Mostrando postagens com marcador cinema brasileiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cinema brasileiro. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Depois a louca sou eu (2021)

Depois a louca sou eu (2021). Dir: Julia Rezende. Amazon Prime. Versão para cinema do livro de Tati Bernardi, publicitária que lidou com vários ataques de pânico e ansiedade e transformou seus problemas em uma carreira literária de sucesso. Dani (Débora Falabella) só queria se uma pessoa "normal". O problema é que, para ela, tudo é exagerado e excessivo. Uma simples ida à praia no final do ano se transforma em uma operação de logística em que ela contrata um táxi para ficar de plantão caso (ou quando) ela se desesperar e quiser voltar para casa. A mãe (Yara de Novaes) é daquelas super protetoras que falam coisas como "Vá sim, filha, vá se divertir. Não pense que você está abandonando sua mãe sozinha, não, pode ir tranquila".

O filme, no começo, até parece que vai ser daquelas comédias bobinhas da Globo Filmes com trilhas agitadas, gráficos na tela e narração esperta. A trama encara com certo realismo a situação complicada das pessoas com síndrome do pânico; há muito humor, sim, mas há também boas doses de realidade, como quando vemos Dani se viciar em Rivotril e outros remédios tarja preta simplesmente para poder navegar pela vida. O mesmo acontece com as cenas de amor e sexo, que vão se tornando mais pesadas conforme o filme avança.

Débora Falabella está muito bem como Dani e a personagem também é vista quando criança e adolescente. O filme foi feito em 2019 mas a pandemia adiou o lançamento nos cinemas até o começo deste ano e, agora, está disponível na Amazon Prime.
 

quarta-feira, 1 de março de 2017

O Silêncio do Céu (2016)

Bom exercício de suspense dirigido por Marco Dutra (que fez o ótimo Trabalhar Cansa). O filme é uma co-produção uruguaia e é falado quase todo em espanhol. Carolina Dieckmann é uma estilista que, no início do filme, é estuprada em uma cena bastante perturbadora. O marido dela, Mario (Leonardo Sbaraglia) é um homem que sofre de diversas fobias (praticamente de tudo). O filme mostra a sequência de estupro por outro ângulo e descobrimos que Mario assistiu a tudo, mas ficou paralisado por seus medos. Quando o estupro termina ele até tenta ir atrás dos culpados, mas não consegue alcançá-los. Começa então um curioso jogo em que a esposa não conta para o marido que foi estuprada e o marido não conta para a esposa que ele assistiu a tudo.

Dutra usa muita metalinguagem ao revelar que Mario é um roteirista de cinema. Ele começa a nos narrar a história e, enquanto tenta encontrar os estupradores da esposa, começa a criar um personagem novo para ele mesmo, um homem capaz de enfrentar suas fobias e esconder a verdade da esposa. A direção de fotografia é de Pedro Luque (O Homem nas Trevas) e a câmera (bastante estática no início do filme) vai ganhando movimento conforme Mario também se torna mais ativo. Senti toques de "Um Corpo que Cai", obra prima de Hitchcock, no roteiro de "O Silêncio do Céu". Mario, assim como James Stewart, é um homem que tem que superar uma fobia e, de certa forma, recriar uma nova mulher a partir do estupro sofrido pela esposa.

Nem tudo funciona, porém. Achei que as narrações de Mario eram, por vezes, desnecessárias. Mais para o final a personagem de Carolina Dieckmann também passa a narrar a história e, de novo, me pareceu redundante, mais para explicar pontos obscuros do roteiro do que para realmente avançar a trama. Mas é um bom filme de suspense, gênero que poderia ser mais explorado pelo cinema brasileiro. "O Silêncio do Céu" está disponível na Netflix.

João Solimeo

terça-feira, 19 de março de 2013

A Busca

Roteiro e direção lutam o tempo todo em "A Busca", estréia na direção do publicitário Luciano Moura, da produtora "O2 Filmes" (de Fernando Meirelles). O roteiro, escrito por Elena Soarez e pelo próprio Moura, tem tendências fantasiosas e até poéticas, dando pouca importância à verossimilhança. Já a direção de Moura, que já dirigiu mais de 500 comerciais, é tecnicamente competente e com um estilo realista. Têm-se, assim, uma fantasia filmada como se fosse um thriller, e o resultado é confuso.

