Intruso (Foe, 2023). Dir: Garth Davis. Amazon Prime Video. Filme que decepciona porque tinha várias coisas a favor; o elenco é composto por Saoirse Ronan e Paul Mescal, que são muito bons e se entregam por inteiro. A premissa de ficção-científica é interessante. Em 2065, o mundo está passando por secas terríveis e parte da população é convocada a trabalhar em estações espaciais. Hen e Junior (Ronan e Mescal) são donos de uma fazenda no meio oeste americano. Um dia chega um representante da empresa OuterMore, Terrance (Aaron Pierre) e informa o casal que Junior foi convocado a trabalhar no Espaço. Hen, a esposa, não foi chamada e deve aguardar o retorno do marido. Terrance avisa que um substituto vivo, um clone controlado por AI, iria ficar no lugar de Junior enquanto ele estivesse no espaço. O representante da empresa também diz que tem tem que observar o casal, então ele se muda para a casa deles e se torna uma presença complicadora.
A ideia é interessante (e muito parecida com um episódio recente de Black Mirror). O problema é que o filme investe pesado no melodrama e há cenas intermináveis em que Ronan e Mescal discutem, brigam, depois retomam em cenas quentes de sexo. Há cenas visualmente belas em que o casal, pequenas figuras em meio a uma vastidão vazia, percorrem as paisagens em volta da fazenda. Há discussões sobre a vida e a morte, sobre o passado, sobre o futuro, tudo regado por uma trilha instrumental melancólica.
Tudo muito bem se o filme se assumisse "cerebral" e misterioso, mas há uma cena desastrosa em que tudo é explicado nos mínimos detalhes, quebrando o mistério com uma "revelação" que não era tão difícil de imaginar. Fica difícil também entender a lógica por trás da empresa. Por que eles se dariam a todo este trabalho e custos apenas para recrutar um simples operário espacial? Por que enviar pessoas comuns ao espaço se, em seu lugar, poderiam ir clones perfeitos? Enfim, um filme difícil de terminar. Há várias boas ideias e as interpretações são ótimas, mas mal aproveitadas. Disponível na Amazon Prime Video.
Vidas Passadas (Past Lives, 2023). Dir: Celine Song. Belíssimo filme para começar bem o ano. "Vidas Passadas" é o longa metragem de estreia da coreana-canadense Celine Song, e é um deleite. O filme se passa em um período de 24 anos, mas o início se dá no encontro de um garoto e uma garota de 12 anos, Na Young e Hae Sung, em um parque de Seoul. Os dois estudam juntos e são apaixonados. As mães organizam um encontro em que os dois brincam, se divertem e voltam para casa de mãos dadas. O problema é que a menina está de partida para o Canadá, onde vai morar. O encontro, na verdade, havia sido uma despedida.
Eles poderiam nunca mais ter se visto mas, 12 anos depois, Na Young (Greta Lee), morando em Nova York, encontra o antigo "namoradinho" no Facebook. Os dois começam a conversar via Skype e descobrem que ainda há uma grande atração entre eles. Só que eles estão separados por milhares de quilômetros... o que fazer? Anos novamente se passam, até que Hae Sung (Teo Yoo), o rapaz, resolve finalmente ir até Nova York ver a moça.
(aviso de possíveis spoilers, não vou revelar o final, mas alguns detalhes sobre a vida dos personagens que talvez você não queira saber)
Se fosse uma simples comédia romântica, provavelmente tudo daria certo e as duas "almas gêmeas" terminariam o filme se beijando no topo do Empire State, mas não é esse tipo de filme. O tempo passou, Na Young está casada e estabelecida em Nova York. Ainda assim, é inegável que ela está curiosa com esse homem que resolveu visitá-la depois de 24 anos. "Ele é tão coreano", diz ela ao marido. "Quando estou com ele me sinto menos coreana mas, ao mesmo tempo.... mais coreana".
O que é que eles sentem um pelo outro? Há longas cenas de silêncios entre os dois, quando estão passeando por marcos turísticos de Nova York (muito bem filmada pelo diretor de fotografia Shabier Kirchner). Na última vez que estiveram juntos, eram crianças de 12 anos, em outro país, com a vida inteira pela frente. O que teria acontecido se ela não tivesse deixado a Coréia, ou se ele tivesse ido vê-la em Nova York antes? Estariam destinados a se reencontrar? A que custo? Tudo é lidado com muita sensibilidade e belos diálogos. O personagem do marido, que poderia render cenas de ciúmes e até violência, é muito bem desenvolvido pelo roteiro. Um dos melhores filmes de 2023.
Minha Nova Vida (How I Live Now, 2013). Dir: Kevin MacDonald. HBO Max. Baseado em um livro do gênero "YA" (young adult), "Minha Nova Vida" tinha tudo para ser um romance bobinho mas MacDonald (de "O Último Rei da Escócia") eleva a trama para algo melhor. Lançado há dez anos, o filme tem a curiosidade de trazer novatos (para a época) como Tom Holland (o Homem-Aranha) e George MacKay (de "1917"), além da ótima Saoirse Ronan. Ela é Daisy, uma americana que vai visitar os primos em um sítio no interior da Inglaterra. O mundo está às vésperas de uma nova Guerra Mundial, mas os adolescentes estão alheios a tudo. A mãe dos garotos (e tia de Daisy), que é "do governo", está sempre ocupada em reuniões online e, um dia, deixa todos sob os cuidados do filho mais velho, Edmond (George MacKay) e parte para a Suíça.
As brincadeiras em paisagens verdes e rios gelados são interrompidas por uma ótima cena em que os jovens percebem os efeitos de uma bomba nuclear que estourou em Londres, a centenas de quilômetros de distância. As árvores são sacudidas por um forte vento e, do céu, cinzas começam a cair. Nos dias que se seguem, as pessoas são evacuadas de suas casas e encaminhadas para campos, mas os primos se escondem em um galpão na floresta e tentam permanecer juntos. É lá que um romance se inicia entre Daisy e Edmond. O filme fica bem mais sério e pesado quando Daisy e uma prima mais nova, Piper (Harley Bird) são separadas dos garotos e levadas para uma casa distante. O inimigo (que nunca é identificado) passa a atacar e as meninas têm que fugir por florestas cheias de corpos e estupradores. Kevin MacDonald mostra cenas mais pesadas do que eu esperava em um "romance adolescente". Gostei mais do que estava esperando. Disponível na HBO Max.
Era uma vez um gênio (3000 years of longing, 2022). Dir: George Miller. Amazon Prime Video. A classificação para este filme na Amazon está como "Infantil - Romance - Excitante - Estranho". Bom, a censura é 16 anos e, definitivamente, este não é um filme infantil. Estranho, sem dúvida. "Era uma vez um gênio" pode ser chamado de um conto de fadas adulto, feito por um dos diretores mais ecléticos de todos os tempos (George Miller dirigiu filmes tão diferentes quanto "Mad Max: Estrada da Fúria" e "Happy Feet").
