All the Old Knives (2022). Dir: Janus Metz. Amazon Prime Video. Filme de espionagem romântico (ou vice versa), estrelado por Chris Pine e Thandiwe Newton (e bom elenco, como Laurence Fishburne e Jonathan Price). A trama tem umas reviravoltas questionáveis mas, no geral, é um bom filme. Pine e Newton são dois agentes da CIA em Viena. Um avião é sequestrado por terroristas e todos a bordo são mortos. Oito anos depois, a CIA recebe a informação de que haveria um informante na equipe, e Chris Pine é enviado aos EUA para questionar a ex-amante (Thandiwe Newton). Os dois se encontram para um "jantar romântico" em um restaurante afastado e o filme se desenrola a partir da conversa entre os dois e muitos flashbacks.
O ritmo é bem lento e há várias idas e vindas no tempo. Os atores são vistos com cortes de cabelo diferentes, dependendo da época, mas nem sempre é fácil saber em que ano estamos. Há um bom nível de tensão gerado pelo encontro, uma mistura de saudade e desconfiança. Quem teria traído quem, e por quê? Ou eles são parte de um jogo maior? Como disse, há umas reviravoltas e revelações nos minutos finais que são questionáveis (há uma cena que depende de grandes coincidências para funcionar). Há uma boa "química" entre Pine e Newton e algumas cenas "quentes" entre os dois. Uma linha tênue, porém, separa o filme de espionagem do novelão. Disponível na Amazon Prime Video.
Águas Profundas (Deep Water, 2022). Dir: Adrian Lyne. Amazon Prime Video. Filme bobo sobre um casal bobo em um roteiro bobo, "Águas Profundas" marca a volta de Adrian Lyne à direção depois de 20 anos. Lyne ficou famoso com uma série de filmes nos anos 80 e 90 que, se não eram obras primas, ao menos eram interessantes, como "Flashdance"(1983), "Nove e meia semanas de amor" (1986), "Atração Fatal" (1987), "Alucinações do passado" (1990) e "Proposta Indecente" (1993).
Aqui ele dirige Ben Affleck e Ana de Armas em um suposto "suspense erótico" baseado em livro de Patricia Highsmith (da série de livros sobre Tom Ripley) de 1957. Affleck e Ana de Armas são um casal em crise. Ele é um milionário que ficou rico com a invenção de um chip usado em drones militares; ela é uma mulher vibrante que está sempre provocando o marido com uma série de "amigos" que ela traz para casa ou exibe para todo mundo. Affleck está em piloto automático, com aquele jeito Ben Affleck de interpretar; suas cenas mais "quentes" não são com Ana de Armas, mas quando ele está interagindo com sua criação de caracóis (sério). Ana de Armas está sempre ligeiramente bêbada, dançando, cantando ou tirando a roupa (em cenas breves, longe dos tempos em que Adrian Lyne fazia filmes com Kim Basinger ou Glen Close).
O personagem de Affleck finge não ligar para as infidelidades da esposa, mas não demora muito para alguns corpos começarem a aparecer. Oh, o suspense! Quem acaba roubando a cena (de todos os modos errados possíveis) é uma garota que interpreta a filha do casal, Grace Jenkins. Ela é uma garota precoce, que tem vários diálogos profundos com o pai ("Por que a mamãe age diferente quando está com outras pessoas?") e chega até a ganhar uma cena nos créditos finais, cantando e dançando. Disponível na Amazon Prime Video.
Os Pequenos Vestígios (The Little Things, 2021). Dir: John Lee Hancock. HBO Max. (Ok, assinei a HBO Max, vamos ver se vale a pena). Este filme é como se pegassem uma temporada de "True Detective" e transformassem em um longa metragem. Temos os atores classe A (Denzel Washington, Rami Malek, Jared Leto), temos um serial killer que mata mulheres, temos aqueles quartos escuros que parecem ficar ainda mais tenebrosos quando alguém acende a luz, temos aquelas cenas de autópsia com uma mulher nua exposta sobre a mesa, temos um clima pesado e depressivo... enfim, você já viu tudo isso antes.
