A Arte da Autodefesa (The Art of Self-Defense, 2019). Dir: Riley Stearns. Netflix. Comédia de humor negro que parodia filmes de artes marciais, "A arte da autodefesa" também lida com a fragilidade masculina de forma irônica. Jesse Eisenberg é Casey, um contador que trabalha até tarde na empresa, não consegue puxar papo com ninguém e, quando volta para casa, é recebido só pelo cachorro. Uma noite, quando sai para comprar ração para o pet, Casey é cercado por um grupo de motociclistas que roubam sua carteira e lhe dão uma surra. Assustado, Casey primeiro pensa em comprar uma arma, mas então passa na frente de uma academia de Karatê e resolve entrar. Lá ele conhece um professor carismático que quer ser chamado apenas de "Sensei" (Alessandro Nivola).
Curioso como o filme brinca com os clichês do gênero e até rouba inspiração de filmes como "Karate Kid" (Daniel Larusso leva uma surra de um grupo de ciclistas antes de virar aluno do Sr. Miyagui, por exemplo). Só que "A Arte da Autodefesa" está mais para um "Clube da Luta" do que para "Karate Kid". Casey se torna obcecado pela academia e quer andar o tempo todo com a faixa amarela na cintura. Ele começa a ouvir música pesada e a ser ríspido no trabalho. Ele até deixa de estudar Francês e passa a estudar Alemão, uma língua "mais máscula", segundo o Sensei.
Só não espere uma comédia escancarada. Pelo contrário, o roteiro se torna cada vez mais sério (embora ainda irônico) até chegar ao final. Jesse Eisenberg está muito bem, assim como Alessandro Nivola, que interpreta o Sensei como um homem manipulador. Imogen Poots é a única presença feminina, como uma aluna da academia que tenta chegar à faixa preta mas é mantida para trás pelo machismo do Sensei. Tá na Netflix.
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sábado, 28 de agosto de 2021
A Arte da Autodefesa (The Art of Self-Defense, 2019)
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domingo, 30 de novembro de 2014
De Volta ao Jogo
"De Volta ao Jogo" é só clichês. Apesar disso, ou melhor, por causa disso, é um filme muito bom de se ver. Considere a sinopse: um assassino profissional chamado John Wick (Keanu Reeves, "Side by Side") havia se aposentado por causa do amor de uma mulher (Bridget Moynahan, vista apenas em flashbacks). Poucos dias depois dela morrer de uma doença, a casa de Wick é invadida por três membros da máfia russa. Eles não só roubam o Mustang 1969 de Wick como também matam seu cachorro. Pior: o cachorro havia sido um presente de despedida da esposa. Está armada a fórmula para um dos melhores filmes de vingança dos últimos anos.
Reeves está muito bem. Com inacreditáveis 50 anos, ele empresta ao personagem sua personalidade zen e várias das habilidades em artes marciais mostradas em filmes como "Matrix", há 15 anos. John Wick é puro profissionalismo. Em poucas horas ele descobre que quem roubou seu carro e matou seu cachorro foi Iosef Tarasov (Alfie Allen, da série "Game of Thrones"), filho do chefe da máfia russa, Viggo Tarasov (Michael Nyqvist, aquele tipo de vilão sofisticado que faz longos monólogos ao invés de simplesmente matar o inimigo). Há aqui outro clichê que remonta a filmes como "Duelo de Titãs" ("Last Train from Gun Hill", de John Sturges, 1959), em que a mulher de Kirk Douglas havia sido morta pelo filho de um antigo companheiro, interpretado por Anthony Quinn, e ele parte para a vingança. Alfie Allen também está muito bem, embora esteja praticamente reprisando Theon Greyjoy, seu personagem covarde e fraco de "Game of Thrones". (leia mais abaixo)
O que transforma a lista de clichês de "De Volta ao Jogo" em um bom filme? O elenco, que também conta com nomes como Willem Dafoe e John Legizamo, ajuda bastante. O filme brilha de verdade, porém, na ótima coreografia das cenas de tiroteio e luta, executadas como uma dança por Reeves e um exército de dublês (contei pelo menos cinquenta nos créditos). Há uma mistura de artes marciais e armas de fogo que lembra "Equilibrium", ficção-científica com Christian Bale de 2002. John Wick se move como um samurai; ao invés de ter uma katana nas mãos, empunha uma automática. E nestes tempos em que a maioria dos filmes americanos têm a classificação PG-13 (que significa violência disfarçada) é bom ver um filme feito diretamente para adultos. John Wick nunca dá apenas um tiro em seus opositores e geralmente finaliza com um tiro na cabeça. Há uma sequência passada em uma casa noturna em que os tiros parecem até pipocar em sincronia com a música.
