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sábado, 25 de março de 2023

 
O Estrangulador de Boston (Boston Strangler, 2023). Dir: Matt Ruskin. Star+. Filme policial baseado na história real de uma série de crimes acontecidos em Boston nos anos 1960. Um estrangulador atacava mulheres sozinhas, convencendo-as a entrar no apartamento fingindo ser um zelador ou técnico de manutenção. Os crimes atraíram a atenção de uma repórter do jornal Record American, Loretta McLaughlin (Keira Knightley), que até então só escrevia "matérias femininas". Com a ajuda de outra repórter, Jean Cole (Carrie Coon, sempre competente), Loretta encontrou ligações entre os crimes que haviam escapado à polícia de Boston.

O filme é claramente influenciado pelo trabalho de David Fincher em "Zodíaco" e na série "Mindhunter". As cores são discretas e a fotografia é sombria. Falta ao diretor (Matt Ruskin), porém, o talento e a ousadia de Fincher em deixar o espectador mais desconfortável. Apesar de tenso, "O Estrangulador de Boston" é bem mais tranquilo de se assistir do que "Zodíaco" (e nem vou falar de "Seven"). As ações do estrangulador quase não são vistas, a não ser por breves cenas no início. A falta de identificação com as vítimas (anônimas) também não ajuda muito o roteiro. O que falta em roteiro, porém, é compensado pelo bom elenco; Knightley e Coon são acompanhadas por um bom grupo de coadjuvantes como Chris Cooper (como o diretor de redação) e Alessandro Nivola (como um policial). Disponível na Star+.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

O Jogo da Imitação

É sempre complicado falar sobre um filme feito sobre uma pessoa real. Deve-se encará-lo como uma obra de ficção qualquer, analisando apenas sua lógica interna, execução técnica, direção e elenco? Ou se deve levar em conta a relação do produto final com a história real que o inspirou? Creio que um pouco das duas coisas.

"O Jogo da Imitação" se baseia em três momentos da vida do matemático britânico Alan Turing; no final dos anos 1920, quando era um estudante; nos anos 1940, durante a 2ª Guerra Mundial e nos anos 1950, quando ele foi condenado por "indecência" por ser homossexual. 

Cinematograficamente falando, a fase passada durante a guerra é a melhor. O mundo estava sob a ameaça nazista e os alemães ganhavam a guerra. Milhares de civis britânicos morriam com os constantes bombardeios e a inteligência britânica montou uma força tarefa para tentar quebrar um código alemão criado por uma máquina chamada de Enigma. Os melhores matemáticos e criptologistas do país foram chamados para trabalhar com a máquina e tentar quebrar o código.

Benedict Cumberbatch ("12 Anos de Escravidão") interpreta o matemático Alan Turing como um gênio arrogante e de poucos amigos. Como o Sr. Spock de Star Trek, Turing não tem senso de humor e entende tudo de forma literal e lógica. Ele fica fascinado com a máquina Enigma, capaz de gerar trilhões de combinações possíveis; os alemães trocavam o código todos os dias à meia-noite, tornando impossível que seres humanos conseguissem decifrá-lo em tão pouco tempo. A lógica de Turing é de que apenas uma máquina conseguiria combater outra máquina e ele começa a construir o protótipo dos primeiros computadores, que ele chama de "Christopher". A máquina de Turing realmente existiu, embora não tenha sido criação única dele nem tenha surgido do "nada", como o filme sugere, mas foi baseada em uma máquina polonesa chamada "Bombe". De qualquer forma, o filme reconstrói a máquina de forma impressionante e é fascinante vê-la funcionando, embora demorasse horas para chegar a algum resultado. É provável que qualquer calculadora de bolso hoje tenha mais poder de processamento que a máquina de Turing, mas ela foi responsável por quebrar o código alemão e sem dúvida ajudou a terminar a guerra. (leia mais abaixo)


