Mostrando postagens com marcador totoro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador totoro. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 25 de junho de 2021

Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar (Gake no ue no Ponyo, 2008)

Ponyo: Uma Amizade que Veio do Mar (Gake no ue no Ponyo, 2008). Dir: Hayao Miyazaki. Netflix. Quantas vezes já vi essa animação? Não me lembro, mas nada como "Ponyo" para levantar o ânimo e achar que o mundo tem jeito. Escrito e dirigido pelo lendário Hayao Miyazaki, "Ponyo" é uma delícia. Quem já viu o documentário sobre ele, feito pela TV japonesa NHK, sabe como o mestre tem um jeito único de trabalhar. Miyazaki não parte de um roteiro escrito e fechado; ele passa semanas rascunhando, pintando aquarelas, criando personagens e imaginando cenas enquanto tenta "achar" o filme.

A "história de amor" entre um peixe e um menino tem ecos de "A pequena sereia" e é curioso que eu tenha visto "Luca" semana passada, que também bebeu da mesma fonte. Com a possível exceção de "Meu amigo Totorô" (1988), esta é a animação mais infantil de Hayao Miyazaki, mas não no mau sentido (como em "Luca"). Ele não subestima o público ou dá tudo de mão beijada. Não se explica porque Ponyo é uma peixinha que tem um "rosto" humano desde o começo. O caso é que ela quer conhecer o mundo terrestre e cria uma forte relação com um garoto que a resgata no mar. As cores são belíssimas e os fundos parecem pintados com lápis de cor.

O menino, curiosamente, nunca chama a mãe de "mãe", mas pelo nome, Lisa. O pai, que é capitão de um navio, também não é chamado de "pai" (embora o garoto diga à peixinha que ele é o pai dele). E mesmo quando o mar sobe e engole quase toda a terra, ninguém se desespera ou perde a esperança; pelo contrário, vemos aquela organização bem japonesa quando os moradores se juntam em barcos. O menino até chora um pouco quando não acha a mãe mas, no geral, é dono do próprio nariz, com cinco anos de idade. O final é maravilhoso, espécie de conto de fadas moderno. A trilha de Joe Hisaishi, como sempre, é de outro mundo. Para ver e rever. Tá na Netflix

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

PONYO

Há um curioso ar de “tranquilidade” no último filme produzido por Hayao Miyazaki, o mestre japonês da animação. “Ponyo”, feito em 2008 no Japão, mas sem previsão de chegar às telas brasileiras, é o décimo longa animado de Miyazaki, e dos mais tranqüilos e infantis de sua carreira. Baseado levemente em “A Pequena Sereia”, o desenho conta a história de uma “peixe dourado” chamada Ponyo, que é encontrada por um garoto de cinco anos presa em um pote de vidro. Ao quebrar o vidro para soltá-la, o garoto Sosuke (voz de Hiroki Doi) corta o dedo e uma gota de sangue cai na boca da peixinho, o que lhe dá o poder de se transformar em humana. Sosuke vive com a mãe Lisa (Tomoko Yamaguchi), que vive sozinha em uma casa à beira mar, e sente falta de Koichi, o pai de Sosuke, que é capitão de um navio. Lisa toma conta de umas senhoras em um asilo chamado Himawari (Girassol), e Sosuke vai à uma escola vizinha. O problema é que, ao retirar Ponyo do mar, Sosuke acaba causando um desequilíbrio ecológico que eleva o nível das águas e engole grande parte da cidade. O “pai” de Ponyo, um humano chamado Fujimoto (Jôji Tokoro), tenta a todo custo trazê-la de volta à água. Miyazaki conta esta história de forma predominantemente visual, em um saudoso estilo de animação feito à mão. Ao contrário de seus seguidores da Pixar (assumidamente fãs do mestre japonês, e responsáveis pela verão em inglês do filme), o mundo animado de Miyazaki não é fotorrealista como o mostrado em “Procurando Nemo”, por exemplo. Seu mundo tem tons coloridos que parecem quadros feitos em aquarela.

A seqüência inicial é bela e surrealista, mostrando o “pai” de Ponyo criando uma série de animais aquáticos através de uma espécie de poção mágica. Miyazaki não se preocupa em explicar muito quem é Fujimoto; o que saberemos durante o filme é que ele gerou Ponyo com uma deusa do mar. Assim como em “Totorô” (1988), no filme não há vilões. O tsunami e alagamento da cidade são mostrados não como uma catástrofe, mas como uma oportunidade para Miyazaki criar belas seqüências subaquáticas, cheias de peixes pré-históricos, que surgem sem muita explicação. Há uma sensação de sonho permeando toda a animação, sublinhada pela bela trilha sonora de Jou Hisaishi, tradicional colaborador de Miyazaki. A princípio, não parece um filme tão memorável como nos bons tempos de “Naushica do Vale dos Ventos” (1984), “Láputa, Castelo no Céu” (1986) ou “Totorô” (1988), clássicos de Miyazaki e do estúdio Ghibli. Mas é uma animação que "fica" com o espectador. E é sempre bom ver que Miyazaki está em atividade (ele já ameaçou se aposentar várias vezes), fazendo animações poéticas e mágicas como esta, que não tem apenas a intenção de vender brinquedos ou incitar a violência.