Tilda Swinton é Alithea, uma acadêmica especializada em narrativas que vai participar de uma conferência em Istambul. Em um lojinha local ela encontra uma garrafa de vidro distorcida, que ela leva ao hotel. Ao limpar a garrafa na pia do banheiro, a tampa se solta e sai um gênio gigante interpretado por Idris Elba (com orelhas pontudas). Sim, pode até parecer o começo de uma história infantil, mas está longe disso.
O gênio, com de costume, oferece satisfazer três desejos da personagem de Swinton, mas a experiência dela diz que, geralmente, essas histórias não acabam bem. Ao invés de fazer os desejos, Alithea passa então a escutar a história de vida do gênio, que começa literalmente com a Rainha de Sabá. George Miller recria as histórias de Elba com atores e muitos efeitos especiais, que nem sempre funcionam direito. Grande parte do filme é passada dentro deste quarto de hotel, enquanto Alithea tenta decidir seus desejos e o gênio vai contando suas histórias. É bastante estranho, a bem da verdade.
Há muito simbolismo e mais de um toque de que a intelectual vivida por Swinton talvez não esteja bem da cabeça. Há ecos de uma tragédia no passado, envolvendo uma criança chamada Enzo. Na terceira parte, em Londres, quadros na parece e caixas no porão dão mais dicas sobre a vida de Alithea, mas nada fica muito claro. Se você embarcar no romance "infantil, excitante e estranho" da descrição, é um filme interessante, mas difícil, de encarar até o final. A direção de fotografia é do grande John Seale ("Estrada da Fúria", "O Paciente Inglês", "O ano em que vivemos em perigo") e a trilha sonora de Tom Holkenborg é bonita. Disponível na Amazon Prime.
Um lugar bem longe daqui (Where the Crawdads Sing, 2022). Dir: Olivia Newman. HBO Max. Típico "filme de Supercine", rs, "Um lugar bem longe daqui" é baseado em um bestseller de Delia Owens. Kya Clark (Daisy Edgar-Jones) é uma garota que mora em uma cabana no pântano, na Carolina do Norte. Ela é chamada de "Menina do Brejo" pelos habitantes da cidade vizinha, que sempre a trataram mal. Garotos de bicicleta descobrem o corpo de um rapaz no brejo e, claro, a garota é acusada de matá-lo. Nem fica muito claro se houve um crime ou se o rapaz simplesmente sofreu um acidente, mas a garota é presa e a trama se torna um filme de tribunal.
Longos flashbacks mostram como Kya, quando criança, sofreu nas mãos de um pai abusivo. A mãe, as irmãs e o irmão vão embora, um a um (sem nem se preocupar com a irmã mais nova?) e a criança, sozinha, aprende a se manter vendendo mariscos, que caça todas as manhãs. Quando adulta, Kya é interpretada pela inglesa Daisy Edgar-Jones, que mais parece uma boneca de porcelana do que com uma mulher que passou a vida inteira trabalhando sob o Sol. Com a ajuda de um rapaz, Tate (Taylor John Smith), ela não só aprende a ler e a escrever como consegue, nos anos 1960, publicar um livro sobre os animais e plantas da região (com ilustrações em aquarela e nome em latim e tudo). Detalhe: ela faz isso tudo por correspondência (home office?), sem nunca encontrar os editores. De uma cabana. No pântano.
Ah, sim, o filme de tribunal. O grande David Strathairn se oferece para ser o advogado na moça, mas o caso era tão sem fundamento, desde o início, que fica difícil se importar muito com o resultado. Uma das produtoras é a atriz Reese Whiterspoon, que comprou os direitos do livro (que vendeu 12 milhões de cópias). A adaptação para o roteiro foi escrita por Lucy Alibar, que escreveu outro livro sobre uma garota crescendo no brejo, "Indomável Sonhadora" (2012). Para passar o tempo. Disponível na HBO Max.
Cyrano (2021). Dir: Joe Wright. Eu assisti à peça "Cyrano de Bergerac", estrelada por Antônio Fagundes, quando tinha uns 15 anos de idade. Vi depois a bela adaptação francesa estrelada por Gerárd Depardieu de 1990, e a comédia de Steve Martin chamada "Roxanne". A peça original foi escrita em 1897 por Edmond Rostand e conta a história de um espadachim (e poeta) chamado Cyrano de Bergerac, que é apaixonado por uma mulher chamada Roxanne. O problema é que ela gosta de outro homem, Christian. Cyrano tem um "defeito" na face, um nariz enorme, e acredita que Roxanne nunca se apaixonaria por ele por causa disso. Ele então ajuda Christian, que é um homem bonito, a conquistar Roxanne através de longas cartas apaixonadas.
Esta versão de 2021 troca o nariz longo de Cyrano pela baixa estatura (1,35 m) de Peter Dinklage; o roteiro foi transformado em um musical mas, a não ser por estas diferenças, ele é bastante fiel à peça original. O Cyrano de Dinklage também é perdidamente apaixonado por Roxanne (Haley Bennet), que ele conhece desde criança. Ele acredita que ela não possa gostar dele por sua estatura; além disso, ela se apaixona à primeira vista por Christian (Kelvin Harrison Jr.), que é bonito, mas não sabe se expressar bem. Assim como na peça, Cyrano então passa a ajudar Christian enviando cartas apaixonadas em nome dele. Mas será que Roxanne está apaixonada só pela aparência de Christian ou pelas palavras de Cyrano?
A produção é belíssima, tendo sido filmada na Itália durante a pandemia. É também um filme feito em família. A adaptação do roteiro foi escrita pela esposa de Dinklage, Erica Schmidt. O diretor, Joe Wright, é casado com Haley Bennet, que interpreta Roxanne. Wright já fez vários outros filmes históricos como "Orgulho e Preconceito", "Desejo e Reparação" e "Anna Karenina", e está à vontade na bela recriação de época, figurinos e fotografia. Peter Dinklage, como sempre, está excelente e é uma pena que ele tenha sido ignorado pelo Oscar (a única indicação do filme, aliás, foi pelo figurino). As músicas, de Bryce Dessner e Aaron Dessner, nem sempre funcionam, mas há alguns momentos inspirados (como a música pouco antes de um ataque, em uma cena de guerra).
Apesar da presença de Peter Dinklage, famoso por seu papel em "Game of Thrones", "Cyrano" foi um fracasso de bilheteria. O público, pelo jeito, não se interessou em vê-lo como um poeta e espadachim apaixonado. A versão com Gerárd Depardieu é, no geral, melhor, mas gostei bastante deste filme, principalmente pelo carisma e interpretação de Peter Dinklage.
Madame (2017). Dir: Amanda Sthers. Amazon Prime. Comédia dramática que poderia ter rendido bem mais, "Madame" lembra um pouco "Que horas ela volta?", filme brasileiro em que Regina Casé interpretava uma empregada "da família" em uma casa de São Paulo. Aqui, uma família americana rica tem uma casa enorme em Paris. O casal principal é interpretado pelos grandes Harvey Keitel e Toni Collette, excelentes. A empregada é Rossy de Palma, espanhola vista em vários filmes de Almodóvar.
