"Argentino" abriu a exibição de curtas-metragens do 4º Festival de Cinema de Paulínia de hoje. O filme é dirigido por Diego da Costa e foi rodado em Campinas e Paulínia no ano de 2009. O diretor, antes da exibição do curta, explicou que é chamado de "argentino", no Brasil, qualquer estrangeiro que tenha sotaque espanhol, caso do personagem principal do filme, um Uruguaio. A trama é interessante. O "argentino" faz carteiras de identidade falsas e, em narração em off, diz que gosta de inventar nomes novos para seus clientes. A narração também é usada para conhecermos melhor a história deste uruguaio que veio ao Brasil fugindo da ditadura militar e deixou para trás uma mulher chamada Rosa e uma filha. Rosa lhe envia diversas cartas falando como sente falta de notícias dele e sobre a filha; ela também pergunta o porquê dele não ter voltado. Há uma curiosa trama paralela em que uma moça, observada pelo "Argentino em um telefone público, discute diversas vezes com um namorado. É um curta-metragem bem feito, com um clima "retrô" e boas interpretações. Várias perguntas ficam no ar (em que época se passa a história? quem é aquela moça?), mas faz parte do ar de mistério do filme.
Já "Off Making" é um curta-metragem muito bem bolado e tecnicamente original, com direção de Beto Schultz. O filme usa de forma muito inteligente a metalinguagem; enquanto a trama se desenrola (o sequestro relâmpago de um universitário e a tentativa de negociação entre os bandidos com a família do rapaz), o público acompanha a equipe de produção gravando as imagens com diversas câmeras. É estranho no início, mas o roteiro é tão bem bolado que logo o público aceita a presença da equipe na tela e, incrivelmente, não deixa de prestar atenção ao enredo. O que parece ser um drama policial muda rapidamente para uma comédia quando o sequestrador, ao tentar ligar para o pai do rapaz, disca o número errado e é atendido por outro adolescente. Segue-se uma comédia de erros muito engraçada e original. "Off Making" foi muito aplaudido e desponta como favorito ao prêmio de melhor curta-metragem do festival.
"Qual queijo você quer?", de Cíntia Domit Bittar, é uma simpática comédia dramática que mostra a reação desproporcional de uma velha senhora (Amélia Bittencourt) ao pedido do marido (Henrique César), que gostaria que ela lhe trouxesse um queijo da venda. O inocente pedido causa uma série de questionamentos; o que aconteceu à vida deles? Qual o sentido da vida? Eles nasceram apenas para procriar, envelhecer e morrer? O que aconteceu com aquela viagem à Itália que ele havia prometido? A casa espaçosa? O futuro? O curta-metragem é todo passado em um apartamento simples, cheio das quinquilharias que um casal acumula ao longo da vida (o que gera mais questionamentos da senhora). A interpretação de César e Bittencourt é competente e a atriz veterana, antes da exibição do filme, agradeceu ao companheiro de cena, que diz conhecer "há 500 anos". Curta-metragem bem feito, com boa direção de arte (Bruna Granucci), fotografia (Denny Sach) e trilha sonora (Mateus Mira).
Câmeras fotográficas não servem apenas para tirar fotos. A capacidade de se gravar vídeos em alta definição representou um avanço considerável para os produtores de imagens em movimento. Rodrigo Zanotto, 32 anos, natural de São José dos Campos e morador de Campinas, foi diretor de fotografia e operador de câmera em vários trabalhos. É dono de uma Canon 5D Mark II, uma das mais avançadas e cobiçadas máquinas fotográficas do mercado, a “menina dos olhos” dos novos cineastas. A 5D tem a capacidade de gravar vídeos em alta definição e “full frame” (semelhante à película cinematográfica de 35 mm) e está sendo usada por profissionais de cinema e televisão do mundo todo, mesmo nos Estados Unidos. Zanotto foi diretor de fotografia do curta-metragem vencedor do prêmio do júri popular no último Festival de Cinema de Paulínia, Meu avô e eu, de Caue Nunes. “Os aspectos positivos da 5D, além do preço bem em conta (por volta de US$ 3.500 o kit básico), são a similaridade com câmeras de cinema, a profundidade de campo, o tamanho do frame e as texturas da imagem”, diz Zanotto.
Túlio Ferreira, 28 anos, de Valinhos, também trabalha com audiovisual. Atualmente morando em São Paulo e professor na Escola de Cinema, começou aqui na região a trabalhar com curtas-metragens, videoclipes e institucionais. O envolvimento de Túlio com o audiovisual começou no mercado de gravações de eventos como casamentos, formaturas e festas de aniversário, mas seu amor pelo cinema fez com que se aventurasse por caminhos maiores. Para ele, fazer cinema só é um hobby para as pessoas que encararam a atividade dessa maneira. “Se cinema é sua paixão”, diz ele, “e você não consegue se imaginar fazendo outra coisa, então podemos conversar”. Certa vez, durante uma palestra do diretor Claudio Assis (diretor de Amarelo Manga e Baixio das Bestas), Túlio perguntou se é possível viver de cinema no Brasil, ao que o diretor respondeu, meio furioso: “Claro que dá! É só você correr atrás!". Túlio está trabalhando como editor em um longa-metragem independente chamado Alguém Qualquer, produzido inteiramente com uma Canon 7D (modelo inferior à 5D, citada anteriormente, mas também de ótima qualidade). “O digital veio para ficar e a película cinematográfica [filme] existirá apenas para os saudosistas” – diz Ferreira - “Os custos despencam a cada dia. Gravamos um longa-metragem com uma câmera fotográfica, com imagens maravilhosas, transferidas na hora para o computador, analisadas e até montadas quase que em tempo real. Isso é esplêndido! Portanto, o digital é o melhor amigo do cineasta independente”.
