "Pixar" levanta muitas expectativas, o que me fez achá-lo simples demais, feito só para crianças. Não é bem assim. Retiradas as expectativas, "Luca" é simples, sim, mas de forma singela; os personagens poderiam ter mais profundidade (sem trocadilhos), mas há uma leveza e inocência que eu não senti na primeira exibição.

Ao contrário da maioria dos roteiros da Pixar, que são sempre muito bem construídos (situação "A" leva a situação "B" que se resolve lá para o final, etc) em "Luca" as situações parecem que simplesmente vão acontecendo. Há uma questão de pai ausente que não se explica ou parece sem resolução, mas na verdade o garoto Alberto acaba ganhando um pai adotivo no pai da garota Giulia. Ainda acho que o vilão Ercole merecia uma história de fundo para explicar suas motivações, mas ele é simplesmente uma figura patética de um rapaz que já não é mais criança e age como um garoto mimado.

Por fim, tecnicamente o filme é muito bonito, a animação em computação gráfica chegou a um nível em que parece realmente desenhada e pintada à mão, os garotos têm um visual "cartunesco" que é interessante e aquela vila de pescadores é simplesmente linda. "Luca" está indicado ao Oscar de Melhor Animação, mas tudo indica que vá perder para o (muito) inferior "Encanto". Disponível na Disney+.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica (Onward, 2020)

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica (Onward, 2020). Dir: Dan Scanlon. Disney+. Confesso que conhecia pouco sobre esta animação. Foi lançada nos cinemas pouco antes da pandemia, fracassou nas bilheterias e foi parar na Disney+. Fiquei surpreso quando foi indicada ao Oscar de Melhor Animação. Resolvi visitar agora na Disney+ e me surpreendi positivamente. Não tem muito a "cara" de uma animação da Pixar, é mais urbana e adolescente, mas o roteiro é honesto e, coisa rara, ele melhora conforme avança.

A trama se passa em um mundo de fantasia em que a mágica se perdeu por causa das facilidades do mundo moderno, como lâmpadas elétricas, carros e outras comodidades. Ainda há elfos, centauros, dragões e coisas do tipo, mas estão todos "civilizados". O roteiro segue a vida de dois irmãos, Ian (voz de Tom Holland) e Barley (Chris Pratt); Ian, o mais novo, é tímido e inseguro. Barley, o mais velho, é confiante, falastrão e acredita piamente em magia e no poder dos velhos tempos. Os dois descobrem que o pai (que morreu quando Ian era bebê) deixou para eles um cajado mágico e um encantamento que permitiria que ele voltasse à vida por 24 horas. Só que a magia dá errado e apenas metade do pai (basicamente só as pernas) volta do além. Cabe aos irmãos partir em uma jornada atrás de uma pedra mágica que traria o pai, inteiro, de volta.

Como disse, o filme fica melhor conforme avança. A aventura dos irmãos é divertida e o filme, como todo produto Pixar, é tecnicamente muito bem feito. O bom trabalho de voz de Tom Holland e Chris Pratt é acompanhado por Julia Louis-Dreyfuss e Octavia Spencer, entre outros. Talvez não vire um clássico, mas é uma boa aventura. Disponível na Disney+.
 

domingo, 20 de junho de 2021

Luca (2021)

 

Luca (2021). Dir: Enrico Casarosa. Lançado diretamente na Disney+, esta animação da Pixar realmente está mais para um "filme de TV" do que para um lançamento de cinema. O nome "Pixar" traz um monte de expectativas, claro, então talvez "Luca" receba uma crítica menos favorável minha do que se fosse de qualquer outro estúdio. O visual, claro, é lindo. Passado na costa da Itália, a animação mostra um mundo ensolarado, de cores quentes, em que a gente pode imaginar as pessoas vivendo dentro de cada casinha daquela vila de pescadores. O mundo submarino também é bonito, embora a Pixar já o tenha explorado melhor em "Procurando Nemo" (2003).

"Luca" trata de criaturas que são "monstros do mar" quando estão embaixo d´água, mas que adquirem a forma humana quando estão em terra. O personagem título, Luca (voz de Jacob Tremblay) é um garoto que (como a Pequena Sereia) sonha em conhecer o mundo terrestre. Assim como Ariel, ele coleciona objetos que caíram dos barcos, como um relógio, um copo, etc. Um dia ele conhece outro garoto chamado Alberto (Jack Dylan Grazer) que também é um "mostro do mar" mas que gosta de viver na superfície, em uma pequena ilha. Os dois formam uma grande amizade e sonham em ter uma Vespa (a icônica scooter italiana) para conhecer o mundo. Eles então partem para um vila próxima (chamada Portorosso, no que me parece uma homenagem à animação de Hayao Miyazaki, "Porco Rosso").

É tudo bem leve e, no mau sentido, "para crianças", coisa que a Pixar não costuma fazer. O roteiro lança um bocado de ideias que são esquecidas ou deixadas de lado (por exemplo, Alberto diz que seu pai simplesmente o abandonou e foi embora; por que? Quem era ele?). Há uma garota, Giulia (Ema Berman), que quer vencer uma competição local de natação, bicicleta e comer macarrão (risos); ela faz amizade com Luca e Alberto e os recruta para a competição, mas o roteiro parece usá-la mais para criar intriga entre os garotos do que para ser uma personagem de verdade. Há um vilão chamado Ercole (Saverio Raimondo), que é o valentão da cidade... e só. Roteiros da Pixar costumam ser muito mais elaborados (às vezes, até demais), mas aqui temos apenas motivações genéricas dos garotos (serem "livres"), da menina ("vencer") e do vilão (ser um vilão). Há quem diga que a trama é, no fundo, uma alegoria LGBT, e você até pode ver o filme por esta ótica (embora a amizade entre os dois garotos seja bem platônica).