Wagner Moura (carregando o filme nas costas) é Theo, um médico que é bem sucedido mas é a cara do desespero. É completamente apaixonado pela mulher, a também médica Branca (Mariana Lima), que quer o divórcio. "O que eu tenho que fazer?", implora ele, que pagou pela casa, está construindo uma piscina e pretende enviar o filho de 15 anos, Pedro, à Nova Zelândia em um intercâmbio. Sofrimento de classe média alta, com boas interpretações de Moura e Mariana Lima. No meio do fogo serrado, o garoto Pedro (Brás Antunes) mente aos pais dizendo que vai viajar com um amigo no final de semana mas, na verdade, ele decide fugir de casa. É então que o conflito entre roteiro poético e filme de gênero começa; Pedro teria falsificado o RG para adotar um cavalo de um abrigo de animais. O espaço geográfico nunca fica claro (o que é um problema em um road movie), mas presume-se que Pedro partiu das imediações de São Paulo, montado em um cavalo, e o pai (dirigindo um carro da marca que patrocina o filme) vai em seu encalço. De forma bem pouco realista, Theo encontra várias pessoas que, sim, viram passar por ali um rapaz montado em um cavalo negro, e o pobre homem passa o diabo em sua busca pelo filho. Há cenas interessantes, como a passada em uma barca que teria transportado Pedro (e o cavalo) através de um rio. Outras são bastante improváveis, como da vez em que Wagner Moura chega a uma vila com várias casinhas, antenas parabólicas no telhado, e ninguém ali tem um telefone, seja fixo ou celular, a não ser um senhor cardíaco que se recusa a emprestar o aparelho. Ou quando Theo chega a uma rave com centenas de jovens e logo a primeira garota com quem ele conversa, surpresa, não só viu Pedro como sabe onde ele passou a noite.

Tudo isto mostra a inexperiência do diretor, mas as boas interpretações e um final tocante, com participação de Lima Duarte, até compensam os vários tropeços. Há um bom trabalho de som e na qualidade técnica em geral. Só é necessária boa vontade do espectador em abraçar o roteiro capenga. Visto no Kinoplex, em Campinas.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Carlos Reichenbach (1945-2012)

Morreu o cineasta brasileiro Carlos Reichenbach. Diretor de mais de vinte filmes, "Carlão" Reichenbach, como era conhecido, fazia um cinema independente e bastante autoral, conhecido como "Cinema Marginal".

"Anjos do Arrebalde" (1986), "Alma Corsária" (1993), "Dois Córregos" (1999), "Garotas do ABC" (2004) e tantos outros fizeram parte da sua filmografia. O perfil do cineasta no Facebook ainda está ativo, mostrando que hoje Reichenbach completou 67 anos. Ele era um usuário frequente da rede social, falando sobre diversos assuntos e, claro, cinema. Interessante que, no que ele chamava de "socialismo", passava links para baixar os filmes que considerava interessantes. Seu último filme produzido foi "Falsa Loura", de 2007.


Trecho de entrevista de Reichenbach para o programa "Zoom", da TV Cultura, falando sobre "Cinema Marginal"