Caue Nunes, 34 anos, jornalista formado pela PUC-Campinas, é um dos produtores regionais mais bem sucedidos dos últimos anos. Seu trabalho foi reconhecido em duas edições consecutivas do Festival de Paulínia, ganhando prêmios por seu documentário Quem será Katlyn? (2009), sobre a vida de uma travesti e por Meu avô e eu (2010), descrito por Nunes como “uma ficção sobre um jovem que reflete sobre sua situação enquanto passa por uma entrevista de emprego”. Este último filme teve direção de fotografia de Rodrigo Zanotto e foi gravado com uma Canon 5D. Mesmo assim, Caue é mais reservado e realista quanto ao uso do equipamento em produções cinematográficas. “Tem vantagens como o uso de lentes de câmera fotográfica, o que dá uma estética mais cinematográfica, e o CCD [sensor eletrônico que capta as imagens] tem o mesmo formato das câmeras de película de 35mm. Mas há desvantagens: o som precisa ser gravado em outro equipamento, e como as câmeras são muito pequenas, os movimentos são mais difíceis e instáveis”. Caue Nunes também levanta outro problema, o da exibição. Não basta produzir um filme, é necessário exibi-lo. “Os equipamentos profissionais ainda são caros e de difícil manuseio. Câmeras, lentes, filtros, luzes, finalização. Tudo isso ainda é muito caro. Hoje as salas de cinema têm um padrão técnico mínimo, se você estiver fora do padrão corre o risco do filme ficar na gaveta”. Nunes, que começou a produzir em 1999 em uma oficina de cinema em Campinas, conta que o fato de vencer um prêmio em Paulínia mostra que o trabalho é reconhecido pelo público. Para seu segundo curta, Nunes contou com uma pequena verba em dinheiro do FICC (Fundo de Investimentos Culturais de Campinas) e serviços de equipamento e finalização do prêmio recebido em Paulínia. Seu último trabalho, o curta chamado 3 x 4, tem sido muito bem recebido. “Na verdade, está sendo meu curta com a melhor carreira” – diz Nunes, “foi para o Gramado Cine Vídeo, Festival Amadis Du Film, na França, e agora está no circuito de festivais da Inffinito [empresa distribuidora de filmes] e será exibido em Londres, Nova York, Vancouver, Montevidéu e Buenos Aires. Vou mandar para Paulínia, espero que entre. Fora isso, tenho outros projetos de curtas e um longa-metragem que é um falso documentário”. O próximo Festival de Cinema de Paulínia ocorre entre os dias 7 e 14 de julho, e certamente contará com várias produções feitas por aqui.
"Bróder", de Jefferson De, foi apresentado no Festival de Cinema de Paulínia, em 2010, com boa aceitação, e agora ganha lançamento em circuito nacional. O filme foi feito no Capão Redondo, na periferia de São Paulo, e acompanha um dia na vida de três amigos, Macu (Caio Blat), Jaime (Jonathan Haagensen) e Pibe (Sílvio Guindane). Jaime é um badalado jogador de futebol que estava na Espanha mas, contundido, é dúvida para a escalação da seleção brasileira. Ele está em São Paulo para uma avaliação médica e para tentar se acertar com Elaine (Cíntia Rosa), que está grávida de um filho dele. Pibe é formado em Direito e se mudou da periferia para o centro da cidade. Ele se casou e tem um filho pequeno, mas a vida não está nada boa para o casal. Macu, branco, está fazendo aniversário e sua mãe (Cássia Kiss), lhe prepara uma festa surpresa. Ele está devendo dinheiro para um traficante barra pesada e precisa fazer um trabalho para quitar a dívida. Os três amigos se reencontram no Capão Redondo em uma cena insólita, em que o carrão do jogador Jaime contrasta com a pobreza do lugar e com o fato de haver um corpo jogado na calçada, com a família aos prantos.
Jeferson De brinca com a questão do que é ser negro ou branco na periferia. Quando o filme começa, por exemplo, vemos uma silhueta falando ao celular, usando de muitas gírias, e imaginamos na hora ser um personagem negro. Quando a cortina deixa a luz entrar, vemos que é Caio Blat. Cássia Kiss, branca, interpreta uma mulher evangélica que freqüenta uma igreja cujo pastor é João Acaiabe, negro. Aílton Graça, outro ator negro, interpreta o marido de Cássia Kiss. Como se vê, a pobreza não tem cor. Mas há uma cena que mostra o preconceito ainda existente na sociedade. Quando Macu, Jaime e Pibe estão “dando um rolê” pela cidade no carrão de Jaime, a polícia os para e começa a prender os dois negros, achando que eles estavam sequestrando o branco.
A trilha sonora tem sucessos de Mano Brown e Jorge Ben Jor, entre outros, e o filme soa bastante autêntico. A produção contou com o apoio de ONGs do Capão Redondo que garantiram que quase todo o filme fosse rodado no próprio bairro. Os atores estão muito bem e Caio Blat, em especial, surpreende. Interessante também a coincidência da história de Jaime, jogador de futebol que engravidou uma moça de periferia, e as notícias do goleiro Bruno e a antiga amante. Há também similaridades com "Quatro irmãos", filme de John Singleton rodado em 2005, que também tratava de uma família adotiva formada por jovens brancos e negros. Belo filme, que muda um pouco o cenário das tradicionais favelas do Rio de Janeiro para a periferia de São Paulo, igualmente perigosa e cheia de histórias para contar.
