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sábado, 9 de julho de 2011

"Uma Longa Viagem" e "O Palhaço" (Festival de Cinema de Paulínia)

"Uma Longa Viagem" foi apresentado pela própria diretora, Lúcia Murat (do bom "Quase Dois Irmãos") como "um filme muito pessoal". O documentário conta a história de Murat e de seus dois irmãos, Miguel e Heitor, que viveram durante o período da ditadura militar no Brasil. Lúcia foi presa por seu envolvimento com grupos de esquerda, Miguel fazia o "meio de campo" entre os irmãos rebeldes e a família tradicional e Heitor foi enviado para Londres para não ter o mesmo destino de Lúcia. O filme usa o ator Caio Blat para interpretar Heitor quando jovem, em recriações interessantes feitas através de cenários simples e projeções feitas sobre o corpo do ator. A "longa viagem" do título se refere pricipalmente aos oito anos em que Heitor esteve viajando pelo mundo, por lugares como Índia, Nepal, Paquistão, Afeganistão, Bali, Ilhas Fiji, Austrália, entre vários países. O próprio Heitor, que passou anos em clínicas de desintoxicação e psiquiátricas, conversa com Lúcia sobre este período. O documentário acaba mostrando as contradições tanto da época quanto dos próprios personagens. Lúcia se considera revolucionária, mas admite que só conseguiu ser libertada da prisão por fazer parte de uma família da elite e ter dinheiro para pagar bons advogados. Heitor é um "free spirit", um homem "livre", mas suas viagens pelo mundo foram custeadas pela família rica e pelo tráfico de diversos tipos de drogas. Seu uso abusivo de drogas, aliás, acabou resultando em sua internação e na dependência de remédios, e sua figura hoje, os olhos arregalados, a fala desconexa e desencontrada, contrastam com a representada por Caio Blat no "passado". A trilha sonora tem Janis Joplin e diversos hits da década de 1970. O documentário é interessante e bem feito, embora longo demais e, por vezes, pareça realmente um álbum de família.

"O Palhaço", de Selton Mello, era o filme mais esperado da noite (e um dos mais aguardados do Festival). A divulgação foi tão grande e Selton Mello atrai tanta atenção que uma verdadeira multidão tentava entrar no Theatro Municipal de Paulínia. A confusão gerou um atraso considerável na programação e a segurança do teatro acabou autorizando que parte do público se sentasse nas escadas. Houve reclamação também por parte do público e dos jornalistas presentes ao fato de que toda a parte da frente do teatro foi reservada para a enorme equipe do filme. O próprio Selton Mello, quando subiu ao palco, disse que se surpreendeu com as proporções que o Festival de Paulínia tomou e que os organizadores deveriam tomar alguma medida. Mello esteve em Paulínia em 2008, lançando seu primeiro longa-metragem, o pesado "Feliz Natal", e a expectativa quanto a "O Palhaço" era grande.

Senton Mello interpreta Benjamim, um palhaço de circo que acha que perdeu a graça. Seu pai, o palhaço "Puro Sangue", é interpretado pelo ótimo Paulo José. Selton é responsável pelo roteiro do filme (em parceria com Marcelo Vindicatto), pela direção, interpretação, co-produção e também fez parte da edição (com Marília Moraes). "O Palhaço", infelizmente, está longe da força de "Feliz Natal". O filme é muito bem intencionado e é louvável sua tentativa de resgatar uma época ingênua e lúdica, represantada pela trupe de artistas do circo "Esperança". Apesar das boas intenções, faltou ao filme um roteiro mais interessante. O caráter episódico fica evidente na participação especial de atores como Moacyr Franco, ótimo em uma sequência passada em uma delegacia de polícia, ou do ex ator infantil Ferrugem, engraçado como escrevente de um cartório onde Benjamim vai tentar tirar a carteira de identidade. Há uma boa sequência passada na casa do prefeito de uma das cidades por onde passa o circo, e um toque de romance é representado por uma fã que convida Benjamim para visitar a cidade. De resto, o filme se resume a longas cenas entre Selton Mello e Paulo José no picadeiro, fazendo números de pastelão que deveriam passar por engraçados, mas no máximo produzem um sorriso na platéia. Selton Mello é bom ator, mas não há nada de muito original em um palhaço triste. Há cenas que tentam evocar Charlie Chaplin e Buster Keaton, mestres do cinema mudo. Keaton, aliás, tinha como marca o fato de ser engraçado sem nunca esboçar um sorriso. O filme foi muito aplaudido no festival, mas como praticamente metade da platéia do teatro era composta pela equipe do filme, fica difícil entender a reação do público comum à produção de Selton Mello.