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Bróder

"Bróder", de Jefferson De, foi apresentado no Festival de Cinema de Paulínia, em 2010, com boa aceitação, e agora ganha lançamento em circuito nacional. O filme foi feito no Capão Redondo, na periferia de São Paulo, e acompanha um dia na vida de três amigos, Macu (Caio Blat), Jaime (Jonathan Haagensen) e Pibe (Sílvio Guindane). Jaime é um badalado jogador de futebol que estava na Espanha mas, contundido, é dúvida para a escalação da seleção brasileira. Ele está em São Paulo para uma avaliação médica e para tentar se acertar com Elaine (Cíntia Rosa), que está grávida de um filho dele. Pibe é formado em Direito e se mudou da periferia para o centro da cidade. Ele se casou e tem um filho pequeno, mas a vida não está nada boa para o casal. Macu, branco, está fazendo aniversário e sua mãe (Cássia Kiss), lhe prepara uma festa surpresa. Ele está devendo dinheiro para um traficante barra pesada e precisa fazer um trabalho para quitar a dívida. Os três amigos se reencontram no Capão Redondo em uma cena insólita, em que o carrão do jogador Jaime contrasta com a pobreza do lugar e com o fato de haver um corpo jogado na calçada, com a família aos prantos.

Jeferson De brinca com a questão do que é ser negro ou branco na periferia. Quando o filme começa, por exemplo, vemos uma silhueta falando ao celular, usando de muitas gírias, e imaginamos na hora ser um personagem negro. Quando a cortina deixa a luz entrar, vemos que é Caio Blat. Cássia Kiss, branca, interpreta uma mulher evangélica que freqüenta uma igreja cujo pastor é João Acaiabe, negro. Aílton Graça, outro ator negro, interpreta o marido de Cássia Kiss. Como se vê, a pobreza não tem cor. Mas há uma cena que mostra o preconceito ainda existente na sociedade. Quando Macu, Jaime e Pibe estão “dando um rolê” pela cidade no carrão de Jaime, a polícia os para e começa a prender os dois negros, achando que eles estavam sequestrando o branco.

A trilha sonora tem sucessos de Mano Brown e Jorge Ben Jor, entre outros, e o filme soa bastante autêntico. A produção contou com o apoio de ONGs do Capão Redondo que garantiram que quase todo o filme fosse rodado no próprio bairro. Os atores estão muito bem e Caio Blat, em especial, surpreende. Interessante também a coincidência da história de Jaime, jogador de futebol que engravidou uma moça de periferia, e as notícias do goleiro Bruno e a antiga amante. Há também similaridades com "Quatro irmãos", filme de John Singleton rodado em 2005, que também tratava de uma família adotiva formada por jovens brancos e negros. Belo filme, que muda um pouco o cenário das tradicionais favelas do Rio de Janeiro para a periferia de São Paulo, igualmente perigosa e cheia de histórias para contar.


sábado, 2 de abril de 2011

VIPs

Quase todo mundo já ouviu a história: em um carnaval em Recife, durante uma transmissão do apresentador Amaury Jr., um rapaz se fez passar pelo filho do dono da empresa aérea Gol. Ele era Marcelo Nascimento da Rocha, que já vinha de uma série de trambiques em que se fazia passar por outras pessoas. O episódio mostrou como o mundo das celebridades é frágil, em que pessoas bem falantes, em camarotes VIP, são tratados como membros da realeza. Isso daria um filme igualmente interessante mas, infelizmente, não é o caso de "VIPs", dirigido por Toniko Melo e estrelado por Wagner Moura.

Moura é um tremendo ator, mas certas decisões do filme o colocaram em situações difíceis, a começar pela caracterização psicológica do personagem. Teria sido mais acertado se o Marcelo mostrado no filme fosse mais parecido com o personagem real no qual é baseado, um rapaz basicamente irônico e muito "cara de pau". Ao invés disso, o roteiro de Bráulio Mantovani (craque de filmes como "Cidade de Deus") e Thiago Dottori tentam dar uma explicação psicológica ao comportamento de Marcelo, criando um filme irregular. Wagner Moura usa os piores penteados e perucas da sua carreira para interpretar Marcelo desde os tempos do ensino médio, em que era chamado de "Bizarro" pelos colegas e tinha conversas imaginárias com um pai aviador (Norival Rizzo). A mãe, Silvia (Gisele Fróes), é uma cabeleireira que mima muito o garoto mas, ao mesmo tempo, diz que ele não vale nada. Marcelo foge de casa e vai parar no Paraguai, onde assume o nome "Carrera" e se torna piloto de avião de um traficante.

