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sábado, 30 de junho de 2012

Para Roma, com amor

O prolífico Woody Allen tem o costume de alternar grandes filmes com outros mais simples, e depois do ótimo "Meia-Noite em Paris" (Oscar de Melhor Roteiro Original) era de se imaginar que "Para Roma, com Amor" fosse um filme "menor" do mestre. Sim e não. Sem dúvida é um roteiro mais solto, mais "brincalhão", sem as ambições e referências artísticas que Allen imprimiu em seu filme anterior. Há, no entanto, idéias boas de sobra na nova comédia do diretor, que escolheu Roma como cenário.

O filme é composto por várias histórias independentes. Woody Allen interpreta um produtor musical aposentado que vai à Roma conhecer o noivo da filha, um advogado comunista chamado Michelangelo (Flavio Parenti). Allen, como sempre, interpreta a si mesmo, paranoico e egocêntrico (e muito engraçado). Ele odeia estar aposentado e quando conhece o pai de Michelangelo, um italiano simples que adora cantar óperas no chuveiro, acha que descobriu o novo Luciano Pavarotti. O problema é que o pobre homem só canta bem quando debaixo d´água, o que gera cenas hilariantes quando Allen, mesmo assim, resolve ir em frente com o sonho de transformar o sogro em um astro.

Outra história é uma crítica irônica ao mundo das celebridades e dos paparazzi, figuras que o genial Fellini explorou em seus filmes. Roberto Benigni é Leopoldo, um homem comum que leva uma vida rotineira com a esposa, dois filhos e um trabalho inexpressivo. Um dia ele acorda e, surpreendentemente, descobre que virou uma celebridade. Dezenas de paparazzi o perseguem pelas ruas e repórteres de televisão lhe fazem perguntas sobre as coisas mais banais, como o que ele comeu no café da manhã ou de que modo costuma fazer a barba. Claro que é uma alegoria. Leopoldo não entende o porquê de ser famoso e, por um tempo, até aproveita a badalação e as mulheres que se atiram a seus pés. Depois de um tempo, porém, não aguenta mais ser seguido por todos os lugares e com a perda da privacidade.

Há também a história dos recém casados Milly (Alessandra Mastronardi) e Antonio (Alessandro Tiberi), que vêm à Roma de uma cidade do interior para que Antonio apresente Milly à família; se tudo correr bem, ele pode conseguir um lugar nos negócios dos tios. Acontece que Milly sai para passear por Roma e se perde. Enquanto isso, Antonio é surpreendido no quarto por uma estonteante prostituta chamada Ana (Penélope Cruz), que obviamente está no lugar errado. Os tios dele o encontram com Ana e acreditam que ela é a esposa dele, e está armada a confusão.


A quarta história envolve uma viagem emocional de John, um arquiteto americano interpretado por Alec Baldwin, que havia morado em Roma quando jovem. Ele vai visitar sua antiga rua e conhece um jovem, também arquiteto, chamado Jack (Jesse Eisenberg). Allen usa um recurso bem interessante em que, aos poucos, o espectador descobre que Baldwin e Eisenberg podem ser versões da mesma pessoa em idades diferentes. Jack mora com Sally (Greta Gerwig) mas se apaixona pela amiga dela, Monica (Ellen Page), uma jovem extremamente manipuladora. Há bons momentos em que Baldwin interage com sua versão mais nova, tentando fazê-lo ver que Monica vai lhe causar muito sofrimento, mas o jovem não consegue evitar que a história se repita.

"Para Roma, com amor" tem bela fotografia de Darius Khondji (o mesmo de "Meia-Noite em Paris"), que mostra a Cidade Eterna em um colorido quente. O roteiro pode não estar na mesma altura de outros trabalhos de Allen, mas é superior a muito do que há nas telas ultimamente. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.