"De Volta ao Jogo" é dirigido por dois ex-dublês de Hollywood, Chad Stahelski e David Leitch, o que explica a quantidade e precisão das cenas de ação. Filme macho das antigas (Steve McQueen estaria à vontade nele há 40 anos), o filme é diversão garantida.
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segunda-feira, 23 de abril de 2012
A Toda Prova
Steven Soderbergh brinca com os gêneros ação e espionagem nesta obra mista; "A Toda Prova" tem explosões, artes marciais e uma heroína típicos de um filme de ação. Ao mesmo tempo, carrega as origens do cinema independente que Soderbergh tem nas veias e, por vezes, soa como uma bem feita paródia do diretor aos filmes da série "Bourne". A começar que o papel principal é da ex-lutadora de MMA Gia Carano. Ela é Mallory Kane, soldado contratada de uma firma particular americana que presta serviços ao governo (e também faz serviços sujos por conta própria). Mallory é bonita, atlética e incansável, capaz de correr atrás de um bandido por quarteirões ou vencer uma luta corpo a corpo com tropas de elite europeias. Após um serviço de resgate em Barcelona, Mallory é traída pelo seu chefe, Kenneth (Ewan McGregor), que a coloca em uma armadilha. Ela é enviada à Irlanda para fazer par com um agente britânico interpretado por Michael Fassbender, e descobre que havia sido usada em Barcelona para entregar um refém a um grupo rival (liderado pelo ator francês Mathieu Kassovitz). No quarto de hotel, Fassbender tenta matá-la. "Nunca pense nela como uma mulher", prevenira McGregor.
Pode-se notar nesta sinopse duas coisas: o elenco excepcional e a trama confusa. Soderbergh usa de seu prestígio para colocar em papéis coadjuvantes atores do calibre de Fassbender, Michael Douglas, Antonio Banderas, Bill Paxton, Kassovitz, entre outros. Eles servem também para ajudar na interpretação de Gia Carano, que apesar de bonita e lutar muito bem, não é grande atriz. Mas não é ruim, dentro das limitações do papel. A trama usa de todos os clichês de filmes de espionagem, como as locações internacionais (Barcelona, Dublin, Londres, Nova York) e as reviravoltas do gênero. Soderbergh, no entanto, coloca uma pitada de filme independente e autoral na obra, assim como fez com as série "Onze Homens e um Segredo". Ele assina não só a direção, mas a direção de fotografia e a edição (sob pseudônimos), coisa que fez até em filmes de grande orçamento como "Traffic" (2000), pelo qual ganhou o Oscar de melhor diretor. A sequencia passada em Barcelona, quando Mallory e equipe resgatam um refém, subverte os clichês na montagem e principalmente na trilha sonora de David Holmes.
O roteiro de Lem Dobbs tenta humanizar a personagem através da figura de seu pai (Bill Paxton) e em uma cena (vergonhosa, é verdade) em que Mallory chora a morte de um colega de trabalho. No resto do tempo, no entanto, Mallory Kane é implacável como Jason Bourne e distribui socos e chutes em cenas de luta muito bem coreografadas. "A Toda Prova" não traz nada de novo, mas entretém e é bem feito, e Soderbergh coloca seu toque pessoal na obra.
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segunda-feira, 6 de junho de 2011
Kung Fu Panda 2
"Kunf Fu Panda 2" é um avanço considerável em relação ao primeiro filme, tanto tecnicamente quanto em roteiro. Sim, é um filme infantil do século 21, o que significa inevitáveis piadas escatológicas. Neste episódio descobrimos as origens de Po, o urso panda que se tornou mestre de kung fu e que pensava ser filho de um ganso (que surpresa, ele não é).O malvado mestre Shen, um pavão com penas afiadas, descobriu que a pólvora pode ser usada não só para fazer fogos de artifício e criou armas de guerra que, aparentemente, podem acabar com o Kung Fu. Só há um problema; uma cabra, prevendo o futuro, disse que Shen seria destruído por uma criatura preta e branca. Em uma clara referência bíblica, Shen envia seus lobos para matar todos os ursos pandas do reino, o que força a mãe de Po a colocá-lo em uma cesta, que vai parar em um rio e, finalmente, no restaurante do Ganso. Qualquer semelhança com Moisés não é mera coincidência. Estas cenas são visualizadas em belas animações que simulam o 2D tradicional, contrastando bem com a rica animação tridimensional com que é feito o filme.