A americana organiza um jantar de gala em que até o prefeito de Londres estará presente, mas há um problema: o filho de Harvey Keitel, Steven (Tom Hughes) aparece de surpresa, o que faz com que a mesa tenha 13 convidados. Para fazer um número par, a patroa pede que a empregada coloque um vestido e se sente à mesa ("fale pouco, beba pouco"). Só que um convidado, um vendedor de arte inglês (Michael Smiley), acaba se apaixonando pela espanhola (que ele acredita ser da realeza da Espanha).
Está armada uma comédia de erros em que o rico inglês começa a sair com a empregada espanhola, acreditando que ela é uma rica excêntrica, enquanto que a patroa americana não se conforma que a empregada tenha uma vida amorosa melhor do que a dela. Toni Collette está muito bem como uma mulher rica mas mal amada, que acha que a empregada deve voltar "ao seu lugar". O tom cômico se torna mais dramático conforme o ciúme da patroa aumenta e ela começa a interferir no romance da empregada. Harvey Keitel está divertido e Rossy de Palma está muito bem. É um filme bem europeu, com produção francesa mas falado em inglês. O tema poderia ter rendido mais, mas não é um filme ruim. Disponível na Amazon Prime.
Submersão (Submergence, 2017). Dir: Wim Wenders. Amazon Prime. As paisagens são lindas. Os atores e atrizes são bons e bonitos. O diretor é ninguém menos que Wim Wenders. Mas pensa em um filme chato.
Alicia Vikander é Danielle, uma bióloga que deseja explorar o fundo do oceano. James McAvoy é um espião escocês (também chamado James). Os dois se encontram por acaso em um hotel à beira-mar na Normandia e se apaixonam. Danielle está para embarcar em uma missão para explorar o fundo do Atlântico; James está de partida para a Somália, onde pretende localizar uma célula terrorista da Al Qaeda.
Entre uma transa e outra, os dois têm diálogos "profundos" e cheios de metáforas sobre o fundo do oceano e sobre a escuridão do ser humano (ou algo assim). Cada um parte para sua missão e o resto do filme se arrasta interminavelmente. Melhor deixar passar. Disponível na Amazon Prime.
Apesar de algumas similaridades, é difícil imaginar que o mesmo diretor/roteirista de "Whiplash: Em busca da Perfeição", o jovem Damien Chazelle, tenha dirigido "La La Land". Os dois filmes falam sobre música (especificamente, jazz), mas enquanto "Whiplash" era sobre obsessão e perfeccionismo, "La La Land" é um filme sobre sonhos e amor. É também uma grande homenagem à era de ouro dos musicais da MGM, em que figuras como Gene Kelly dançava em Paris, e Fred Astaire bailava elegantemente com Ginger Rodgers.
Mia (Emma Stone) é uma aspirante a atriz que trabalha na cafeteria de um estúdio de Hollywood. Sebastian (Ryan Gosling) é um pianista de jazz que luta contra um mundo que acha que seu gênero musical está morto e enterrado. Como em todo bom romance, Mia e Sebastian se esbarram pela cidade e apesar das faíscas voarem cada vez que os dois estão na tela (Gosling e Stone nasceram um para o outro), a princípio eles fingem não estarem interessados. Mas esta é a Hollywood dos musicais, em que os pores de sol são maravilhosamente coloridos e Chazelle coloca Gosling e Stone para dançar em frente de um em um belo plano sequência. Quase todos os números musicais, aliás, são filmados de forma muito elegante por Chazelle (esqueça os exageros de Baz Luhrmann). Mesmo na sequência mais imaginativa do filme, em que os dois namorados são vistos dançando entre as estrelas do planetário de Los Angeles, Chazelle mantém a câmera fluida mas sem exageros nos ângulos e cortes.
As canções, todas inéditas, são de Justin Hurwitz, com letras de Benj Pasek e Justin Paul. Este não é daquele tipo de musical em que as pessoas cantam o tempo todo (felizmente), e as canções de Hurwitz estão bem integradas nos diálogos. O musical sempre foi o gênero mais escapista de Hollywood e é necessária boa vontade do público em aceitar que alguém simplesmente saia cantando e dançando no meio da rua, mas Chazelle consegue manter um bom equilíbrio entre os diálogos e músicas. Não sei até que ponto Ryan Gosling é responsável pelas várias cenas de virtuosismo em que o vemos ao piano, mas há também momentos calmos e emocionantes proporcionados pelas poucas notas da canção que é o carro chefe do filme, "City of Stars".
A mensagem, claro, é piegas e simples do tipo "siga seus sonhos", mas nem tudo é lindo e maravilhoso no roteiro, que vai em um crescente até algumas das cenas mais agridoces do cinema dos últimos anos. "La La Land" é colorido, vibrante, belo e emocionante. Tornou-se o queridinho de todos os festivais por onde passou, venceu um recorde de sete troféus no último "Globo de Ouro" e, provavelmente, vai repetir o feito no próximo Oscar. Para se assistir de coração aberto.
Este é daqueles filmes tão "bonitinhos" que está a um passo do piegas. "Begin Again" é escrito e dirigido por John Carney, que em 2006 surpreendeu o mundo com "Apenas uma Vez" ("Once"), filme de baixíssimo orçamento, gravado com câmeras semi-profissionais pelas ruas de Dublin (Irlanda), que caiu nas graças do público e chegou a ganhar um Oscar de melhor canção.
Neste percebe-se a intenção clara de repetir o sucesso anterior com os mesmos elementos: um roteiro simples, fortemente baseado na música, passado nas ruas de uma cidade grande (Nova York), e um romance não convencional. Se não fosse o enorme carisma do elenco (quem não quer ver Mark Ruffalo e Keira Knightley juntos?) o filme poderia se perder no caminho.
Ruffalo é Dan, um daqueles personagens comuns em filmes americanos, um produtor musical que já foi grande mas agora é o típico looser. Ele mora em um apartamento caindo aos pedaços, dirige um carro antigo, está sempre bêbado e não emplaca um sucesso há anos. Uma noite ele entra em um bar e vê uma bela garota inglesa, Gretta (Keira Knightley, de "Anna Karenina"), cantando no palco. O público não se entusiasma com a apresentação, mas os instintos musicais e empresariais de Dan o fazem querer gravar com ela. O problema é que ele havia sido despedido da gravadora naquela mesma manhã.
A trama é contada de forma não linear, e flashbacks nos mostram como é que Gretta foi parar naquele bar. Ela havia vindo a Nova York com o namorado, um músico em ascensão chamado Dave Kohl (interpretado pelo vocalista do Maroon 5, Adam Levine). Os dois eram como unha e carne, mas o sucesso subiu à cabeça do rapaz, que trai Gretta com uma garota da gravadora.