Câmera Escura

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Indicados ao Oscar 2012

Foram anunciadas as indicações para o Oscar 2012. A cerimônia de entrega dos prêmios será realizada no dia 26 de fevereiro. Como sempre, a lista dos indicados levanta algumas polêmicas. Na categoria de animação, por exemplo, "As Aventuras de Timtim", dirigido por Steven Spielberg e vencedor do Globo de Ouro, foi deixado de lado. Uma das explicações possíveis é que há uma polêmica entre os animadores sobre o filme ser ou não considerado uma "animação". Ao contrário de um animado tradicional, em que o movimento dos personagens é desenhado manualmente por um animador (ou animado digitalmente em um computador), "Tintim" foi feito usando o processo de "motion capture"; atores reais, de carne e osso, interpretam os personagens utilizando roupas especiais cujos movimentos são "capturados" por um computador, que utiliza estes dados para gerar a animação. Segundo os desenhistas tradicionais, isso não poderia ser considerado "animação", e após a vitória de "Tintim" no Globo de Ouro houve uma "gritaria" geral entre os animadores. O assunto é discutível, mas pode explicar a esnobada da Academia à animação (?) de Spielberg. A Academia esnobou Spielberg também na categoria de Direção, já que ele não foi indicado por seu trabalho em "Cavalo de Guerra", que é candidato a Melhor Filme.

Tilda Swinton, atriz extraordinária, foi deixada de lado apesar de seu trabalho em "Precisamos falar sobre Kevin". Meryl Streep, sempre favorita, recebeu sua décima sétima indicação por "A Dama de Ferro", papel pelo qual foi premiada no Globo de Ouro. Streep deveria receber um prêmio vitalício e ser deixada de lado das próximas cerimônias, dando lugar a outras atrizes.

George Clooney, infelizmente, não viu seu ótimo "Tudo pelo Poder" ser indicado nem a Melhor Filme nem a Melhor Direção, mas ele foi indicado a Melhor Ator por "Os Descendentes" e a Melhor Roteiro Adaptado por "Tudo pelo Poder". Seu companheiro nos filmes "11 Homens e um Segredo", Brad Pitt, foi indicado a Melhor Ator por "O Homem que Mudou o Jogo", também indicado a Melhor Filme. Já Leonardo DiCaprio foi esquecido em sua atuação em "J. Edgar", filme sobre o criador do FBI; Clint Eastwood, o diretor, também ficou de fora das indicações. O favorito ao prêmio de ator é o francês Jean Dujardin, por "O Artista", embora a atuação excepcional de Gary Oldman em "O Espião que Sabia Demais" mereça ser premiada.

O grande Woody Allen recebeu indicações a Melhor Filme, Direção e Roteiro Original por "Meia-noite em Paris", filme que conquistou corações no mundo todo e se tornou um dos maiores sucessos de sua longa carreira.

Martin Scorsese, em seu primeiro filme infanto-juvenil e em três dimensões, "A Invenção de Hugo Cabret", foi indicado a onze estatuetas, inclusive as importantes Melhor Filme e Melhor Direção. Possivelmente o melhor diretor americano em atividade, o criador de obras-primas como "Taxi Driver" (1976), "Touro Indomável" (1980) e "Os Bons Companheiros" (1990)  foi esnobado por vários anos, até ganhar seu único Oscar por "Os Infiltrados" (2006).

"A Árvore da Vida", de Terrence Malick,  conseguiu indicações a Melhor Filme e Melhor Diretor, apesar de ser um filme de difícil aceitação pelo grande público. É sem dúvida um dos melhores filmes de 2011, mas será uma surpresa se a Academia premiá-lo no dia 26 de fevereiro próximo.

Falando em polêmica, "Melancolia", de Lars von Trier e "A Pele que Habito", de Pedro Almodóvar, foram deixados de lado. O primeiro, provavelmente, pelas declarações infelizes de Von Trier no Festival de Cannes sobre ser "nazista"; o segundo pelo conteúdo bizarro e erótico do filme de Almodóvar.

Entre os filmes brasileiros, "Tropa de Elite 2" não chegou nem entre os finalistas a Melhor Filme Estrangeiro e a animação "Rio" (do brasileiro Carlos Saldanha) foi deixada de lado. Curiosamente, Carlinhos Brown e Sérgio Mendes estão entre os indicados por Melhor Canção por "Rio". Eles concorrem apenas com outra canção, "Man or Muppet", do filme infantil "Os Muppets".

O filme francês "O Artista" recebeu dez indicações. A premissa do filme é interessante (e bizarra): em pleno século XXI, ele não só é em preto e branco como é mudo, em bela homenagem ao início do Cinema. Mas será que os americanos da Academia vão premiar um filme francês? A surpresa da lista de indicações foi "Tão Forte e Tão Perto", um dramalhão que conta com os oscarizados Tom Hanks e Sandra Bullock em uma história que remete ao atentado de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas. Será que pode ser a zebra da noite?