O que não significa que o filme seja ruim. Quem gosta de um suspense policial bem feito, mesmo que clichê, pode assistir sem medo. O melhor de "Os Pequenos Vestígios", claro, é Denzel Washington. Ele já fez filmes do tipo antes (como "O Colecionador de Ossos", 1999, com Angelina Jolie) e é meio surpreendente que tenham conseguido contratá-lo para este filme, mas ele está muito bem. Denzel interpreta um xerife de uma cidade do interior que vai até Los Angeles buscar umas provas para um caso. Ao chegar lá, é reconhecido por vários outros policiais e ficamos sabendo que ele já havia trabalhado como detetive em Los Angeles. Rami Malek é o detetive que substituiu Denzel quando ele saiu da cidade, há cinco anos. Malek, ao contrário de Denzel Washington, está muito estranho. Ele não me convenceu em nenhum momento como um detetive "estrela" de homicídios. A bem da verdade, em vários momentos ele ainda parece estar interpretando Freddie Mercury, rs. Malek está investigando uma série de mortes de mulheres em Los Angeles e (coincidência) o caso pode ter ligação com uma investigação antiga de Denzel. E então entra Jared Leto, interpretando o louco de sempre, que pode (ou não) ser o principal suspeito do caso.
Como disse, não há nada de novo. David Fincher (Seven, Garota Exemplar, Zodíaco) teria feito um trabalho bem melhor. Nas mãos de John Lee Hancock, "Os Pequenos Vestígios" é intrigante e atmosférico o suficiente para prender a atenção. A crítica, em geral, falou muito mal do filme. Em cartaz na HBO Max.
"Febre do Rato" é uma experiência visceral que cheira rio, cidade, poluição, tinta, esperma, esgoto. É como um panfleto deixado por um poeta pobre, magro e faminto na mesa do restaurante e, como quase todo discurso panfletário, ele é exagerado, poético, incongruente e apaixonado. É moderno mas também anacrônico, seja nos discursos declamados ou na fotografia em preto e branco.
O cenário é Recife, cidade centenária e tradicional que, recentemente, foi invadida por empreendimentos imobiliários e financeiros que ergueram grandes torres de aço e vidro às marges do rio que a cruza. A câmera do diretor Cláudio Assis passeia pelo rio, por debaixo das pontes, mostrando os arranha-céus ao longe enquanto que, em primeiro plano, as palafitas criam um contraste enorme. Zizo (Irandhir Santos, inspirado) é um poeta que escreve e publica um jornal artesanal chamado "Febre do Rato", que distribui nas favelas da cidade com seu carro velho e um alto falante, com o qual declama palavras de ordem e poemas. O Poeta, a bem da verdade, fala por quase todo o filme, em um jorro ininterrupto de palavras. Só duas coisas conseguem lhe calar: a repressão, ao final, e a bela Eneida (Nanda Costa), uma jovem por quem o Poeta se apaixona. Ela é uma musa moderna, bem distante das donzelas virginais cantadas nos versos românticos do passado. Embora, para o pobre Zizo, ela decida ser inacessível, recusando-se a ficar com ele; o que, claro, só aumenta sua paixão.
Várias pessoas orbitam em volta do Poeta, como seu amigo Pazinho (Matheus Nachtergaele, muito bem), que tem uma relação conturbada com Vanessa (Tânia Granussi). Ela o traiu com outro homem e os dois estão na situação complicada de ainda se amarem, embora haja muita raiva no ar, principalmente por parte dele. Há uma sequência ótima em que uma discussão do casal se passa em três lugares (e três tempos) diferentes, mas as frases se complementam, como se a briga fosse sempre a mesma, repetidamente. Há ainda o traficante de maconha local (Juliano Cazarré) que, aparentemente, vive com outros dois homens e uma mulher; há uma cena que surpreende (ou choca alguns) em que os quatro estão nus, no chão, em uma situação claramente sexual. Cláudio Assis gosta de quebrar com as convenções recatadas do cinema nacional recente e chocar o espectador, por vezes de forma um tanto gratuita; há três ou quatro cenas de sexo entre Irandhir Santos e uma senhora muito mais velha dentro de uma caixa d´água, por exemplo, que podem ser encaradas como gratuitas, apesar da personalidade bastante edipiana do Poeta, que ainda vive com a mãe e depende dela.