As outras duas fases do filme, que lidam com a infância de Turing e sobre o período pós-guerra, são decepcionantes. Há um vai e vem destas cenas, montadas com a fase da guerra, que por vezes mais servem para confundir do que para explicar a trama. Turing quando garoto (Alex Lawther) é ainda mais tímido e fechado e é constantemente atacado pelos colegas de turma. Seu único amigo (e amor precoce) é um garoto chamado Christopher, com quem troca mensagens criptografadas. O fato de Turing chamar sua máquina de "Christopher", mais tarde, é uma licença poética bastante previsível dos roteiristas. Nos anos 1950, um policial começa a suspeitar que Turing seja um espião soviético depois de investigar um roubo na casa dele. O suspense se torna um anticlímax quando ele descobre o que o espectador já sabia faz tempo, que o segredo de Turing era ser homossexual e não um agente duplo.

Assim, "O Jogo da Imitação" acaba se tornando bastante irregular, mesclando bons momentos de suspense e paranoia durante a guerra com outros que não chegam a lugar algum. Interessante também notar que, assim como na outra biografia de um gênio matemático britânico que está nos cinemas, "A Teoria de Tudo", "O Jogo da Imitação" usa de vários elementos de "Uma Mente Brilhante", filme em que Russell Crowe interpretou outro gênio matemático que era bom em decifrar códigos.

João Solimeo


quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Mesmo se nada der certo

Este é daqueles filmes tão "bonitinhos" que está a um passo do piegas. "Begin Again" é escrito e dirigido por John Carney, que em 2006 surpreendeu o mundo com "Apenas uma Vez" ("Once"), filme de baixíssimo orçamento, gravado com câmeras semi-profissionais pelas ruas de Dublin (Irlanda), que caiu nas graças do público e chegou a ganhar um Oscar de melhor canção.

Neste percebe-se a intenção clara de repetir o sucesso anterior com os mesmos elementos: um roteiro simples, fortemente baseado na música, passado nas ruas de uma cidade grande (Nova York), e um romance não convencional. Se não fosse o enorme carisma do elenco (quem não quer ver Mark Ruffalo e Keira Knightley juntos?)  o filme poderia se perder no caminho.

Ruffalo é Dan, um daqueles personagens comuns em filmes americanos, um produtor musical que já foi grande mas agora é o típico looser. Ele mora em um apartamento caindo aos pedaços, dirige um carro antigo, está sempre bêbado e não emplaca um sucesso há anos. Uma noite ele entra em um bar e vê uma bela garota inglesa, Gretta (Keira Knightley, de "Anna Karenina"), cantando no palco. O público não se entusiasma com a apresentação, mas os instintos musicais e empresariais de Dan o fazem querer gravar com ela. O problema é que ele havia sido despedido da gravadora naquela mesma manhã.

A trama é contada de forma não linear, e flashbacks nos mostram como é que Gretta foi parar naquele bar. Ela havia vindo a Nova York com o namorado, um músico em ascensão chamado Dave Kohl (interpretado pelo vocalista do Maroon 5, Adam Levine). Os dois eram como unha e carne, mas o sucesso subiu à cabeça do rapaz, que trai Gretta com uma garota da gravadora.

Assim, os personagens de Ruffalo e Knightley se conhecem quando estão no fundo do poço. Sem nada a perder e usando as novas tecnologias a disposição (em vários merchandisings da Apple), os dois decidem gravar um álbum pelas ruas de Nova York. (leia mais abaixo)


Carney dirige bem mas o filme, por vezes, passa a impressão de ser um "falso indie". Há aquelas inevitáveis montagens em que vemos os músicos gravando em vários pontos da cidade que nunca dorme, na cobertura de prédios, no metrô e até mesmo em barquinhos no Central Park. Tudo muito ensolarado e festivo, quase um institucional do urbanismo eficiente de Nova York.