Melhor filme

    Os Descendentes
    A Árvore da Vida
    Histórias Cruzadas
    A Invenção de Hugo Cabret
    O Homem Que Mudou o Jogo
    Cavalo de Guerra
    O Artista
    Meia-Noite em Paris
    Tão Forte e Tão Perto

Melhor diretor

    Woody Allen - Meia-Noite em Paris
    Terrence Malick - A Árvore da Vida
    Alexander Payne - Os Descendentes
    Michel Hazanivicous - O Artista
    Martin Scorsese - A Invenção de Hugo Cabret

Melhor ator

    George Clooney - Os Descendentes
    Brad Pitt - O Homem Que Mudou o Jogo
    Jean Dujardin - O Artista
    Demián Bichir - A Better Life
    Gary Oldman - O Espião que Sabia Demais

Melhor atriz

    Glenn Close - Albert Nobbs
    Viola Davis - Histórias Cruzadas
    Rooney Mara - Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres
    Meryl Streep - A Dama de Ferro
    Michelle Williams - Sete Dias com Marilyn

Melhor ator coadjuvante

    Kenneth Branagh -Sete Dias com Marilyn
    Nick Nolte - Guerreiro
    Max Von Sidow - Tão Forte e Tão Perto
    Jonah Hill - O Homem Que Mudou o Jogo
    Christopher Plummer - Toda Forma de Amor

Melhor atriz coadjuvante

    Bérénice Bejo - O Artista
    Jessica Chastain - Histórias Cruzadas
    Janet McTeer - Albert Nobbs
    Melissa McCarthy - Missão Madrinha de Casamento
    Octavia Spencer - Histórias Cruzadas


Melhor roteiro adaptado

    A Invenção de Hugo Cabret
    Tudo pelo Poder
    Os Descendentes
    O Espião que Sabia Demais
    O Homem Que Mudou o Jogo

Melhor roteiro original

    Meia-Noite em Paris
    O Artista
    Margin Call - O Dia Antes do Fim
    Missão Madrinha de Casamento
    A Separação

Melhor filme em lingua estrangeira

    A Separação (Irã)
    Bullhead (Bélgica)
    Monsieur Lazhar (Canadá)
    Footnote (Israel)
    In Darkness (Polônia)

Melhor longa animado

    Gato de Botas
    Kung Fu Panda 2
    Rango
    Um Gato em Paris
    Chico & Rita

Melhor trilha sonora original

    As Aventuras de Tintim
    O Artista
    O Espião que Sabia Demais
    A Invenção de Hugo Cabret
    Cavalo de Guerra

Melhor canção original

    "Man or Muppet" - Os Muppets
    "Real in Rio" - Rio

Melhores efeitos visuais

    Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2
    A Invenção de Hugo Cabret
    Gigantes de Aço
    Planeta dos Macacos - A Origem
    Transformers: O Lado Oculto da Lua

Melhor maquiagem

    Albert Nobbs
    Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2
    A Dama de Ferro

Melhor fotografia

    Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres
    O Artista
    A Invenção de Hugo Cabret
    A Árvore da Vida
    Cavalo de Guerra

Melhor figurino

    Anônimo
    O Artista
    A Invenção de Hugo Cabret
    Jane Eyre
    W.E. - O Romance do Século

Melhor direção de arte

    O Artista
    Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 2
    A Invenção de Hugo Cabret
    Cavalo de Guerra

Melhor documentário

    Hell and Back Again
    If a Tree Falls
    Paradise Lost 3: Purgatory
    Pina
    Undefeated

Melhor documentário de curta-metragem

    God is the Bigger Elvis
    The Barber of Birmingham: Foot Soldier of the Civil Rights Movement
    Incident in New Baghdad
    Saving Face
    The Tsunami and the Cherry
    Blossom

Melhor montagem

    Os Descendentes
    O Artista
    Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres
    O Homem Que Mudou o Jogo
    A Invenção de Hugo Cabret

Melhor curta

    Pentecost
    Raju
    The Shore
    Time Freak
    Tuba Atlantic

Melhor curta animado

    Dimanche
    The Fantastic Flying Books of Mister Morris Lessmore
    La Luna
    A Morning Stroll
    Wild Life