Resumindo, "Luca" é visualmente belo e é "bonitinho", para crianças. Poderia ter sido muito mais. Disponível na Disney+.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Moana (2016)

"Moana" é dirigido pelos lendários Ron Clemments e John Musker, que foram responsáveis pelo ressurgimento da Disney nos anos 1980 e 1990 com filmes como "A Pequena Sereia" (1989), "Alladin" (1992) e "Hércules" (1997). Eles dirigiram outros filmes juntos mas "Moana" é a primeira animação da dupla na era da computação gráfica e do 3D. Musker e Clemments trouxeram muitas das técnicas tradicionais da animação da Disney (da época em que ainda se desenhava com lápis e papel) e adaptaram ao novo processo em computação gráfica e o resultado é visualmente impressionante.

A trama, por outro lado, não é muito inovadora. Moana é uma garota que vive em uma ilha da Polinésia. Ela é filha do chefe da tribo e está destinada a ser a líder do grupo quando crescer. Mas (adivinhem?) ela sente que o destino dela está em outras paragens, além do horizonte infinito do mar, para onde ela sempre se sente atraída. Lendas também falam de um semi-deus chamado Maui que teria roubado uma pedra que seria o coração da criadora do mundo. Quando a colheita e os peixes começam a ficar escassos, Moana parte em um barco em busca de Maui para devolver a pedra à sua origem e trazer a fartura de volta ao seu povo.

Este primeiro ato, em minha opinião, é a melhor parte do filme. Os personagens são muito envolventes e há momentos bastante tocantes e mesmo épicos como quando Moana, auxiliada pela avó, descobre em uma caverna escondida na montanha que seu povo era originalmente formado por exploradores. No presente, no entanto, seu pai a proíbe de ir além dos recifes próximos.

Curiosamente, o filme perde um pouco do encanto quando Moana deixa seu lar e encontra Maui em uma pequena ilha no meio do oceano. Na versão original em inglês (boa sorte em tentar encontrar uma sessão que não seja dublada) Maui é interpretado por Dwayne Johnson, o "The Rock", o que deve fazer muita diferença na forma como o personagem é visto. Maui é convencido e orgulhoso, o que é interessante por alguns minutos, mas depois se torna repetitivo. O que havia de épico na jornada de Moana no primeiro ato se dilui com a chegada de Maui e o filme perde bastante do seu ritmo. Maui e Moana passam o resto do filme discutindo constantemente ou trocando piadas em longas cenas que, repito, chegam a cansar, o que é uma pena. Apesar disso, "Moana" ainda é uma animação acima da média e um filme bastante bonito e divertido.

João Solimeo

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Operação Big Hero

Parece que você está assistindo a dois filmes diferentes. "Operação Big Hero" (Big Hero 6) é, ao mesmo tempo, um terno filme sobre a amizade entre um garoto e um robô, por um lado, e um blockbuster de super-herói da Marvel, por outro.

Explica-se. A Disney comprou a Marvel há alguns anos e, precisando de conteúdo, pediu a seus executivos que vasculhassem o vasto arquivo da fábrica de heróis por alguma coisa que pudesse se transformar em um produto Disney. Encontraram "Big Hero 6", uma HQ produzida no final dos anos 1990 que só era conhecida pelos aficionados pelo gênero, o que dava carta branca para que a história original (que era adulta) pudesse ser mudada e adaptada para a sensibilidade dos espectadores dos estúdios Disney.

O resultado é um filme vibrante, vivo e colorido, com fartas doses de influência oriental. A história se passa na cidade de San Fransokyo, uma interessante mistura da cidade costeira americana com a capital do Japão. A famosa ponte Golden Gate, por exemplo, tem formas orientais, os neons estão escritos em japonês e até os personagens têm nomes japoneses, como Hiro Hamada, um garoto prodígio de 13 anos que gosta de competir em lutas clandestinas de robôs.

Um dia seu irmão mais velho, Tadashi, o leva até uma universidade que é o paraíso dos nerds, em que adolescentes de várias idades desenvolvem bicicletas flutuantes e outras coisas do gênero. O projeto de Tadashi é um robô médico chamado Baymax, que se parece com um marshmallow gigante. Tudo no robô inspira calma e tranquilidade e a função dele é tratar da saúde das pessoas. (leia mais abaixo)


Após um prólogo relativamente longo uma tragédia se abate sobre Hiro, que perde o irmão em um incêndio e herda dele o robô de fala tranquila. A relação entre os dois é muito interessante e tem influências claras de histórias como "E.T.", "Meu amigo Totorô", "Gigante de Ferro", "Como treinar seu dragão", entre outras. O filme provavelmente poderia ter sido apenas sobre isto, mas a partir de certo ponto o roteiro parece se lembrar que é também uma aventura da Marvel e o tom do filme muda radicalmente para a ação desenfreada.

