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quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

O Menino e a Garça (Kimitachi wa dou ikiru ka, 2023)

O Menino e a Garça (Kimitachi wa dou ikiru ka, 2023). Dir: Hayao Miyazaki. Como falar do novo filme de Hayao Miyazaki? A sensação é a de estar vendo um sonho. Há passagens sérias e realistas como quando um garoto perde a mãe em um bombardeio em Tóquio, na 2ª Guerra Mundial; há, também, cenas que mostram periquitos gigantes e coloridos fazendo bolos e se preparando para cortar o mesmo menino em pedaços. Cenas cheias de simbologia e seriedade são entrecortadas por imagens de seres "fofinhos" que flutuam no ar como balões de festa (para, em seguida, serem devoradas por pelicanos famintos).
Miyazaki está com 83 anos e tem um modo todo particular de trabalhar. Há um documentário bem interessante na internet sobre os bastidores de "Ponyo" (2008), em que vemos o mestre japonês pensando em como começar o filme. Animações americanas, por serem caras e trabalhosas, costumam ser pré-produzidas nos últimos detalhes, com criação de storyboards precisos e gravação das vozes. Já Hayao Miyazaki parece criar conforme vai produzindo, o que pode explicar o sentimento de "sonho" ou "fluxo de consciência" presente em várias de suas animações.
O roteiro de "O Menino e a Garça" é remotamente baseado em um livro de Genzaburō Yoshino, de 1937 (que, aliás, aparece no filme). A trama, no entanto, teria sido baseada na infância de Miyazaki. O garoto Mahito (Soma Santoki), depois que perdeu a mãe, é levado pelo pai para uma enorme mansão no interior do Japão. Lá ele conhece sua nova "mãe", Natsuko (Yoshino Kimura) que é sua tia e está esperando um bebê. A casa em estilo europeu, no meio da floresta, lembra um pouco a casa das garotas em "Meu amigo Totorô" (1988). Mahito começa a ser visitado por uma enorme garça real, que o provoca e fala que ele tem que "salvar sua mãe". Há uma estranha torre perto da mansão e a garça atrai o garoto para lá, e então para uma espécie de mundo interior, em que começa a parte mais fantasiosa do filme.
O roteiro está longe de ser linear ou mesmo coerente como de animações anteriores, como "Nausicaä do Vale do Vento" (1984) ou "Castelo no Céu" (1986). O ar de sonho lembra filmes posteriores como "A Viagem de Chihiro" (2001) ou "O Castelo Animado" (2004). É uma viagem. A animação (feita, em grande parte, à mão) é maravilhosa, assim como a trilha sonora de Joe Hisaishi, colaborador habitual de Miyazaki. É o tipo de filme que deve ser visto diversas vezes, creio, para conseguir apreender tudo que acontece na tela.
Hayao Miyazaki fala que vai se aposentar desde que fez "Princesa Mononoke" (1997). Felizmente, ele sempre volta atrás. Agora, aos 83, ele fala em aposentadoria novamente, mas vamos torcer para que seja outro alarme falso. "O Menino e a Garça" concorre ao Oscar de melhor animação e há grandes chances do prêmio ir para as mãos de Miyazaki. Nos cinemas.

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar (Gake no ue no Ponyo, 2008)

Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar (Gake no ue no Ponyo, 2008). Dir: Hayao Miyazaki. Netflix. Quantas vezes já vi essa animação? Não me lembro, mas nada como "Ponyo" para levantar o ânimo e achar que o mundo tem jeito. Escrito e dirigido pelo lendário Hayao Miyazaki, "Ponyo" é uma delícia. Quem já viu o documentário sobre ele, feito pela TV japonesa NHK, sabe como o mestre tem um jeito único de trabalhar. Miyazaki não parte de um roteiro escrito e fechado; ele passa semanas rascunhando, pintando aquarelas, criando personagens e imaginando cenas enquanto tenta "achar" o filme.