O roteiro de Hilton Lacerda não segue uma trama muito clara, mas é evidente o talento de Assis em dirigir todos estes personagens. A fotografia e os movimentos de câmera de Walter Carvalho são tão elegantes e precisos que, repetimos, há certa incongruência entre a crueza do roteiro e das locações e a extrema beleza das imagens. Carvalho, por diversas vezes, coloca a câmera acima dos personagens e os segue em planos sequência que acompanham a trilha sonora (de Jorge du Peixe) ou os versos de Zizo. Tudo culmina para um desfile de 7 de setembro que é uma cacofonia de pés marchando, pessoas falando e poemas declamados. O final, infelizmente, não tem a força do resto do roteiro. É previsível que a subversão do Poeta será punida pelo "sistema"; por isso mesmo, um final alternativo teria mais impacto. "Febre do Rato" foi apresentado no Festival de Paulínia em 2011 e levou oito prêmios. Não é um filme para o grande público; há muita nudez (masculina e feminina) e vários momentos bizarros pelos quais o cinema de Cláusio Assis ficou conhecido. Mas é um trabalho de fôlego, provocador e, em alguns momentos, curiosamente sublime. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.
Na virada do século 19 para o século 20, um grupo de mulheres vive e trabalha em um bordel de luxo chamado L´Apollonide. A maioria veio de casas menores e trouxeram com elas dívidas que, em princípio, serão pagas com o trabalho; na prática, poucas acreditam que um dia vão deixar aquela vida. "Casa de tolerância" de luxo ou não, os problemas destas mulheres não são diferentes dos de qualquer prostituta. Solidão, condições de trabalho humilhantes, doenças, exploração financeira e risco de violência.
Escrito e dirigido por Bertrand Bonello, o filme é fotografado como se fosse um quadro impressionista. Bonello se baseou em quadros de Toulouse-Lautrec e seu diretor de fotografia, Josée Deshaies, compõe planos iluminados à luz de velas, com efeito impressionante. O roteiro começa em um momento de prosperidade e paz no bordel e vai, gradualmente, mostrando sua decadência. A edição é não-linear e o filme, às vezes, começa uma sequência pelo seu final, para em seguida mostrar o início. Há muita nudez e cenas de sexo, embora o objetivo do filme não seja a pornografia. Tem-se a impressão de se estar assistindo a um documentário filmado no início do século 20; Bonello mostra o cotidiano de várias mulheres, em horário de trabalho ou fora dele. Uma garota chamada Pauline (Iliana Zabeth), é alfabetizada e escreve uma carta para a "madame" do bordel, Marie-France (Noémie Lvovsky), pedindo para ser contratada. Primeiro ela precisa pegar uma autorização na prefeitura e passar por um exame médico para trabalhar como prostituta. Ela então é educada pelas outras garotas sobre como se vestir, se comportar e manter a higiene. Há também um momento de extrema violência, quando Madeleine (Alice Barnole) tem o rosto cortado por um cliente; ela então se transforma na "garota que sempre ri", por causa do formato que fica sua boca. O filme explora as fantasias da clientela masculina. Todos ricos, há desde o senhor que é velho demais para o sexo e que se contenta em pagar para ver uma garota nua até os que querem fantasias elaboradas como transar em uma banheira cheia de champanhe ou querem que a prostitua assuma o papel de uma boneca, ou de uma gueixa.
O diretor comete algumas ousadias que nem sempre funcionam. A fotografia deslumbrante por vezes é maculada por uma tela dividida em quatro partes que é muito moderna; algumas canções de rock e blues, cantadas em inglês, causam estranheza na trilha sonora. Lento e melancólico, o filme parece mais longo do que seus 122 minutos de duração. Apesar destes poréns, é um filme sensível e muito bem feito. A cena final, transportada para o mundo atual, é muito bem utilizada. Visto no Topázio Cinemas.
O diretor Nando Olival, em seu discurso antes da exibição de "Os 3" em Paulínia, disse que o filme era como um "jazz", em que cada um colocava uma nota. O resultado, infelizmente, está mais para um samba do crioulo doido.