O design japonês me lembrou muito Osamu Tezuka, criador de Astro Boy e dezenas de outros personagens de mangás e animês. "Operação Big Hero" tem um pouco de tudo e certamente vai agradar a diversas plateias, de crianças a adultos. Pessoalmente preferiria que o filme tivesse ficado mais no lado dos sentimentos e menos no lado aventura da Marvel, mas é questão de gosto (e de mercado). Também acho que teria sido melhor, do ponto de vista do estúdio, lançá-lo como um produto da Pixar (que já fez o ótimo "Os Incríveis") do que interromper a tradição dos "filmes de princesas" da Disney. É um bom filme, com visual impressionante (San Fransokyo parece viva e pulsante como uma cidade de verdade) e bons personagens. Sem dúvida haverá continuações em breve.

João Solimeo

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Frozen: Uma Aventura Congelante

"Frozen" foi entusiasticamente recebido pelo público americano, o que fez os estúdios Disney soltarem não só um grito de alegria como de alívio. Desde a fusão com os estúdios Pixar a Disney anda com problemas de identidade. A empresa tem um longo e tradicional passado por trás mas, ao mesmo tempo, tenta ser moderna e revolucionária como a irmã mais nova. Não ajuda muito o fato de que John Lasseter, o gênio por trás de sucessos como "Toy Story", na Pixar, hoje comande as duas companhias. O sucesso inesperado de "Frozen" parece ter trazido novo fôlego ao estúdio. (O filme venceu o Globo de Ouro de Melhor Animação no último domingo, em uma manobra que colocou o principal concorrente, a animação japonesa "The Wind Rises", na categoria de "filme estrangeiro") 

"Frozen" é colorido, muito bem feito e divertido, mas o roteiro está longe da inovação e ousadia de produções anteriores da própria Disney e da Pixar, como "Valente" ou "Enrolados". Seguindo a tradição dos "filmes de princesas", a trama é levemente inspirada em uma história infantil do dinamarquês Hans Christian Andersen, "A Rainha da Neve". "Frozen" apresenta duas princesas, a sonhadora Anna e a irmã Elsa, que tem poderes mágicos. Ela é capaz de congelar as coisas com as mãos e, em uma brincadeira com Anna, quando crianças, quase congela a irmã. Isso faz com que elas sejam isoladas uma da outra no grande castelo e acabem crescendo em separado. Anos depois, já crescidas, o castelo é aberto ao povo para a coroação de Elsa. Ela sempre usa luvas para evitar congelar as coisas, mas ela perde o controle quando descobre que Anna se apaixonou à primeira vista pelo Príncipe Hans. Elsa assusta a todos os convidados e, desesperada, parte para as montanhas para viver isolada, deixando todo o reino em um inverno perpétuo. Resta a Anna ir atrás da irmã para tentar trazê-la de volta e salvar o reino. (mais abaixo)


A animação é tecnicamente bem feita. Já há alguns anos a computação gráfica atingiu um nível em que quase não é mais possível distinguir personagens feitos no computador dos tradicionais desenhos feitos à mão dos antigos longas da Disney. É também um filme feito para garotas do século XXI, com muitas canções modernas que os personagens cantam de dez em dez minutos (o filme foi claramente pensado para se tornar um musical da Broadway). Muito se escreveu sobre a ousadia do roteiro mas, repetindo, havia muito mais vontade própria e determinação em Merida, a protagonista de "Valente", do que nas duas princesas de "Frozen". Elsa e Anna, aliás, poderiam render muito mais se o roteiro lhes desse mais espaço. O humor está garantido na presença de um boneco de neve chamado Olaf, que foi protagonista de um curta-metragem exibido recentemente nos cinemas. Falando em curta-metragem, antes da exibição de "Frozen" o público assiste a um ótimo curta estrelado por ninguém menos que Mickey Mouse, com um "design" que presta homenagem aos primeiros desenhos animados feitos por Walt Disney. Quanto a "Frozen", é diversão garantida para crianças, principalmente meninas. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.

Câmera Escura

sábado, 7 de setembro de 2013

Jobs

Filmes sobre figuras históricas costumam tratar de líderes religiosos ou políticos, pacifistas ou estrelas de rock. Filmes sobre empresários já foram feitos antes (como "Tucker, Um Homem e seu Sonho", 1988, de Francis Ford Coppola), mas poucos apresentaram seu protagonista de forma tão religiosa quanto "Jobs". Em se tratando da marca "Apple", no entanto, não é de se estranhar, já que a fábrica de computadores, desde seu início, não tinha apenas "clientes", mas "seguidores", e Steve Jobs era seu profeta. Jobs morreu de câncer em 2011, deixando um legado impressionante de inovações tecnológicas como o iPod, o iPad, o iPhone e tantos outros que mudaram o modo como as pessoas interagem com os aparelhos eletrônicos.

Diante disso, é uma pena que a primeira cinebiografia a respeito do californiano seja tão "quadrada" e sem brilho. A melhor surpresa é a interpretação de Ashton Kutcher, que praticamente carrega o filme sozinho, com um bom trabalho ao emular Jobs. Financiado de forma independente, o filme foi feito às pressas para chegar às telas antes da produção da Sony Pictures que será baseada na biografia oficial de Steve Jobs, escrita por Walter Issacson. O filme da Sony, além de ter um orçamento muito superior, está sendo escrito pelo premiado roteirista Aaron Sorkin, que ganhou o Oscar em 2011 por "A Rede Social". Foram os diálogos rápidos e inteligentes de Sorkin que tornaram o filme sobre o Facebook interessante. Enquanto isso, em "Jobs" (dirigido por Joshua Michael Stern e escrito por Matt Whiteley), o roteiro se arrasta e o espectador assiste a longas sequências em que "nerds" em uma garagem ficam soldando circuitos em uma placa de computador, ou executivos tramam vinganças ao redor de mesas de reunião.