Melhor edição de som

    Drive
    Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres
    Cavalo de Guerra
    A Invenção de Hugo Cabret
    Transformers: O Lado Oculto da Lua

Melhor mixagem de som

    Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres
    Cavalo de Guerra
    A Invenção de Hugo Cabret
    Transformers: O Lado Oculto da Lua
    O Homem Que Mudou o Jogo

sábado, 18 de junho de 2011

Meia-noite em Paris

Woody Allen volta em um dos seus filmes mais belos e nostálgicos. Após filmar em Londres e Barcelona, Allen agora pinta Paris com uma fotografia dourada que, no início do filme, até faz uma homenagem com a cidade; por vários minutos, vê-se os pontos turísticos de Paris em toda a sua glória. É, ao mesmo tempo, um clichê e uma novidade; onde estão os famosos créditos brancos sobre fundo preto, costumeiros de Allen? Eles surgem, rápidos, após as imagens da cidade, e o filme se inicia.

A princípio, é a típica trama de Woody Allen. Owen Wilson (imitando Allen) é Gil Pender, um roteirista de cinema que é bem sucedido, mas está infeliz com os filmes superficiais que escreve. Ele se encontra em Paris com a noiva mimada e mandona, Inez (Rachel McAdams) e os sogros autoritários. Estão na cidade a negócios do pai de Inez, mas Gil quer se inspirar para terminar seu livro. Paris é a mítica cidade para onde os artistas iam para criar, e Gil que seguir os passos de Ernest Hemingway, entre tantos outros. A noiva mal presta atenção a ele e os sogros o acham um lunático. Para piorar, eles encontram um amigo de Inez, Paul (Michael Sheen) que é especialista em todos os assuntos possíveis, de vinho tinto a arte impressionista. Gil, o típico anti-herói "Alleniano", sente-se diminuído.

É então que a "mágica" acontece. Uma noite, perdido pelas ruas de Paris, Gil escuta o relógio dar doze badaladas e um carro antigo para na rua. Ele entra e, de repente, vai parar nos anos 20, que considera a "era dourada" de Paris. Começa então uma série de situações engraçadas e surpreendentes. Em uma festa, Gil encontra Scott e Zelda Fitzgerald. Ao piano, Cole Porter canta uma de suas obras primas. Em uma mesa de bar está Ernest Hemingway (Corey Stoll), que se recusa a ler o livro de Gil: "Se for ruim, vou odiar sua mediocridade. Se for bom, vou odiar minha inveja", diz Hemingway, que leva o manuscrito para Gertrude Stein (sim, Kathy Bates). Na casa de Stein, Gil conhece um pintor chamado Pablo Picasso, que está com sua nova amante, Adriana (a bela Marion Cotillard). Gil, é claro, se apaixona instantaneamente pela garota.

O roteiro de Allen mistura sequências passadas nos anos 20, noturnas, com outras contemporâneas, em que Gil tem que lidar com o estresse da noiva e a desconfiança dos sogros. Aos poucos, porém, sua autoconfiança cresce e ele passa a enfrentar o pedantismo do "sabe tudo" Paul e a conversa conservadora do sogro, republicano tradicional (que odeia a França). Claro que o noivado de Gil e Inez está com os dias contados, mas como resolver o problema de estar apaixonado por uma mulher dos anos 20? Há uma sequência ótima em que Gil tem uma conversa sobre o assunto com ninguém menos que Salvador Dalí (Adrien Brody, ótimo), Luiz Buñuel (Adrien de Van) e Man Ray (Tom Cordier) que, surrealistas, acham tudo muito normal.

A direção de fotografia, excelente, é do iraniano Darius Khondji, que já trabalhou com David Fincher em "Se7en" (1995) e "Quarto do Pânico" (2002). Há alguns planos muito bem feitos em "Meia-noite em Paris", como quando Gil, Inez, Paul e a esposa visitam o palácio de Versalhes, feito em plano-sequência. O roteiro, apesar de nostálgico, é paradoxalmente atual em mostrar que, em todas as eras, há pessoas que acham que o passado é melhor. Os anos 20 podem ter sido fantásticos mas, é de se pensar, não havia filmes de Woody Allen.