Melhor Filme ficção: R$ 150 mil - 5xfavela – Agora por nós mesmos, de Manaira Carneiro, Wagner Novais, Rodrigo Felha, Cacau Amaral, Luciano Vidigal, Cadu Barcellos, Luciana Bezerra Melhor Documentário: R$ 50 mil – Leite e Ferro, de Claudia Priscilla Melhor Diretor ficção: R$ 35 mil – Flavio Tambellini, por Malu de Bicicleta
Melhor Diretor Documentário: R$ 35 mil – Claudia Priscilla, por Leite e Ferro Melhor Ator: R$ 30 mil – Marcelo Serrado, por Malu de Bicicleta Melhor Atriz: R$ 30 mil – Fernanda de Freitas, por Malu de Bicicleta Melhor Ator coadjuvante: R$ 15 mil – Marcio Vitto, por 5xFavela – Agora por nós mesmos , episódio Acende a Luz Melhor Atriz coadjuvante: R$ 15 mil – Dila Guerra, por 5xFavela – Agora por nós mesmos , episódio Acende a Luz Melhor Roteiro: R$ 15 mil – Rafael Dragaud, por 5xFavela – Agora por nós mesmos
Melhor Fotografia: R$ 15 mil – Gustavo Hadba, por Bróder Melhor Montagem: R$ 15 mil – Quito Ribeiro, por 5xFavela – Agora por nós mesmos Melhor Som: R$ 15 mil – Miriam Biderman e Ricardo Reis, por Bróder Melhor Direção de arte: R$ 15 mil – Alessandra Maestro, por Bróder Melhor Trilha Sonora: R$ 15 mil – Guto Graça Melo, por 5xFavela – Agora por nós mesmos Melhor Figurino: R$ 15 mil – Marcia Tacsir, por Desenrola Especial Júri: R$ 35 mil - Lixo Extraordinário, de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley
Filme de curta-metragem - Nacional Melhor filme: R$ 25 mil – Eu Não Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro Melhor Direção: R$ 15 mil – Cesar Cabral, por Tempestade Melhor Roteiro: R$ 10 mil – Daniel Ribeiro, por Eu não quero voltar Sozinho
Filme de curta-metragem - Regional
Melhor filme: R$ 25 mil – Depois do Almoço, de Rodrigo Diaz Diaz Melhor Direção: R$ 15 mil – Jonas Brandão, por Um Lugar Comum Melhor Roteiro: R$ 10 mil – Elzemann Neves, por Depois do Almoço
Júri Popular
Melhor longa ficção: R$ 25 mil - 5xfavela – Agora por nós mesmos, de de Manaira Carneiro, Wagner Novais, Rodrigo Felha, Cacau Amaral, Luciano Vidigal, Cadu Barcellos, Luciana Bezerra Melhor documentário: R$ 15 mil – Lixo Extraordinário, de Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley Melhor curta metragem nacional: R$ 5 mil – Eu Não Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro Melhor curta-metragem regional: R$ 5 mil - Meu avô e eu, de Cauê Nunes
Prêmio da Crítica
Melhor curta-metragem: Eu Não Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro
Terminou ontem a fase competitiva do III Festival Paulínia de Cinema. Hoje será exibido o filme “400 contra 1”, de Caco Souza, fora de competição, e serão anunciados os vencedores. O Theatro Municipal de Paulínia estava com lotação esgotada, neste último dia aberto ao público, que teve a exibição do ótimo documentário “Lixo Extraordinário”, que foi aplaudido em pé, e o longa de ficção “Bróder”, de Jéferson De.
A animação de bonecos “Dona Tota e o Menino Mágico”, de Adriana Meirelles, tem visual bem colorido e animação básica. A diretora fez mestrado em animação na University of West of England, e disse que o curta foi animado “à distância” por diversas pessoas, em várias partes do mundo. O resultado é um trabalho irregular, com animação simples e diálogos difíceis de se entender.
“Lixo Extraordinário” comoveu o público com sua inspirada mistura de histórias de vida, biografia de um artista e projeto ecológico. O documentário, dirigido a seis mãos por João Jardim (Janela da Alma), Karen Harley e Lucy Walker, é uma co-produção entre a produtora brasileira O2 Filmes (de Fernando Meirelles) e da britânica Almega Projects. O artista plástico brasileiro mais bem sucedido no momento, o paulista Vik Muniz, resolveu fazer um projeto no aterro sanitário Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, o maior da América Latina, fotografando alguns personagens e criando suas famosas obras de arte feitas com material reciclado. Vik é visto em Nova York, onde mora e tem um estúdio, mostrando o lugar onde ele mesmo, anos atrás, trabalhou limpando o lixo. Em seguida, o contraste: hoje suas obras estão expostas no MOMA, o museu de arte moderna de Nova York.
Vik e o sócio Fábio vão para o Brasil e é interessante como eles, ao chegar ao aterro de Gramacho, parecem estrangeiros no próprio país. Gramacho é um mundo à parte, com um fluxo constante de caminhões despejando lixo, urubus voando e, em meio à montanha de dejetos, seres humanos, os catadores de lixo. Dentre as centenas de trabalhadores, Muniz escolhe alguns personagens. Tião e Zumbi são da Associação dos Catadores de Lixo, e Zumbi sonha em montar uma biblioteca comunitária com os livros encontrados diariamente no aterro. Tião fala com desenvoltura sobre o “Príncipe”, de Maquiavel, que leu depois de deixar o livro molhado secando atrás da geladeira do barraco onde mora. Ísis está no aterro há cinco anos e acha o trabalho “péssimo”, mas é melhor do que “rodar bolsinha” na praia. Com lágrimas nos olhos, ela fala sobre a morte do filho de três anos, vítima de pneumonia. Suelen tem 18 anos e trabalha desde os sete. Já tem dois filhos pequenos que vê uma vez a cada 15 dias, porque mora em um barraco alugado no próprio lixão. Até o final do documentário, ela engravida novamente e tem o terceiro filho. Irmã trabalha no aterro e é cozinheira para os companheiros. É chocante a cena em que a vemos cozinhando em pleno lixão, cercada por dejetos por todos os lados.
