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sábado, 4 de fevereiro de 2023

Triângulo da Tristeza (Triangle of Sadness, 2022)

Triângulo da Tristeza (Triangle of Sadness, 2022). Dir: Ruben Östlund. Chega aquela época do ano, as indicações ao Oscars, em que você tem que caçar pelos indicados nos cinemas, nos canais de streaming ou em serviços "alternativos" internet afora. "Triângulo da Tristeza" foi indicado a três prêmios importantes, melhor filme, melhor diretor e melhor roteiro original. Roteiro e direção são de Ruben Östlund, do superior "Força Maior" (2014), disponível na Amazon Prime.

"Triângulo da Tristeza" é melhor como uma série de cenas independentes do que como um filme completo. Ele é dividido em três partes que são quase filmes separados, embora tenham dois personagens em comum, um casal de supermodelos chamados Carl (Harris Dickinson) e Yaya (Charlbi Dean, que tragicamente morreu recentemente aos 32 anos). Carl e Yaya estão juntos não por amor, mas para alavancar suas redes sociais. Ele é visto, no começo do filme, fazendo um teste para um campanha, ao lado de dezenas de outros rapazes. "Como você se sente trabalhando em uma profissão que ganha 1/3 do que as mulheres?", pergunta um produtor. Já Yaya é aquela influencer que tira fotos sexy fazendo pose com um prato de comida que ela nem vai comer.

Quando achamos que o filme vai ser só sobre esses dois, há uma segunda parte passada em um iate de luxo, com a "nata" dos super ricos a bordo. O filme tem várias cenas satíricas envolvendo os ricaços, como quando uma mulher exige que toda a tripulação desça pelo tobogã, por exemplo. O clímax, no entanto, é uma longa e desconfortável sequência que envolve tempo ruim, muito vômito e esgoto literalmente saindo pelas privadas. Ah, e Woody Harrelson faz uma participação especial.

Há uma terceira parte que me pareceu baseada no livro "O Senhor das Moscas". Há uma curiosa inversão de papéis mas acho que funcionaria melhor se tivéssemos conhecido a personagem da faxineira antes. Resumindo, acho que "Triângulo da Tristeza" é mais longo do que deveria (como muitos filmes ultimamente), com 147 minutos, e vale mais por momentos isolados do que no geral.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Kate (2021)

Kate (2021). Dir: Cedric Nicolas-Troyan. Netflix. Comecei a ver achando que iria parar depois de uns dez minutos, mas "Kate" é bem melhor do que esperava. Passado no Japão moderno, parece que estamos vendo um "anime" em live action. O roteiro é uma bobagem, mas o diretor francês tem bastante estilo e entrega alguns planos bem feitos seja em cenas de correria pelas ruas de Tokyo ou nas várias lutas corpo a corpo em restaurantes, ruelas escuras ou arranha-céus. A fotografia noturna usa luzes neon, projeções em prédios e luminosos que lembram um pouco "Akira" ou "Ghost in the Shell".

Mary Elizabeth Winstead cresceu e não é mais (faz tempo) aquela adolescente de "Scott Pilgrim". Aqui ela é uma assassina profissional chamada Kate, que trabalha para uma espécie de figura paterna interpretada por Woody Harrelson, que a treinou desde criança. (Meio spoiler, mas é a premissa do filme>>) Kate acaba envenenada mortalmente após assassinar o membro de um clã da Yakuza. Com apenas alguma horas de vida, ela parte para se vingar pelas ruas de Tokyo, matando um bocado de gente mesmo com a saúde se deteriorando a olhos vistos.

Winstead está bem no papel. Ela é boa atriz e se garante tanto nas cenas dramáticas quanto nas de ação. Há bastante violência em cenas de tiroteio, lutas com facas e até katanas. Kate acaba formando uma parceria (meio forçada) com uma adolescente (Miku Martineau) que é a sobrinha do chefão que ela pretende matar. Eu acho que o filme poderia terminar uns 15 minutos antes (como sempre) mas há um clímax bem feito, com muita pancadaria e tiros em um arranha-céu. Bobagem clichê divertida. Tá na Netflix. 
 

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Jogos Vorazes: Em Chamas

A continuação do filme de 2012, "Jogos Vorazes", chega com todas as características de um "filme do meio" de uma trilogia (a terceira parte, na verdade, será dividida em dois filmes). É mais sério, mais pesado e termina sem uma resolução. Baseado na série de livros adolescentes escritos por Suzanne Collins, "Em Chamas" é, também, um daqueles filmes à prova de crítica. Ele foi criado para um público cativo (jovens garotas, em sua maioria) que vão ao cinema sabendo exatamente o que os espera, e acompanham cada cena com gritinhos de prazer; na fileira de trás, uma garota recitava todas as frases dos personagens.