Há muita "filosofia de biscoito da sorte", dita principalmente pelo mestre Shifu (voz original de Dustin Hoffman), que ensina a Po que ele deve encontrar sua "paz interior". A animação em computação gráfica chegou a um nível de refinamento que nos faz esquecer que estamos vendo um conjunto de "pixels" se movendo na tela e, lição que a Pixar vem dando há muito tempo, o cuidado com o roteiro ajuda muito a envolver o público. Po e seus amigos (uma tigreza, um louva-deus, uma garça, um macaco e uma cobra, todos mestres em seus estilos de Kung Fu, claro) vão até Gongmen City tentar libertar a cidade das garras (ou penas) de Shen, impedir seus planos de dominar a China e, de quebra, restaurar a honra do Kung Fu.
O roteiro tem humor na dose certa, bons personagens e cenas de ação e luta que certamente farão a alegria da criançada. Os adultos podem aproveitar o visual requintado e algumas boas piadas. A produção é da Dreamworks Animation, com direção de Jennifer Yuh Nelson.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Karate Kid
Em 1984, o diretor John G. Avildsen usou sua experiência adquirida em “Rocky” (1976), com Sylvester Stallone, para fazer outro tipo de “filme de luta”. Baseado em um personagem em quadrinhos, “Karate Kid” era um bom filme “família” que contava a história de Daniel Larusso (Ralph Macchio) e sua amizade com um zelador japonês, o Sr. Miyagi (Pat Morita), que lhe ensinava karatê. O filme fez grande sucesso e gerou algumas continuações, das quais apenas “Karate Kid II” ainda tinha algo para dizer. Nos violentos anos 80, com seus “Rambos” e “Rockys”, “Karate Kid” se destacava ao falar sobre usar as artes marciais apenas para se defender.Vinte e seis anos depois, o personagem está de volta, repaginado. Estamos no século XXI e o “futuro” agora está na China. A noção de adolescência também mudou, e o novo Karate Kid se transformou em um garoto negro de 12 anos chamado Dre Parker. Ele é interpretado por Jaden Smith, filho de Will Smith e Jada Pinkett Smith. A mãe de Dre (Taraji Henson) foi transferida para um trabalho na China e os dois partem para o país de Mao, uma surpreendente economia capitalista em um país comunista. É patente o lado “relações públicas” de algumas cenas. A vizinhança para onde Dre e a mãe se mudam é uma China idealizada, com crianças jogando basquete na praça e velhos fazendo exercícios. Não há nada culturalmente diferente na tela, e Dre já está jogando basquete alguns minutos depois que chegou ao país. Quando o zelador lhe explica que a eletricidade do chuveiro é controlada, o garoto lhe diz que isso não existe nos Estados Unidos. Ao que o zelador responde “desligue o interruptor e salve o mundo”, em uma mensagem ecológica. Vinda de um dos países mais poluidores do mundo, a frase parece ter sido escrita por algum relações públicas.
Política à parte, o filme é bastante envolvente. Jaden Smith, apesar de ter herdado vários maneirismos do pai, é basicamente um garoto comum. Atraído por uma garota, ele é atacado por um garoto valentão simplesmente por conversar com ela. Ele leva uma surra e Smith não tem vergonha de mostrar lágrimas de dor. Sua situação fica pior ao descobrir que o valentão estuda na mesma escola, e Dre passa por humilhações e surras diárias. Um dia ele é salvo pelo Sr. Han (Jackie Chan), o zelador do prédio, que se revela um mestre em kung-fu. Algumas cenas e diálogos foram tirados diretamente do “Karate Kid” original, como a cena em que o Sr. Han e Dre vão conversar com o cruel professor de kung-fu do garoto. O Sr. Han consegue uma “trégua” nas surras de Dre, desde que ele participe do torneio de kung-fu que vai ocorrer meses depois.
Sim, kung-fu. “Karate Kid” é apenas o nome da “marca” que vai atrair os fãs dos filmes originais. Jackie Chan, que já está com 56 anos, interpreta o Sr. Han de forma surpreendente. Sempre sério, Chan não se parece em nada com os personagens que costumava interpretar em seus filmes de artes marciais ou em comédias americanas. Há uma bela cena (também baseada em passagem do original), que o Sr. Han conta a Dre sobre a morte precoce da esposa e do filho pequeno. Há também boas passagens de amor adolescente entre Dre e uma garota chinesa e várias sequências turísticas mostrando as paisagens da China. É difícil acreditar que um zelador tivesse acesso à Muralha da China para treinar seu aluno, por exemplo, mas é esteticamente bonito.