Vik Muniz tira fotos destes personagens e os leva para um grande galpão, onde os próprios fotografados e colegas montam suas imagens em gigantescas obras de arte que, vistas de cima, se revelam. Muniz disse ao público presente ao festival, antes da exibição do filme, que o documentário era sobre “reciclagem humana” e sobre o poder transformador da arte. É emocionante a seqüência em que Muniz leva Tião a uma casa de leilão em Londres para vender sua própria foto. O dinheiro arrecadado por todas as obras foi revertido depois para a própria comunidade, mudando a vida dos catadores de lixo.
“Lixo Extraordinário” tem excelente direção de fotografia e trilha sonora de Moby, especialmente eficiente nas cenas que mostram as toneladas de lixo sendo despejadas no aterro, atacadas imediatamente pelos catadores. Causa certa estranheza, apenas, o fato de que Vik e seu sócio, dois brasileiros, conversem entre si em inglês quase o tempo todo. Isso foi feito para as platéias internacionais, claro, mas soa um pouco irreal. É também levantada a questão de como esse projeto iria afetar os próprios catadores. Muniz é enfático; se o projeto causar uma mudança de atitude nos envolvidos, querendo uma vida melhor, melhor para eles. Tião e Zumbi estavam presentes em Paulínia, e o discurso de Tião foi igualmente emocionante. Ele disse que eles não são catadores de lixo, mas de material reciclável. “Lixo é o que ninguém quer”, diz ele, enquanto que material reciclável tem valor. O documentário foi aplaudido em pé durante todos os créditos finais, e os aplausos continuaram quando as luzes do teatro foram acesas. É o novo favorito do Festival de Paulínia.
“Ensolarado”, de Ricardo Targino, também chamou a atenção pelo discurso do diretor antes da sessão. Ele disse que fez o filme “à moda antiga”, em película de 35 mm e editado mecanicamente, na moviola. Targino disse que “nosso cinema tem um compromisso estético, político, afetivo e familiar com este grande Brasil”. Disse também que era uma alegria apresentar à pequena Ariane, a atriz mirim do curta, o cinema pela primeira vez. Ele chamou o filme de “uma pequena sementinha que estamos plantando neste país ensolarado”. O curta realmente é bastante bonito, com fotografia que mostra a força do Sol no sertão de Minas Gerais e enquadramentos primorosos. Depois de várias exibições de curtas digitais nos últimos dias foi bom ver a boa e velha película cinematográfica na tela.
Um segundo curta na categoria “Curta Nacional” foi exibido ontem, “Retrovisor”, de Eliane Coster. Também em 35 mm, o filme mostra a vida de um garoto (Douglas Valdez) que limpa pára-brisas no semáforo, em São Paulo. Um dia um fotógrafo deixa cair um rolo de filme na rua e o garoto o pega. Ele fica imaginando o que haveria dentro daquele rolo. O curta resgata algo de “mágico” que a fotografia digital nos tirou: a expectativa de fotografar sem poder ver na hora o resultado. Claro que as câmeras fotográficas digitais são muito mais práticas, mas havia algo de mágico em usar o filme tradicional e esperar a “revelação” (palavra com vários significados) das fotos.
O último longa-metragem de ficção exibido no festival foi “Bróder”, de Jeferson De. O filme foi feito no Capão Redondo, na periferia de São Paulo, e acompanha um dia na vida de três amigos, Macu (Caio Blat), Jaime (Jonathan Haagensen) e Pibe (Sílvio Guindane). Jaime é um badalado jogador de futebol que estava jogando na Espanha, mas está contundido, sendo dúvida para a escalação da seleção brasileira. Ele está em São Paulo para uma avaliação médica e para tentar se acertar com Elaine (Cíntia Rosa), que está grávida dele. Pibe é formado em Direito e se mudou da periferia para o centro da cidade. Ele se casou e tem um filho pequeno, mas a vida não está nada boa para o casal. Macu, branco, está fazendo aniversário e sua mãe (Cássia Kiss), lhe prepara uma festa surpresa. Ele está devendo dinheiro para um traficante barra pesada e precisa fazer um trabalho para quitar sua dívida. Os três amigos se reencontram no Capão Redondo em uma cena insólita, em que o carrão do jogador Jaime contrasta com a pobreza do lugar e com o fato de haver um corpo jogado na calçada, com a família aos prantos.
Jeferson De brinca com a questão do que é ser negro ou branco em uma periferia. Quando o filme começa, por exemplo, vemos uma silhueta falando ao celular, usando de muitas gírias, e imaginamos na hora ser um personagem negro. Quando a cortina deixa a luz entrar, vemos que é Caio Blat. Cássia Kiss, branca, interpreta uma mulher evangélica que freqüenta uma igreja cujo pastor e João Acaiabe, negro, e é casada com Aílton Graça, outro ator negro. Como se vê, a pobreza não tem cor. Mas há uma cena que mostra o preconceito ainda existente na sociedade. Quando Macu, Jaime e Pibe estão “dando um rolê” pela cidade no carrão de Jaime, a polícia os para e começa a prender os dois negros, achando que estavam seqüestrando o branco.
A trilha sonora tem sucessos de Mano Brown e Jorge Ben Jor, entre outros, e o filme soa bastante autêntico. A produção contou com o apoio de ONGs do Capão Redondo que garantiram que quase todo o filme fosse rodado no próprio bairro. Os atores estão muito bem e Caio Blat, em especial, surpreende. Interessante também a coincidência da história de Jaime, jogador de futebol que engravidou uma moça de periferia, e as notícias do goleiro Bruno e a antiga amante. Belo filme, que muda um pouco o cenário das tradicionais favelas do Rio de Janeiro para a periferia de São Paulo, igualmente perigosa e cheia de histórias para contar.