sábado, 30 de outubro de 2010

Federal

Impossível falar sobre "Federal" sem comparar com "Tropa de Elite". E é como comparar um episódio de uma série barata de televisão com um filme de Scorsese. "Federal" é, em vários aspectos, vergonhoso. É o primeiro longa metragem de Erik de Castro, cujo perfil no "press kit", disponível no site oficial, diz que ele estudou cinema em Los Angeles, e que o roteiro de "Federal" participou do conceituado laboratório de roteiros do Instituto Sundance.

"Federal" se passa em Brasília, terra natal do diretor, e o título se baseia tanto na capital quanto na polícia federal, cujos protagonistas do filme são membros. São todos clichês. Carlos Alberto Riccelli é Vital, delegado da Polícia Federal que luta contra o principal traficante de Brasília, Béque, interpretado pelo músico Eduardo Dussek, que está totalmente desperdiçado. Dussek, em seus shows, é irreverente, divertido, engraçado. Aqui ele é uma caricatura de um "vilão". Selton Mello (incansável e precisando escolher melhor seus projetos) é Dani, um policial jovem e "do bem", que é contra as torturas usadas pelos companheiros para conseguir informações. "A ditadura acabou", diz ele, que tem um diálogo patético com Riccelli a respeito dos "anos de chumbo". Mello e Riccelli são acompanhados pelos colegas Cesário Augusto (o policial Lua) e Christovan Neto (Rocha, o obrigatório personagem negro estereotipado).

O elenco ainda conta com a participação "especial" de Michael Madsen, ator americano que já trabalhou com Tarantino em filmes como "Cães de Aluguel" e "Kill Bill", como um policial do DEA (Drug Enforcement Administration). Madsen, com sua voz rouca, faz duas ou três cenas, contracenando com Riccelli e Dussek, e desaparece da mesma forma como surgiu, sem dizer a que veio. Praticamente todo roteiro, aliás, sofre da falta de coerência. O Dani de Selton Melo é um personagem sem família, amigos ou um passado. Ele se envolve com uma mulher "quente" em uma boate que é descrita como uma "diplomata venezuelana", Sofia (Carolina Gómez). Cenas episódicas se seguem na tela e não se vê ligação entre os personagens, sua motivação ou a consequência de suas ações. Há cenas que lembram "Tropa de Elite", como a tortura de um bandido colocando um saco de plástico em sua cabeça. Mas não há nenhuma explicação ou detalhamento sobre como funcionam as operações da Polícia Federal ou qual o processo que levou à formação de áreas pobres nos arredores de Brasília. O "vilão" de Dussek também não tem história, ele simplesmente é um cara "mau". De tantos em tantos minutos, uma cena de sexo "tórrida" acontece na tela para animar um pouco a pobreza do roteiro.

Há mais conteúdo em um dos planos finais de "Tropa de Elite 2", aquele que mostra Brasília, do que em todo filme "Federal". Sim, são filmes diferentes, propostas diferentes. Mas não é justificativa para a falta de seriedade.