Há várias situações interessantes em meio a erros estranhos; um amigo de Marcelo, Baña, é interpretado pelo brasileiro Juliano Cazarré, que fala o tempo todo em um "portunhol" nada convincente. E outra, o "Carrera" criado por Marcelo não é imitação de ninguém, então fica difícil acreditar que esta sua passagem como traficante (a melhor parte do filme) o levaria a fazer o que fez depois. Na "vida real" não há necessariamente uma ordem de causa e efeito, mas na dramaturgia isso é necessário, ou então se tem a impressão que o espectador está vendo dois filmes independentes. E é nisso que resulta "VIPs". Não há muita relação entre o traficante (real) vivido por Marcelo na primeira parte do filme com o "filho do dono da Gol", Henrique Constantino, que ele cria na segunda parte. O que o filme quer mostrar, que ele é um picareta querendo se aproveitar do mundo das celebridades ou que é um homem com problemas mentais? O resultado é que o personagem de Marcelo se torna muito frágil e até inverossímil.

Inevitável também comparar "VIPs" com "Prenda-me se for capaz", de Steven Spielberg, em que Leonardo DiCaprio interpretava Frank Abagnale Jr., um rapaz inteligente que, forçado por diversas situações, se fazia passar por várias pessoas, inclusive um piloto de avião. Há várias similaridades entre os dois filmes, principalmente na relação dos personagens com suas mães complicadas e na adoração a um pai ausente. A diferença, infelizmente, está em que o roteiro de "VIPs" é tremendamente inferior, que não faz justiça a seu personagem que, na vida real, parece ser muito mais interessante.


domingo, 10 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2 - O inimigo agora é outro