A "história de amor" entre um peixe e um menino tem ecos de "A pequena sereia" e é curioso que eu tenha visto "Luca" semana passada, que também bebeu da mesma fonte. Com a possível exceção de "Meu amigo Totorô" (1988), esta é a animação mais infantil de Hayao Miyazaki, mas não no mau sentido (como em "Luca"). Ele não subestima o público ou dá tudo de mão beijada. Não se explica porque Ponyo é uma peixinha que tem um "rosto" humano desde o começo. O caso é que ela quer conhecer o mundo terrestre e cria uma forte relação com um garoto que a resgata no mar. As cores são belíssimas e os fundos parecem pintados com lápis de cor.

O menino, curiosamente, nunca chama a mãe de "mãe", mas pelo nome, Lisa. O pai, que é capitão de um navio, também não é chamado de "pai" (embora o garoto diga à peixinha que ele é o pai dele). E mesmo quando o mar sobe e engole quase toda a terra, ninguém se desespera ou perde a esperança; pelo contrário, vemos aquela organização bem japonesa quando os moradores se juntam em barcos. O menino até chora um pouco quando não acha a mãe mas, no geral, é dono do próprio nariz, com cinco anos de idade. O final é maravilhoso, espécie de conto de fadas moderno. A trilha de Joe Hisaishi, como sempre, é de outro mundo. Para ver e rever. Tá na Netflix

domingo, 20 de junho de 2021

Luca (2021)

 

Luca (2021). Dir: Enrico Casarosa. Lançado diretamente na Disney+, esta animação da Pixar realmente está mais para um "filme de TV" do que para um lançamento de cinema. O nome "Pixar" traz um monte de expectativas, claro, então talvez "Luca" receba uma crítica menos favorável minha do que se fosse de qualquer outro estúdio. O visual, claro, é lindo. Passado na costa da Itália, a animação mostra um mundo ensolarado, de cores quentes, em que a gente pode imaginar as pessoas vivendo dentro de cada casinha daquela vila de pescadores. O mundo submarino também é bonito, embora a Pixar já o tenha explorado melhor em "Procurando Nemo" (2003).

"Luca" trata de criaturas que são "monstros do mar" quando estão embaixo d´água, mas que adquirem a forma humana quando estão em terra. O personagem título, Luca (voz de Jacob Tremblay) é um garoto que (como a Pequena Sereia) sonha em conhecer o mundo terrestre. Assim como Ariel, ele coleciona objetos que caíram dos barcos, como um relógio, um copo, etc. Um dia ele conhece outro garoto chamado Alberto (Jack Dylan Grazer) que também é um "mostro do mar" mas que gosta de viver na superfície, em uma pequena ilha. Os dois formam uma grande amizade e sonham em ter uma Vespa (a icônica scooter italiana) para conhecer o mundo. Eles então partem para um vila próxima (chamada Portorosso, no que me parece uma homenagem à animação de Hayao Miyazaki, "Porco Rosso").

É tudo bem leve e, no mau sentido, "para crianças", coisa que a Pixar não costuma fazer. O roteiro lança um bocado de ideias que são esquecidas ou deixadas de lado (por exemplo, Alberto diz que seu pai simplesmente o abandonou e foi embora; por que? Quem era ele?). Há uma garota, Giulia (Ema Berman), que quer vencer uma competição local de natação, bicicleta e comer macarrão (risos); ela faz amizade com Luca e Alberto e os recruta para a competição, mas o roteiro parece usá-la mais para criar intriga entre os garotos do que para ser uma personagem de verdade. Há um vilão chamado Ercole (Saverio Raimondo), que é o valentão da cidade... e só. Roteiros da Pixar costumam ser muito mais elaborados (às vezes, até demais), mas aqui temos apenas motivações genéricas dos garotos (serem "livres"), da menina ("vencer") e do vilão (ser um vilão). Há quem diga que a trama é, no fundo, uma alegoria LGBT, e você até pode ver o filme por esta ótica (embora a amizade entre os dois garotos seja bem platônica).

Resumindo, "Luca" é visualmente belo e é "bonitinho", para crianças. Poderia ter sido muito mais. Disponível na Disney+.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A Tartaruga Vermelha (2016)

Atenção: O texto a seguir contém Spoilers

"A Tartaruga Vermelha" é uma belíssima animação co-produzida pelos estúdios Ghibli (de Hayao Miyazaki) e Wild Bunch. O filme é escrito e dirigido por Michael Dudok de Wit, animador com vários curtas metragens no currículo, que faz seu primeiro longa metragem.

