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sábado, 24 de março de 2012

Jogos Vorazes

O fictício país de Panem, na América do Norte, é formado pela capital e por 12 distritos. Por conta de uma rebelião causada pelo antigo 13º Distrito, todos os anos acontecem os "Jogos Vorazes", espécie de "reality show" em que os participantes, um casal de cada distrito, devem competir até a morte. Esta é a premissa da mais recente sensação literária adolescente criada pela escritora Suzanne Collins. Seguindo a linha de adaptações cinematográficas como "Harry Potter", "Percy Jackson" e mesmo a série "Crepúsculo", "Jogos Vorazes" tem uma legião de seguidores fanáticos que fazem verdadeira peregrinação ao cinema. Isso significa assistir a uma sessão de cinema escutando gritos de excitação cada vez que um personagem aparece na tela ou alguma frase conhecida é dita. Fica difícil, assim, julgar a obra do ponto de vista puramente cinematográfico.

Não há nada de novo em "Jogos Vorazes". A trama é baseada em um sem número de livros e filmes de ficção científica que pintam um futuro distópico em que uma classe dominante oprime a população pobre. "Jogos" tem traços do "1984" de George Orwell, de "A máquina do tempo", de H.G. Wells, de séries de TV como "Logan´s Run" e de filmes como "O Show de Truman", de Peter Weir. E, claro, o roteiro é baseado nas dezenas de "reality shows" que surgiram nos últimos anos. Há também inspiração do Império Romano e dos duelos travados pelos gladiadores no Coliseu. Os habitantes da capital de Panem têm nomes romanos como César ou Seneca. Esta familiaridade com material reciclado, no entanto, não significa que o filme seja ruim. Jennifer Lawrence, indicada ao Oscar pelo sombrio "Inverno da Alma", está bem como Katniss Everdeen, jovem de 16 anos que, quando a irmã mais nova é sorteada para os "Jogos Vorazes", pede para trocar de lugar com ela; ao lado dela está Peeta Mellark (Josh Hutcherson, de "Minhas Mães e meu Pai"), o tributo masculino. A direção de Gary Ross (do superior "Pleasantville - A Vida em Preto e Branco", 1998) não é muito afinada; ele se perde em algumas cenas de ação em que a câmera balança tanto que fica difícil saber o que está acontecendo.

Há uma analogia óbvia com o mundo midiático moderno. Stanley Tucci interpreta um apresentador de televisão que é uma mistura de Pedro Bial com Sílvio Santos, que tenta atrair a atenção dos espectadores para detalhes da vida pessoal dos competidores. É ele, por exemplo, que arranca do companheiro de Katniss, Peeta, que ele tem uma paixão secreta por ela ("revelação" que, novamente, causou gritos adolescentes na sala de cinema). Woody Harrelson interpreta um homem bêbado e decadente que já foi o vencedor dos jogos há muitos anos e, agora, é o conselheiro dos competidores do Distrito 12. Harrelson está muito bem no papel, mas o roteiro é superficial com a psicologia dos personagens. Vencer um dos "Jogos Vorazes" significa ter matado os outros 23 participantes; o que isso causou em um homem como Harrelson? Quando os jogos finalmente começam, o filme não foge da natureza sangrenta do espetáculo e mostra cenas bastante violentas para um filme infanto-juvenil. Pena que o suspense e a ação vão se esvaziando conforme o filme avança, que termina em um anti-clímax. E onde está a audiência? Por que o filme não os mostra, uma vez começados os jogos? Fala-se sobre "patrocinadores" e, em duas cenas, os competidores são ajudados por remédios que eles mandam. Mas a platéia pode eliminar um concorrente, caso não simpatize com ele? E será que esta sociedade rica e elitista se importaria em seguir um programa protagonizado por figuras da classe baixa?

São perguntas que, provavelmente, não cabem fazer sobre um filme adolescente de entretenimento, mas fica a sensação de que poderia ter sido melhor. Visto como cortesia no Kinoplex Campinas.