domingo, 7 de junho de 2009

A Mulher Invisível

Estranho esse tipo de cinema comercial que tem se tentado fazer no Brasil. Após o enorme sucesso de "Se eu fosse você 2", chega agora às telas "A Mulher Invisível". O filme com Tony Ramos e Glória Pires já seguia a cartilha da troca de gêneros tão usada na comédia americana e replicada aqui com inesperado sucesso. Agora o filme de Cláudio Torres, com Selton Mello e Luana Piovani, também segue uma fórmula usada à exaustão: a do homem solitário que, por algum motivo, começa a ver alguém que ninguém mais consegue enxergar. Foi assim com Steve Martin em "Um Espírito Baixou em Mim" ("All of Me", 1984), ou com Robert Downey Jr em "Morrendo e Aprendendo" ("Heart and Souls", 1993), entre vários outros exemplos.
Em "A mulher invisível", Selton Mello (figura carimbada do cinema brasileiro) é Pedro Albuquerque, um controlador de tráfego no Rio de Janeiro, que é abandonado pela esposa Marina (Maria Luisa Mendonça, em aparição relâmpago), no início do filme. Ele entra em parafuso, deixa o emprego e se tranca no apartamento por meses seguidos. Um dia uma mulher estonteante (Luana Piovani, com pouca roupa) aparece à sua porta com uma xícara na mão. Sim, é o velho clichê da vizinha que foi pedir açúcar emprestado. Ela acaba se revelando a mulher "ideal"; é bonita, gostosa, arruma a casa, não liga se Pedro chega de madrugada depois de uma noitada e está sempre pronta para sexo. O problema é que ela não existe, sendo fruto da imaginação de Pedro. E este é o filme. Não é difícil imaginá-lo em Nova York ou Los Angeles, com Ben Stiller como Pedro e Cameron Diaz como a mulher de seus sonhos.
A julgar pelas gargalhadas ouvidas na platéia, a produção agradou ao público e, de fato, ela tem seus momentos. Selton Mello, com uns quilos a mais, faz uso de seus trejeitos e voz para tentar arrancar risadas mesmo nas cenas não muito bem escritas. Há também a personagem da vizinha real de Pedro, Vitória (Maria Manoella), que por anos escutou a vida dele através da parede da cozinha. Casada com um policial durão e indiferente, ela é apaixonada por Pedro mas nunca conseguiu se declarar. E a vida dela fica bem mais complicada quando a "mulher invisível" de Pedro começa a aparecer para ele.
O filme, assim, é produção descartável e destinado a diversão rápida, e está bem longe da produção anterior do diretor, "Redentor". No máximo, pode-se observar superficialmente como o perfil de homens e mulheres mudou na sociedade. Pedro é um homem "moderno", o que significa perdido. Sua idéia de mulher ideal ainda carrega um monte de machismo, mas pode-se notar também uma grande carência e necessidade de afeto. Desde o advento da libertação sexual e do feminismo, a mulher moderna é um ser muito mais prático. Quando a esposa de Pedro o troca, no início do filme, por um "modelo" importado alemão, ela lhe diz que as mulheres "nunca são felizes quando estão felizes", que ela quer aventura, risco. Selton Mello, na melhor frase do filme, responde: "Eu posso te fazer infeliz se isso te fizer feliz".


segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Feliz Natal (o filme revisto)

Assisti a "Feliz Natal", longa de estréia de Selton Mello na direção, no I Festival Pauínia de Cinema, em julho de 2008. O clima era de festa, era a estréia no filme, com presença do próprio Selton Mello e um verdadeiro exército de pessoas da equipe, entre elenco, produtores e equipe técnica. O ambiente sem dúvida colaborou para que o filme não fosse visto de forma mais focada, de modo que resolvi revê-lo agora, quase seis meses depois, em uma sessão "comum" de cinema. O resultado é que "Feliz Natal" é, sem sombra de dúvida, um filme extremamente poderoso.