O roteiro fala de um náufrago que, ao chegar em uma ilha deserta, tenta por diversas vezes escapar em balsas feitas de bambu. Toda vez que ele coloca o barco no mar, no entanto, ele é destruído por um ser invisível que não o deixa partir. Um dia ele descobre que a responsável pelos ataques é uma grande tartaruga vermelha; em um surto de raiva ele atinge a tartaruga com um pedaço de bambu e a deixa virada de ponta cabeça na praia. Para sua grande surpresa, a tartaruga se transforma em uma mulher de longos cabelos vermelhos e os dois passam a viver juntos na ilha.

É um filme bastante poético e provavelmente não recomendado para pessoas acostumadas com animações barulhentas e de ação. Não há nenhum diálogo, apenas belas imagens, sons e música. O trabalho de criação do espaço geográfico onde vive o náufrago é muito bem feito; depois de um tempo passamos a conhecer toda a ilha, que é pequena, tem um grande monte, uma floresta de bambus e um pequeno lago com água doce. O casal tem um filho pequeno que passa a dividir a ilha com os pais. A animação, feita à mão, é muito bem feita e há belas cenas passadas na floresta, em um túnel submarino ou dentro do mar. Há até espaço para uma sequência assustadora quando a ilha é quase destruída por um tsunami.

O garoto cresce e se torna amigo de grandes tartarugas que habitam o mar. Um dia chega a hora de partir e ele simplesmente sai nadando com elas. Pai e mãe envelhecem e o ciclo de vida e morte se completa. "A Tartaruga Vermelha" foi indicado ao Oscar de melhor animação e é um belo filme. Não perca.

João Solimeo

O trailer abaixo é praticamente um resumo de todo o filme. SPOILERS

sábado, 17 de janeiro de 2015

O Conto da Princesa Kaguya

"O Conto da Princesa Kaguya" é o quinto filme dirigido por Isao Takahata para o estúdio Ghibli, gigante da animação japonesa fundado por ele e pelo mestre Hayao Miyazaki (de "Vidas ao Vento"). É também, provavelmente, o último longa do diretor, que vai completar 80 anos. "Kaguya" foi um dos indicados ao Oscar de "Melhor Animação", ao lado de filmes como "Operação Big Hero", "Como treinar seu dragão 2", "Os Boxtrolls" e "Song of the Sea".

A história é baseada em uma lenda japonesa do século 10 sobre um cortador de bambu que encontra na floresta uma linda princesa que, de tão pequena, cabe em sua mão. Ele leva a menina para casa e, junto com a esposa, a adota como filha. A animação é lindamente desenhada por Takahata e seus animadores, em uma técnica que parece feita com lápis de cor, carvão e aquarela. Em um mundo em que as animações tentam ser cada vez mais foto-realistas é um prazer ver a linda palheta de cores que Takahata pinta na tela.

As primeiras cenas que mostram a menina sendo adotada pelo velho casal e se transformando de princesa em um bebê são de grande beleza e sensibilidade. Note a habilidade dos animadores em desenhar a bebê se desenvolvendo e descobrindo o mundo em um ótima cena em que ela começa a engatinhar e seguir alguns animais da floresta, como sapos e insetos. Ela cresce como mágica, aprende a andar e a falar em pouco tempo e logo está correndo pela floresta na companhia de um grupo de garotos liderados por Sutemaru.

Eles levam uma vida feliz até que o pai da garota encontra ouro e roupas requintadas no mesmo bosque de bambus onde descobriu a filha. Ele acredita que os deuses da floresta estão lhe dizendo que a filha merece uma vida melhor e parte com a família para a capital, onde compra uma enorme mansão cheia de empregados e professores de etiqueta. A garota se transforma, a contragosto, na Princesa Kaguya (nome que significa "brilhante", "radiante") e tem que seguir uma série de regras em uma vida bem diferente da que ela levava na floresta. Sua beleza atrai um grande número de admiradores, mas Kaguya exige tarefas impossíveis de seus pretendentes, para desespero do pai, que a quer casada com algum príncipe. Até o Imperador do Japão tenta conquistar Kaguya, sem sucesso. Saudosa da liberdade, Kaguya se torna cada vez mais deprimida. (leia mais abaixo)


O ritmo do filme acompanha o estado de espírito de Kaguya. A primeira parte, passada na floresta e nas montanhas, é alegre e cheia de vida. A vida na corte, com suas obrigações e deveres, é mostrada de forma lenta e, por vezes, entediante. Como na maioria dos contos de fada originais, a história da Princesa Kaguya termina de forma agridoce. Sua melancolia cresce até a descoberta de que, de fato, ela não é deste mundo, levando a um final triste e trágico.