É verdade que não só o lado bom de Jobs é mostrado. De temperamento difícil, o futuro criador do iPod é visto humilhando técnicos que não se comprometiam 100% com sua "visão" da empresa. No lado pessoal, ele negou a paternidade de uma menina que teria tido com a namorada. Era frequente também que ele tomasse para si o crédito por criações e inovações que não eram dele; o primeiro computador Apple, por exemplo, teria sido criado por Steve Wosniak (Josh Gad), seu amigo e sócio. A Apple Computer começou na garagem dos pais de Jobs e, nos primeiros meses, era tocada por Jobs, Wosniak e um grupo de técnicos que trabalhavam praticamente de graça. Quando a empresa cresceu, no entanto, Jobs se recusou a ceder ações para os antigos companheiros. Há uma cena em que Jobs é visto provando do próprio veneno, quando Bill Gates teria copiado o sistema operacional do Macintosh e criado o Windows, passando a perna na Apple. A rivalidade duraria décadas, mas o filme apenas mostra um telefonema de Jobs ameaçando processar Gates. Steve Jobs foi afastado da própria empresa em 1985 e criou a Next. (O filme não mostra como, em um golpe de "sorte", ele comprou de George Lucas uma pequena produtora de animações chamada Pixar, em 1986, e a transformou em uma empresa bilionária). Com altos e baixos, "Jobs" se apoia muito na interpretação de Kutcher para se manter em pé, e apesar de ser um bom trabalho do ator, não é o suficiente.

sábado, 22 de junho de 2013

Universidade Monstros

Mike Wazowski e James Sullivan estão de volta. Doze anos depois de estrelarem o filme da Pixar "Monstros S.A.", a dupla retorna às telas em uma animação que os mostra durante a adolescência, quando eram universitários. Mike (voz original de Billy Crystal) sonhava em ser um "assustador" desde criança, quando foi visitar a "Monstros S.A." em uma excursão da escola. Um "assustador" é um monstro cuja profissão é entrar no quarto das crianças durante a noite e lhes dar um susto. O grito gera a energia que alimenta o mundo em que vivem Mike, Sullivan e milhares de outros monstros.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Detona Ralph

"Detona Ralph" é fruto da geração fliperama, que gastava fortunas em fichas de "Pac Man" e "Space Invaders" antes que os consoles invadissem as casas. Ele tem como protagonista Ralph, o personagem de um jogo fictício aos moldes de "Elevator Action" e "Donkey Kong". Sua única função é "detonar" as janelas de um prédio de apartamentos, que são rapidamente consertadas por Felix, um rapaz com um martelo mágico. Ao final de cada jogo, Ralph é atirado de cima do prédio pelos moradores enfurecidos e passa a noite no lixão do mundo virtual. O começo do filme é bastante bom.  Ralph é visto em uma reunião aos moldes dos "alcoólicos anônimos" em que ele fala de suas frustrações por ser um vilão. Jogadores vão reconhecer figuras famosas do mundo dos games como o fantasminha do jogo "Pac Man", do Dr. Robotnik (do "Sonic") e de outros vilões de jogos como "Street Fighter" e "Super Mario". Vilões e heróis dos vários fliperamas passeiam pelos fios de força entre as máquinas, todas ligadas em uma espécie de estação de trem central.

Ralph, chateado por não ter a mesma fama dos heróis, decide invadir um jogo de tiro, muito mais moderno, para conseguir uma medalha e provar para os companheiros do seu mundo que ele vale tanto quanto Felix, o herói. Ele é bem sucedido, mas ao ser atacado por um inseto estilo "Aliens" ele vai parar em outro jogo, bastante feminino e "fofinho", passado em um mundo feito de balas e doces. É então que  o roteiro de "Detona Ralph" se perde completamente. O início é bastante promissor; a ideia de uma história passada dentro de um videogame não é nova, a mesma Disney fez "TRON" em 1982, mas era um filme adulto e cerebral. "Detona Ralph" prometia ser uma aventura divertida que, ao mesmo tempo que homenageava os jogos antigos, daria ao espectador uma viagem por dentro deles. Mas não é o que acontece. Personagens famosos dos games como os vilões já citados são acompanhados por aparições rápidas do porco-espinho Sonic, por exemplo, mas é de se perguntar porque os roteiristas do filme (o diretor Rich Moore, Phil Jonston, Jim Reardon e Jennifer Lee) resolveram passar grande parte da trama dentro de um mundo feito de chocolate, biscoitos e doces ao invés de em um mundo virtual quer realmente lembrasse um videogame. Neste mundo feito de açúcar, Ralph se torna aliado de uma garota irritante chamada Vanellope, que quer vencer uma corrida de carros para voltar a ser aceita como integrante daquele jogo (ela é considerada por todos um "bug" no sistema). O fato dela sequer saber dirigir só é uma desculpa para Ralph, que também não sabe, treiná-la por vários minutos do filme. Por esta descrição já dá para perceber o quanto os roteiristas se perderam.