Ontem foi outro dia de altos e baixos no Festival de Paulínia. A animação “Um Lugar Comum”, de Jonas Brandão, abriu a noite na categoria “curta regional”. O diretor de Sumaré fez o curta como projeto de conclusão de curso de Imagem e Som da Universidade de São Carlos, onde se formou. A animação é bonita e singela. Sem diálogos, mostra a passagem do tempo para alguns personagens que, sem querer, cruzam o caminho um do outro em um banco de praça. Os anos passando são representados pelo crescimento de uma árvore plantada no início por um garoto e uma garota. Vemos também como a pequena cidade no horizonte cresce e se modifica. O curta tem uma bela trilha sonora assinada por Duda Larson.
O documentário “Uma noite em 67” foi o ponto alto das exibições de ontem. Produção da Videofilmes, dos craques João Moreira Salles e seu irmão Walter Salles, o documentário mescla entrevistas atuais (gravadas em alta definição) com cenas da final do Festival de Música Brasileira da Record, de 1967. É o primeiro longa-metragem dos diretores Renato Terra e Ricardo Calil. Terra me contou que foi feito um grande trabalho de restauração das imagens, que começou com a escolha, na Record, das melhores fitas do arquivo da emissora. As imagens então passaram por um processo de correção frame a frame. O som também foi re-trabalhado e as músicas da época nunca soaram tão nítidas.
É muito interessante ver como era uma transmissão de televisão naquela época. Apresentadores como o grande Randal Juliano são vistos vestidos a caráter, com um microfone na mão e um cigarro na outra, entrevistando estrelas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Edu Lobo, Os Mutantes, Roberto Carlos e Marília Medalha, todos muito jovens, por volta dos 23 anos de idade. Estas entrevistas da época são intercaladas com entrevistas atuais com os artistas e a equipe de produção do festival. Paulinho Machado de Carvalho, por exemplo, revela que organizava os festivais da mesma forma que uma transmissão de luta livre. Ele escalava “papéis” aos músicos que, como em um drama, deveriam ser o “mocinho”, o “vilão”, a “mocinha”, e assim por diante. Chico Buarque, com seu smoking alugado e rosto bonito e comportado, tinha o papel do “mocinho”. O vilão do festival acabou sendo Sérgio Ricardo que, sob vaias quando tentava apresentar “Beto Bom de Bola”, acabou se enfurecendo, quebrando o violão e o atirando na platéia. Hoje ele diz que não se arrepende do que fez, e que um psicólogo diria que ele era como um animal acuado.
Roberto Carlos diz que as músicas que ele cantava nos festivais não eram escolhidas por ele, e que sua experiência como “crooner” em boate fez com que ele conseguisse cantar qualquer tipo de música. Ele ficou em 5º lugar com “Maria, Carnaval e Cinzas”.
O produtor musical Nelson Mota diz que a Record tinha um “monopólio dos musicais” no Brasil, com 90% dos músicos sob contrato. Ele conta também sobre uma passeata feita em 67 que era contra a guitarra elétrica, por representar o rock americano. Estavam presentes à passeata artistas como Elis Regina e Gilberto Gil. Caetano Veloso, em entrevista atual, diz que foi contra a passeata, que achava “fascista”, e que o uso da guitarra elétrica em sua famosa apresentação de “Alegria, Alegria”, no festival, foi uma decisão política. Gilberto Gil revelou que foi à passeata por causa de Elis Regina, e que não era contra a guitarra.
Ainda sobre Gilberto Gil, uma das revelações mais interessantes do documentário é dada por Paulinho Machado de Carvalho, que diz que Gil estava completamente bêbado e que não queria ir à final do festival. Carvalho teve que ir buscá-lo no hotel, lhe dar banho e trocá-lo para que ele fosse. Hoje, Gil revela que estava em pânico porque ele odiava ter que passar por uma “prova” e ser julgado diante dos outros.
“Uma noite em 67” é imperdível e nome certo para vencer o Festival de Paulínia na categoria documentário.
O curta nacional “1:21” interessa mais pelo modo como foi feito do que pelo filme em si. A diretora Adriana Câmara o produziu em seu apartamento, sem dinheiro e com a ajuda de amigos. Ele é todo captado em fotos estáticas, animadas na edição e acompanhadas apenas por efeitos sonoros. A idéia não é nova. O pernambucano Kleber Mendonça Filho produziu “Vinil Verde”, com a mesma técnica, em 2004.
Para finalizar a noite foi exibido o fraco “Dores e Amores”, de Ricardo Pinto e Silva. O diretor declarou que a idéia para o longa veio em um momento de solidão, quando estava trabalhando em Porto Alegre e decidiu fazer um filme sobre “sentimentos” e “amor”. Baseado no livro “Dores, Amores e Assemelhados”, de Cláudia Tajes e na peça “Intervalo”, de Dagomir Marquezi, o filme é uma série de clichês sobre os problemas de relacionamento de Julia (Kiara Sasso), uma executiva de uma agência de moda. Por longos 96 minutos, escutamos as reclamações de Julia sobre os homens. Atitudes e comportamentos que são aceitáveis nos adolescentes de “Derenrola”, apresentado na noite anterior, são apenas ridículos nos adultos de “Dores e Amores". Para piorar, o filme investe em uma edição “moderninha” cheia de efeitos de “picture in picture” e outras gracinhas digitais de alguém deslumbrado na ilha de edição. “Dores e Amores” é uma co-produção luso-brasileira, e estavam presentes ao festival a atriz portuguesa Sandra Cóias e o português Jorge Corrula.