Vale lembrar que Isao Takahata dirigiu o que considero um dos filmes (animados ou não) mais trágicos de todos os tempos, "Cemitério de Vagalumes" (Hotaru no Haka, 1988), a história de um casal de irmãos durante a 2ª Guerra Mundial, que é implacável na descrição dos horrores da guerra. "O Conto da Princesa Kaguya" não está neste nível de dramaticidade, mas não tem o final feliz que geralmente se espera de um filme de princesas feito no ocidente.

Maravilhosamente desenhado e animado, com bela trilha sonora de Joe Hisaishi e direção de Takahata, "O Conto da Princesa Kaguya" é dos melhores animados do estúdio Ghibli. A indicação ao Oscar deve torná-lo mais acessível nos cinemas por aqui. Enquanto isso, você pode vê-lo na íntegra, com legendas em português, neste link.

João Solimeo

domingo, 22 de junho de 2014

Como Treinar seu Dragão 2

Esta continuação do sucesso da DreamWorks Animation de 2010 segue a tradição de que, como em "Star Wars", o segundo filme de uma série deve ser mais sombrio do que o primeiro. "Como Treinar seu Dragão 2" faz isso e muito mais. Quando escrevi sobre o primeiro filme, há quatro anos, disse que "o fato de ser um filme infantil impede que a ameaça dos dragões seja levada muito a sério pelo espectador, já que ninguém morre ou mesmo fica muito ferido nos ataques". Isto não é mais verdade. "Dragão 2" ainda é um filme infantil, bastante colorido, com várias piadinhas e uma corrida aérea inicial que lembra os jogos de quadribol da série Harry Potter; mas o nível de realismo foi elevado, tanto técnica quanto narrativamente.

É um prazer ver o nível de detalhes empregado na criação dos personagens e na iluminação dos cenários. O diretor de fotografia Roger Deakins novamente aparece nos créditos como consultor, e a iluminação desta animação é das melhores já vistas em uma computação gráfica. O 3D é usado com sabedoria e, felizmente, para realmente ampliar a sensação do espectador, e não como um artifício forçado para cobrar um ingresso mais caro. (leia mais abaixo)


Há também um aprofundamento muito maior nos personagens. O diretor/roteirista Dean DeBlois traz Soluço como um jovem de 20 anos que, após revolucionar a relação entre homens e dragões no primeiro filme, agora enfrenta uma nova ameaça; um vilão chamado Drago pretende escravizar todos os dragões e atacar a vila de Berk, onde moram Soluço e seus companheiros. O pai de Soluço, o teimoso Estoico, quer enfrentar o problema da forma Viking, ou seja, partir para o ataque. O rapaz, como sempre, discorda do pai e parte com Banguela para tentar uma solução diplomática. Ele encontra pelo caminho muito mais do que esperava, na forma de uma figura do passado, uma mulher chamada Valka que, assim como ele, também é amiga dos dragões. Há uma pitada de Hayao Miyazaki, o mestre animador japonês por trás de clássicos como "Princesa Mononoke" e "Vidas ao Vento", na personagem de Valka. A cena em que ela surge através das nuvens, mascarada e montada em um dragão, é puro Miyazaki. Pode-se perceber também uma influência japonesa no tom ecológico do filme e no design de um "dragão alfa" que vive em um santuário no meio do gelo. E quem diria que um blockbuster infantil se daria ao trabalho de criar uma longa e calma sequência romântica entre dois amantes do passado?

Claro que tudo termina em uma grande cena de luta, mas DeBlois a conduz com muita competência. Há uma grande dose de ambição na sequência em que dois dragões alfa, gigantescos, lutam ao fundo do cenário enquanto pequenas figuras humanas combatem em primeiro plano. Uma cena de sacrifício pode chocar as crianças (e adultos) presentes, mas isso só mostra como esta série evoluiu.