"Detona Ralph" é, oficialmente, um produto dos estúdios Disney, embora tenha ficado confuso atribuir a autoria depois que eles se fundiram com os estúdios da Pixar. É um filme que deve agradar a crianças pequenas. Infelizmente, grande parte do público alvo (fãs nostálgicos dos games antigos) vá ficar entediado. Visto no Topázio Cinemas, Campinas.


PS: Antes do longa há a exibição de um ótimo curta-metragem animado chamado "Avião de Papel" (Paperman), dirigido por John Kahrs. Passado em Nova York, o curta conta a história de um rapaz que encontra acidentalmente uma moça em uma estação de trem e os dois se apaixonam, mas vão cada um para um lado. Quando o rapaz está no escritório ele vê a moça do outro lado da rua e tenta chamar a atenção dela com vários aviões de papel que ele faz com os formulários do trabalho. Muito bem feito (e bem melhor do que "Detona Ralph"). Clique AQUI para ler mais a respeito da técnica por trás deste curta.




segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Procurando Nemo 3D

Quando John Lasseter apresentou "Luxo Jr." (assista aqui), primeiro curta metragem feito pela "Pixar Animation Studios" em uma feira de tecnologia, em 1986, um figurão da área veio conversar com ele. Lasseter já estava esperando alguma pergunta técnica sobre algoritmos mas, ao invés disso, lhe perguntaram se a luminária maior era a mãe ou o pai da menor. Mais do que a tecnologia, o trunfo da "Pixar" sempre foi o lado humano da história, a preocupação com o roteiro. 

"Procurando Nemo" é de 2003 e já pode ser considerado um clássico. A animação está de volta aos cinemas em versão 3D; sim, pode ser considerado mais um relançamento "caça-níqueis" de um estúdio explorando os próprios filmes, mas "Procurando Nemo" é tão bom que vale voltar ao cinema para vê-lo na tela grande. O roteiro é um primor e é possível imaginar o grupo de roteiristas da "Pixar" ao redor de uma mesa jogando ideias como: "E se Dory tivesse um problema de memória?"; ou "Vamos colocar uns tubarões na história, mas que tal fazê-los em uma reunião dos Alcoólicos Anominos?"; ou mesmo "Já que o aquário fica em um consultório dentário, por que não escrever um diálogo em que os peixes discutem as técnicas usadas pelo dentista para tratar de um paciente?". São estes detalhes, e centenas de outros, que sempre colocaram a "Pixar" acima dos outros estúdios de animação. Ou, ao menos, até recentemente, quando o estúdio parece ter perdido a originalidade. Mas esta é outra discussão.

"Procurando Nemo" conta a história de Marlin, um peixe-palhaço que faz de tudo para reencontrar o filho Nemo depois que este foi capturado por mergulhadores nos recifes de coral na Austrália. Marlin (voz original de Albert Brooks) é um pai traumatizado por ter perdido a esposa e centenas de filhotes que foram devorados por uma barracuda. Nemo foi o único sobrevivente e o pai sempre foi excessivamente protetor. A jornada de Marlin do recife de coral até Sydnei, para onde o filho foi levado, é acompanhada por Dory, uma peixinha azul que sofre de memória curta. Quando está com Marlin, estranhamente, ela se sente melhor e é a única que se lembra do endereço dos mergulhadores, que ela leu em uma máscara de mergulho derrubada no mar. A viagem dos dois é uma aventura em que eles enfrentam tubarões, um cardume de águas-vivas, um passeio em alta velocidade por uma corrente marítima e até passam um tempo dentro de uma baleia gigante. Em paralelo, Nemo tem que encontrar um modo de tentar fugir do aquário em que foi colocado, onde encontra peixes como Gil (voz original de Willen Dafoe), um veterano do mar que há anos também tenta escapar. O filme foi escrito e dirigido por Andrew Stanton que, cinco anos depois, faria outra obra-prima da "Pixar", "Wall-E". "Procurando Nemo" e "Wall-E", a propósito, são provavelmente as duas animações mais belas visualmente produzidas pelo estúdio. As cenas passadas no recife de coral, com suas centenas de espécies de peixes, anêmonas, estrelas do mar, arraias, etc, são extremamente realistas e coloridas, e o efeito tridimensional, no caso, até veio adicionar ao encanto.

Interessante como o roteiro é, no fundo, uma homenagem aos contadores de histórias. Marlin começa o filme como um peixe-palhaço que não sabe nem mesmo contar uma piada. Suas aventuras, no entanto, fazem com que ele tenha o que contar e ele narra sua busca pelo filho para vários personagens no caminho. Há uma sequência muito boa em que se vê sua história ser passada para frente pelos peixes até chegar aos ouvidos de Nemo, que sabe que o pai está vindo. Assim, mesmo que seja um relançamento, "Procurando Nemo" vale a visita à telona. Visto no Kinoplex, Campinas.

sábado, 21 de julho de 2012

Valente

O estúdio Pixar se notabilizou por trazer à animação um sopro novo, fugindo das tradicionais histórias de princesas pelas quais Walt Disney construiu seu império. Filmes como "Toy Story", "Procurando Nemo", "Os Incríveis", "Monstros S.A", etc, eram não só tecnologicamente avançados como traziam histórias originais e divertidas. Os tempos mudaram. A Pixar cresceu tanto que acabou embarcando a Disney e hoje são um só gigante da animação, e a empresa vive uma crise de identidade. Se, por um lado, o ótimo "Enrolados" continuava a tradição dos filmes de princesa da Disney, os filmes da própria Pixar, como o desastroso "Carros 2" ou mesmo o bom "Toy Story 3" mostraram o desgaste do estúdio de John Lasseter. Entre os trailers para "Valente" estava um sobre uma continuação desnecessária de "Monstros S.A.", que não promete ser grande coisa. Será que a empresa perdeu a originalidade?