Assim, os personagens de Ruffalo e Knightley se conhecem quando estão no fundo do poço. Sem nada a perder e usando as novas tecnologias a disposição (em vários merchandisings da Apple), os dois decidem gravar um álbum pelas ruas de Nova York. (leia mais abaixo)
Carney dirige bem mas o filme, por vezes, passa a impressão de ser um "falso indie". Há aquelas inevitáveis montagens em que vemos os músicos gravando em vários pontos da cidade que nunca dorme, na cobertura de prédios, no metrô e até mesmo em barquinhos no Central Park. Tudo muito ensolarado e festivo, quase um institucional do urbanismo eficiente de Nova York.
A trama dá um pouco mais de profundidade ao personagem de Ruffalo, que tem que lidar com a ex-mulher (a grande Catherine Keener) e uma filha adolescente (Hailee Steinfeld, de "Ender´s Game") que se veste como uma garota de programa. Também emulando "Apenas uma Vez", Carney repete com Ruffalo e Knightley o mesmo tipo de amor platônico vivido por Glen Hansard e Markéta Irglova no outro filme. É um recurso que, sem dúvida, gera uma tensão sexual bem vinda, mas a repetição é um pouco frustrante e até previsível.
Apesar de bastante retrô, o filme flerta com conceitos modernos como a disponibilização de músicas na internet e a mudança do modelo econômico das gravadoras. Nada muito profundo, e tudo termina de forma apropriadamente agridoce, nem tão feliz nem triste. É fácil imaginar fãs do filme saindo por aí (de bicicleta, claro), com um iPhone no bolso, escutando a trilha sonora deste filme.
Para um filme que passa quase duas horas falando sobre como enfrentar a depressão, passar por cima do passado e voltar a viver, "O Último Amor de Mr. Morgan" tem um final completamente incoerente e inacreditável. É uma pena, porque durante a primeira hora assistimos a um filme charmoso e interessante.
Michael Caine, sempre ótimo, é Matthew Morgan, um professor aposentado de Filosofia que mora em Paris. Desde a morte da esposa Joan (a veterana Jane Alexander), que ele venerava, ele vagueia pela cidade imaginando a mulher ao seu lado, tendo conversas imaginárias com ela ou passeando de mãos dadas. Um dia, no ônibus, ele conhece uma jovem e doce francesa chamada Pauline (Clémence Poésy), que imediatamente simpatiza com ele. Os dois engatam uma amizade que é uma mistura de companheirismo, amor paternal e, talvez, algo mais. É interessante o modo como nenhum dos dois questiona ou discute o que está acontecendo; eles apenas gostam de estar juntos e passear por paisagens idílicas de Paris e arredores, acompanhados por uma trilha suave de Hans Zimmer. (leia mais abaixo)
É então que o personagem de Michael Caine acha que é hora de "voltar para casa", e ele tenta se suicidar tomando uma overdose de pílulas para dormir. Ele falha, e é visitado no hospital não apenas por Pauline (que lhe diz que "tomou uma decisão") mas pelos filhos que voaram dos Estados Unidos para a França para ver o pai. Eles são Miles (Justin Kirk), um rapaz extremamente ressentido (e chato) com o pai e Karen (uma surpreendente Gillian Anderson, a eterna Dana Scully da série "Arquivo X"). De repente, o filme sai totalmente dos trilhos. O que começou como uma bonita história de amor e redenção entre um viúvo e uma jovem se torna uma discussão interminável entre Matthew e seus filhos (principalmente Miles) que não têm motivos para achá-lo um grande pai. Pauline, colocada no meio de uma discussão de família, perde qualquer traço da personalidade que tinha até então. O tal "último amor do Sr. Morgan" dá lugar a cenas intermináveis em que Miles acusa o pai de tê-lo castrado quando criança, discussões sobre quem vai herdar o dinheiro de uma casa de campo, problemas no casamento de Miles e outras coisas que, francamente, o espectador não está interessado.
O final, repito, vai contra tudo o que se construiu durante a narrativa. "O Último Amor de Mr. Morgan" é escrito e dirigido por Sandra Nettelbeck; o filme vale pela interpretação de Michael Caine e por algumas belas cenas durante a primeira hora. Quando os filhos entram em cena, porém, se torna um filme enfadonho e sem direção. Em cartaz no Topázio Cinemas, em Campinas.
Walter Mitty (Ben Stiller) é um homem analógico. Logo na primeira cena nós o vemos enfrentando problemas para postar em um site de relacionamentos enquanto, atrás dele, podemos ver uma estante cheia de discos de vinil e um aparelho de som antigo. Ele trabalha para a revista "Life" no setor que lida com os poucos negativos de fotos que ainda são enviados por fotógrafos mundo afora. Walter e sua vida analógica enfrentam um grande desafio quando a "Life" é comprada e é anunciada a extinção da revista em papel. A "Life" vai se transformar em "Life Online", que é uma metáfora bastante direta para o que está acontecendo hoje não só com Walter, mas com todo mundo.
"A Vida de Walter Mitty" é estrelado e também dirigido por Stiller; a produção seria comandada por Gore Verbinski, mas Stiller assumiu o posto quando Verbinski foi dirigir o fracasso "O Cavaleiro Solitário". Ben Stiller é bom comediante e é um ator muito melhor do que o insuportável Adan Sandler, por exemplo, passando um ar de "gente comum" que cai bem em um personagem como Walter Mitty (por outro lado, Steve Carell teria sido perfeito). Mitty tem um herói, um fotógrafo aventureiro chamado Sean (ninguém menos que Sean Penn, de "Milk"), que lhe manda um rolo de filme com instruções específicas para usar a foto número 25 como capa da última edição impressa de "Life". O problema é que Walter não consegue encontrar o negativo e resolve, pela primeira vez em anos, sair da zona de conforto, partindo para uma aventura em busca de Sean e da misteriosa foto. Há algo de "Forest Gump" em Walter Mitty quando ele parte, geralmente correndo, mundo afora por países como a Groenlândia, Islândia e Afeganistão. Não foram usadas câmeras digitais nas filmagens, mas sim a película (analógica) Kodak. O que não impede, porém, que o filme tenha algumas sequências cheias de efeitos especiais (digitais) que mostram as fantasias de Walter. Algumas destas cenas são interessantes, mas há outras exageradamente longas e desnecessárias, como uma luta entre Mitty e seu "inimigo" Ted Hendricks (Adam Scott), o executivo responsável pela transição da "Life" (um personagem que lembra o de George Clooney em "Amor sem Escalas").
As cenas com as aventuras reais de Mitty funcionam muito melhor, filmadas em locações reais na Islândia (que também foi usada para se passar pela Groenlândia e o Himalaia). Há também um romance com altos e baixos entre Mitty e uma colega de trabalho, Cheryll (Kristen Wigg, de "Meu Malvado Favorito 2"). Incomoda um pouco o uso descarado de merchandising; além da revista "Life", claro, há uma propaganda constante do site de relacionamentos e-Harmony. A veterana Shirley MacLaine faz uma participação como a mãe super-protetora de Mitty. A "mensagem" do filme não é nenhuma novidade, mas um convite à aventura nunca é demais. "A Vida Secreta de Walter Mitty" não é nenhuma obra-prima, mas diverte.