Assim, "Como Treinar seu Dragão 2" é bastante superior ao primeiro filme e um grata surpresa. Para ser visto em 3D, na tela grande do cinema.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Vidas ao Vento

Um dia, talvez, o Ocidente vai entender a diferença entre "animação" e "desenho animado". O termo geralmente traz embutida e ideia de um produto infantil, feito para distrair as crianças enquanto os adultos têm um pouco de paz. Não há nada de "errado" em se divertir com um bom desenho animado, com as diabruras do "Pica Pau", "Tom & Jerry", ou se maravilhar com histórias da Disney/Pixar. Uma animação, no entanto, pode ser chocante como "Pink Floyd - The Wall", ou fazer pensar como "Valsa com Bashir".

E há Hayao Miyazaki, lenda viva da animação japonesa, que comemorou 73 anos e anunciou (mais uma vez), sua aposentadoria após lançar "Vidas ao Vento" (Kaze Tachinu) ano passado. O fato de "Vidas ao Vento" ser feito em animação é, ao mesmo tempo, fundamental e um "detalhe". "Detalhe" porque ele tem a estrutura de um filme feito com atores, baseado levemente na vida real do designer de aviões Jiro Horikoshi. Ao mesmo tempo, a técnica da animação permite que Miyazaki construa planos fantásticos de uma beleza irretocável, mesmo em sequências trágicas como o devastador terremoto de 1923, que reduziu  a cidade de Tokyo (e arredores) a cinzas. Apesar deste ser o filme mais realista de Miyazaki, há lugar para vários voos da sua imaginação fértil, principalmente nas sequências de sonhos de jovem Jiro, um garoto míope que sonhava em ser piloto de aviões. É fácil perceber a ligação entre Jiro e o próprio Miyazaki. Os dois sonhavam em voar e em "construir coisas lindas", dedicando suas vidas a realizar seus sonhos a partir de linhas traçadas no papel. No filme, Jiro tem sonhos constantes com um designer italiano chamado Caproni, que lhe diz que aviões não deveriam ser usados em guerras, mas sim para serem máquinas maravilhosas que transportam pessoas. (leia mais abaixo)


Como na vida real, há várias contradições no personagem de Jiro Horikoshi e no filme de Hayao Miyazaki. A animação causou certa controvérsia por ter como herói um homem que, no fundo, construiu armas mortais, os famosos caças "Zero" japoneses, que causaram destruição e mortes na 2ª Guerra Mundial. Jiro sabia que suas "máquinas de sonhos" seriam usados para matar? Claro que sim, mas não é tão simples assim. Jiro era uma pessoa real, com sonhos e necessidades como qualquer um, que viveu em uma época extremamente conturbada da Humanidade, em um país em decadência que tentava se colocar em pé. Há várias cenas do filme em que vemos como a crise econômica está desolando o Japão, com centenas de desempregados vagando pelas linhas dos trens e multidões desesperadas tentando sacar dinheiro nos bancos em falência. Jiro e seus companheiros de trabalho na Mitsubishi eram homens práticos, dedicados à evolução das máquinas voadoras e, no fundo, um tanto espantados com a histeria militarista que tomava conta do Japão e da Alemanha, para onde Jiro é enviado para estudar os aviões da empresa Junkers. Há cenas em que Jiro e Honjo, seu colega de trabalho, ficam imaginando onde é que a Marinha pretende usar todos aqueles aviões que ele estão planejando construir. O próprio Miyazaki, em um comunicado, falou contra a atual onda militarista que estaria ocorrendo no Japão, com políticos tentando mudar a constituição e voltar a construir armas. E um olhar atento vai perceber como "Vidas ao Vento" é contrário à guerra, principalmente nas sequências finais.