A trama dá um pouco mais de profundidade ao personagem de Ruffalo, que tem que lidar com a ex-mulher (a grande Catherine Keener) e uma filha adolescente (Hailee Steinfeld, de "Ender´s Game") que se veste como uma garota de programa. Também emulando "Apenas uma Vez", Carney repete com Ruffalo e Knightley o mesmo tipo de amor platônico vivido por Glen Hansard e Markéta Irglova no outro filme. É um recurso que, sem dúvida, gera uma tensão sexual bem vinda, mas a repetição é um pouco frustrante e até previsível.

Apesar de bastante retrô, o filme flerta com conceitos modernos como a disponibilização de músicas na internet e a mudança do modelo econômico das gravadoras. Nada muito profundo, e tudo termina de forma apropriadamente agridoce, nem tão feliz nem triste. É fácil imaginar fãs do filme saindo por aí (de bicicleta, claro), com um iPhone no bolso, escutando a trilha sonora deste filme.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Anna Karenina

Um clássico russo de Leon Tolstoy, figurinos requintados, recriação de época, muito drama; como fazer para tornar esta história algo mais do que "mais um" filme histórico? A solução encontrada pelo diretor Joe Wright foi bem engenhosa e visualmente interessante. Ele e Keira Knightley já trabalharam juntos antes em adaptações de clássicos da literatura como "Orgulho e Preconceito" (2005) e "Desejo e Reparação"  (2007), mas nenhum destes filmes tinha o requinte empregado na produção do drama de Tolstoy.

Grande parte do filme se passa dentro de um teatro, e o espectador pode ver as mudanças de cenários, iluminação, etc, enquanto os personagens vivem alheios às amarras da sociedade. A metáfora é óbvia, mas não menos interessante: a alta sociedade russa do final do século 19 segue regras de comportamento como atores interpretam um roteiro pré-estabelecido. A bela Anna Karenina (Keira Knightley) sai de São Petesburgo, onde é bem casada e tem um filho de 8 anos, e vai à Moscou tentar convencer a cunhada Dolly (Kelly Macdonald) a perdoar as infidelidades do marido, o Sr. Oblonsky (Matthew Macfadyen, muito divertido). Logo ao chegar a Moscou, no entanto, Anna vai ter a própria fidelidade testada ao conhecer o jovem Conde Vronsky (Aaron Taylor-Johnson, de "Selvagens"); há uma sequência muito bem feita passada em um baile em que Vronsky, que estava prometido para a princesa Kitty (Alicia Vikander, de "O Amante da Rainha"), seduz Karenina e os dois dançam a noite toda, diante dos olhos escandalizados da elite russa. O romance é arrebatador e tão inevitável quanto "errado". Anna é casada com um político importante (Jude Law, bastante sóbrio) que lhe é 20 anos mais velho e avesso a escândalos. Quando Anna confessa o romance ao marido, ele tenta negociar; ela deve terminar tudo, ou então vai perder o lugar na sociedade, cair em desgraça e, ainda por cima, perder o filho. Claro que ela promete, e não cumpre, pagando um preço caro por suas decisões.

Há ainda um outro personagem, Konstantin Levin (Domhnall Gleeson), que representa o lado mais "social" do texto de Tolstoy. Ele é apaixonado pela princesa Kitty mas não consegue viver dentro das regras de Moscou. Ele é dono de uma pequena fazenda no interior, onde arregaça as mangas e trabalha junto dos próprios empregados na colheita. As cenas protagonizadas por Konstantin, seguindo a metáfora visual criada pelo filme, são passadas fora do "teatro", em cenários reais nas paisagens da Rússia. Também as cenas de romance entre Anna e Vronsky são mostradas ao ar livre, como se seu romance estivesse longe do alcance das regras da sociedade. O roteiro foi adaptado pelo conceituado dramaturgo Tom Stoppard (que ganhou o Oscar por "Shakespeare Apaixonado") e "Anna Karenina" tem ótima direção de fotografia (de Seamus McGarvey) e o figurino de Jacqueline Durran foi premiado no último Oscar. Visto no Topázio Cinemas, Campinas.