Dirigido por Francis Lawrence ("Eu sou a Lenda", "Constantine"), "Jogos Vorazes: Em Chamas" traz um elenco composto por grandes atores, como Philip Seymour Hoffman (que faz Plutarco, o novo organizador dos Jogos), Stanley Tucci (se divertindo ao interpretar um alucinado apresentador de TV), Woody Harrelson (Haymitch) e Donald Sutherland (Presidente Snow), mas as adolescentes foram ao cinema suspirar pelo "irmão do Thor", Lian Hemsworth, que interpreta Gale, um dos vértices do triângulo amoroso completado por Jennifer Lawrence (Katniss Everdeen) e Josh Hutcherson (Peeta Mellark). Após vencerem os 74º Jogos Vorazes (uma mistura de Coliseu romano com reality show), Katniss e Peeta precisam continuar a farsa de que eles se amam, enquanto visitam os distritos que fazem parte de Panen. Só que a vitória, ao invés de acalmar os distritos, como originalmente planejado, está sendo vista como um sinal de esperança pelo povo que sofre sob o jugo da Capital. O Presidente Snow planeja matá-los convocando-os para uma nova edição dos Jogos, que agora terão como competidores os vencedores anteriores do evento.


Grande parte do filme é uma repetição do capítulo anterior. Há a apresentação dos competidores em um desfile de bigas romanas (Katniss e Peeta entram novamente com as roupas em chamas), há sequências que mostram os competidores treinando para os Jogos, há entrevistas na TV apresentadas por Stanley Tucci (e, novamente, Peeta faz uma "revelação" bombástica), há diálogos quase idênticos entre Lawrence e Lenny Kravitz (que interpreta Cinna, o estilista de Katniss) e cenas de ciúmes entre o triângulo amoroso. De novidade há o novo design do "cenário" em que se passam os Jogos e os novos competidores. O público, claro, adorou o filme. Em uma cena climática, perto do final, uma garota no cinema gritou "Chupa, Snow!", e toda sala aplaudiu. Ano que vem tem mais.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Truque de Mestre

Filmes sobre assaltos têm muito em comum com truques de mágica. "Onze homens e um segredo" e suas continuações, por exemplo, seguem sempre a mesma fórmula, um plano elaborado para enganar não só os policiais mas (principalmente) a platéia. O dinheiro some magicamente do cofre, os alarmes de segurança não funcionam, e assim por diante. "Truque de Mestre" tem uma premissa bastante interessante. Que tal misturar a fórmula consagrada dos filmes de assalto com truques de mágica? Melhor ainda, que tal acrescentar um elenco de primeira classe, com nomes como Michael Caine e Morgan Freeman, para tornar tudo mais atraente? Premissa boa, elenco afinado, faltava um roteiro à altura, e é aí que os problemas de "Truque de Mestre" começam.

sábado, 24 de março de 2012

Jogos Vorazes

O fictício país de Panem, na América do Norte, é formado pela capital e por 12 distritos. Por conta de uma rebelião causada pelo antigo 13º Distrito, todos os anos acontecem os "Jogos Vorazes", espécie de "reality show" em que os participantes, um casal de cada distrito, devem competir até a morte. Esta é a premissa da mais recente sensação literária adolescente criada pela escritora Suzanne Collins. Seguindo a linha de adaptações cinematográficas como "Harry Potter", "Percy Jackson" e mesmo a série "Crepúsculo", "Jogos Vorazes" tem uma legião de seguidores fanáticos que fazem verdadeira peregrinação ao cinema. Isso significa assistir a uma sessão de cinema escutando gritos de excitação cada vez que um personagem aparece na tela ou alguma frase conhecida é dita. Fica difícil, assim, julgar a obra do ponto de vista puramente cinematográfico.

Não há nada de novo em "Jogos Vorazes". A trama é baseada em um sem número de livros e filmes de ficção científica que pintam um futuro distópico em que uma classe dominante oprime a população pobre. "Jogos" tem traços do "1984" de George Orwell, de "A máquina do tempo", de H.G. Wells, de séries de TV como "Logan´s Run" e de filmes como "O Show de Truman", de Peter Weir. E, claro, o roteiro é baseado nas dezenas de "reality shows" que surgiram nos últimos anos. Há também inspiração do Império Romano e dos duelos travados pelos gladiadores no Coliseu. Os habitantes da capital de Panem têm nomes romanos como César ou Seneca. Esta familiaridade com material reciclado, no entanto, não significa que o filme seja ruim. Jennifer Lawrence, indicada ao Oscar pelo sombrio "Inverno da Alma", está bem como Katniss Everdeen, jovem de 16 anos que, quando a irmã mais nova é sorteada para os "Jogos Vorazes", pede para trocar de lugar com ela; ao lado dela está Peeta Mellark (Josh Hutcherson, de "Minhas Mães e meu Pai"), o tributo masculino. A direção de Gary Ross (do superior "Pleasantville - A Vida em Preto e Branco", 1998) não é muito afinada; ele se perde em algumas cenas de ação em que a câmera balança tanto que fica difícil saber o que está acontecendo.

