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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Febre do Rato

"Febre do Rato" é uma experiência visceral que cheira rio, cidade, poluição, tinta, esperma, esgoto. É como um panfleto deixado por um poeta pobre, magro e faminto na mesa do restaurante e, como quase todo discurso panfletário, ele é exagerado, poético, incongruente e apaixonado. É moderno mas também anacrônico, seja nos discursos declamados ou na fotografia em preto e branco.

O cenário é Recife, cidade centenária e tradicional que, recentemente, foi invadida por empreendimentos imobiliários e financeiros que ergueram grandes torres de aço e vidro às marges do rio que a cruza. A câmera do diretor Cláudio Assis passeia pelo rio, por debaixo das pontes, mostrando os arranha-céus ao longe enquanto que, em primeiro plano, as palafitas criam um contraste enorme. Zizo (Irandhir Santos, inspirado) é um poeta que escreve e publica um jornal artesanal chamado "Febre do Rato", que distribui nas favelas da cidade com seu carro velho e um alto falante, com o qual declama palavras de ordem e poemas. O Poeta, a bem da verdade, fala por quase todo o filme, em um jorro ininterrupto de palavras. Só duas coisas conseguem lhe calar: a repressão, ao final, e a bela Eneida (Nanda Costa), uma jovem por quem o Poeta se apaixona. Ela é uma musa moderna, bem distante das donzelas virginais cantadas nos versos românticos do passado. Embora, para o pobre Zizo, ela decida ser inacessível, recusando-se a ficar com ele; o que, claro, só aumenta sua paixão.

Várias pessoas orbitam em volta do Poeta, como seu amigo Pazinho (Matheus Nachtergaele, muito bem), que tem uma relação conturbada com Vanessa (Tânia Granussi). Ela o traiu com outro homem e os dois estão na situação complicada de ainda se amarem, embora haja muita raiva no ar, principalmente por parte dele. Há uma sequência ótima em que uma discussão do casal se passa em três lugares (e três tempos) diferentes, mas as frases se complementam, como se a briga fosse sempre a mesma, repetidamente. Há ainda o traficante de maconha local (Juliano Cazarré) que, aparentemente, vive com outros dois homens e uma mulher; há uma cena que surpreende (ou choca alguns) em que os quatro estão nus, no chão, em uma situação claramente sexual. Cláudio Assis gosta de quebrar com as convenções recatadas do cinema nacional recente e chocar o espectador, por vezes de forma um tanto gratuita; há três ou quatro cenas de sexo entre Irandhir Santos e uma senhora muito mais velha dentro de uma caixa d´água, por exemplo, que podem ser encaradas como gratuitas, apesar da personalidade bastante edipiana do Poeta, que ainda vive com a mãe e depende dela.

O roteiro de Hilton Lacerda não segue uma trama muito clara, mas é evidente o talento de Assis em dirigir todos estes personagens. A fotografia e os movimentos de câmera de Walter Carvalho são tão elegantes e precisos que, repetimos, há certa incongruência entre a crueza do roteiro e das locações e a extrema beleza das imagens. Carvalho, por diversas vezes, coloca a câmera acima dos personagens e os segue em planos sequência que acompanham a trilha sonora (de Jorge du Peixe) ou os versos de Zizo. Tudo culmina para um desfile de 7 de setembro que é uma cacofonia de pés marchando, pessoas falando e poemas declamados. O final, infelizmente, não tem a força do resto do roteiro. É previsível que a subversão do Poeta será punida  pelo "sistema"; por isso mesmo, um final alternativo teria mais impacto. "Febre do Rato" foi apresentado no Festival de Paulínia em 2011 e levou oito prêmios. Não é um filme para o grande público; há muita nudez (masculina e feminina) e vários momentos bizarros pelos quais o cinema de Cláusio Assis ficou conhecido. Mas é um trabalho de fôlego, provocador e, em alguns momentos, curiosamente sublime. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Raul - O início, o fim e o meio

A vida de Raul Seixas, com toda sua rebeldia e mensagens da contracultura é, do ponto das biografias do rock, comum. Ele seguiu a mesma linha que tantos outros que conheceram o sucesso, entraram no caminho do excesso, das drogas, da bebida e, finalmente, tiveram morte precoce. Isso posto, não significa que o homem Raul Seixas fosse convencional, pelo contrário. O documentário de Walter Carvalho e Evaldo Mocarzel é uma biografia aprofundada da vida e arte deste nordestino que nasceu com a música nas veias e, já menino, fazia parte de um clube do rock em Salvador, onde nasceu.