Não é um filme fácil. O tema é pesado e a direção, sim, é "exagerada" por parte de Selton Mello. Mas tudo isso é proposital: este é um filme de excessos, sobre uma época de excessos. Uma época que deveria ser de paz e de harmonia mas que, em alguns casos, acabam levando situações comuns ao limite. Picuinhas familiares, problemas entre pais e filhos, segredos escondidos, bebidas, drogas...tudo o que pode ser considerado "aceitável" durante o ano acaba se revelando um problema durante o estresse das festas de final de ano. Considere o caso de Caio (Leonardo Medeiros, perfeito), um homem que leva uma vida simples no interior, cuidando de um ferro velho, que decide enfrentar os próprios demônios e vai à cidade grande (um Rio de Janeiro quase irreconhecível) participar da ceia de natal da família. E que família. A mãe, Mércia (Darlene Glória, em interpretação no limite), é uma senhora viciada em remédios e bebida, que foi abandonada pelo marido Miguel (o grande Lúcio Mauro), que a trocou por uma garota com idade suficiente para ser sua neta. A cunhada Fabiana (Graziella Moretto), claramente não aguenta mais os escândalos da sogra nem o comodismo do marido Theo (Paulo Guarnieri). Caio é recebido na casa pelo sobrinho Bruno (o garoto Fabrício Reis, que rouba as cenas), com quem tem talvez o único diálogo completo do filme. A partir de sua entrada na festa de natal, ele é jogado em um turbilhão de recriminações veladas do irmão, olhares fuzilantes por parte do pai, um amor estranhamente físico da mãe e insinuações por parte da cunhada.

Tudo isso filmado por Selton Mello, com seu diretor de fotografia Lula Carvalho, com a câmera por vezes a centímetros do rosto dos atores, capturando cada olhar, cada respiração. O estilo pode saturar, mas há alguns planos magistrais. Leonardo Medeiros entra no banheiro, por exemplo, para lavar o rosto sulcado por lágrimas de desespero, quando a cunhada entra e fecha a porta. No plano, vemos apenas o rosto de Graziella Moretto, à direita, olhando para Caio, visto no reflexo sujo de um espelho cheio de texturas, no lado esquerdo. O que ela veio fazer ali? Veio trazer consolo? É um flerte? Caio não espera para descobrir e cruza a tela, saindo pela direita, invertendo o eixo; agora, o rosto de Moretto está à esquerda. Um pouco depois, há um longo plano seqüência que começa com um despedida entre Caio e sua mãe, que o empurra e o expulsa da casa. Ela então começa a descer as escadas da casa e a câmera vai atrás. Sem cortes, segue-se uma discussão entre Mércia e o marido; em seguida, Mércia vai até a sala e começa a atrapalhar a festa de natal, o que atrai a nora que, impaciente, praticamente a arrasta para fora da sala de volta à escadaria. O plano dura perto de dez minutos e envolve quatro situações/diálogos em seguida, sem cortes, no estilo documental de Lula Carvalho.

Mas não é pela técnica apenas que o filme é poderoso. A trama, complicada, fica realmente mais clara quando se revê o filme. O personagem de Leonardo Medeiros, Caio, está de volta à cidade não só para tentar se acertar com a família, mas para rever os amigos e enfrentar um trauma em seu passado: ele foi responsável por um grave acidente que causou a morte de uma moça. Acompanhamos sua visita a um cemitério em pleno dia de Natal (onde é recepcionado por um senhor bondoso que, irônico, diz que seu apelido é "Zé do Caixão"), para procurar o túmulo dela. Ele também visita o local do acidente e, em uma seqüência muito interessante, vemos o que realmente aconteceu. É a segunda de duas cenas em que a câmera sai do chão e, com o auxílio de uma grua, assiste tudo do alto.

Há uma cena de nudez de Graziella Moretto que, por causa de um protesto do companheiro e ator Pedro Cardoso, trouxe polêmica, mas a cena é simples, bela e nada gratuita. Fabiana, cansada dos problemas com a sogra e com o marido, está pensando em se separar. Sozinha, à noite, depois que todos já foram dormir, ela olha para o próprio corpo, nu, diante de um espelho, como que imaginando se ainda está em condições de tentar uma nova vida. O roteiro (de Selton Mello e Marcello Vindicatto) é implacável, e ainda reserva uma tragédia para o final. Quando vi o filme pela primeira vez, em Paulínia, achei o final exagerado e desnecessário. Estava enganado. É um final cruel, sem dúvida, mas, repito, condizente com o excesso presente em todo o filme.