PS: e quem percebeu a sutil referência a "Matrix"?
"Ficou lindo em você", diz o vendedor. "Ficou, não é verdade?", responde Soledad (Inés Efron). A cena não se passa em uma joalheria, e os personagens não estão falando de um anel de brilhantes; eles estão em uma farmácia, e a moça está comprando um medidor automático de pressão. Esta é Soledad, uma garota de uns 20 anos que acabou de ser abandonada pelo namorado e prometeu que vai passar três anos sozinha. Ela mora sozinha em um apartamento grande e luta constantemente com o vazo entupido da privada. Em uma noite chuvosa, depois de preparar um DVD, vestir pantufas confortáveis e descer para pegar uma pizza, Soledad descobre que se trancou para fora do próprio apartamento. O pai, vivido em uma cena de 40 segundos pelo gigante Ricardo Darín, é ausente e ocupado. A mãe (Monica Gonzaga) fez uma operação de implante de mamas e precisa de ajuda até para abrir uma porta.
"Amorosa Soledad" é daqueles filmes leves e perigosamente "doces" que você assiste com um pequeno sorriso nos lábios, mas sabe que vai esquecê-lo em poucas horas. Foi lançado nas Argentina em 2008 mas chegou só agora ao Brasil. No tom e no tema, lembra bastante o também argentino (e muito superior) "Medianeiras", que também tratava de solidão, hipocondria e dilemas da vida urbana moderna. O filme se apoia totalmente na interpretação "gracinha" de Inés Efron, com seus expressivos olhos azuis e suas neuras cotidianas. Seu "voto de castidade" não dura uma semana, claro; um dia ela está em um café e um arquiteto chamado (assim como o ex-namorado) Nicolás (Fabian Vená) a convida para sair. Logo eles estão "ficando", mas Soledad não sabe direito o que quer. Hipocondríaca, faz visitas constantes ao hospital próximo de casa para checar enfartes imaginários. Uma tarde decide procurar por um pacote turístico para Búzios, no Brasil, mas a vendedora lhe diz que é complicado vender viagens para uma pessoa sozinha.
O filme é bem curto e, como disse, leve como uma pluma. O roteiro, bem feminino, é de Victoria Galardi, e a direção de Galardi e de Martín Carranza (que seria assistente de direção no pesado "Abutres", de Pablo Tapero, em 2010).
Um clássico russo de Leon Tolstoy, figurinos requintados, recriação de época, muito drama; como fazer para tornar esta história algo mais do que "mais um" filme histórico? A solução encontrada pelo diretor Joe Wright foi bem engenhosa e visualmente interessante. Ele e Keira Knightley já trabalharam juntos antes em adaptações de clássicos da literatura como "Orgulho e Preconceito" (2005) e "Desejo e Reparação" (2007), mas nenhum destes filmes tinha o requinte empregado na produção do drama de Tolstoy.
Grande parte do filme se passa dentro de um teatro, e o espectador pode ver as mudanças de cenários, iluminação, etc, enquanto os personagens vivem alheios às amarras da sociedade. A metáfora é óbvia, mas não menos interessante: a alta sociedade russa do final do século 19 segue regras de comportamento como atores interpretam um roteiro pré-estabelecido. A bela Anna Karenina (Keira Knightley) sai de São Petesburgo, onde é bem casada e tem um filho de 8 anos, e vai à Moscou tentar convencer a cunhada Dolly (Kelly Macdonald) a perdoar as infidelidades do marido, o Sr. Oblonsky (Matthew Macfadyen, muito divertido). Logo ao chegar a Moscou, no entanto, Anna vai ter a própria fidelidade testada ao conhecer o jovem Conde Vronsky (Aaron Taylor-Johnson, de "Selvagens"); há uma sequência muito bem feita passada em um baile em que Vronsky, que estava prometido para a princesa Kitty (Alicia Vikander, de "O Amante da Rainha"), seduz Karenina e os dois dançam a noite toda, diante dos olhos escandalizados da elite russa. O romance é arrebatador e tão inevitável quanto "errado". Anna é casada com um político importante (Jude Law, bastante sóbrio) que lhe é 20 anos mais velho e avesso a escândalos. Quando Anna confessa o romance ao marido, ele tenta negociar; ela deve terminar tudo, ou então vai perder o lugar na sociedade, cair em desgraça e, ainda por cima, perder o filho. Claro que ela promete, e não cumpre, pagando um preço caro por suas decisões.
Há ainda um outro personagem, Konstantin Levin (Domhnall Gleeson), que representa o lado mais "social" do texto de Tolstoy. Ele é apaixonado pela princesa Kitty mas não consegue viver dentro das regras de Moscou. Ele é dono de uma pequena fazenda no interior, onde arregaça as mangas e trabalha junto dos próprios empregados na colheita. As cenas protagonizadas por Konstantin, seguindo a metáfora visual criada pelo filme, são passadas fora do "teatro", em cenários reais nas paisagens da Rússia. Também as cenas de romance entre Anna e Vronsky são mostradas ao ar livre, como se seu romance estivesse longe do alcance das regras da sociedade. O roteiro foi adaptado pelo conceituado dramaturgo Tom Stoppard (que ganhou o Oscar por "Shakespeare Apaixonado") e "Anna Karenina" tem ótima direção de fotografia (de Seamus McGarvey) e o figurino de Jacqueline Durran foi premiado no último Oscar. Visto no Topázio Cinemas, Campinas.
Nathalie (Audrey Tautou, de "Coco antes de Chanel") é casada com um jovem francês que é quase perfeito. Ele é romântico (pede Nathalie em casamento de joelhos, no meio da rua), é bonito, é apaixonado por ela e quer ter filhos. Os dois formam um belo par e, em menos de dez minutos do filme, já estão casados e planejando uma família. É então que o inesperado acontece; ele sofre um acidente, entra em coma e morre.
"A Delicadeza do Amor", que parecia ser uma comédia romântica como outra qualquer, se transforma em um filme que, embora ainda leve e divertido, é inteligente e observador. Nathalie, viúva, investe no trabalho, onde é assediada pelo chefe (Bruno Todeschini), e vê as amigas se casando e tendo filhos. Após três anos em reclusão, um dia, inesperadamente, Nathalie beija um colega de trabalho, o sueco Markus (François Damiens). Ele é estrangeiro, desengonçado, grandalhão e tão "comum" que é quase invisível. O beijo de Nathalie é surpreendente para os dois, que não sabem o que fazer em seguida. Iniciam assim um romance tão inocente quanto complicado. Nem mesmo a melhor amiga de Nathalie consegue entender o porquê de uma mulher como ela ter se interessado por este sueco esquisito, e o próprio Markus tem dificuldade em acreditar no amor dela.