Tecnicamente, o filme é um assombro. Hayao Miyazaki, além de roteirista, diretor e produtor, costuma desenhar pessoalmente várias das sequências animadas, com seu traço característico. Vale notar também o inventivo trabalho de som; quase todos os efeitos sonoros, dos motores dos aviões ao rugido do terremoto, foram feitos através de vozes humanas. A trilha sonora é do tradicional colaborador de Miyazaki, o ótimo Jou Hisaishi. É possível ver ecos e referências de vários trabalhos anteriores do mestre japonês, assumidamente fanático por máquinas voadoras. Há cenas que lembram "Nausicaa do Vale dos Ventos" (1984), "O Castelo no Céu" (1986) e "Porco Rosso" (1992). Alguns momentos são técnicos demais, como nas cenas em que vemos dezenas de jovens engenheiros vibrando por causa de um novo tipo de rebite usado nas asas, por exemplo. Estas cenas ficam bem longe da deliciosa fantasia de "Ponyo" (2008). Em meio a tudo isso, porém, há ainda espaço para uma delicada história de amor entre Jiro e Naoko, uma garota tuberculosa por quem ele é apaixonado. Workaholic convicto, porém, o relacionamento dos dois se resume às poucas oportunidades em que ele não está trabalhando. "Se houvesse uma competição para ver quem consegue usar usa régua de cálculo com uma mão só, eu ganharia", diz Jiro em uma cena tocante em que Naoko se recusa a soltar a mão do marido.

Se for mesmo o último trabalho de Hayao Miyazaki, será uma bela despedida. É um filme longo, contraditório e político que consegue ser, ao mesmo tempo, mágico. É um feito e tanto.

Câmera Escura

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

PONYO

Há um curioso ar de “tranquilidade” no último filme produzido por Hayao Miyazaki, o mestre japonês da animação. “Ponyo”, feito em 2008 no Japão, mas sem previsão de chegar às telas brasileiras, é o décimo longa animado de Miyazaki, e dos mais tranqüilos e infantis de sua carreira. Baseado levemente em “A Pequena Sereia”, o desenho conta a história de uma “peixe dourado” chamada Ponyo, que é encontrada por um garoto de cinco anos presa em um pote de vidro. Ao quebrar o vidro para soltá-la, o garoto Sosuke (voz de Hiroki Doi) corta o dedo e uma gota de sangue cai na boca da peixinho, o que lhe dá o poder de se transformar em humana. Sosuke vive com a mãe Lisa (Tomoko Yamaguchi), que vive sozinha em uma casa à beira mar, e sente falta de Koichi, o pai de Sosuke, que é capitão de um navio. Lisa toma conta de umas senhoras em um asilo chamado Himawari (Girassol), e Sosuke vai à uma escola vizinha. O problema é que, ao retirar Ponyo do mar, Sosuke acaba causando um desequilíbrio ecológico que eleva o nível das águas e engole grande parte da cidade. O “pai” de Ponyo, um humano chamado Fujimoto (Jôji Tokoro), tenta a todo custo trazê-la de volta à água. Miyazaki conta esta história de forma predominantemente visual, em um saudoso estilo de animação feito à mão. Ao contrário de seus seguidores da Pixar (assumidamente fãs do mestre japonês, e responsáveis pela verão em inglês do filme), o mundo animado de Miyazaki não é fotorrealista como o mostrado em “Procurando Nemo”, por exemplo. Seu mundo tem tons coloridos que parecem quadros feitos em aquarela.

A seqüência inicial é bela e surrealista, mostrando o “pai” de Ponyo criando uma série de animais aquáticos através de uma espécie de poção mágica. Miyazaki não se preocupa em explicar muito quem é Fujimoto; o que saberemos durante o filme é que ele gerou Ponyo com uma deusa do mar. Assim como em “Totorô” (1988), no filme não há vilões. O tsunami e alagamento da cidade são mostrados não como uma catástrofe, mas como uma oportunidade para Miyazaki criar belas seqüências subaquáticas, cheias de peixes pré-históricos, que surgem sem muita explicação. Há uma sensação de sonho permeando toda a animação, sublinhada pela bela trilha sonora de Jou Hisaishi, tradicional colaborador de Miyazaki. A princípio, não parece um filme tão memorável como nos bons tempos de “Naushica do Vale dos Ventos” (1984), “Láputa, Castelo no Céu” (1986) ou “Totorô” (1988), clássicos de Miyazaki e do estúdio Ghibli. Mas é uma animação que "fica" com o espectador. E é sempre bom ver que Miyazaki está em atividade (ele já ameaçou se aposentar várias vezes), fazendo animações poéticas e mágicas como esta, que não tem apenas a intenção de vender brinquedos ou incitar a violência.