"Feliz Natal" foi acusado de ser pretensioso e pesado demais. É pretensioso sim, mas por que não o seria? Selton Mello poderia facilmente ter feito uma comédia romântica, se aproveitado do próprio sucesso e trilhado o caminho mais fácil. Preferiu seguir por um caminho mais artístico e muito mais arriscado, mergulhando de cabeça no que há de pior no ser humano. Exagerado, sim, mas coerente. Ironicamente, o plano final é de uma paz e de uma simplicidade extremas. Por trás de uma cortina, vemos o retrato do que pode ser chamado de "felicidade".


segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Nas filmagens de "Jean Charles"

Neste final de semana visitei o set de filmagem do filme "Jean Charles" (título provisório), que tem parte de sua cenas filmadas na cidade de Paulínia, interior de São Paulo. Soube que estavam procurando por centenas de figurantes para uma cena passada no velório de Jean Charles, filmado em uma igreja do bairro Betel, Paulínia, sábado passado. Segundo informações obtidas com a produção, por volta de 500 figurantes compareceram às filmagens, que começaram no sábado (11/10) e vão até quinta feira agora. Estavam presentes no set os atores Daniel Oliveira, Vanessa Giácomo e Luiz Miranda. Dirigido por Henrique Goldman, o filme trata do caso trágico do imigrante brasileiro morto pela polícia em 2005, na Inglaterra, ao ser confundido com um terrorista. Selton Mello (sempre ele) interpreta o papel principal, mas ele não estava presente a estas filmagens. Suas cenas já foram filmadas na Inglaterra. O filme é uma co-produção entre a Inglaterra e o Brasil e, de fato, parte da equipe presente a Paulínia sábado era britânica. Segundo o site imdb.com, Stephen Frears ("Alta Fidelidade", "Ligações Perigosas") é um dos co-produtores.

Havia realmente centenas de figurantes dentro da igreja quando cheguei. De frente para o altar, um caixão cenográfico representava o corpo do brasileiro morto. Acompanhei a filmagem de algumas cenas e, em uma delas, fui um jornalista figurante que, munido de um gravador, tenta obter um depoimento da mãe de Jean Charles, quando esta se debruça sobre o caixão, chorando. A imprensa, representada tanto por figurantes quanto por jornalistas reais presentes à filmagem, cercou os personagens vividos por Daniel Oliveira e pelos pais de Jean Charles. O diretor gritou "ação" e foi um grande empurra-empurra. Foi também filmada a cena em que o padre faz um sermão em homenagem ao morto. A direção de fotografia era bem simples e, aparentemente, semi-documental. Não havia refletores ou rebatedores; tudo estava sendo filmado com luz natural. Os planos eram todos feitos em tripé, de forma bem tradicional. Havia uma segunda unidade gravando tudo em digital, não sei se estas imagens também serão incorporadas ao filme ou se era apenas uma equipe de making of.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Vencedores do I Festival Paulínia de Cinema

Sábado foi o encerramento do I Festival Paulínia de Cinema. O grande vencedor da noite foi José Mojica Marins, vulgo Zé do Caixão, com seu fime "Encarnação do Demônio". Não vi o filme e não gosto deste tipo de terror "trash", mas sem dúvida Zé do Caixão é um ícone do cinema brasileiro. Vi o trailer do filme e, ao menos tecnicamente, ele me pareceu bastante bem feito (e bastante sangrento). Deve agradar à molecada fã de filmes como "Jogos Mortais" e similares. Selton Mello levou o prêmio de Melhor Diretor por seu "Feliz Natal" (crítica abaixo).

Segue a lista dos vencedores:

- Melhor Filme: Encarnação do Demônio, de José Mojica Marins
- Prêmio Especial do Júri: Walter Lima Júnior, diretor de Os Desafinados (leia crítica abaixo)
- Melhor Diretor: Selton Melo, por Feliz Natal
- Melhor Ator: Paulo José, por Pequenas Histórias
- Melhor Atriz: Claudia Abreu, por Os Desafinados
- Melhor Ator Coadjuvante: Ângelo Paes Leme, por Os Desafinados
- Melhor Atriz Coadjuvante: Darlene Gloria e Graziella Moretto, por Feliz Natal (por unanimidade)
- Melhor Roteiro: Helvécio Ratton, por Pequenas Histórias
- Melhor Documentário: Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei, de Cláudio Manoel, Calvito Leal e Michael Langer
- Prêmios Especiais - Documentários: Iluminados, de Cristina Leal Castelar, e Nelson Dantas no País dos Generais, de Carlos Alberto Prates Correia
- Menção Especial: Fabrício Reis por sua atuação em Feliz Natal, de Selton Mello
- Melhor Fotografia: José Roberto Eliezer, por Encarnação do Demônio
- Melhor Montagem: Paulo Sacramento, por Encarnação do Demônio
- Melhor Trilha Sonora: André Abujamra e Marcio Nigro, por Encarnação do Demônio
- Melhor Edição de Som: Ricardo Reis, por Encarnação do Demônio
- Melhor Direção de Arte: Cássio Amarante, por Encarnação do Demônio
- Melhor Figurino: Fabio Namatame, por Onde Andará Dulce Veiga

domingo, 13 de julho de 2008

Feliz Natal

Li uma estatística uma vez que dizia que o stress das festas de final de ano é responsável por um aumento nas mortes por ataque cardíaco. Não sei se é verdade, mas me lembrei disso enquanto assistia a "Feliz Natal", filme de estréia na direção do ator Selton Mello, exibido dia 11 último no I Festival Paulínia de Cinema. Selton é sem dúvida uma das grandes figuras no cenário do cinema brasileiro recente, presente em filmes tão diferentes como "Lavoura Arcaica" e "O Cheiro do Ralo" como mais comerciais e leves como "O Auto da Compadecida" e "Lisbela e o Prisioneiro". Pode-se até dizer que ele sofre de certo excesso de exposição, a ponto de se tornar um pouco repetitivo. Nada melhor, então, do que passar para o lado de trás das câmeras e colocar o chapéu de diretor. Em "Feliz Natal", Selton também assina a produção, o roteiro (com Marcelo Vindicatto) e a edição do filme.

Não é um filme fácil. Selton poderia ter usado da própria fama para produzir um filme leve e divertido para atrair um grande público e agradar a todo mundo. Não é, definitivamente, o caso. "Feliz Natal" é "feio", "sujo", escuro e, por que não, polêmico. A fotografia de Lula Carvalho, além de super granulada, parece querer entrar na alma dos personagens através das lentes. Há alguns planos maravilhosos dos olhos injetados de Darlene Glória (a quem Selton Mello chamou de "minha musa, a alma do meu filme" antes da exibição em Paulínia) que valem o ingresso.

Leonardo Medeiros (perfeito) é Caio, o dono de um ferro velho no interior que volta para a cidade grande para rever a família durante as festas de Natal. A cunhada Fabiana (Graziella Moretto, em papel diferente de suas comédias habituais) o recebe dizendo que ele deixou muita mulher com o coração partido mundo afora (aparentemente, ela também). Sua mãe, Mércia (Darlene Glória, em atuação extraordinária) é um misto de amor de mãe com um "algo a mais" incômodo. O irmão Theo (Paulo Guarnieri, muito bem) não parece feliz em vê-lo e o pai (o grande Lúcio Mauro) diz para ele sumir da sua frente ou vai lhe partir a cara. Tudo isso apresentado em longos planos seqüência entrecortados por uma montagem que não segue o padrão clássico de plano/contraplano. Quando mãe e filho se encontram em frente a uma cortina de luzes, por exemplo, a edição entrecorta planos dos dois se falando com outros que os mostram se abraçando, gerando uma sensação de intimidade forçada, incômoda mesmo, para o espectador. Selton Mello também se mostra bom diretor em um encontro de Caio com a cunhada no banheiro. Nada é dito, vemos apenas o rosto dela em primeiro plano enquanto, em um espelho todo "sujo" com texturas, vemos o reflexo de Caio. Os dois apenas ficam lá, por um longo período, até que Caio pede licença e cruza a tela, deixando a cunhada do lado esquerdo do plano, agora invertido.

