A Rede Social (The Social Network, 2010). Dir: David Fincher. Netflix. Resolvi rever os primeiros quinze minutos deste filme e acabei vendo até o final, de madrugada. É até melhor do que eu me lembrava. A mistura dos diálogos rápidos de Aaron Sorkin com a direção precisa de David Fincher conseguem passar uma quantidade enorme de informação em duas horas de filme.
O roteiro malabarista mostra como Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) enfrenta dois processos simultâneos; um do ex-melhor amigo, o brasileiro Eduardo Saverin (Andrew Garfield), e outro de irmãos gêmeos que o acusam de ter roubado a ideia para o Facebook. Flashbacks explicam como a maior rede social do planeta foi criada por um nerd arrogante e antissocial. Fincher faz tanta mágica por trás das câmeras que nem notamos que os gêmeos são interpretados por um ator só, Armie Hammer (desconhecido no lançamento do filme). Tudo embalado pela trilha sonora pulsante de Trent Reznor e Atticus Ross. Filmão. Tá na Netflix.
A Arte da Autodefesa (The Art of Self-Defense, 2019). Dir: Riley Stearns. Netflix. Comédia de humor negro que parodia filmes de artes marciais, "A arte da autodefesa" também lida com a fragilidade masculina de forma irônica. Jesse Eisenberg é Casey, um contador que trabalha até tarde na empresa, não consegue puxar papo com ninguém e, quando volta para casa, é recebido só pelo cachorro. Uma noite, quando sai para comprar ração para o pet, Casey é cercado por um grupo de motociclistas que roubam sua carteira e lhe dão uma surra. Assustado, Casey primeiro pensa em comprar uma arma, mas então passa na frente de uma academia de Karatê e resolve entrar. Lá ele conhece um professor carismático que quer ser chamado apenas de "Sensei" (Alessandro Nivola).
Curioso como o filme brinca com os clichês do gênero e até rouba inspiração de filmes como "Karate Kid" (Daniel Larusso leva uma surra de um grupo de ciclistas antes de virar aluno do Sr. Miyagui, por exemplo). Só que "A Arte da Autodefesa" está mais para um "Clube da Luta" do que para "Karate Kid". Casey se torna obcecado pela academia e quer andar o tempo todo com a faixa amarela na cintura. Ele começa a ouvir música pesada e a ser ríspido no trabalho. Ele até deixa de estudar Francês e passa a estudar Alemão, uma língua "mais máscula", segundo o Sensei.
Só não espere uma comédia escancarada. Pelo contrário, o roteiro se torna cada vez mais sério (embora ainda irônico) até chegar ao final. Jesse Eisenberg está muito bem, assim como Alessandro Nivola, que interpreta o Sensei como um homem manipulador. Imogen Poots é a única presença feminina, como uma aluna da academia que tenta chegar à faixa preta mas é mantida para trás pelo machismo do Sensei. Tá na Netflix.
"Mais forte que bombas" começa com o nascimento de um bebê. Curiosamente, é um filme muito mais sobre morte do que sobre nascimentos. Ou, talvez, seja a respeito de como as memórias fragmentadas da vida de uma pessoa podem gerar a criação de outra.
O bebê é filho de Jonah (Jesse Eisenberg), um professor de sociologia que perdeu a mãe recentemente. Ela era uma grande fotógrafa de guerra chamada Isabelle, encarnada por ninguém menos do que outra Isabelle, a Huppert (de "Elle"). Isabelle morreu em um acidente de carro e deixou para trás o marido Gene (Gabriel Byrne, sempre competente) e os filhos Conrad (Devin Druid) e Jonah.
Uma agência fotográfica de Nova York está organizando uma exposição em homenagem a Isabelle e um antigo colega fotógrafo (interpretado por David Strathairn) vai escrever um artigo sobre ela no "The New York Times". "Eu pretendo escrever a verdade sobre a morte dela", informa o fotógrafo ao marido de Isabelle. Qual verdade? Teria sido a morte dela realmente acidental ou ela teria jogado seu carro contra um caminhão?
O anúncio do artigo gera turbulência na já conturbada família de Gene, Jonah e Conrad. O último era muito jovem quando a mãe morreu e não sabe em detalhes como tudo aconteceu. Tímido e extremamente introvertido, Conrad passa os dias com um fone de ouvido espetado na orelha ou jogando videogames. O pai sofre silenciosa e violentamente tentando achar um meio de se conectar com o filho adolescente. Há uma bela cena em que ele conta para a amante (e professora de Conrad) que ele criou um "avatar" dentro do jogo online onde o filho passa grande parte do dia para se comunicar com ele.
O filme é dirigido por Joachin Trier e escrito por Trier e Eskil Vogt. É uma obra de silêncios e muita observação. "É tão difícil assim falar comigo?" perguntam dois personagens em diferentes partes do filme. A montagem é não linear e mistura o presente com diversos flashbacks, memórias e passagens de sonhos. Há diversas narrações que tentam passar o que realmente acontece dentro daqueles personagens, tão fechados e tão sofridos. Huppert passa pelo filme como um verdadeiro fantasma, uma memória que as pessoas ainda tentam manter viva em suas mentes mas que, com o tempo, vai mudando. Em um momento ela parece forte e decidida, em outro uma garota assustada. Há um plano belíssimo em que a câmera apenas fica filmando o rosto de Huppert de frente, que nem mesmo pisca por vários segundos. "Quem sou eu?", a imagem parece perguntar. "Mais forte que bombas" está disponível na Netflix.