"Os 3" conta a história de três jovens que, após se conhecerem em uma festa no início da faculdade, resolvem morar juntos. Claro que a situação de um triângulo amoroso está longe de ser a ideal, porque alguém sai perdendo. Camila (Juliana Scalch) até parece atenta a este detalhe e, em uma cena em que os três estão tomando banho na "piscina" do prédio (uma caixa d´água abandonada), ela institui uma regra: eles nunca deveriam se envolver. A premissa, interessante, até promete um filme potencialmente ousado, apesar de previsível. O problema é que o roteiro do próprio diretor (em parceria com Thiago Dottori) atira para todos os lados, e os três jovens vivem em um mundo completamente alheio à realidade. Uma locução em off de Rafael (Victor Mendes), o lado mais "sensível" do triângulo, compromete o filme por soar artificial e, o pior, contradizer as imagens em vários momentos. Por exemplo, uma montagem mostra os amigos se divertindo, recebendo namorados, fazendo festas etc, enquanto a narração de Rafael diz que a "regra" os manteve como amigos pelos quatro anos de faculdade. No plano seguinte, no entanto, os três são mostrados passeando em uma lancha e Casé (Gabriel Godoy) e Rafael estão se perguntando se a "regra" seria para valer mesmo. O narrador não acabou de estabelecer que sim? Por que os personagens ainda estão debatendo o assunto?
Para complicar, o que começa como um filme sobre três amigos na faculdade, de repente, se transforma em outro; um projeto dos três na faculdade atrai a atenção de um investidor. A idéia, originalíssima, é a seguinte: e se câmeras fossem instaladas no apartamento dos três e o público pudesse ver pela internet tudo o que eles fazem, 24 horas por dia? Novamente, em que mundo é passado este filme? Após 11 edições do "Big Brother Brasil" e similares, por que esta é apresentada como uma idéia nova? Na verdade é apenas uma cortina de fumaça do roteiro para dar lugar a cenas supostamente ousadas entre os três no apartamento. Há várias situações que não fazem sentido; uma senhora (contratada por eles mesmos para aumentar a audiência) aparece dizendo que é dona do apartamento e quer que eles deixem o local. A siutação é interessante, como eles vão resolver esta farsa diante do público? A trama, no entando, é simplesmente esquecida. Em outro momento, uma suposta prima de Camila aparece no apartamento dizendo que precisa de um lugar para morar. Novamente, não faz o menor sentido. Se o programa dos três é realmente o sucesso que o filme diz, eles deveriam ser famosos e conhecidos. Como é que esta "prima" não sabe de nada? Mesmo que ela faça parte da farsa, o público não iria questionar? Onde está este público? Qual a consequência do sucesso dos três? Aparentemente, nenhuma. Não há um jornalista ou fã que se interesse o suficiente para ir procurá-los no apartamento e, fora dele, eles não são reconhecidos. O filme quer que o público acredite que este sucesso está sendo gerenciado por dois senhores e seu neto, em uma agência de publicidade.
Assim, "Os 3" não sabe direito a que veio. É tecnicamente bem feito, com bela fotografia do craque Ricardo Della Rosa (que é co-produtor) e montagem afinada de Daniel Rezende. Os três jovens são bonitos (embora maus atores) e o filme não perde a oportunidade de expor seus corpos para as cores publicitárias da palheta de Della Rosa. Mas não há desenvolvimento ou profundidade. Situções são criadas para serem abandonadas em seguida. De qualquer forma, o filme foi muito aplaudido ao final da exibição, tem o apoio dos estúdios Warner e pode se tornar um sucesso.
Na cena da primeira vez que Bruna transa com um cliente e inicia sua "carreira" como prostituta, ela está de bruços, na cama, com o homem por cima. Sua expressão é um misto de dor e nojo e, em uma decisão interessante do diretor Marcos Baldini, a garota quebra uma convenção cinematográfica e fita o espectador direto nos olhos. É como se o filme perguntasse ao público presente ao cinema: "Vocês não vieram aqui para ver sexo? Então vejam". Nem que fosse apenas por esta cena, é um alívio ver que o filme está levando o assunto e o público com um mínimo de seriedade. Em um cinema nacional que quebra recordes de público com filmes rasos como "De Pernas pro Ar", podia-se esperar muito menos de "Bruna Surfistinha", a cinebiografia da prostituta mais famosa do país.