Selton Mello, grande fã do cinema nacional, europeu e do cinema americano marginal, claramente bebeu dessas fontes para criar sua versão de cinema. Os silêncios "europeus" de "Feliz Natal" por vezes são entrecortados por momentos mais "marginais" de humor, vindos principalmente das crianças (uma delas filho de Guarnieri; o outro menino, maravilhoso, infelizmente não peguei o nome). A (má?) influência da internet, por exemplo, rende momentos engraçados como quando os garotos vão procurar a definição de "menstruação" na web e a descrevem para os outros convidados da festa. E há a presença sutil de Tarantino em alguns diálogos trocados pelos amigos de infância que Caio vai visitar em sua passagem pela cidade.

Apesar desses momentos de humor, não é um filme para "se divertir". A hipocrisia da família moderna é mostrada de forma até cruel pela câmera "suja" de Mello. A Mércia de Darlene Glória é mostrada como uma senhora viciada em remédios e bebida. Lúcio Mauro se gaba de ter uma namorada com idade para ser sua neta, mas o "romance" tem que ser mantido à base de drogas para a potência. As crianças estão expostas a todo esse ambiente e as conseqüências são imprevisíveis. Caio está claramente tentando se reconciliar com problemas do passado, mas só encontra hostilidade ou, pior, piedade da família e amigos.

E há o final do filme. Claro que não vou entrar em detalhes aqui, pois não quero estragar o filme para ninguém. Só me limito a dizer que Selton cometeu uma ousadia final no roteiro que me deixou bastante dividido. Por um lado, a cena é forte o suficiente para ter arrancado, de uma mulher sentada atrás de mim no cinema, um "Não!" expontãneo e bem vindo (é raro tirar o público da letargia hoje). Por outro, eu me pergunto se ela era realmente necessária, ou se não teria sido uma apelação do roteiro. Para "compensar", há um plano final de absoluta paz que impressiona.

Um filme difícil, forte e impressionante. Não acho que vá agradar ao grande público. Para Selton Mello, é uma vitória artística e pessoal de alguém que já guardou seu lugar na história do cinema brasileiro como ator. "Estou nascendo de novo aqui hoje", disse ele antes da exibição do filme. "O flme se completa agora com o olhar de vocês". O olhar de muitos, ao final, era de espanto, confusão e admiração.


sexta-feira, 11 de julho de 2008

Os Desafinados

É uma e vinte da manhã e acabei de chegar da exibição de "Os Desafinados" no I Festival de Cinema de Paulínia. O filme foi mostrado no novíssimo teatro da cidade que, assim como todo o projeto cinematográfico de Paulínia, tem proporções faraônicas. O auditório tem capacidade para mil e trezentas pessoas, e a entrada estava decorada estilo "Hollywood", com direito a luzes cortando o céu e um longo tapete vermelho (simulando o Oscar) até a entrada do teatro. O filme estava marcado para começar às 20h, mas houve um atraso considerável até a entrada ser liberada para o público que esperava na fila no saguão do teatro.

O apresentador Serginho Groisman deu as boas vindas ao público e, antes da exibição do longa metragem, chamou ao palco Elke Maravilha, espalhafatosa como sempre, pois seria exibido um curta metragem a seu respeito (o curta é apenas razoável, dirigido pela filha de Sérgio Rezende). O ator Ney Latorraca entregou um prêmio especial ao diretor Mauro Lima pelo filme "Meu nome não é Johnny", que foi aceito pela produtora do filme e por Selton Mello, grande figura do cinema nacional recente. Selton mal desceu do palco e teve que voltar novamente, como parte do elenco de "Os Desafinados", o filme principal da noite. Também ao palco subiu o diretor Walter Lima Jr, que falou um pouco sobre a produção. Ele disse que parte do filme foi feita em Nova York e que as cenas da década de 1960 foram todas compradas de arquivos de imagens americanos. "Eles são muito organizados", disse o diretor. Na prática, o filme levou oito anos para ser finalizado, mas Walter Lima disse que o filme estava com ele há trinta anos. "Há vários filmes dentro da gente. Quando se encontram pessoas que sonham junto, a gente se enche de coragem", disse o diretor. E então, finalmente, "Os Desafinados" foi exibido.