"Meu Avô e Eu" foi o curta regional exibido ontem no III Festival Paulínia de Cinema. Dirigido por Cauê Nunes, o filme trata da mudança no modo de encarar o trabalho entre as gerações. Um rapaz (Douglas Novais), enquanto aguarda para mais uma entrevista de emprego, fica se lembrando do tempo em que passava com o avô (Marcos Zuin). O trabalho, para o avô, era uma questão de honra, dignidade, além de uma forma de sustentar a família. Já o rapaz encara o trabalho como uma série de entrevistas de emprego em que os entrevistadores do RH estão mais preocupados em declamar conceitos empresariais como "target" e "marketing". A direção de fotografia é de Rodrigo Zanotto, que usou uma câmera fotográfica, a Canon 5D, para gravar o curta. O resultado é muito bom, visto que a câmera proporciona a chance de usar lentes fotográficas como as do cinema, o que resulta em melhor profundidade de campo e uso do foco.
Em seguida foi exibido o documentário "As Cartas Psicografadas por Chico Xavier", de Cristiana Grumbach. A diretora disse que não é espírita e que seu objetivo foi tentar entender o sentimento de uma família ao receber uma carta psicografada de um ente querido. Assim, o documentário é composto por uma série de entrevistas feitas principalmente com mães que perderam seus filhos de forma trágica, como acidentes de moto, carro ou mesmo avião. Do ponto de vista de um não-crente, todas as cartas são extremamente parecidas e escritas usando do mesmo estilo poético e prolixo, além de usar palavras iguais, citar muitos nomes e, no final, assinar com o nome inteiro do morto, o que sugere que foram todas escritas pela mesma pessoa. Para os pais e mães desesperados, que perderam a vontade de viver, revoltaram-se com Deus e não viam mais sentido na vida, as cartas representam uma espécie de renascimento. O documentário acaba sendo um estudo curioso sobre a necessidade de acreditar na vida após a morte e na importância dos filhos. Uma mãe explica de forma simples: "Você não pularia atrás do seu marido se ele resolvesse pular da janela. Mas se fosse seu filho, você se atiraria".
Como cinema, o documentário é repetitivo e um pouco desestruturado. As cartas são ouvidas na narração da própria diretora, enquanto vemos as páginas com a letra quase ilegível de Chico Xavier. Mas algumas decisões foram equivocadas. Por exemplo, para representar o mundo espiritual (talvez), a diretora mostra a cadeira onde estava sentado o entrevistado vazia, em cortes secos que acabaram gerando risos involuntários na platéia. Visualmente, é como se o entrevistado simplesmente desaparecesse no ar, o que causa um efeito mais cômico do que interessante.
Na categoria curta nacional foi exibido o simpático "Eu não quero voltar sozinho", de Daniel Ribeiro. Leonardo (Guilherme Lobo) é um adolescente cego que estuda em uma escola normal. Sua melhor amiga é Giovana (Tess Amorin), que lhe serve de guia e o leva para casa depois das aulas. O interesse de Giovana por Leonardo, aparentemente, é maior do que a simples amizade. A chegada de um aluno novo, Gabriel (Fábio Audi), acaba transformando a dupla em um trio, e Giovana fica enciumada por causa da aproximação entre Leonardo e Gabriel. Seria apenas amizade ou haveria algo a mais entre os dois garotos? A platéia presente em Paulínia aplaudiu muito o filme, principalmente pelo final ousado.
"Desenrola" de Rosana Svartman, foi uma boa surpresa. No início tem-se a impressão de que vamos ver um capítulo longo de Malhação; há uma escola de classe média no Rio de Janeiro, adolescentes "irados", trilha sonora ensurdecedora, atores e atrizes "globais", como Cláudia Ohana, e a participação de Pedro Bial como o professor de matemática não prometiam muito. Aos poucos, porém, a história da jovem Priscilla (Olívia Torres, uma graça) e seus colegas foram conquistando o público. Os dramas adolescentes apresentados são os de sempre; paqueras, ciúmes, foras e a eterna preocupação com a "primeira vez". Mas estes temas são apresentados de forma natural e engraçada. Priscilla é apaixonada por Rafa (Kayky Brito), o "gostosão" da praia, mas ela põe tudo a perder com ele ao revelar que é virgem. Isso lhe dá a idéia para um trabalho de estatística que seu grupo tem que fazer para o colégio. Quantas garotas ainda seriam virgens na escola? A pesquisa acaba gerando vários boatos sobre Priscilla, inclusive um video em que um garoto, Boca (Lucas Salles), diz que ela "faz de tudo" acaba indo parar no youtube. No início ela fica brava mas, depois do fora que levou de Rafa, quem sabe a fama de "galinha" não seja uma boa?
O roteiro, da própria diretora com Juliana Lins, é divertido e o filme acerta ao retratar os jovens de hoje com os mesmos dramas universais que seus pais passaram no "século passado". Há boas referências a coisas "antigas" como fitas K7 e Walkman, além de músicas tema dos anos 80, como "Don´t you forget about me", do Simple Minds. Sim, o filme é extremamente "global", comercial e, como já disse, chega perigosamente perto de ser um capítulo de Malhação em diversos momentos, mas a direção, roteiro e elenco conseguem se elevar acima disso, e "Desenrola" acaba resultando em um filme gostoso de assistir.
O III Festival Paulínia de Cinema teve ontem a exibição do ótimo "Cinco vezes favela, agora por nós mesmos". Também foram exibidos o curta regional "Nicolau e as árvores", o documentário "São Paulo Companhia de Dança" e o curta nacional "Estação".
"Nicolau e as árvores" foi dirigido por Lucas Hungria, que ganhou edital do II Festival de Cinema e Meio Ambiente de Guararema. A trama é simples e mostra o amor (ou obsessão) de um garoto pelas árvores. O filme é bem simples e tecnicamente pobre. Gravado em Guararema, em uma região verde e arborizada, o roteiro faria mais sentido, talvez, se Nicolau vivesse em uma "selva de pedra" como São Paulo.