"Tropa de Elite" (2007) foi um fenômeno do cinema brasileiro. Uma cópia com uma montagem temporária vazou, foi parar nas bancas dos camelôs e vendeu milhares de DVDs piratas. Antes mesmo do lançamento oficial, o filme já estava na boca do povo, que incorporou bordões como "pede pra sair!". O fenômeno não parou por ai. Os temas incendiários tratados pelo roteiro do diretor José Padilha se tornaram motivo de debates acirrados, teses acadêmicas e assunto para programas de televisão. A figura de um homem vestindo o uniforme preto do BOPE se tornou um herói inesperado, o "Capitão Nascimento", um policial incorruptível com métodos questionáveis de abordar os "vagabundos" da favela. Nascimento, incorporado por Wagner Moura, era honesto e matava com a mesma frieza policiais corruptos, traficantes de drogas e, a bem da verdade, qualquer um que ele julgasse estar do lado errado da lei. Em um país carente de justiça como o Brasil, a figura de Nascimento se tornou um modelo de conduta que podia ser torto e discutível, mas era considerado eficiente.
O agora Coronel Nascimento está de volta. "Tropa de Elite 2" tem todos os ingredientes que fizeram do primeiro filme um sucesso. Qualidade técnica inquestionável, elenco empenhado e grande dose de polêmica. José Padilha poderia, se quisesse, ter ido pelo caminho fácil e explorado a imagem do BOPE como em uma série de televisão americana, com seus membros participando de aventuras e passando por perigos nas favelas do Rio de Janeiro. Mas Padilha volta disposto a mostrar para todos os desavisados que o problema criminal na cidade carioca (e em todo o Brasil) é maior e mais perverso do que se imagina.
Dez anos depois dos acontecimentos do primeiro filme, Nascimento e sua "cria" no BOPE, o Capitão Matias (André Ramiro), estão se preparando para invadir o presídio Bangu I, que está em chamas. Nascimento é novamente o narrador do filme, soltando frases polêmicas como "o homem dos Direitos Humanos é quem vagabundo chama quando fez merda". De fato, em Bangu I os detentos estão se matando e fizeram dois policiais reféns. Nascimento está com o governador do Rio no celular, pedindo a chance de matar as lideranças do tráfico que estão trancafiadas ali. O governador responde que "não quer outro Carandiru". É então que chega a pedra no sapado de Nascimento, o professor de História, esquerdista e membro da organização "Human Rights Aid", Fraga (Irandhir Santos). Assim como no primeiro filme, um tiro se mostra fundamental para a trama. Em "Tropa de Elite", Neto (Caio Junqueira) dava o tiro certeiro que matava um traficante em um ponto chave do filme. Em "Tropa 2" é André Matias que, contrário às ordens de Nascimento, executa o líder da rebelião durante uma situação de refém.
O fato faz com que Nascimento seja demitido "para cima". Ele é exonerado do BOPE para ser assistente da Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro. É de lá que ele planeja sua "luta contra o Sistema". "Tropa de Elite 2" não faz rodeios ao tratar dos problemas sérios que envolvem as polícias civil e militar do Rio de Janeiro, o BOPE, os políticos, traficantes e as milícias armadas. O roteiro é um labirinto denso e complicado envolvendo todas estas frentes. Há um ar de "filme de tese" ainda maior nesta continuação de "Tropa de Elite". É como se Padilha não quisesse mais que os espectadores, críticos e intelectuais confundissem seus personagens com heróis. É uma tarefa complicada. Padilha se utiliza dos mesmos recursos técnicos e da linguagem cinematográfica desenvolvidos por Hollywood para originalmente gramourizar seus temas. Às vezes fica difícil ver crítica nas cenas em que o BOPE, altamente técnico e especializado, invade uma favela com dezenas de homens, helicópteros e o "Caveirão", o carro blindado que é símbolo da corporação, para matar a maior quantidade de "vagabundos", os traficantes, possível.
Mas Padilha vai mais fundo. Ele mostra como a favela é um organismo vivo, que precisa de suprimentos para se alimentar. O massacre produzido pelo BOPE deixa a favela aberta para que policiais corruptos tomem o lugar dos traficantes e criem milícias armadas. O papel da mídia sensacionalista também é explorado. Fortunato (André Mattos) é um apresentador de televisão claramente baseado em Datena, com sua atuação teatral diante das câmeras, clamando por "justiça" e pela morte dos bandidos. Na verdade Fortunato está ligado às milícias que exploram as favelas. Há também citação aos bons jornalistas como no trágico caso de Tim Lopes, morto por traficantes durante uma reportagem. Nascimento tem que lidar com a ex-mulher e com o distanciamento do próprio filho, que o vê como um assassino. Fraga, um adversário constante, pode se tornar um aliado na cruzada por justiça de Nascimento.
Padilha termina seu filme com uma daquelas cenas que, novamente, se apropriam do cinema comercial americano, quando o herói vai a público contar a "verdade". O discurso do Coronel Nascimento ao final de "Tropa 2" provavelmente enojaria o Capitão Nascimento do primeiro filme. José Padilha e Wagner Moura, assim, deixam clara sua tese, da qual não escapa quase ninguém. A câmera voa então até Brasília, e a implicação é clara.
É, parceiro, quem disse que a vida é fácil? (visto no Topázio Cinemas).


terça-feira, 17 de novembro de 2009

Um Novo Cinema?

Uma comparação entre os filmes da Retomada e o Cinema Novo

A “Retomada” foi o cinema produzido no Brasil após 1995, inaugurado com o lançamento do filme “Carlota Joaquina”, da cineasta Carla Camurati. O cinema nacional, nos anos 90, sofreu um grande golpe com a extinção da Embrafilme (Empresa Brasileira do Filme) pelo então presidente da república Fernando Collor de Melo. A produção caiu praticamente a zero e o público freqüentador das salas ficou sem opções nacionais para assistir. “Carlota Joaquina”, produzido com muito empenho e distribuído de forma quase artesanal por sua diretora, caiu no gosto do público com sua mistura de drama histórico e comédia, e marcou um ressurgimento de filmes nacionais nos cinemas. De lá para cá, uma profissionalização na arte de fazer filmes, a entrada de publicitários no mercado cinematográfico e o surgimento da Globo Filmes fez com que um número relativamente grande de filmes fosse produzido no país todos os anos, conquistando parte da platéia que, por hábito, estava acostumada a só ver filmes americanos.