O filme é dirigido pelos irmãos Stephane e David Foenkinos, baseado no livro de David e, assim como diz o título, é extremamente delicado. Tautou (que para sempre vai ter associado "Amélie Poulain" a seu nome) está muito bem, mas Damiens rouba o filme como o atrapalhado Markus. Há uma cena muito engraçada quando ele está andando pelas ruas, logo depois do primeiro beijo de Nathalie, e ele se sente irresistível, atraindo a atenção de todas as mulheres da rua, ao som de "Bang a Gong (Get It On)", da banda T. Rex. O romance entre Nathalie e Markus rapidamente se transforma na fofoca preferida do escritório em que trabalham e a história vai parar nos ouvidos de Charles, o chefe ciumento dela. Mas os clichês são contornados pela sensibilidade do roteiro. O filme mostra como, no mundo competitivo de hoje, ser um sujeito decente, simples e comum como Markus é encarado com desconfiança. Cabe a Nathalie decidir se vai ceder às pressões de todos, que querem vê-la com "um cara melhor", ou vai acreditar no amor sincero de Markus. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.
O casal está no restaurante tentando decidir o que pedir. "O que você vai querer?", pergunta o marido. "Um divórcio", responde a esposa. Assim começa "Amor a toda prova" (mais um desses títulos brasileiros genéricos, inferior ao original, "Crazy, Stupid, Love"). O marido é Cal Weaver, o sempre competente Steve Carell. A esposa, Emily (ninguém menos que Julianne Moore), "não quer magoar" Cal, mas além do anúncio do divórcio ainda confessa ter transado com um companheiro de trabalho, David Lindhagen (Kevin Bacon), o que é mais informação do que Cal estava disposto a receber. Desolado, Cal começa a passar suas noites bebendo em um bar da moda, onde conhece o "homem perfeito", Jacob (Ryan Gosling), um conquistador que leva uma garota diferente para casa todas as noites. Jacob, afetado pela figura triste de Cal reclamando suas "histórias de corno" todas as noites no bar, resolve ajudá-lo a sair do buraco.
Steve Carell, que foi lançado à fama com a comédia escrachada "O Virgem de 40 Anos", tomou um rumo curioso (e muito bem sucedido) em sua carreira. Seu tipo "homem comum" se adaptou tranquilamente a filmes engraçados, mas com um foco mais "família", como "Agente 86", "A volta do Todo Poderoso" e "Eu, meu irmão e nossa namorada" (além da voz de Gru na ótima animação "Meu malvado favorito"). Assim como neste último, Carell eleva o nível do batido gênero "comédia romântica" de "Amor a toda prova", do qual é um dos produtores, com um roteiro inteligente escrito por Dan Fogelman. Robbie (Jonah Bobo, uma boa descoberta), seu filho de 13 anos, é um romântico incurável que é apaixonado pela baby sitter Jessica (Analeigh Tipton), de 17 anos. Ela, por sua vez, é apaixonada pelo patrão Cal e, com o divórcio, Jessica resolve partir para o ataque, consultando a "piranha" do colégio, uma garota que só transa com homens mais velhos. Cal, auxiliado pelas dicas de conquista de Jacob, faz uma reciclagem no guarda roupa, ganha um novo corte de cabelo e, após alguns tropeços, também se torna um conquistador competente. Há uma cena hilariante estrelada por Marisa Tomei, sua primeira conquista, que vale o filme.
"Amor a toda prova", porém, não é um filme sobre conquistas adolescentes. O roteiro, apesar de moderno, é voltado a valores tradicionais como romance e casamento. Cal e Emily têm uma longa história juntos e mesmo Jacob, após conhecer a bela Hannah (Emma Stone), começa a repensar seu modo de vida. Com 118 minutos, o filme poderia ser um pouco mais curto, mas o roteiro inteligente tem até espaço para algumas surpresas e reviravoltas.
Estranho esse tipo de cinema comercial que tem se tentado fazer no Brasil. Após o enorme sucesso de "Se eu fosse você 2", chega agora às telas "A Mulher Invisível". O filme com Tony Ramos e Glória Pires já seguia a cartilha da troca de gêneros tão usada na comédia americana e replicada aqui com inesperado sucesso. Agora o filme de Cláudio Torres, com Selton Mello e Luana Piovani, também segue uma fórmula usada à exaustão: a do homem solitário que, por algum motivo, começa a ver alguém que ninguém mais consegue enxergar. Foi assim com Steve Martin em "Um Espírito Baixou em Mim" ("All of Me", 1984), ou com Robert Downey Jr em "Morrendo e Aprendendo" ("Heart and Souls", 1993), entre vários outros exemplos.
Em "A mulher invisível", Selton Mello (figura carimbada do cinema brasileiro) é Pedro Albuquerque, um controlador de tráfego no Rio de Janeiro, que é abandonado pela esposa Marina (Maria Luisa Mendonça, em aparição relâmpago), no início do filme. Ele entra em parafuso, deixa o emprego e se tranca no apartamento por meses seguidos. Um dia uma mulher estonteante (Luana Piovani, com pouca roupa) aparece à sua porta com uma xícara na mão. Sim, é o velho clichê da vizinha que foi pedir açúcar emprestado. Ela acaba se revelando a mulher "ideal"; é bonita, gostosa, arruma a casa, não liga se Pedro chega de madrugada depois de uma noitada e está sempre pronta para sexo. O problema é que ela não existe, sendo fruto da imaginação de Pedro. E este é o filme. Não é difícil imaginá-lo em Nova York ou Los Angeles, com Ben Stiller como Pedro e Cameron Diaz como a mulher de seus sonhos.
A julgar pelas gargalhadas ouvidas na platéia, a produção agradou ao público e, de fato, ela tem seus momentos. Selton Mello, com uns quilos a mais, faz uso de seus trejeitos e voz para tentar arrancar risadas mesmo nas cenas não muito bem escritas. Há também a personagem da vizinha real de Pedro, Vitória (Maria Manoella), que por anos escutou a vida dele através da parede da cozinha. Casada com um policial durão e indiferente, ela é apaixonada por Pedro mas nunca conseguiu se declarar. E a vida dela fica bem mais complicada quando a "mulher invisível" de Pedro começa a aparecer para ele.
O filme, assim, é produção descartável e destinado a diversão rápida, e está bem longe da produção anterior do diretor, "Redentor". No máximo, pode-se observar superficialmente como o perfil de homens e mulheres mudou na sociedade. Pedro é um homem "moderno", o que significa perdido. Sua idéia de mulher ideal ainda carrega um monte de machismo, mas pode-se notar também uma grande carência e necessidade de afeto. Desde o advento da libertação sexual e do feminismo, a mulher moderna é um ser muito mais prático. Quando a esposa de Pedro o troca, no início do filme, por um "modelo" importado alemão, ela lhe diz que as mulheres "nunca são felizes quando estão felizes", que ela quer aventura, risco. Selton Mello, na melhor frase do filme, responde: "Eu posso te fazer infeliz se isso te fizer feliz".