Chegamos então a "Valente", animação que, da Pixar, só tem a qualidade técnica excelente. Ele funciona melhor como filme de princesa da Disney, e deve ser encarado desta forma. Merida é uma princesa na Escócia medieval com longos cachos ruivos. Assim como a Pequena Sereia, ela não quer seguir a educação tradicional imposta pelos pais e vive brigando com a mãe, que é mandona e cheia de regras. Para complicar, três clãs rivais chegam ao reino com a intenção de disputar um torneio; a tradição diz que o primogênito do clã vencedor ganhará a mão da princesa. Merida foge dos pais e faz um pacto com uma bruxa que vive no meio da floresta. Um feitiço acaba transformando a mãe de Merida em um gigantesco urso pardo, o animal que o pai de Merida, o rei Fergus, mais odeia no mundo. Ele perdeu uma perna para um urso há muitos anos, quando a filha era criança, e havia jurado vingança.

"Valente" é escrito e dirigido por Branda Chapman e Mark Andrews; Chapman foi a primeira mulher a dirigir um longa-metragem de animação de um grande estúdio, o ótimo "Príncipe do Egito" (1998), na DreamWorks, e Andrews trabalhou como desenhista de storyboards em vários filmes. A técnica em "Valente" é excelente, embora o visual não seja exatamente original, lembrando muito "Como treinar seu dragão", filme da DreamWorks de 2010. Duas coisas difíceis de se fazer em computação gráfica, cabelo e água, em "Valente" são apresentados em sua melhor forma. O roteiro, que se arrasta um pouco na primeira parte, melhora bastante a partir da transformação da rainha em urso. Há uma cena muito boa (e tecnicamente impressionante) em que Merida tenta ensinar à mãe como pescar com as próprias mãos em um rio. Os três irmãos mais novos de Merida, gêmeos e ruivos como a irmã, servem para criar cenas engraçadas para as crianças da platéia. De inovação mesmo, "Valente" traz apenas o fato de que, produto genuíno do novo milênio, não há a necessidade de um "príncipe encantado" para criar um final feliz. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.

PS: Antes do filme começar, há a exibição de um curta-metragem chamado "La Luna", sobre três gerações de homens que poderiam ser descritos como "faxineiros" da Lua. O curta de animação é muito bem feito e extremamente poético. 

sábado, 24 de dezembro de 2011

Missão: Impossível - Protocolo Fantasma

Tom Cruise, aos 49 anos, produz e estrela este quarto filme da série Missão: Impossível, que foi levada ao cinema pela primeira vez em 1996 por Brian De Palma. O segundo filme, dirigido pelo chinês John Woo em 2000, transformou a série em um veículo para o estrelismo de Cruise, que se tornou um James Bond alternativo. J.J. Abrams, em 2006, deu ao agente Ethan Hunt um motivo mais humano para lutar, colocando Michelle Monaghan como a namorada em perigo que ele tem que salvar.

Quando o tema já parecia esgotado, eis que surge Cruise novamente com direção de Brad Bird, que fez sua carreira no mundo da animação. Ele começou dirigindo episódios da série "Os Simpsons" e fez um ótimo longa metragem, "O Gigante de Ferro" (1999), que foi vítima de um mau lançamento dos estúdios Warner, tornando-se um fracasso. Os estúdios Pixar reconheceram seu talento e Bird fez dois sucessos em seguida, "Os Incríveis" (2004) e "Ratatoille" (2007). Quem viu "Os Incríveis" vai reconhecer o talento de Bird em criar cenas de suspense e de espionagem. As cenas em que o Sr. Incrível e a Sra. Elástico têm que invadir o quartel general do vilão Síndrome lembram muito "Missão: Impossível".

"Protocolo Fantasma" traz de volta o espírito de equipe da série original, assim como um senso de humor muito bem vindo. Ethan Hunt se vê envolvido em uma trama que retoma os temas da Guerra Fria quando um agente russo chamado Cobalto (Michael Nyqvist) rouba um lançador de mísseis nucleares do Kremlin. Ele tem um plano (apropriadamente maluco) de que a paz mundial pode ser alcançada após uma guerra nuclear, assim como Hiroshima e Nagasaki se tornaram símbolos depois da II Guerra Mundial. Hunt é acompanhado pelos agentes Benji (o britânico Simon Pegg), Jane (Paula Patton) e Brandt (Jeremy Renner) em uma aventura passada em Moscou, Dubai, Bombain e São Francisco. A sequência passada em Dubai é a mais espetacular e, paradoxalmente, a que menos faz sentido. Para alcançar os servidores do prédio mais alto do mundo, o "Burj Khalifa", Ethan Hunt tem que escala-lo por fora, estilo "homem-aranha", usando luvas especiais. A cena é muito bem feita, com Cruise pendurado a centenas de metros do chão, mas uma pergunta simples derruba qualquer verossimilhança: ninguém pode vê-lo de dentro do prédio? Mais interessantes são as cenas em que Hunt e Benji invadem o Kremlin usando uma tela que os faz invisíveis, ou a sequência em que Paula Patton usa seu "charme" para conquistar um playboy da mídia em Bombain, Índia.