Teria este cinema surgido depois da Retomada alguma comparação com o Cinema Novo? Movimento consolidado no país durante os anos 60, o Cinema Novo resultou do desejo de parte dos realizadores da época em criar um cinema que tivesse “a cara” do Brasil. Glauber Rocha, em particular, abraçou o movimento escrevendo um texto intitulado “A Estética da Fome”, em que dizia que “o Cinema Novo é um projeto que se realiza na política da fome, e sofre por isto mesmo, todas as fraquezas conseqüentes de sua existência”. O movimento, assim, surgiu da vontade do cineasta da época de se contrapor aos problemas políticos, econômicos e sociais vigentes. No campo cinematográfico, o Cinema Novo pretendia ser o oposto do que tentou ser a Vera Cruz, estúdio paulista instalado em São Bernardo do Campo que, contratando técnicos e equipamentos estrangeiros, pretendia fazer no Brasil um cinema industrial aos moldes do cinema americano.

Segundo a professora da PUC-Campinas e doutoranda em Cinema, Juliana Sangion, há pouca ligação entre o Cinema Novo e a Retomada. Para ela, o cinema brasileiro hoje tem duas vertentes: uma mais voltada para um cinema autoral, praticado por nomes como Beto Brant (Crime Delicado) e Luis Fernando Carvalho (Lavoura Arcaica), e outra dedicada totalmente a produzir um cinema de massa e para as massas, almejando o sucesso comercial. Segundo ela, essa pretensão comercial é totalmente contrária ao que pregava o Cinema Novo, cuja proposta eram a refutação, a reflexão e a rebeldia, particularmente na figura de Glauber Rocha.


Já para o cineasta e professor Cauê Nunes (vencedor do prêmio de melhor curta metragem do II Festival Paulínia de Cinema com "Quem será Katlyn?"), há alguma ligação entre o cinema atual e o Cinema Novo, que “foi um movimento muito marcante e, por isso, muita gente o tem como referência. Uma característica que vejo nos filmes de hoje e que havia no Cinema Novo são filmes com temas sociais, que tratam dos problemas políticos, econômicos e sociais do Brasil”. Nunes cita como exemplo filmes como “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meireles, que trata da violência do Rio de Janeiro e das favelas da cidade carioca. Como comparação, ele cita “Cinco Vezes Favela”, de 1962. O filme era composto por uma série de curtas-metragens dirigidos por Marcos Faria, Miguel Borges, Cacá Diegues, Joaquim Pedro de Andrade e Leon Hirzman, e também tratava do mesmo tema. Cauê Nunes admite, no entanto, que a estética tecnicamente perfeita de “Cidade de Deus” pouco tem a ver com o que era feito no Cinema Novo. A partir da “Estética da Fome” de Rocha, o cinema da época tinha a posição política de refletir na tela os problemas enfrentados pelo Brasil. Assim, os filmes do Cinema Novo eram tecnicamente pobres não por falta de recursos ou por incapacidade profissional, mas para seguir à risca a idéia de que um país subdesenvolvido como o Brasil teria de fazer um cinema subdesenvolvido.

Juliana Sangion tem dúvidas quanto à estética pobre do Cinema Novo ser proposital ou não. “Eu acho que era o possível de ser feito, inspirado no ‘cinema verdade’. Já o cinema de hoje tem essa ‘cosmética da fome’, que é um cinema ‘bonitinho’, tecnicamente melhor acabado, mas que é pouco criativo. A criatividade, para mim, é algo que independe da tecnologia”.