A duração, com duas horas e vinte minutos, é excessiva. Produzido por Will Smith e a esposa, a sensação que dá é que nenhuma cena interpretada pelo filho deles foi cortada, e ele está em praticamente todos os planos. E quando o torneio chega, mesmo os que não viram o filme original sabem o que vai acontecer, mas torcemos por Dre da mesma forma.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Besouro
"Besouro" era o apelido dado a Manoel Henrique Pereira, filho de escravos que, mesmo nacido após a Lei Áurea, ainda sofreu muito com os reflexos da escravatura. Mestre em Capoeira, ele se tornou um mito no Recôncavo Baiano por seu modo de lutar e por enfrentar os senhores de engenho que ainda tratavam os negros como escravos. Ele lutava tão bem e realizava proezas tão prodigiosas que criaram-se várias lendas a seu respeito, como a de que podia voar.Pois bem, chega agora às telas uma superprodução brasileira sobre ele. Mas o filme não sabe direito a que veio, se para contar a história do homem ou do mito. Dirigido por João Daniel Tirkhomiroff, "Besouro" não se decide entre ser um filme de artes marciais, um registro histórico ou uma fantasia sobre o mito de Manoel. Extremamente didático, começa com um letreiro falando sobre a capoeira e situando o filme no tempo. O letreiro é lido redundantemente por ninguém menos que Milton Golçalvez, praticamente a voz "oficial' do movimento negro no país e, por um momento, pensamos se tratar de um documentário. O roteiro, de Patrícia Andrade, trata de uma série desconexa de clichês previsíveis, como o início, em que vemos o jovem Besouro (Aílton Carmo) jogando capoeira enquanto seu mestre anda sozinho pela cidade. Didático novamente, o roteiro faz questão de colocar na narração e em falas dos personagens que Besouro deveria estar tomando conta de seu Mestre, o que já telegrafa o óbvio ao espectador: o mestre vai morrer nos próximos minutos.
Espera-se então que surja o mito, a transformação do jovem Manoel em Besouro, mas o filme, inseguro sobre como tratar de seu herói, perde seu tempo com os estereotipados personagens secundários. Há o "coronel" Venâncio (Flávio Rocha) e seus capangas, liderados por Noca de Antonia (Irandhir Santos), todos brancos, sujos e cruéis. Há os colegas de Besouro no engenho, como a jovem Dinorá (Jéssica Barbosa) e Quero-Quero (Anderson Santos de Jesus). Há várias cenas em que vemos os brancos maltratando os negros, enquanto Besouro... onde está ele?
O coreógrafo de lutas chinês Huen Chiu Ku, de Kill Bill, foi contratado para planejar as cenas de luta. Assim, era de se esperar uma espécie de filme de artes marciais brasileiro. A capoeira é uma modalidade apreciada e valorizada no mundo inteiro, pela sua combinação mortal de giros e movimentos de pernas. Aliada à coreografia de Chiu Ku e aos efeitos especiais digitais produzidos pela produtora Mixer, era de se esperar um filme de ação espetacular, recheado de grandes cenas de luta. Mas o roteiro se arrasta. O herói do filme, interpretado por Aílton Carmo, é uma figura pálida e completamente sem carisma. Ele é visto em cenas no meio da floresta ou em cachoeiras e é figura praticamente ausente do filme. Os orixás das religiões africanas também são apresentados de forma didática, um a um, pelo narrador, enquanto o tal "herói" se forma e ficamos esperando por alguma ação. O problema é que como nenhum dos vilões, os brancos, sabe jogar capoeira, não há como mostrar muitas cenas de lutas, e o filme acaba perdendo com isso. A trilha sonora é anacrônica, usando alguns instrumentos modernos, que até funcionam. Não se pode dizer o mesmo de certos diálogos, que contém expressões como "terminar com o namoro", entre outras, que soam fora de época e lugar.