Bruna, interpretada com grande entrega por Deborah Secco, é o "nome de guerra" de Raquel Pacheco, garota de classe média paulista que abandonou a família para se tornar garota de programa. E inegável que ela foi um fenômeno de marketing. Primeiro em um blog e depois em um livro que se tornou "best seller" (para os padrões brasileiros), Raquel conseguiu fazer com que "Bruna" se tornasse conhecida e até mesmo admirada. Em um país em que Geisy Arruda se tornou "celebridade" por usar um vestido curto, talvez não seja um feito assim tão louvável, mas sem dúvida é fora do comum. O blog de Bruna Surfistinha recebia milhares de visitas diárias e ela soube explorar a nova mídia para atrair clientes cada vez mais variados. Mas como diz o ditado, é preciso ter cuidado com o que se deseja. Qual a vantagem em ser a "garota de programa mais conhecida do país"? Mais dinheiro? A que preço? Quem desejaria ser a "número um" em uma das "profissões" mais humilhantes que existem?
O roteiro é baseado no livro "O Doce Veneno do Escorpião", que vendeu mais de 250 mil cópias no Brasil. O ritmo do filme é lento, mostrando desde o início de Bruna em uma pequena casa em São Paulo. Lá ela conhece as colegas de trabalho e, com seu jeito de garota tímida, começa a ganhar cada vez mais clientes, o que causa alguns atritos. As cenas de sexo chegam a surpreender pelo realismo e pela entrega de Deborah Secco à personagem. É até de se admirar que a censura seja de 16 anos. Bruna conhece Carol (Guta Ruiz), uma mulher de classe alta que a apresenta para clientes com mais dinheiro; de quebra, Bruna começa a cheirar cocaína e a gastar mais do que ganha. Infelizmente a trama perde o foco a partir do meio do filme. De forma nada sutil, há longas sequências no estilo "montagem musical" em que vemos primeiro a subida de Bruna à classe "alta" da prostituição e das drogas para, em seguida, mergulhar no vício e voltar ao ponto de origem, sem dinheiro ou clientes. Há também um personagem chamado "Huldson" (Cássio Gabus Mendes) que (verdadeiro ou não) é o típico clichê do homem que se apaixona pela prostituta e quer fazê-la "mudar de vida".
E é de se questionar o tom de "vencedora" com que a personagem chega ao final da trama. Tudo na vida são escolhas, mas ao ver "Bruna Surfistinha" é possível se lembrar da garota Suelen, do documentário "Lixo Extraordinário". Com 18 anos e dois filhos para criar, ela preferiu trabalhar dia e noite como catadora de lixo do que se prostituir. Ao final de "Bruna Surfistinha", ela escreve um número na janela de seu apartamento de luxo, que representa os programas que ela ainda pretende fazer antes de "largar essa vida". O número é alto, muito alto; e o preço, impensável.
Assisti a "Feliz Natal", longa de estréia de Selton Mello na direção, no I Festival Pauínia de Cinema, em julho de 2008. O clima era de festa, era a estréia no filme, com presença do próprio Selton Mello e um verdadeiro exército de pessoas da equipe, entre elenco, produtores e equipe técnica. O ambiente sem dúvida colaborou para que o filme não fosse visto de forma mais focada, de modo que resolvi revê-lo agora, quase seis meses depois, em uma sessão "comum" de cinema. O resultado é que "Feliz Natal" é, sem sombra de dúvida, um filme extremamente poderoso.
Não é um filme fácil. O tema é pesado e a direção, sim, é "exagerada" por parte de Selton Mello. Mas tudo isso é proposital: este é um filme de excessos, sobre uma época de excessos. Uma época que deveria ser de paz e de harmonia mas que, em alguns casos, acabam levando situações comuns ao limite. Picuinhas familiares, problemas entre pais e filhos, segredos escondidos, bebidas, drogas...tudo o que pode ser considerado "aceitável" durante o ano acaba se revelando um problema durante o estresse das festas de final de ano. Considere o caso de Caio (Leonardo Medeiros, perfeito), um homem que leva uma vida simples no interior, cuidando de um ferro velho, que decide enfrentar os próprios demônios e vai à cidade grande (um Rio de Janeiro quase irreconhecível) participar da ceia de natal da família. E que família. A mãe, Mércia (Darlene Glória, em interpretação no limite), é uma senhora viciada em remédios e bebida, que foi abandonada pelo marido Miguel (o grande Lúcio Mauro), que a trocou por uma garota com idade suficiente para ser sua neta. A cunhada Fabiana (Graziella Moretto), claramente não aguenta mais os escândalos da sogra nem o comodismo do marido Theo (Paulo Guarnieri). Caio é recebido na casa pelo sobrinho Bruno (o garoto Fabrício Reis, que rouba as cenas), com quem tem talvez o único diálogo completo do filme. A partir de sua entrada na festa de natal, ele é jogado em um turbilhão de recriminações veladas do irmão, olhares fuzilantes por parte do pai, um amor estranhamente físico da mãe e insinuações por parte da cunhada.