Há uma tentativa de humanizar a história com uma subtrama envolvendo o passado do personagem de Renner e Cruise, mas este é, essencialmente, um filme de ação. Neste aspecto, "Missão: Impossível - Protocolo Fantasma" é extremamente bem sucedido. Brad Bird mantém a adrenalina alta o tempo todo sem atropelar o espectador. O filme é relativamente longo, com 133 minutos, e tem tempo de se desenvolver. O cinquentão Cruise tem várias cenas de heroísmo mas o roteiro dá chance aos outros personagens de ter seus momentos de aventura. A trilha de Michael Giacchino (o melhor compositor de trilhas atualmente) retoma o tema original de Lalo Schifrin, adaptando-o para os diversos países onde se passa o filme. Há uma cena final que deixa clara a possibilidade de outras contiuações; resta saber até quando Tom Cruise vai conseguir passar a imagem de galã de aventuras. Visto no Topázio Cinemas.


sexta-feira, 24 de junho de 2011

Carros 2

O estúdio de animação Pixar sempre se manteve acima da concorrência nos quesitos técnica e roteiro. Seus filmes animados conquistaram o público de tal forma que se tornaram clássicos instantâneos, tomando a frente da indústria de animação e superando até os tradicionais estúdios Disney, com quem se fundiram e tomaram o controle criativo. Pois bem, eis que um de seus fundadores e principais nomes, John Lasseter, lança agora um filme puramente caça-níqueis, na linha daquelas continuações de segunda classe que a Disney fazia de seus clássicos e lançava direto para o DVD.

"Carros 2" é uma decepção em vários níveis, a não ser no técnico, claro. O trabalho de animação é impecável e o design continua criativo. O primeiro filme, lançado em 2006, era curioso na forma como adaptava não só o mudo dos seres humanos para os personagens de quatro rodas, mas também a própria natureza. As largas paisagens do oeste americano tinham a forma aerodinâmica de grandes Cadillacs, por exemplo, e isto se repete na continuação.

Mesmo não sendo dos melhores filmes da Pixar, o roteiro nostálgico pregava valores como a revalorização das pequenas cidades e uma desaceleração geral do modo de vida. Era uma fantasia fechada e que não precisava de continuações. Na falta de uma boa idéia para "Carros 2", Lasseter simplesmente pegou uma fórmula muito usada (os filmes de espionagem) e arbitrariamente a aplicou aos personagens de "Carros". Poderia ter feito a mesma coisa (com os mesmos resultados ruins) com os brinquedos de "Toy Story", talvez. Quem sabe a coisa funcionasse melhor com os heróis de "Os Incríveis"? Fica clara, infelizmente, a intenção de ganhar dinheiro nas férias da criançada e vender brinquedos.

Sim, as crianças pequenas, principalmente os garotos, vão gostar de ver Relâmpago MacQueen e o guincho Mate se aventurando por países como Japão, Itália, França e Inglaterra em um campeonato mundial de corridas. Um milionário diz ter criado um combustível totalmente orgânico e organizou esta disputa para provar que a era do petróleo terminou. Só que um cientista alemão quer estragar estes planos e criou uma arma que destrói os carros que estiverem usando este combustível. Um agente secreto britânico, Finn McMíssil (voz de Michael Caine, no original) e a sexy Holly Caixadebrita acabam contando com a ajuda de Mate para desvendarem o mistério. Assim, o capiria desastrado Mate acaba tomando o papel de protagonista de "Carros 2", deixando Relâmpago como mero coadjuvante. O roteiro capenga apela para cenas de corrida (narradas por Luciano do Valle, na versão dublada) ou de ação, com todos os tiros e explosões que se esperam de um filme de James Bond. Ou seja, exatamente o contrário de tudo que se plantou no primeiro "Carros". Bola fora da Pixar.


sábado, 12 de março de 2011

Rango

O trailer de "Rango", bastante engraçado, tenta passar uma imagem de mais uma animação leve para crianças, com muita correria e piadas fáceis. Quem for ver o filme vai dar muitas risadas, sim, mas "Rango" é muito mais do que isso; é mais adulto e inteligente do que a maioria dos filmes americanos em cartaz. A direção é de Gore Verbinski, diretor de "Piratas do Caribe", e é a primeira animação produzida pela empresa de efeitos especiais de George Lucas, a ILM (Industrial Light and Magic). O resultado é um filme tecnicamente perfeito, com uma qualidade visual e um nível de detalhes impressionante. Nos créditos pode-se ver o nome do diretor de fotografia Roger Deakins como "consultor visual". Deakins é um dos melhores fotógrafos do cinema, tendo trabalhado constantemente com os irmãos Coen ou com M. Night Shyamalan. Os detalhes, a luz e as texturas vistas em "Rango" só têm paralelo em animações como "Wall-E" ou "Como treinar seu dragão"; não coincidentemente, Roger Deakins foi "consultor" também nestes dois outros filmes.