Há uma analogia óbvia com o mundo midiático moderno. Stanley Tucci interpreta um apresentador de televisão que é uma mistura de Pedro Bial com Sílvio Santos, que tenta atrair a atenção dos espectadores para detalhes da vida pessoal dos competidores. É ele, por exemplo, que arranca do companheiro de Katniss, Peeta, que ele tem uma paixão secreta por ela ("revelação" que, novamente, causou gritos adolescentes na sala de cinema). Woody Harrelson interpreta um homem bêbado e decadente que já foi o vencedor dos jogos há muitos anos e, agora, é o conselheiro dos competidores do Distrito 12. Harrelson está muito bem no papel, mas o roteiro é superficial com a psicologia dos personagens. Vencer um dos "Jogos Vorazes" significa ter matado os outros 23 participantes; o que isso causou em um homem como Harrelson? Quando os jogos finalmente começam, o filme não foge da natureza sangrenta do espetáculo e mostra cenas bastante violentas para um filme infanto-juvenil. Pena que o suspense e a ação vão se esvaziando conforme o filme avança, que termina em um anti-clímax. E onde está a audiência? Por que o filme não os mostra, uma vez começados os jogos? Fala-se sobre "patrocinadores" e, em duas cenas, os competidores são ajudados por remédios que eles mandam. Mas a platéia pode eliminar um concorrente, caso não simpatize com ele? E será que esta sociedade rica e elitista se importaria em seguir um programa protagonizado por figuras da classe baixa?

São perguntas que, provavelmente, não cabem fazer sobre um filme adolescente de entretenimento, mas fica a sensação de que poderia ter sido melhor. Visto como cortesia no Kinoplex Campinas.

Box Trilogia Jogos Vorazes

Câmera Escura

domingo, 28 de fevereiro de 2010

O Mensageiro

Segundo o site icasualties.org, 4.698 soldados americanos morreram no Iraque desde 2003 (mais de 100 mil iraquianos foram mortos no mesmo período, segundo várias fontes). Um dos serviços do exército americano é o de informar as famílias das vítimas. O sargento Will Montgomery (Ben Foster) acabou de voltar do Iraque, onde foi ferido, e foi designado para este serviço sob a supervisão do Capitão Tony Stone (Woody Harrelson). Um veterano da primeira guerra do Iraque (em que não trocou nenhum tiro), Stone é um alcoólatra que ensina Montgomery a fazer tudo segundo as regras. "Siga o script", diz ele, "fale somente com o familiar do morto, nunca toque ou abrace ninguém". Montgomery não mostra entusiasmo com seu novo trabalho mas, ao acompanhar Stone em algumas visitas, percebe que comunicar a morte de um ente querido pode ser tão doloroso quanto um combate no campo de batalha.

"O Mensageiro" é mais um produto da Guerra do Iraque, que já se tornou um subgênero do cinema. Os soldados americanos retratados nestes filmes geralmente são brancos, jovens, escutam música pesada e são marcados pelos conflito. Montgomery segue este estilo, mas a interpretação de Ben Foster lhe dá nuances que o tornam extremamente humano. Ele tem um caso com uma namorada de infância, Kelly (Jena Malone), que arrumou outro namorado quando ele partiu para o Iraque. Ela agora está noiva, o que não a impede de transar com Montgomery quando volta da guerra. Will Montgomery parece um jovem frio e distante, mas as visitas às vítimas vão revelando sua empatia por elas e a quebrar as regras impostas por Stone. Um caso especial é o de Olívia (Samantha Morton), que reage de forma inusitada quando Montgomery e Stone a informam da morte do marido: "Deve ser difícil para vocês também", diz ela. Montgomery se interessa por ela e passa a vê-la, discretamente a princípio, depois com mais frequência. Ele está apenas tentando se aproveitar do luto dela ou apenas querendo curar a própria carência? Provavelmente os dois, mas isso não significa que o "relacionamento" entre os dois não tenha substância. Há uma ótima cena, extremamente bem interpretada por Foster e Morton, em que os dois atuam em um único take de mais de oito minutos, passados na cozinha da casa dela. Os dois se aproximam, tentam se beijar, depois se repelem, depois conversam sobre o marido morto e sobre o filho pequeno dela, se aproximam novamente... tudo sem cortes de câmera, sob a direção de Oren Moverman.

Um filme independente, "O Mensageiro" conquistou os críticos e duas indicações ao Oscar, de Roteiro Original (de Alessandro Camon e Oren Moverman) e de Ator Coadjuvante, para Woody Harrelson. Ele está muito bem, mas pessoalmente prefiro a interpretação de Ben Foster e Samantha Morton. Há alguns momentos não muito bem resolvidos, como na sequência em que Foster e Harrelson aparecem na festa de casamento de Kelly. E o Capitão Stone tem algumas opiniões contrárias à guerra que não soam muito verdadeiras, partindo de um oficial. Mas é um bom filme, centrado nos personagens e nas interpretações, mostrando que não é possível simplesmente "brincar" de guerra. Pessoas vão morrer de forma violenta, deixando para trás pais, mães, esposas e filhos.