O personagem foi interpretado muito bem pelo grande Gene Hackman nos filmes do Superman com Christopher Reeve e havia rumores de que Bryan Cranston (da série Breaking Bad) o faria agora. No entanto, Warner parece estar procurando por um elenco mais jovem.
O inglês Jeremy Irons ("Trem Noturno para Lisboa") foi escalado para viver o mordomo Alfred, o mentor do Homem-Morcego (nos filmes de Christopher Nolan, Alfred foi interpretado por Michael Caine).
Filmes sobre assaltos têm muito em comum com truques de mágica. "Onze homens e um segredo" e suas continuações, por exemplo, seguem sempre a mesma fórmula, um plano elaborado para enganar não só os policiais mas (principalmente) a platéia. O dinheiro some magicamente do cofre, os alarmes de segurança não funcionam, e assim por diante. "Truque de Mestre" tem uma premissa bastante interessante. Que tal misturar a fórmula consagrada dos filmes de assalto com truques de mágica? Melhor ainda, que tal acrescentar um elenco de primeira classe, com nomes como Michael Caine e Morgan Freeman, para tornar tudo mais atraente? Premissa boa, elenco afinado, faltava um roteiro à altura, e é aí que os problemas de "Truque de Mestre" começam.
O prolífico Woody Allen tem o costume de alternar grandes filmes com outros mais simples, e depois do ótimo "Meia-Noite em Paris" (Oscar de Melhor Roteiro Original) era de se imaginar que "Para Roma, com Amor" fosse um filme "menor" do mestre. Sim e não. Sem dúvida é um roteiro mais solto, mais "brincalhão", sem as ambições e referências artísticas que Allen imprimiu em seu filme anterior. Há, no entanto, idéias boas de sobra na nova comédia do diretor, que escolheu Roma como cenário.
O filme é composto por várias histórias independentes. Woody Allen interpreta um produtor musical aposentado que vai à Roma conhecer o noivo da filha, um advogado comunista chamado Michelangelo (Flavio Parenti). Allen, como sempre, interpreta a si mesmo, paranoico e egocêntrico (e muito engraçado). Ele odeia estar aposentado e quando conhece o pai de Michelangelo, um italiano simples que adora cantar óperas no chuveiro, acha que descobriu o novo Luciano Pavarotti. O problema é que o pobre homem só canta bem quando debaixo d´água, o que gera cenas hilariantes quando Allen, mesmo assim, resolve ir em frente com o sonho de transformar o sogro em um astro.
Outra história é uma crítica irônica ao mundo das celebridades e dos paparazzi, figuras que o genial Fellini explorou em seus filmes. Roberto Benigni é Leopoldo, um homem comum que leva uma vida rotineira com a esposa, dois filhos e um trabalho inexpressivo. Um dia ele acorda e, surpreendentemente, descobre que virou uma celebridade. Dezenas de paparazzi o perseguem pelas ruas e repórteres de televisão lhe fazem perguntas sobre as coisas mais banais, como o que ele comeu no café da manhã ou de que modo costuma fazer a barba. Claro que é uma alegoria. Leopoldo não entende o porquê de ser famoso e, por um tempo, até aproveita a badalação e as mulheres que se atiram a seus pés. Depois de um tempo, porém, não aguenta mais ser seguido por todos os lugares e com a perda da privacidade.
Há também a história dos recém casados Milly (Alessandra Mastronardi) e Antonio (Alessandro Tiberi), que vêm à Roma de uma cidade do interior para que Antonio apresente Milly à família; se tudo correr bem, ele pode conseguir um lugar nos negócios dos tios. Acontece que Milly sai para passear por Roma e se perde. Enquanto isso, Antonio é surpreendido no quarto por uma estonteante prostituta chamada Ana (Penélope Cruz), que obviamente está no lugar errado. Os tios dele o encontram com Ana e acreditam que ela é a esposa dele, e está armada a confusão.
A quarta história envolve uma viagem emocional de John, um arquiteto americano interpretado por Alec Baldwin, que havia morado em Roma quando jovem. Ele vai visitar sua antiga rua e conhece um jovem, também arquiteto, chamado Jack (Jesse Eisenberg). Allen usa um recurso bem interessante em que, aos poucos, o espectador descobre que Baldwin e Eisenberg podem ser versões da mesma pessoa em idades diferentes. Jack mora com Sally (Greta Gerwig) mas se apaixona pela amiga dela, Monica (Ellen Page), uma jovem extremamente manipuladora. Há bons momentos em que Baldwin interage com sua versão mais nova, tentando fazê-lo ver que Monica vai lhe causar muito sofrimento, mas o jovem não consegue evitar que a história se repita.
"Para Roma, com amor" tem bela fotografia de Darius Khondji (o mesmo de "Meia-Noite em Paris"), que mostra a Cidade Eterna em um colorido quente. O roteiro pode não estar na mesma altura de outros trabalhos de Allen, mas é superior a muito do que há nas telas ultimamente. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.