Tudo isso filmado por Selton Mello, com seu diretor de fotografia Lula Carvalho, com a câmera por vezes a centímetros do rosto dos atores, capturando cada olhar, cada respiração. O estilo pode saturar, mas há alguns planos magistrais. Leonardo Medeiros entra no banheiro, por exemplo, para lavar o rosto sulcado por lágrimas de desespero, quando a cunhada entra e fecha a porta. No plano, vemos apenas o rosto de Graziella Moretto, à direita, olhando para Caio, visto no reflexo sujo de um espelho cheio de texturas, no lado esquerdo. O que ela veio fazer ali? Veio trazer consolo? É um flerte? Caio não espera para descobrir e cruza a tela, saindo pela direita, invertendo o eixo; agora, o rosto de Moretto está à esquerda. Um pouco depois, há um longo plano seqüência que começa com um despedida entre Caio e sua mãe, que o empurra e o expulsa da casa. Ela então começa a descer as escadas da casa e a câmera vai atrás. Sem cortes, segue-se uma discussão entre Mércia e o marido; em seguida, Mércia vai até a sala e começa a atrapalhar a festa de natal, o que atrai a nora que, impaciente, praticamente a arrasta para fora da sala de volta à escadaria. O plano dura perto de dez minutos e envolve quatro situações/diálogos em seguida, sem cortes, no estilo documental de Lula Carvalho.
Mas não é pela técnica apenas que o filme é poderoso. A trama, complicada, fica realmente mais clara quando se revê o filme. O personagem de Leonardo Medeiros, Caio, está de volta à cidade não só para tentar se acertar com a família, mas para rever os amigos e enfrentar um trauma em seu passado: ele foi responsável por um grave acidente que causou a morte de uma moça. Acompanhamos sua visita a um cemitério em pleno dia de Natal (onde é recepcionado por um senhor bondoso que, irônico, diz que seu apelido é "Zé do Caixão"), para procurar o túmulo dela. Ele também visita o local do acidente e, em uma seqüência muito interessante, vemos o que realmente aconteceu. É a segunda de duas cenas em que a câmera sai do chão e, com o auxílio de uma grua, assiste tudo do alto.
Há uma cena de nudez de Graziella Moretto que, por causa de um protesto do companheiro e ator Pedro Cardoso, trouxe polêmica, mas a cena é simples, bela e nada gratuita. Fabiana, cansada dos problemas com a sogra e com o marido, está pensando em se separar. Sozinha, à noite, depois que todos já foram dormir, ela olha para o próprio corpo, nu, diante de um espelho, como que imaginando se ainda está em condições de tentar uma nova vida. O roteiro (de Selton Mello e Marcello Vindicatto) é implacável, e ainda reserva uma tragédia para o final. Quando vi o filme pela primeira vez, em Paulínia, achei o final exagerado e desnecessário. Estava enganado. É um final cruel, sem dúvida, mas, repito, condizente com o excesso presente em todo o filme.
"Feliz Natal" foi acusado de ser pretensioso e pesado demais. É pretensioso sim, mas por que não o seria? Selton Mello poderia facilmente ter feito uma comédia romântica, se aproveitado do próprio sucesso e trilhado o caminho mais fácil. Preferiu seguir por um caminho mais artístico e muito mais arriscado, mergulhando de cabeça no que há de pior no ser humano. Exagerado, sim, mas coerente. Ironicamente, o plano final é de uma paz e de uma simplicidade extremas. Por trás de uma cortina, vemos o retrato do que pode ser chamado de "felicidade".