Box Trilogia Jogos Vorazes

Câmera Escura

terça-feira, 12 de julho de 2011

Os 3 (Festival de Cinema de Paulínia)

O diretor Nando Olival, em seu discurso antes da exibição de "Os 3" em Paulínia, disse que o filme era como um "jazz", em que cada um colocava uma nota. O resultado, infelizmente, está mais para um samba do crioulo doido.

"Os 3" conta a história de três jovens que, após se conhecerem em uma festa no início da faculdade, resolvem morar juntos. Claro que a situação de um triângulo amoroso está longe de ser a ideal, porque alguém sai perdendo. Camila (Juliana Scalch) até parece atenta a este detalhe e, em uma cena em que os três estão tomando banho na "piscina" do prédio (uma caixa d´água abandonada), ela institui uma regra: eles nunca deveriam se envolver. A premissa, interessante, até promete um filme potencialmente ousado, apesar de previsível. O problema é que o roteiro do próprio diretor (em parceria com Thiago Dottori) atira para todos os lados, e os três jovens vivem em um mundo completamente alheio à realidade. Uma locução em off de Rafael (Victor Mendes), o lado mais "sensível" do triângulo, compromete o filme por soar artificial e, o pior, contradizer as imagens em vários momentos. Por exemplo, uma montagem mostra os amigos se divertindo, recebendo namorados, fazendo festas etc, enquanto a narração de Rafael diz que a "regra" os manteve como amigos pelos quatro anos de faculdade. No plano seguinte, no entanto, os três são mostrados passeando em uma lancha e Casé (Gabriel Godoy) e Rafael estão se perguntando se a "regra" seria para valer mesmo. O narrador não acabou de estabelecer que sim? Por que os personagens ainda estão debatendo o assunto?

Para complicar, o que começa como um filme sobre três amigos na faculdade, de repente, se transforma em outro; um projeto dos três na faculdade atrai a atenção de um investidor. A idéia, originalíssima, é a seguinte: e se câmeras fossem instaladas no apartamento dos três e o público pudesse ver pela internet tudo o que eles fazem, 24 horas por dia? Novamente, em que mundo é passado este filme? Após 11 edições do "Big Brother Brasil" e similares, por que esta é apresentada como uma idéia nova? Na verdade é apenas uma cortina de fumaça do roteiro para dar lugar a cenas supostamente ousadas entre os três no apartamento. Há várias situações que não fazem sentido; uma senhora (contratada por eles mesmos para aumentar a audiência) aparece dizendo que é dona do apartamento e quer que eles deixem o local. A siutação é interessante, como eles vão resolver esta farsa diante do público? A trama, no entando, é simplesmente esquecida. Em outro momento, uma suposta prima de Camila aparece no apartamento dizendo que precisa de um lugar para morar. Novamente, não faz o menor sentido. Se o programa dos três é realmente o sucesso que o filme diz, eles deveriam ser famosos e conhecidos. Como é que esta "prima" não sabe de nada? Mesmo que ela faça parte da farsa, o público não iria questionar? Onde está este público? Qual a consequência do sucesso dos três? Aparentemente, nenhuma. Não há um jornalista ou fã que se interesse o suficiente para ir procurá-los no apartamento e, fora dele, eles não são reconhecidos. O filme quer que o público acredite que este sucesso está sendo gerenciado por dois senhores e seu neto, em uma agência de publicidade.

Assim, "Os 3" não sabe direito a que veio. É tecnicamente bem feito, com bela fotografia do craque Ricardo Della Rosa (que é co-produtor) e montagem afinada de Daniel Rezende. Os três jovens são bonitos (embora maus atores) e o filme não perde a oportunidade de expor seus corpos para as cores publicitárias da palheta de Della Rosa. Mas não há desenvolvimento ou profundidade. Situções são criadas para serem abandonadas em seguida. De qualquer forma, o filme foi muito aplaudido ao final da exibição, tem o apoio dos estúdios Warner e pode se tornar um sucesso.