"São Paulo Companhia de Dança" é um belo documentário dirigido por Evaldo Mocarzel. Vários bailarinos e bailarinas da companhia estavam presentes ao festival e subiram ao palco com o diretor e o editor do filme. Mocarzel disse que o documentário não tem entrevistas porque o cinema e a dança podem prescindir das palavras. Disse também que gosta muito de dança e que o filme é uma "celebração ao corpo, que é o instrumento de trabalho e a própria obra".
De fato, o corpo dos dançarinos é o foco do documentário. Usando câmeras digitais presas aos próprios bailarinos, os diretores de fotografia Alziro Barbosa, Fabiano Pierri e Milton Jesus colocam o espectador na dança. Acompanhamos os exaustivos ensaios dos dançarinos enquanto treinam a coreografia de um novo espetáculo. Músculos, pernas, troncos e principalmente mãos e pés são focalizados em detalhes. Estes últimos, envoltos em sapatilhas, apresentam as marcas do ofício, como bolhas dolorosas. O diretor chamou o trabalho dos dançarinos de "sacerdócio", mas as imagens dos ensaios lembram também a disciplina rígida de uma arte marcial.
A edição de Marcelo Moraes é primorosa. Mocarzel e Moraes me disseram que havia perto de 100 horas de material bruto para ser montado, e o editor declarou que foi o trabalho mais exaustivo que fez na vida. Mocarzel queria que os próprios gestos gerassem os cortes, e há uma série impressionante de sequências de ensaios intercaladas por pequenas jóias, como o corte que parte do grande espelho na sala de dança para os pequenos espelhos usados pelas bailarinas para se maquiarem.
O único porém é a longa duração do filme que, sem diálogos e saturado de imagens e música, acaba por ficar um pouco cansativo. Mas é uma bela obra, regada a música clássica e, claro, muita dança.
"Estação", de Márcia Faria, é muito bem feito tecnicamente, mas deixa a desejar. Conta a história de uma garota (Carol Abras), aspirante a atriz, que aparentemente está morando no Terminal Rodoviário do Tietê, em São Paulo, enquanto faz alguns trabalhos. Lembrando "Terminal", de Steven Spielberg, o filme mostra a garota trocando de roupa no banheiro, se limpando com lenços umedecidos e se alimentando de lanches. De vez em quando fala com a mãe pelo telefone, fingindo que mora em um apartamento. O curta termina como começa, sem nenhuma explicação ou resolução. "Estação" foi apresentado no Festival de Cannes este ano.
O longa-metragem "Cinco vezes favela, agora por nós mesmos" foi a grande estrela da noite. Os produtores Cacá Diegues e Renata de Almeida Magalhães, assim como vários membros do elenco e técnica, também subiram ao palco antes da exibição. Cacá Diegues foi um dos cinco diretores que, em 1962, lançou "Cinco Vezes Favela", um dos marcos do Cinema Novo. Diegues disse que tem muito orgulho deste novo filme, apesar dele não ter nenhuma imagem feita por ele. O projeto foi realizado através de oficinas nas comunidades do Rio de Janeiro e tanto roteiro quanto direção, além de grande parte do elenco, vieram dessas oficinas. O que mais chamou a atenção no resultado final é o bom humor e o clima otimista dos curtas. Com exceção de um deles, os episódios não seguem os estereótipos encontrados nos "filmes de favela", com seus traficantes, violência e mortes. Estes assuntos são abordados, mas de forma positiva.
Em "Fonte de renda", Maycon é um jovem esforçado que consegue entrar para a Faculdade de Direito. Ele tem dificuldades em pagar o alto custo dos livros e material didático, e sequer tem dinheiro para o ônibus. Um dia um colega de sala, sabendo que ele mora na favela, pede para que ele lhe traga drogas. A princípio Maycon se recusa, mas as dificuldades financeiras fazem com que ele comece a trazer pequenas quantidades de drogas para seus colegas "playboy" da sala. O tema, delicado, é tratado de forma respeitosa e o filme passa uma boa mensagem sem ser didático ou pedante.
"Arroz com feijão" mostra a luta de um garoto para comprar um frango para o jantar do pai, que não aguenta mais comer só arroz com feijão todos os dias. O episódio é muito engraçado e a interpretação dos atores infantis é ótima.
"Concerto para violino" investe mais no clichê do filme violento de favela. Três amigos de infância (um homem branco, um negro e uma mulher negra) enfrentam uma situação violenta iniciada a partir do roubo das armas de um batalhão do exército. Há certo exagero na caracterização tanto dos bandidos quanto da polícia, maniqueísmo que foi evitado nos outros episódios.
"Deixa voar" mostra a tradicional brincadeira de soltar pipas e como homens feitos, além das crianças, a levam a sério. Um pipa acaba caindo do outro lado do rio e um garoto é enviado, contra a vontade, para buscá-la. O que ele encontra acaba sendo uma boa surpresa.
"Acende a luz", o último episódio, mostra uma véspera de Natal no morro. A energia caiu e a comunidade está inquieta por causa dos preparativos para as festas. Um carro de técnicos da companhia elétrica diz que "vai buscar uma peça" e deixa os moradores na mão. Mas um técnico empenhado resolve subir a favela e tentar resolver o problema.
Os episódios foram dirigidos por Manaira Carneiro, Wagner Novais, Rodrigo Felha, Cacau Amaral, Luciano Vidigal, Cadu Barcellos e Luciana Bezerra, com Direção de Fotografia de Alexandre Ramos e Edição de Quito Ribeiro.