"Rango" conta a história de um camaleão que cai do carro de seus donos e se vê perdido em pleno deserto de Mojave, no oeste americano. Ele recebe ajuda de um misterioso tatu que só fala por meio de metáforas e que o direciona no caminho da pequena cidade de "Dirt" (poeira), no meio do deserto. "Dirt" é a típica cidade do velho oeste, com o "saloon", o banco, a prefeitura, o ferreiro e a funerária. Todos estão passando por dificuldades pela falta de água, que misteriosamente deixou de correr pela região. Há um sem número de referências cinematográficas no roteiro, mas a influência principal é dos faroestes italianos de Sergio Leone. Há um "coro" de corujas que nos conta a história e acompanham a trilha sonora. A questão da falta de água e suas implicações políticas vêm diretamente do clássico "Chinatown", dirigido por Roman Polanski em 1974. Até o prefeito da cidade, uma tartaruga inteligente e traiçoeira, é claramente baseada no personagem que John Huston interpretou naquele filme.

O camaleão se faz passar por um sujeito durão e adota o nome de "Rango" (tirado do rótulo de uma bebida chamada "Durango"). Toda a cidade fica impressionada com ele quando, por acidente, ele mata a principal ameaça do lugar, uma águia. O prefeito faz dele o novo cherife e ele logo se vê envolvido em uma investigação; quem teria roubado a água do banco? Por que a fazendeira "Feijão" (uma lagarta que vai se apaixonar por Rango) afirma ter visto água ser despejada no deserto? Por que é que o prefeito parece ser o único da região a não sofrer com a falta de água? Todas estas perguntas e intrigas são desenvolvidas no ótimo roteiro escrito por John Logan, que faz uma mistura de velhos filmes de faroeste com a intriga de "Chinatown". A trilha de Hanz Zimmer flerta com os clássicos que Ennio Morricone compôs para Sergio Leone ou com a música de "Sete Homens e um Destino", composta por Elmer Bernstein.

"Rango" já é opção certa para o Oscar de Melhor Animação para 2012. Seu roteiro é inteligente e, tecnicamente, eleva a computação gráfica a um nível de realismo impressionante. Se cuide, Pixar.


segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Enrolados

A produção de "Enrolados" passou por muitos problemas. Originalmente chamado de "Rapunzel", a produção da Disney era para ser um desenho animado tradicional, feito à mão e seguindo a longa tradição do estúdio. Mas os tempos mudaram, os animados em computação gráfica se tornaram a norma e uma concorrente, a Pixar, havia tomado o posto de principal estúdio de animação do mundo.

Disney e Pixar se fundiram, executivos mudaram de posição na empresa e John Lasseter, o gênio criativo por trás de "Toy Story" e outros sucessos se tornou produtor executivo de "Rapunzel", que depois de muitas mudanças passou a se chamar "Enrolados". O filme foi feito em computação gráfica e, seguindo outra tendência, em 3D. O resultado, surpreendentemente, é excelente. "Enrolados" pode ser considerado um marco na fusão das novas tecnologias com o traço tradicional do desenho animado da Disney. Não só isso; o coração do filme está em algo que a Pixar, com toda sua tecnologia, sempre prezou muito: o roteiro.

Seguindo a tradição das princesas da Disney como Cinderela, A Bela Adormecida e a Pequena Sereia, "Enrolados" conta a história de Rapunzel, uma princesa com cabelos mágicos que têm o poder de manter as pessoas jovens e de curar feridas. Ainda quando bebê, ela é sequestrada por uma bruxa chamada Gothel, que se torna sua mãe. Superprotetora, Gothel coloca Rapunzel em uma alta torre em um local secreto da floresta, onde a garota passa todos os dias de sua vida. Ela tem curiosidade sobre o mundo lá fora, claro, mas as histórias de terror que sua mãe lhe diz faz com que ela também tenha muito medo de sair da sua prisão sem grades. Uma vez por ano, em seu aniversário, o palácio solta balões iluminados no céu, na esperança de que a princesa ache o caminho de volta para casa. A cena em que a garota, aos 18 anos, pede de presente para a mãe que a deixe sair da torre valeria teses de psicologia sobre o poder da influência dos pais sobre a liberdade dos filhos. Gothel aterroriza e ridiculariza a menina de tal forma que Rapunzel, apesar de ainda querer fugir, se sente segura e protegida na alta torre da floresta. Até que um dia um ladrão chamado Flynn Ryder, fugindo dos guardas do palácio, acaba chegando até a torre, e no momento que Rapunzel olha para ele sabe que tudo mudou em sua vida.

Além do ótimo roteiro, a técnica de "Enrolados" é impressionante. A influência e know how da Pixar se fazem sentir em cada plano; os cenários são ricos em detalhes e os personagens não se movimentam como bonecos de computador. O 3D é muito bem usado e não é somente um chamariz de bilheteria. A trilha sonora tem músicas de Alan Menken, um dos responsáveis pelo ressurgimento da Disney no mundo da animação em "A Pequena Sereia" (1989) e vencedor de oito Oscars em filmes como "A Bela e a Fera", "Aladinn" e "Pocahontas". O filme tem cenas ótimas, como a passada dentro de uma taverna escura, cheia de bandidos (que acabam se revelando sensíveis e de bom coração) ou a primeira vez que Rapunzel sai da torre, alternando momentos de extrema alegria com outros de depressão e culpa. Há também um personagem coadjuvante, um camaleão que faz companhia a Rapunzel na torre, que rende boas gargalhadas. Mas a melhor cena, para entrar para a história da Disney, é o momento em que Flynn e Rapunzel, em um barco, acompanham o lançamento dos balões iluminados ao céu.

Clássico instantâneo.