O filme é muito bom, mas por vezes parece ser um "work in progress". O produtor Flávio Tambellini avisou, antes do início da projeção, que não houve tempo de colocar as legendas para os diálogos em inglês desta cópia. É de se imaginar que o filme ainda vá passar por algum tipo de edição final. Atrevo-me a dizer que, apesar de muito bom, ele precisa desta edição. "Os Desafinados" faz referência, claro, à Bossa Nova, estilo musical dos anos 1960 que misturou a influência do jazz americano com o samba brasileiro. O filme funciona (ou não...) em duas épocas; o "presente" mostra um grupo de senhores no Rio de Janeiro que estão surpresos e chocados com a morte de uma antiga cantora da bossa nova chamada Glória, que cantou com um grupo chamado Os Desafinados. Estes senhores, logo ficamos sabendo, eram membros deste grupo, e a imprensa está interessada na história deles. Isto serve de ponte para que o "passado" entre em cena. O grupo era formado por Joaquim (Rodrigo Santoro), Davi (Angelo Paes Leme), Geraldo (Jair Oliveira) e PC (André Moraes). Depois de falhar em um concurso que estava escolhendo grupos para tocar em Nova York, Os Desafinados decidem bancar a viagem do próprio bolso e partem para Manhatann. Junto com o grupo vai Selton Mello, interpretando o cineasta Dico, que é amigo e espécie de documentarista do grupo. Selton, apesar de ótimo como sempre, me pareceu estar no filme "apenas" pela grande simpatia que o público tem por ele. Seu personagem, apesar de servir como elo de ligação (até certo ponto) entre o passado e o presente (por causa de suas imagens), me pareceu mais o que se costuma chamar de "comic relief". Selton está muito bem mas corre o perigo, suponho, de se tornar uma caricatura de si mesmo. Todas as "tiradas" engraçadas do roteiro são ditas por ele e o público adora e morre de rir, mas talvez ele merecesse um papel mais sério.

A produção é bem cuidada e a recriação de época bem feita, mesclando imagens de arquivo (aquelas citadas pelo diretor) com outras feitas em locações de Nova York. O grupo, não conseguindo se apresentar em casas de espetáculo, começa a ganhar dinheiro e atrair atenção tocando nas ruas e em bares. Rodrigo Santoro, muito bem, faz o compositor do grupo e o personagem mais introspectivo do filme. Ele deixou no Brasil a esposa Luíza (Alessandra Negrini), que está grávida. Mas ao encontrar a música de rua Glória (Cláudia Abreu, em grande interpretação, sensual e confiante) tocando no Central Park, um se apaixona pelo outro e praticamente o grupo todo se muda para o apartamento da moça. Há belas passagens musicais como quando o grupo começa a improvisar sua bossa nova com uma banda de jazz em um bar, ou quando Santoro e Abreu fazem um dueto de violão e flauta no Central Park. O filme também mostra como os americanos se apropriavam dos direitos autorais dos compositores brasileiros apenas mudando a letra e registrando a música sob outro nome. A música do filme, a propósito, além de usar canções conhecidas de Tom Jobim, entre outros, também foi composta por Wagner Tiso.

Toda esta passagem em Nova York é bastante envolvente e bem feita. O problema, a meu ver, é que o filme fica retomando a trama que acontece no tempo presente, quebrando freqüentemente o "clima" e o andamento do filme. A trama do presente circula em torno da vontade do cineasta Dico (interpretado quando mais velho por Arthur Kohl) de reunir o grupo e fazer uma espécie de "especial" em vídeo para vender para a televisão. Há um grande contraste entre o glamour do passado e as condições do presente. O local da reunião do grupo, por exemplo, se dá em um bar de striptease. Como se não bastasse estas indas e vindas pelo tempo, o roteiro ainda tem a ambição de se enveredar pela parte política da história do Brasil, como o golpe de 64, a censura aos artistas e os abusos da ditadura. Tudo isso, repito, é produzido com muita competência mas, a meu ver, o roteiro acaba sofrendo com isso. O filme, que tem a longa duração de duas horas e meia, ganharia com uma edição mais rigorosa e a retirada de algumas cenas desnecessárias.

Isso posto, é um bom filme, com elenco afinado (me desculpem o trocadilho) e bela produção.