Guel Arraes e Jorge Furtado são, possivelmente, os dois melhores roteiristas brasileiros hoje. Os dois tem a característica de saber misturar o popular com o erudito de forma inteligente e engraçada. Arraes vem de programas como a adaptação de "As Comédias da Vida Privada" para a televisão, do humorístico "TV Pirata" e da minissérie (também lançada como filme) "O Auto da Compadecida". Furtado é o roteirista/diretor do curta brasileiro mais premiado do cinema, "Ilha das Flores", e de longas como "O Homem que Copiava" e "Saneamento Básico". Agora os dois se juntaram para escrever o roteiro de "Romance", em que exploram a lenda romântica de "Tristão e Isolda" e a transferem para os dias atuais. O filme é dirigido por Guel Arraes.
Pedro (Wagner Moura) é um diretor de teatro apaixonado pelo seu ofício que está montando uma versão de Tristão e Isolda. Ele faz um teste com Ana (Letícia Sabatella), que ganha não só o papel como o coração de Pedro. Os dois se apaixonam no processo de ensaio, trocando diálogos que misturam suas frases com as dos personagens que estão interpretando, em um jogo metalinguistico típico dos roteiros de Jorge Furtado. Também típicas dele são as referências externas que, como hyperlinks, aparecem na tela na forma de animações. A bela fotografia (de Adriano Goldman) compõe planos atísticos que se mesclam citando quadros famosos, como "O Beijo", de Gustav Klimt, ou figuras medievais. Ana e Pedro se entregam a um amor ao mesmo tempo tradicional, cheio de romantismo e poesia, e físico. Letícia Sabatella, belíssima, está amadurecida e mais mulher em várias cenas de nudez com Wagner Moura. Tudo parce correr bem mas, como os próprios personagens comentam, no romance ocidental não há paixão sem dor ou sofrimento, e logo algo tem que dar errado. Os problemas começam quando um famoso produtor da televisão (José Wilker) vai assistir à peça e contrata Ana para fazer uma novela no Rio de Janeiro. Sua fama começa a atrair muitos espectadores para a peça, o que seria bom mas, ao mesmo tempo, causa ciúmes e sofrimento em Pedro, e os dois se separam.
Três anos depois, Ana é uma famosa artista da televisão e Pedro ainda é dedicado ao teatro. Os dois voltam a trabalhar juntos em uma adaptação de Tristão e Isolda para a TV, transposta para o nordeste brasileiro do século passado. É interessante ver como Arraes e Furtado brincam com os temas do sofrimento por amor e do triângulo amoroso presentes em Tristão e Isolda, que teria influenciado grandes partes das histórias de amor criadas desde o século XII (como "Romeu e Julieta", de Shakespeare, ou as lendas do Rei Arthur, traído por Guinevere e Lancelot). O filme é rico em situações e metalinguagens que misturam o teatro, a televisão e o próprio cinema. Há também uma ótima apropriação por parte do roteiro de outra peça famosa, "Cyrano de Bergerac", escrita por Edmond Rostand no final do século XIX. Na peça, Cyrano, um guerreiro feio e com um grande nariz, escrevia cartas apaixonadas para a bela Roxane. Só que, incapaz de declarar seu amor, Cyrano se escondia por trás do jovem Cristian, que acabava colhendo os frutos deste amor.
Em "Romance", a trama de Cyrano de Bergerac é resgatada pelo fato de que Pedro, ao escrever o roteiro de "Tristão e Isolda" para sua amada Ana, acaba vendo ela se apaixonar pelo ator que está interpretando Tristão, o sertanejo José de Arimatéia (Vladimir Brichta). Há mais sobre este personagem, mas prefiro não revelar aqui. O elenco ainda conta com Andréa Beltrão, muito bem como uma produtora que só pensa em audiência e sucesso, e com a participação especial de Marco Nanini, fazendo um ator cheio de manias e exigências. Como sugestão de referências, sugiro a versão de 1990 de "Cyrano de Bergerac", dirigida por Jean-Paul Rappeneau, com o grande Gérard Depardieu no papel principal. A lenda de Tristão e Isolda teve uma versão cinematográfica fraquinha realizada em 2006 por Kevin Reynolds. Mas o grande mestre do suspense Alfred Hitchcock se inspirou no mito para criar sua obra prima, o grande "Um Corpo que Cai" (Vertigo, 1958), em que James Stewart e Kim Novak vivem uma versão moderna e tortuosa do romance tradicional. Reparem como a trilha de Bernard Herrmman é fortemente baseada na ópera "Tristão e Isolda", de Richard Wagner.
Romance é um filme que fica para ser saboreado aos poucos, e ter suas dezenas de referências reconhecidas e aproveitadas. Belo trabalho de Guel Arraes, Jorge Furtado e elenco.
A força e a honestidade das interpretações são as principais razões para se gostar de "Era uma vez...", novo filme de Breno Silveira, diretor de "Dois Filhos de Francisco". O elenco é encabeçado por Thiago Martins, que não é exatamente um desconhecido (já participou de "Cidade de Deus" e outras produções), mas os atores soam todos naturais. O filme é uma espécie de versão brasileira da história de "Romeu e Julieta". Nada muito novo ou original mas, repito, o trabalho soa "honesto" na interpretação de Thiago como Dé, um rapaz que mora da favela do Cantagalo, em pleno bairro nobre de Ipanema, a quatro quadras da Avenida Vieira Souto. Ele trabalha em um quiosque que vende cachorro-quente na praia, que fica em frente a um apartamento de luxo onde mora Nina (a estreante Vitória Frate, muito bem no papel), por quem ele é apaixonado. Do quiosque ele a vê à janela e fica imaginando como é a vida de quem tem dinheiro. Ele mora em um barraco com a mãe (Cyria Coentro), e tem uma vida difícil. Um irmão foi morto ainda quando criança por um traficante local e o outro, Carlão (Rocco Pitanga) foi preso pela polícia por engano.