De fato, muitos dos filmes brasileiros feitos nos últimos anos têm chamado a atenção por sua qualidade técnica. Isso se deve, em grande parte, à entrada na produção cinematográfica de nomes consagrados da publicidade, como o já citado Fernando Meireles, sócio proprietário da produtora “O2”, de São Paulo. Meireles conquistou fama internacional com “Cidade de Deus”, que recebeu quatro indicações ao Oscar, e já fez duas grandes produções em parceria com estúdios estrangeiros desde então, “O Jardineiro Fiel” e “Ensaio sobre a cegueira”. Outro grande nome do cinema brasileiro atual, Walter Salles, também veio da publicidade e da televisão. Em 1998, seu “Central do Brasil” emocionou o mundo, sendo indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e uma inédita indicação de Melhor Atriz para Fernanda Montenegro. O primeiro longa metragem de Salles, “A Grande Arte” (1991), era falado em inglês e tinha o americano Peter Coyote encabeçando o elenco. Mas foi em “Central do Brasil” que ele vestiu a camisa do cinema nacional e trouxe para as telas um cinema que, além de entreter, também procurava mostrar os problemas sociais do país. “Todos os diretores brasileiros devem muito ao Cinema Novo, à idéia de que vale a pena tirar a câmera do estúdio e aproximar da rua”, declarou Salles recentemente no Festival do Cinema Latino Americano, na Holanda.

Tecnologia

Um dos lemas de Glauber Rocha no Cinema Novo era “uma idéia na cabeça e uma câmera na mão”. Com o grande avanço na tecnologia voltada à imagem que vemos hoje, em que câmeras digitais de alta definição estão se tornando portáteis e acessíveis à maioria das pessoas, será possível que surja daí um novo cinema brasileiro? Cauê Nunes vê com cautela esta questão: “Esses recursos democratizam a produção, então mais gente produz. Mas quantidade não é qualidade. A produção pode ser grande, mas não tão boa". Juliana Sangion não acredita que a facilidade tecnológica possa criar um novo tipo de cinema industrial, mas completa: "Está mais fácil ter uma câmera, está mais fácil de publicar o trabalho. Pode não entrar no circuito exibidor tradicional, mas pode ser exibido na internet, por exemplo. Então há um circuito exibidor alternativo.”

Preconceito?

Mesmo com o aumento de público espectador de filmes nacionais decorrido da Retomada, ainda é fato que muitos brasileiros não assistem à produção feita no país. Por que isso ocorre? Seria apenas preconceito, ou haveria outras razões? Cauê Nunes diz que esta é a pergunta a que todos os cineastas brasileiros gostariam de ter a resposta. Nunes crê que há várias razões para que isso aconteça, a começar pela falta de hábito: “Desde pequenos, estamos acostumados a um tipo de cinema que é o feito nos Estados Unidos. As crianças antigamente assistiam ‘Disneylândia’ e hoje assistem às animações da ‘Pixar’. Isso faz com que as pessoas fiquem acostumadas ao tipo de linguagem deles, e quando você fica adulto não se acostuma com outros tipos de linguagem que não a americana.” “Houve também o cinema da boca do lixo”, diz Juliana Sangion, “que relacionou o cinema nacional a uma estética mais pornográfica, o que afastou parte do público. Mesmo a proposta do Cinema Novo não agradava todo mundo, não era muito popular.”

O problema pode ser mais grave. A dominação cultural e estética de Hollywood não seria apenas questão de “gosto” ou “hábito”, mas uma estratégia cuidadosamente planejada pelos estúdios americanos para evitar que filmes nacionais conquistem espaço nas salas. Conta Cauê Nunes: “Quando um grande filme americano vai ser lançado por aqui, como ‘O Homem Aranha’, as distribuidoras brasileiras ficam interessadas em comprá-lo, porque ele vai render muito dinheiro. O que acontece é que os estúdios americanos podem exigir que, ao comprar o Homem Aranha, as distribuidoras tenham que comprar outros cinco filmes menores, que não atraiam tanta gente, mas que acabam ocupando as salas”.

Sangion, que está preparando uma tese sobre a influência da Globo Filmes no mercado do cinema brasileiro, chama de “pós Retomada” a entrada da produtora no mercado e o lançamento de “Cidade de Deus”, em 2002. “Foi quando tivemos de volta espectadores em números acima do ‘milhão’. A Globo Filmes entrou no mercado porque era o último braço que faltava às Organizações Globo entrar.” Sangion crê que, apesar da falta de criatividade temática do cinema atual, o público têm comparecido às salas e que as produções da Globo Filmes são uma espécie de resposta nacional aos “blockbusters” americanos.

