segunda-feira, 19 de julho de 2010

4º Dia: III Festival Paulínia de Cinema

"Meu Avô e Eu" foi o curta regional exibido ontem no III Festival Paulínia de Cinema. Dirigido por Cauê Nunes, o filme trata da mudança no modo de encarar o trabalho entre as gerações. Um rapaz (Douglas Novais), enquanto aguarda para mais uma entrevista de emprego, fica se lembrando do tempo em que passava com o avô (Marcos Zuin). O trabalho, para o avô, era uma questão de honra, dignidade, além de uma forma de sustentar a família. Já o rapaz encara o trabalho como uma série de entrevistas de emprego em que os entrevistadores do RH estão mais preocupados em declamar conceitos empresariais como "target" e "marketing". A direção de fotografia é de Rodrigo Zanotto, que usou uma câmera fotográfica, a Canon 5D, para gravar o curta. O resultado é muito bom, visto que a câmera proporciona a chance de usar lentes fotográficas como as do cinema, o que resulta em melhor profundidade de campo e uso do foco.

Em seguida foi exibido o documentário "As Cartas Psicografadas por Chico Xavier", de Cristiana Grumbach. A diretora disse que não é espírita e que seu objetivo foi tentar entender o sentimento de uma família ao receber uma carta psicografada de um ente querido. Assim, o documentário é composto por uma série de entrevistas feitas principalmente com mães que perderam seus filhos de forma trágica, como acidentes de moto, carro ou mesmo avião. Do ponto de vista de um não-crente, todas as cartas são extremamente parecidas e escritas usando do mesmo estilo poético e prolixo, além de usar palavras iguais, citar muitos nomes e, no final, assinar com o nome inteiro do morto, o que sugere que foram todas escritas pela mesma pessoa. Para os pais e mães desesperados, que perderam a vontade de viver, revoltaram-se com Deus e não viam mais sentido na vida, as cartas representam uma espécie de renascimento. O documentário acaba sendo um estudo curioso sobre a necessidade de acreditar na vida após a morte e na importância dos filhos. Uma mãe explica de forma simples: "Você não pularia atrás do seu marido se ele resolvesse pular da janela. Mas se fosse seu filho, você se atiraria".
Como cinema, o documentário é repetitivo e um pouco desestruturado. As cartas são ouvidas na narração da própria diretora, enquanto vemos as páginas com a letra quase ilegível de Chico Xavier. Mas algumas decisões foram equivocadas. Por exemplo, para representar o mundo espiritual (talvez), a diretora mostra a cadeira onde estava sentado o entrevistado vazia, em cortes secos que acabaram gerando risos involuntários na platéia. Visualmente, é como se o entrevistado simplesmente desaparecesse no ar, o que causa um efeito mais cômico do que interessante.

Na categoria curta nacional foi exibido o simpático "Eu não quero voltar sozinho", de Daniel Ribeiro. Leonardo (Guilherme Lobo) é um adolescente cego que estuda em uma escola normal. Sua melhor amiga é Giovana (Tess Amorin), que lhe serve de guia e o leva para casa depois das aulas. O interesse de Giovana por Leonardo, aparentemente, é maior do que a simples amizade. A chegada de um aluno novo, Gabriel (Fábio Audi), acaba transformando a dupla em um trio, e Giovana fica enciumada por causa da aproximação entre Leonardo e Gabriel. Seria apenas amizade ou haveria algo a mais entre os dois garotos? A platéia presente em Paulínia aplaudiu muito o filme, principalmente pelo final ousado.

"Desenrola" de Rosana Svartman, foi uma boa surpresa. No início tem-se a impressão de que vamos ver um capítulo longo de Malhação; há uma escola de classe média no Rio de Janeiro, adolescentes "irados", trilha sonora ensurdecedora, atores e atrizes "globais", como Cláudia Ohana, e a participação de Pedro Bial como o professor de matemática não prometiam muito. Aos poucos, porém, a história da jovem Priscilla (Olívia Torres, uma graça) e seus colegas foram conquistando o público. Os dramas adolescentes apresentados são os de sempre; paqueras, ciúmes, foras e a eterna preocupação com a "primeira vez". Mas estes temas são apresentados de forma natural e engraçada. Priscilla é apaixonada por Rafa (Kayky Brito), o "gostosão" da praia, mas ela põe tudo a perder com ele ao revelar que é virgem. Isso lhe dá a idéia para um trabalho de estatística que seu grupo tem que fazer para o colégio. Quantas garotas ainda seriam virgens na escola? A pesquisa acaba gerando vários boatos sobre Priscilla, inclusive um video em que um garoto, Boca (Lucas Salles), diz que ela "faz de tudo" acaba indo parar no youtube. No início ela fica brava mas, depois do fora que levou de Rafa, quem sabe a fama de "galinha" não seja uma boa?
O roteiro, da própria diretora com Juliana Lins, é divertido e o filme acerta ao retratar os jovens de hoje com os mesmos dramas universais que seus pais passaram no "século passado". Há boas referências a coisas "antigas" como fitas K7 e Walkman, além de músicas tema dos anos 80, como "Don´t you forget about me", do Simple Minds. Sim, o filme é extremamente "global", comercial e, como já disse, chega perigosamente perto de ser um capítulo de Malhação em diversos momentos, mas a direção, roteiro e elenco conseguem se elevar acima disso, e "Desenrola" acaba resultando em um filme gostoso de assistir.


2 comentários:

Zeca Jas disse...

Achei curioso seu veredito positivo sobre "Desenrola". Pela sua sinopse estendida, não é possível notar exatamente onde ele se distanciaria de um episódio qualquer de "Malhação". E pior ainda: parece muito um pastiche tosco de "As Melhores Coisas do Mundo". Aliás, você viu esse filme?

João Solimeo disse...

Tudo bom? Você viu Desenrola? De fato, o início do filme é bem um episódio de Malhação. Mas há uma mudança de cenário e de tom mais para o meio do filme, com uma sequência passada na praia e o retorno para a cidade. O filme é sim bastante simples e comercial, mas há um investimento em humor e uma pitada de romance que levaram o filme a ser mais um "Confissões de Adolescente", da TV Cultura, do que um Malhação. Infelizmente não vi "As Melhores coisas do Mundo", então não posso comparar.