Um dia Dé vê Nina tendo uma discussão com o namorado, que termina com ela. Chateada, ela vai se sentar em um banco em frente à praia e quase é assaltada, mas Dé a ajuda e a leva de volta ao apartamento. A partir daí eles passam a se encontrar na praia e a se aproximar. O clima de romance é bom e rende algumas das melhores cenas do filme. É verdade que não faz muito sentido que Dé largue o quiosque vazio por diversas vezes, mas o filme é um romance, não um documentário. No início Nina não sabe que Dé é pobre e mora no morro. Quando descobre, fica confusa e a relação fica complicada, mas ela volta a se aproximar do rapaz em um baile "funk" na favela. A geografia do Rio de Janeiro, com suas praias e seus morros, propiciou o surgimento de uma divisão social enorme e cruel, onde a distância entre ser pobre e miserável ou classe média alta é de algumas ruas. O morro é praticamente uma zona de guerra controlada por traficantes e criminosos que, às vezes, matam alguém simplesmente porque joga futebol melhor. Nina, quando sobe o morro, é chamada de "princesa" por todos e aparentemente não é uma moça preconceituosa, mas fica claro que ela e Dé são de mundos diferentes. Mesmo assim os dois iniciam um namoro que não é bem visto nem pela mãe de Dé nem pelo pai de Nina, Evandro (Paulo César Grande), um advogado que está com problemas financeiros. Ele fica sabendo do namoro da filha pelo porteiro do prédio. Enquanto isso, Carlão foge da prisão e Dé descobre que o irmão se transformou em um criminoso que planeja tomar o morro. Rocco Pitanga, carismático, está muito bem como um homem que, no fundo, era bom e honesto mas não conseguiu se manter assim. Ele quer transformar o morro em um lugar melhor para os moradores, mas isso envolve assassinatos e ligações perigosas com a polícia e traficantes rivais.
O filme, como disse, não é um documentário, mas toca em questões relevantes sobre a situação aparentemente desesperadora pelo qual passa o Rio de Janeiro. Consultei colegas cariocas sobre como é realmente viver na cidade e as respostas são variadas. Há quem diga que o Rio vive uma guerra civil sim e que a vida diária é afetada pela violência. Ao se procurar um lugar para morar, por exemplo, deve-se escolher um apartamento que não esteja voltado para a favela sob o risco de ser atingido por balas perdidas. Há tiroteios constantes e o "espetáculo" de ver balas traçantes cortando a noite lembra até cenas da Guerra do Iraque. Mas há quem diga que não é bem assim, que o clima de violência é exagerado pela mídia, principalmente a TV e os filmes, que pintam um Rio de Janeiro que não existe. O fato é que o abismo social existe e que milhares de pessoas convivem diariamente sob ameaça de morte. E que o descaso e preconceito prevalecem. Quando fui ver o filme, por exemplo, na fileira atrás de mim havia quatro adolescentes, típicas "patricinhas" universitárias, fazendo comentários sobre o trailer de "Linha de Passe", o novo filme de Walter Salles. Diziam que filme brasileiro "é tudo igual", e que "só mostram pobres". Por que elas estavam no cinema, então? E o cinema nacional recente é variado a ponto de ter filmes "globais" como "Se eu fosse você" ou alternativos como "O Cheiro do Ralo". O difícil é vencer o preconceito dos brasileiros com seu próprio cinema.
O final de "Era uma vez..." provocou certa polêmica, mas é o encerramento certo para o filme. A única ressalva é que a direção pecou um pouco no modo de conduzir este final, que é mal editado e um pouco confuso. Havia modos mais verossímeis de se criar o impasse que encerra o filme. "Era uma vez..." foi mal nas bilheterias, ficando bem longe do sucesso estrondoso de "Dois Filhos de Francisco", mas é um bom romance. E o Rio de Janeiro continua lindo...e complicado.
Em meio à névoa, distinguimos as formas de uma mulher de costas, se banhando. A câmera vai se aproximando da imagem em meio ao vapor que sobe da água e não sabemos se a figura é real ou apenas um sonho. Não me lembro agora quem foi que disse que o oriente nada mais é do que uma miragem do ocidente, mas é o que esta imagem inicial me passou. Há "algo" no oriente que provoca uma reação nos ocidentais, uma impressão de mistério, de algo que deve ser revelado. O problema é que, de perto, talvez o mistério não seja assim tão interessante, ou o que se esperava. É desse mistério que "Paixão Proibida" ("Silk", seda, no título original) trata. O filme é uma história de amor... mas qual amor? Será o amor que o jovem Herve Joncour (Michael Pitt) sente pela bela esposa Helene (Keira Knightly)? Ou o amor que ele encontra, ou acha que encontra, do outro lado do mundo, no Japão?
Herve mora em uma pequena cidade francesa, no século 19, e está de licença do exército. Ele se apaixona por Helene e os dois se casam, mas eles estão fadados a passarem pouco tempo juntos. Um empresário local, Baldabiou (Alfred Molina) reativou a produção de seda local e está trazendo grande riqueza para a cidade. O problema é que uma doença desconhecida está matando os bichos da seda e Baldabiou precisa que Herve parta para o Japão para buscar ovos saudáveis para continuar a produção. A viagem é longa e passa por toda Europa e Ásia, em pleno inverno, até chegar ao outro lado do mundo. A fotografia do filme é muito boa e vemos belas paisagens pela França, Áustria, Rússia, China e finalmente Japão. Fica difícil no mundo globalizado em que vivemos imaginar como tudo deveria ser lento e trabalhoso naquela época, e talvez o filme seja lento exatamente por isso. Herve finalmente chega a uma pequena vila onde consegue comprar os ovos do bicho da seda. Lá ele conhece um samurai chamado Hara Jubei (Kôji Yakusho), que está às voltas com problemas políticos internos, e sua concubina. É então que Herve se apaixona, ou acha que se apaixona, pela garota (de quem nem sabemos o nome, interpretada por Sei Ashina).
Herve volta à Europa e para a esposa e embora tudo pareça ir bem ele não consegue se esquecer do Japão e da moça misteriosa. O filme, assim, é basicamente um embate entre esses dois mundos. Herve ama a esposa de verdade, mas não consegue se livrar da "miragem" do outro lado do mundo, e a necessidade de buscar mais ovos o manda ao Japão por outras ocasiões. "Paixão Proibida" é, ao mesmo tempo, bonito e decepcionante. Não deixa de ser bom, de vez em quando, ver no cinema um filme sobre pessoas e sentimentos, e não apenas efeitos especiais e explosões. O problema é que o filme talvez seja sutil demais, lento demais, mesmo que, o tempo todo, nos apresente magníficas imagens para se olhar. Alguns pontos da história me lembraram "A Época da Inocência", de Martin Scorsese, que também lidava com um jovem casal e a fascinação de um homem por outra mulher. Havia até uma cena, perto do final, em que o personagem de Daniel Day-Lewis estava olhando umas gravuras japonesas e pensando em largar tudo para partir para uma longa viagem.
"Paixão Proibida" é um filme bonito e bem feito, mas o roteiro deixa um pouco a desejar. Há algumas questões que são levantadas, mas não são bem explicadas. Por exemplo, qual a razão de apresentar uma vizinha de Herve e Helene que foi abandonada pelo marido? Ela tem um filho pequeno e, por vezes, têm-se a impressão que algo vai ser "revelado" sobre eles, mas nada acontece. Há também uma cena em que, no Japão, um comerciante de armas alemão diz a Herve que a concubina não seria japonesa. De onde ela veio então? E qual a relevância disso para o roteiro?
A direção é de François Girard, que baseou a história em um livro de Alessandro Baricco, e a produção é internacional (França, Itália, Japão). A trilha sonora é do veterano Ryuichi Sakamoto e é bonita, embora seus solos de piano, como o filme, também se estendam demais.