Assim, podemos concluir que o cinema atual, apesar de certa semelhança temática com o Cinema Novo, não tem pretensões política nem quer “salvar o mundo”. É um cinema mais voltado para o mercado e que, aos poucos, tem alcançado público entre os espectadores do país.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Besouro

"Besouro" era o apelido dado a Manoel Henrique Pereira, filho de escravos que, mesmo nacido após a Lei Áurea, ainda sofreu muito com os reflexos da escravatura. Mestre em Capoeira, ele se tornou um mito no Recôncavo Baiano por seu modo de lutar e por enfrentar os senhores de engenho que ainda tratavam os negros como escravos. Ele lutava tão bem e realizava proezas tão prodigiosas que criaram-se várias lendas a seu respeito, como a de que podia voar.

Pois bem, chega agora às telas uma superprodução brasileira sobre ele. Mas o filme não sabe direito a que veio, se para contar a história do homem ou do mito. Dirigido por João Daniel Tirkhomiroff, "Besouro" não se decide entre ser um filme de artes marciais, um registro histórico ou uma fantasia sobre o mito de Manoel. Extremamente didático, começa com um letreiro falando sobre a capoeira e situando o filme no tempo. O letreiro é lido redundantemente por ninguém menos que Milton Golçalvez, praticamente a voz "oficial' do movimento negro no país e, por um momento, pensamos se tratar de um documentário. O roteiro, de Patrícia Andrade, trata de uma série desconexa de clichês previsíveis, como o início, em que vemos o jovem Besouro (Aílton Carmo) jogando capoeira enquanto seu mestre anda sozinho pela cidade. Didático novamente, o roteiro faz questão de colocar na narração e em falas dos personagens que Besouro deveria estar tomando conta de seu Mestre, o que já telegrafa o óbvio ao espectador: o mestre vai morrer nos próximos minutos.

Espera-se então que surja o mito, a transformação do jovem Manoel em Besouro, mas o filme, inseguro sobre como tratar de seu herói, perde seu tempo com os estereotipados personagens secundários. Há o "coronel" Venâncio (Flávio Rocha) e seus capangas, liderados por Noca de Antonia (Irandhir Santos), todos brancos, sujos e cruéis. Há os colegas de Besouro no engenho, como a jovem Dinorá (Jéssica Barbosa) e Quero-Quero (Anderson Santos de Jesus). Há várias cenas em que vemos os brancos maltratando os negros, enquanto Besouro... onde está ele?

O coreógrafo de lutas chinês Huen Chiu Ku, de Kill Bill, foi contratado para planejar as cenas de luta. Assim, era de se esperar uma espécie de filme de artes marciais brasileiro. A capoeira é uma modalidade apreciada e valorizada no mundo inteiro, pela sua combinação mortal de giros e movimentos de pernas. Aliada à coreografia de Chiu Ku e aos efeitos especiais digitais produzidos pela produtora Mixer, era de se esperar um filme de ação espetacular, recheado de grandes cenas de luta. Mas o roteiro se arrasta. O herói do filme, interpretado por Aílton Carmo, é uma figura pálida e completamente sem carisma. Ele é visto em cenas no meio da floresta ou em cachoeiras e é figura praticamente ausente do filme. Os orixás das religiões africanas também são apresentados de forma didática, um a um, pelo narrador, enquanto o tal "herói" se forma e ficamos esperando por alguma ação. O problema é que como nenhum dos vilões, os brancos, sabe jogar capoeira, não há como mostrar muitas cenas de lutas, e o filme acaba perdendo com isso. A trilha sonora é anacrônica, usando alguns instrumentos modernos, que até funcionam. Não se pode dizer o mesmo de certos diálogos, que contém expressões como "terminar com o namoro", entre outras, que soam fora de época e lugar.

Com menos didatismo, um herói mais carismático e muito mais cenas de lutas, "Besouro" poderia ter sido grande. Infelizmente, não é o caso.