Sexta-feira, 16 de julho, começou a fase competitiva do III Festival Paulínia de Cinema. Foram apresentados dois curtas metragens (um regional e outro nacional) e dois longa metragens (documentário e ficção).
O curta regional da noite foi "Só não tem quem não quer", de Hidalgo Romero. Para quem é da região, foi interessante ver o bairro de Barão Geraldo, em Campinas, retratato na tela gigante do Theatro Municipal de Paulínia. Romero participa de um grupo de produção audiovisual chamado "Laboratório Cisco", interessante proposta de produção de filmes da cidade de Campinas. "Só não tem quem não quer" trata de um dia na vida de Anderson, um homem comum que, constantemente bombardeado por peças publicitárias e tentado pelos produtos que vê nas vitrines dos shoppings, acaba perdendo o controle. A produção é bem cuidada, com boa fotografia e edição. O final em aberto deixa um pouco a desejar.
Já o curta nacional apresentado foi uma pequena obra-prima chamada "Tempestade". Dirigido por César Cabral, o curta foi produzido usando a técnica de animação em "stop motion", ou animação de bonecos. Cabral estava presente ao festival e disse que o cronograma foi apertado, com o filme sendo feito em apenas quatro meses. A história, sem diálogos, mostra a luta de um marinheiro contra um mar revolto, tentando levar seu pequeno barco até onde está sua amada. A fotografia é cheia de sombras fortes, e o filme tem uma grande carga emocional auxiliada pelo uso do Concerto Número 1 de Philip Glass, que sabe como ninguém criar um clima de obsessão. César Cabral é também o diretor do premiado "Dossiê Rê Bordosa", falso documentário em stop motion sobre a polêmica personagem de Angeli. "Tempestade" poderia, facilmente, ganhar um Oscar de Melhor Curta Metragem Animado.
"Leite e Ferro" é um documentário de Cláudia Priscilla, que mostra a vida de mães presidiárias do CAHMP, Centro de Atendimento Hospitalar à Mulher Presa. As mães tem direito a ficar com seus bebês até que completem quatro meses, para amamentá-los. A câmera na mão acompanha estas mulheres que, de bebê quase sempre no colo, conversam sobre os mais diferentes assuntos.
Suas histórias geralmente seguem uma sequência que começa com abandono na infância, passa por fome, o início de pequenos furtos e uma escalada no mundo do crime, com uso e tráfico de drogas pesadas. Dentro da prisão, o "vício" é outro: a Bíblia. A mesma mulher que em um plano está falando sobre como quase teve uma overdose ao tentar engolir umas pedras de crack, no plano seguinte está "orando", aos berros, ao "Senhor Jesus".
Há histórias que, de tão bizarras, causaram gargalhadas involuntárias na platéia. Uma mãe, por exemplo, contou como conseguiu achar a veia da filha desidratada, em um hospital, enquanto nenhuma das enfermeiras tinham conseguido. Ela tinha experiência de tanto usar drogas. Outra mãe, com rosto inocente e com o bebê ao lado, conta porque o ex-marido "não está mais vivo". Ele passou AIDS para ela enquanto estava grávida. Ela esperou ter o bebê antes de matá-lo.
Elas falam também de sexo, traição (várias dizem que preferem trair antes mesmo de saber se estão sendo traídas pelo companheiro) e sobre a dor de imaginar que terão que se separar dos bebês quando acabar o prazo de quatro meses. O documentário, que é muito bom, teria sido melhor se tivesse presenciado (ou mesmo terminado) com uma cena destas. A diretora Cláudia Priscilla, presente ao festival, disse que quis fazer o filme depois de ter sido mãe, e que quis ver como a maternidade pode acontecer em uma situação limite como o cárcere.
E foi então que o festival exibiu seu primeiro mico, o "longa-metragem astrológico" As Doze Estrelas. O filme é tão cheio de clichês e absurdo que o público não sabia se estava diante de uma comédia maluca, rindo nervosamente.
A trama, inacreditavelmente ruim, conta a história de Herculano (Leonardo Brício), um astrólogo que é contratado por uma emissora de TV para encontrar as 12 atrizes ideais para uma novela que, claro, se chama "As Doze Estrelas". Cada atriz é de um signo, o que rende cenas melancólicas de mulheres bonitas declamando os mais variados clichês sobre como é ser de Virgem, Touro, Peixes e assim por diante. E não é só isso. Paulo Betti é um "cobrador de almas", o Destino em pessoa, vestido de preto e também declamando clichês, que aparece a Herculano e diz que ele tem uma chance de salvar sua vida com aquela novela.
A série de "candidatas a atriz" conta com lindas mulheres que, sem qualquer motivo, dão ao filme a chance de mostrá-las nuas ou então em uma cena de sexo bizarra entre Herculano e a atriz do signo de Touro, em um labirinto grego dentro da casa da atriz. Touro...Minotauro...entendeu, pobre espectador? Mylla Christie, de gêmeos, é uma mulher tão dupla que até os carteiros que vão lhe entregar telegramas são gêmeos. Há uma cena pateticamente inspirada em "Se eu fosse você", em que Herculano troca de corpo com a bela Carla Regina, o que também serve de desculpa para que ela saia do chuveiro e fique longamente se contemplando no espelho, completamente nua.
Rodado em Paulínia, o filme usa os próprios estúdios da cidade para se passar pela fictícia emissora de TV (que, estranhamente, não tem uma câmera sequer). Assim, quando Herculano entra na emissora, o público de Paulínia via o reflexo, na janela, da estátua da "Menina de Ouro" que ficava em uma rotatória da cidade (e, por obra de Paulo Betti, ou melhor, do Destino, caiu em um vendaval ano passado). O filme tem a direção de Luiz Alberto Pereira que, com toda a equipe e elenco, subiu ao palco antes da exibição do filme.