A propósito, "Ponyo" não foi indicado ao Oscar de Melhor Animação agora em 2010. Lamentável.

Câmera Escura

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O Castelo de Cagliostro

Este é o primeiro longa-metragem dirigido por Hayao Miyazaki, o mestre japonês da animação. O DVD foi lançado no Brasil (coisa rara para um longa de Miyazaki) este ano pela Focus Filmes. Miyazaki se tornou mais conhecido no ocidente depois que ganhou o Oscar de Melhor Animação com "A viagem de Chihiro" (Sen to Chihiro no Kamikakushi, 2001), mas já era cultuado no Japão e mundo afora há anos. "Cagliostro" já mostra algumas características que seriam vistas depois em seus longas metragens no Estúdio Ghibli.

O roteiro acompanha um ladrão boa pinta chamado Lupin III (Lupin Terceiro, ou Lupin Neto) que salva a vida de uma princesa, apenas para vê-la ser seqüestrada novamente por vilões não identificados. Na fuga, a princesa deixa para trás um misterioso anel. Lupin e um companheiro de aventuras vão até o país de Cagliostro atrás da origem de umas notas falsificadas e para tentar salvar a princesa. A trama é complicada e envolve um conde falsário, uma espiã que pode ser tanto aliada quanto inimiga de Lupin, um personagem misterioso que parece um samurai e vários guardas com garras mortais. O personagem Arséne Lupin foi criado por Maurice Leblanc no início do século XX, sendo contemporâneo do Sherlock Holmes de Arthur Conan Doyle. O que um personagem francês do início do século XX está fazendo em um filme animado japonês feito em 1979?

A animação japonesa (e a cultura japonesa em geral, na verdade) tem a característica de se apropriar da cultura estrangeira, lhe dar uma roupagem nova, bem japonesa, e colocar de volta no mundo. É frequente a influência européia nas animações de Hayao Miyazaki; mesmo que, no fundo, elas permaneçam inequivocadamente japonesas. Em "Láputa, Castelo no Céu" (Tenkuu no Shiro Laputa, 1986), por exemplo, Miyazaki pegou "emprestada" a cidade flutuante de "Láputa", criada por Jonathan Swift em "As Viagens de Gulliver", para criar sua própria cidade aérea. O personagem principal de "O Castelo de Cagliostro", Lupin Terceiro, foi protagonista de duas séries animadas da televisão japonesa (a primeira co-dirigida pelo próprio Miyazaki em 1971) e um longa metragem. A influência de Miyazaki pode ser notada em vários momentos do filme. Seu amor por máquinas (principalmente máquinas voadoras) pode ser visto no helicóptero que o vilão usa para chegar ao castelo. As engrenagens do relógio da torre também lembram muito o estilo que Miyazaki usaria em "Láputa" ou "Naushika" ("Naushika do Vale do Vento" é a obra prima de Hayao Miyazaki, produzido em 1984). Há uma longa seqüência de perseguição entre estas engrenagens que é sem dúvida um feito para a animação da época, toda feita à mão e sem o uso de computadores. O DVD contém uma entrevista muito interessante com o diretor de animação do filme, Yasuo Ohtsuka. Ele conta que o filme foi produzido em apenas quatro meses e meio, com os animadores trabalhando dia e noite. Ele diz que hoje isso seria impossível, pois é tudo muito mais "fácil" e "rico". Ohtsuka diz que da "pobreza" se tira muito mais criatividade.

Hoje em dia, felizmente, é relativamente fácil encontrar os filmes de Hayao Miyazaki. A internet é boa fonte para os interessados (é possível inclusive baixar os filmes com legendas feitas por fãs). Tive contato com os filmes de Miyazaki nos anos 90, na biblioteca da Fundação Japão, em São Paulo, onde assistia avidamente às fitas VHS, sem legendas ou tradução. Oficialmente é possível adquirir os DVDs de "A Viagem de Chihiro", "O Castelo Animado" e este "O Castelo de Cagliostro". A Disney detém os direitos de distribuição mundial dos outros filmes do Estúdio Ghibli. Há quem diga que o estúdio americano não está muito interessado na divulgação destes filmes. Para quem não conhece o trabalho de Miyazaki ainda, "Cagliostro" (muito mais leve que Chihiro, por exemplo) pode ser uma boa porta de entrada.