A propósito, "Ponyo" não foi indicado ao Oscar de Melhor Animação agora em 2010. Lamentável.

Câmera Escura

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O Castelo de Cagliostro

Este é o primeiro longa-metragem dirigido por Hayao Miyazaki, o mestre japonês da animação. O DVD foi lançado no Brasil (coisa rara para um longa de Miyazaki) este ano pela Focus Filmes. Miyazaki se tornou mais conhecido no ocidente depois que ganhou o Oscar de Melhor Animação com "A viagem de Chihiro" (Sen to Chihiro no Kamikakushi, 2001), mas já era cultuado no Japão e mundo afora há anos. "Cagliostro" já mostra algumas características que seriam vistas depois em seus longas metragens no Estúdio Ghibli.

O roteiro acompanha um ladrão boa pinta chamado Lupin III (Lupin Terceiro, ou Lupin Neto) que salva a vida de uma princesa, apenas para vê-la ser seqüestrada novamente por vilões não identificados. Na fuga, a princesa deixa para trás um misterioso anel. Lupin e um companheiro de aventuras vão até o país de Cagliostro atrás da origem de umas notas falsificadas e para tentar salvar a princesa. A trama é complicada e envolve um conde falsário, uma espiã que pode ser tanto aliada quanto inimiga de Lupin, um personagem misterioso que parece um samurai e vários guardas com garras mortais. O personagem Arséne Lupin foi criado por Maurice Leblanc no início do século XX, sendo contemporâneo do Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle. O que um personagem francês do início do século XX está fazendo em um filme animado japonês feito em 1979?

A animação japonesa (e a cultura japonesa em geral, na verdade) tem a característica de se apropriar da cultura estrangeira, lhe dar uma roupagem nova, bem japonesa, e colocar de volta no mundo. É frequente a influência européia nas animações de Hayao Miyazaki; mesmo que, no fundo, elas permaneçam inequivocadamente japonesas. Em "Láputa, Castelo no Céu" (Tenkuu no Shiro Laputa, 1986), por exemplo, Miyazaki pegou "emprestada" a cidade flutuante de "Láputa", criada por Jonathan Swift em "As Viagens de Gulliver", para criar sua própria cidade aérea. O personagem principal de "O Castelo de Cagliostro", Lupin Terceiro, foi protagonista de duas séries animadas da televisão japonesa (a primeira co-dirigida pelo próprio Miyazaki em 1971) e um longa metragem. A influência de Miyazaki pode ser notada em vários momentos do filme. Seu amor por máquinas (principalmente máquinas voadoras) pode ser visto no helicóptero que o vilão usa para chegar ao castelo. As engrenagens do relógio da torre também lembram muito o estilo que Miyazaki usaria em "Láputa" ou "Naushika" ("Naushika do Vale do Vento" é a obra prima de Hayao Miyazaki, produzido em 1984). Há uma longa seqüência de perseguição entre estas engrenagens que é sem dúvida um feito para a animação da época, toda feita à mão e sem o uso de computadores. O DVD contém uma entrevista muito interessante com o diretor de animação do filme, Yasuo Ohtsuka. Ele conta que o filme foi produzido em apenas quatro meses e meio, com os animadores trabalhando dia e noite. Ele diz que hoje isso seria impossível, pois é tudo muito mais "fácil" e "rico". Ohtsuka diz que da "pobreza" se tira muito mais criatividade.

Hoje em dia, felizmente, é relativamente fácil encontrar os filmes de Hayao Miyazaki. A internet é boa fonte para os interessados (é possível inclusive baixar os filmes com legendas feitas por fãs). Tive contato com os filmes de Miyazaki nos anos 90, na biblioteca da Fundação Japão, em São Paulo, onde assistia avidamente às fitas VHS, sem legendas ou tradução. Oficialmente é possível adquirir os DVDs de "A Viagem de Chihiro", "O Castelo Animado" e este "O Castelo de Cagliostro". A Disney detém os direitos de distribuição mundial dos outros filmes do Estúdio Ghibli. Há quem diga que o estúdio americano não está muito interessado na divulgação destes filmes. Para quem não conhece o trabalho de Miyazaki ainda, "Cagliostro" (muito mais leve que Chihiro, por exemplo) pode ser uma boa porta de entrada.