Com menos didatismo, um herói mais carismático e muito mais cenas de lutas, "Besouro" poderia ter sido grande. Infelizmente, não é o caso.
domingo, 12 de abril de 2009
Cinturão Vermelho
Um filme sobre princípios. Há quanto tempo você não vê um desse tipo? Há quanto tempo, falando nisso, você não escuta falar em princípios fora da tela também? Cinturão Vermelho é dirigido por David Mamet, um dramaturgo que criou um estilo próprio de escrever e dirigir cinema (apesar do próprio, em uma das entrevistas vistas nos extras do DVD, dizer que não sabe o que é "estilo"). Mamet prega a simplicidade acima de tudo. Em um de seus livros, "On directing film", ele diz que a melhor resposta para a pergunta "onde vamos colocar a câmera?" é simplesmente "ali". A câmera deve ficar onde deve, simples assim. Quando um ator lhe pergunta como ele deve atuar uma cena em que deve atravessar um corredor e abrir uma porta, a resposta de Mamet é direta: "simplesmente ande pelo corredor e abra a porta". Não é necessário criar "significados" para cenas como esta, ou em nenhuma, na verdade, segundo o método de Mamet.Isso posto, Cinturão Vermelho é um filme enganadoramente simples. É também, a bem da verdade, um filme falho. Mamet quase conseguiu o feito de produzir um "filme de luta" sem lutas. Quase.
Mike Torry (o excelente Chiwetel Ejiofor) é um professor de artes marciais que ensina "brazilian jiu-jitsu" em uma pequena academia em um canto afastado de Los Angeles. Torry é uma espécie de alter-ego da figura do diretor de cinema. Enquanto seus alunos se agarram e lutam no dojo, ele os dirige com frases curtas e simples. "Há sempre uma saída", diz ele a um aluno que está quase desmaiando em um exercício de estrangulamento. Mike é casado com uma brasileira, Sandra (a bela e eficiente Alice Braga), que não concorda muito com a mentalidade do marido. Ela desenha e vende roupas e tem um negócio razoavelmente bem sucedido, mas não entende porque o marido não consegue fazer dinheiro com a academia. A resposta é simples: ele não quer. Não se isso significar abrir mão de seus princípios ferrenhos de conduta e de moralidade. É a personificação da contradição que existe nas artes marciais: você aprende a lutar para não ter que lutar. Mas como manter esta pureza diante do mundo moderno, com seus apelos de dinheiro "fácil" e violência?
O roteiro de Mamet se torna rapidamente complicado. A trama envolve um astro de cinema (interpretado pelo comediante Tim Allen) que arruma uma briga em um bar e é salvo por Mike Torry. Em agradecimento, o ator convida Torry e a esposa para jantar em sua mansão e, sutilmente, seduz o casal. Mike é convidado para ser um dos produtores do filme em que Allen está trabalhando, e a esposa dele aparentemente se interessa pelas roupas produzidas por Sandra. Em dificuldades financeiras, tanto Mike quanto Sandra ficam interessados mas, como diz o ditado, "quando a esmola é demais o pobre desconfia". O desenrolar da trama revela a podridão do mundo contra o qual Mike lutou a vida toda. Suas idéias sobre artes marciais são transformadas em uma paródia de mal gosto em um torneio combinado feito para a TV. A esposa do astro de cinema deixa de atender às ligações de Sandra. O que está acontecendo? Há também uma advogada traumatizada por um estupro no passado que se torna aluna de Mike e um policial que faz de tudo para manter o nome da academia.
Nota pessoal, eu frequentei o mundo das artes marciais por vários anos e conheci pessoas como Mike Torry. Assim como no filme, por vezes sua integridade pode ser enervante. Mas também vi o lado comercial, que ganha rios de dinheiro com exames de faixa, torneios forjados e distribuição de medalhas a alunos que são meros números em uma fatura comercial. O filme de Mamet é bastante fiel ao mostrar estes dois lados, mais o "lado B" de Hollywood, com suas falsas promessas, decadência e vícios. Tudo isso vem embalado em um filme que nunca chega a decolar de verdade. A parte final é difícil de acreditar. Mas Mamet faz uma homenagem aos velhos filmes de samurai e aos westerns italianos. A figura do mestre solitário enfrentando a tudo e a todos no final é típico dos duelos de antigamente. Como disse, é um filme de lutas, mas não do mesmo modo que um filme de Jean-Claude Van Damme, por exemplo. O importante não é ver corpos musculosos se batendo. As lutas em "Cinturão Vermelho" são frutos do roteiro e parte integrante do mundo que representam. Para nós brasileiros, é curioso ver o Brasil citado tantas vezes no filme, assim como a presença de Alice Braga e Rodrigo Santoro em um filme de David Mamet.
Cinturão Vermelho está disponível em DVD, com fartos extras. Um filme falho, mas bastante interessante.
nota: o trailer a seguir contém SPOILERS e revela muito do filme
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