sexta-feira, 11 de março de 2011

Bruna Surfistinha

Na cena da primeira vez que Bruna transa com um cliente e inicia sua "carreira" como prostituta, ela está de bruços, na cama, com o homem por cima. Sua expressão é um misto de dor e nojo e, em uma decisão interessante do diretor Marcos Baldini, a garota quebra uma convenção cinematográfica e fita o espectador direto nos olhos. É como se o filme perguntasse ao público presente ao cinema: "Vocês não vieram aqui para ver sexo? Então vejam". Nem que fosse apenas por esta cena, é um alívio ver que o filme está levando o assunto e o público com um mínimo de seriedade. Em um cinema nacional que quebra recordes de público com filmes rasos como "De Pernas pro Ar", podia-se esperar muito menos de "Bruna Surfistinha", a cinebiografia da prostituta mais famosa do país.

Bruna, interpretada com grande entrega por Deborah Secco, é o "nome de guerra" de Raquel Pacheco, garota de classe média paulista que abandonou a família para se tornar garota de programa. E inegável que ela foi um fenômeno de marketing. Primeiro em um blog e depois em um livro que se tornou "best seller" (para os padrões brasileiros), Raquel conseguiu fazer com que "Bruna" se tornasse conhecida e até mesmo admirada. Em um país em que Geisy Arruda se tornou "celebridade" por usar um vestido curto, talvez não seja um feito assim tão louvável, mas sem dúvida é fora do comum. O blog de Bruna Surfistinha recebia milhares de visitas diárias e ela soube explorar a nova mídia para atrair clientes cada vez mais variados. Mas como diz o ditado, é preciso ter cuidado com o que se deseja. Qual a vantagem em ser a "garota de programa mais conhecida do país"? Mais dinheiro? A que preço? Quem desejaria ser a "número um" em uma das "profissões" mais humilhantes que existem?

O roteiro é baseado no livro "O Doce Veneno do Escorpião", que vendeu mais de 250 mil cópias no Brasil. O ritmo do filme é lento, mostrando desde o início de Bruna em uma pequena casa em São Paulo. Lá ela conhece as colegas de trabalho e, com seu jeito de garota tímida, começa a ganhar cada vez mais clientes, o que causa alguns atritos. As cenas de sexo chegam a surpreender pelo realismo e pela entrega de Deborah Secco à personagem. É até de se admirar que a censura seja de 16 anos. Bruna conhece Carol (Guta Ruiz), uma mulher de classe alta que a apresenta para clientes com mais dinheiro; de quebra, Bruna começa a cheirar cocaína e a gastar mais do que ganha. Infelizmente a trama perde o foco a partir do meio do filme. De forma nada sutil, há longas sequências no estilo "montagem musical" em que vemos primeiro a subida de Bruna à classe "alta" da prostituição e das drogas para, em seguida, mergulhar no vício e voltar ao ponto de origem, sem dinheiro ou clientes. Há também um personagem chamado "Huldson" (Cássio Gabus Mendes) que (verdadeiro ou não) é o típico clichê do homem que se apaixona pela prostituta e quer fazê-la "mudar de vida".

E é de se questionar o tom de "vencedora" com que a personagem chega ao final da trama. Tudo na vida são escolhas, mas ao ver "Bruna Surfistinha" é possível se lembrar da garota Suelen, do documentário "Lixo Extraordinário". Com 18 anos e dois filhos para criar, ela preferiu trabalhar dia e noite como catadora de lixo do que se prostituir. Ao final de "Bruna Surfistinha", ela escreve um número na janela de seu apartamento de luxo, que representa os programas que ela ainda pretende fazer antes de "largar essa vida". O número é alto, muito alto; e o preço, impensável.


5 comentários:

Thaís Inocêncio disse...

Eu assisti. Não gostei mto, principalmente do meio pro final. Achei que o filme explorou mto da Deborah e pouco da Bruna. Mas a sala tava lotada!! haha

João Solimeo disse...

Sim, o filme caminha para ser outro "blockbuster" nacional.

Renata disse...

Afinal, vc classifica esse filme como? Bom, médio, ruim, péssimo?

Eu me nego a dar dinheiro pra esse tipo de filme/livro.

É decepcionante ver que um livro só vira bestseller no país se o conteúdo for recheado de sexo, drogas e palavrão.

Um filme como esse incentiva as meninas a buscarem pela "profissão" de prostituta e rotularem como "qualquer outra profissão".

Tinha que vir um tsunami pra cá e acabar com toda essa PUTARIA!

Ok, agora falei que nem a minha avó, hahahahahaha!

Bjs

João Solimeo disse...

Eu classifico como "médio". Não é um filme fácil de classificar. Como disse no texto, é bem feito e mais sério do que esperava. Mas concordo que não fica muito clara a "mensagem" do filme (não que ele tenha a obrigação de ter uma). Fica difícil simpatizar com a personagem; qual o problema dela, afinal? É uma cleptomaníaca? Ninfomaníaca? Sua decisão é um modo válido de conquistar sua "liberdade"? Como cinema, o filme se torna enfadonho do meio para o final.

Julia disse...

Mais ridículo do que pagar pelo filme/livro é comentar e falar mal dele, afinal como no proprio filme diz enquanto vc enche a boca pra falar coisas inuteis a gente tem hora marcada com o marido de vocês


ficaadica