Com grande quantidade de material de arquivo composto por filmes, fotos e até mesmo gravações dos tempos em que Raulzito, como era chamado, era criança, "Raul - O início, o fim e o meio" conta a vida do artista, suas parcerias artísticas e amorosas, seu envolvimento com drogas, o exílio, o retorno ao sucesso e, finalmente, sua morte. Há depoimentos de mais de quarenta pessoas, entre familiares, amigos de infância, parceiros e ex-companheiras, que tentam compor uma descrição de quem é, provavelmente, o maior ídolo do rock brasileiro. Pedro Bial, que antes de ser babá de "brothers" e "sisters" era um bom jornalista, fala sobre como as músicas de Raul eram transgressoras e tão inteligentes que a censura não conseguia entendê-las. Músicas como "Ouro de Tolo", que Caetano Veloso tenta lembrar as longas letras que diziam "Eu devia estar contente/ Porque eu tenho um emprego/ Sou um dito cidadão respeitável/ E ganho quatro mil cruzeiros/ Por mês". Paulo Coelho, entrevistado em sua casa na Suíça, diz que não entendia nada de fazer letras quando começou a parceria com Raul, e que "Al Capone", a primeira, começou como uma longa poesia. Coelho também dá declarações fortes, como a que diz que apresentou todas as drogas a Raul, mas que não se sente culpado. "Ele era adulto, casado, tinha uma filha, sabia o que estava fazendo." Há uma cena muito engraçada em que uma mosca começa a rondar Paulo Coelho e pousa nele, que a chama de Raul. "Não há moscas aqui", diz ele.

As mulheres são um capítulo a parte. Raul foi casado com a filha de um pastor, no nordeste, chamada Edith. Depois com Gloria Vaquer, irmã do guitarrista da banda. O documentário então cita uma lista de amantes e companheiras com quem Raul se envolveu (Tânia, Kika, Lena, Dalva); todas, aparentemente, sabiam sobre as outras e não soam amargas nos depoimentos. Gloria, a americana, até diz que este é um comportamento normal entre os homens brasileiros. Todas acabam falando dos problemas de Raul com as drogas (era viciado em cocaína) e com a bebida. O cantor teve que extrair grande parte do pâncreas e as bebidas só pioravam sua condição. Há uma fase da vida de Seixas em que ele se envolveu com um grupo seguidor de Aleister Crowley, famoso satanista inglês que morreu de overdose de heroína. Paulo Coelho se mostra bastante incomodado de falar dessa época e diz que não tem mais nada a ver com isso, mas uma dupla bizarra que seria de um "culto ao demônio" diz que Coelho nunca pediu desfiliação do grupo. Irônico que a tal "Sociedade Alternativa", que tantos interpretaram como um manifesto contra a ditadura ou similar, na verdade, era ligado a esta seita. Há até cenas de sacrifícios de animais feitas pelo grupo, ao que Paulo Coelho chama de "magia fora de qualquer ética".

Por fim, o documentário mostra a fase em que Raul Seixas tocou com o roqueiro Marcelo Nova, ex-Camisa de Vênus, com quem fez uma série de 50 shows em nove meses. Há quem diga que estes shows terminaram por matar Raul Seixas e que Marcelo Nova estava se aproveitando do ídolo. Caetano Veloso acha bobagem. Há uma cena emocionante, filmada em 89, ano da morte de Raul, em que Paulo Coelho e Seixas se reencontram no palco do Canecão, no Rio de Janeiro, depois de anos separados, e cantam juntos "Sociedade Alternativa". Bom documentário, muito bem pesquisado e aprofundado. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.

Câmera Escura

domingo, 14 de junho de 2009

Budapeste

Para começar, o aviso obrigatório: não li o livro de Chico Buarque que deu origem a este belo filme de Walter Carvalho. Mas, terminada a sessão, uma visita à livraria mais próxima me permitiu folheá-lo e tirar algumas dúvidas sobre como, no livro, certas situações foram resolvidas, ou o quanto elas ficaram diferentes na tela.

Adstringente. Saudade. Pão de açúcar. Andorinha.

Este é um filme sobre palavras. É daquele tipo de obra que desafia um simples resumo de seu enredo. Nas competentes mãos de Carvalho, excelente diretor de fotografia (Central do Brasil, Cazuza, Lavoura Arcaica), ele se torna um filme sobre momentos, sobre sensações. José Costa (Leonardo Medeiros) é um ghost writer, aquele tipo de escritor que produz um livro anonimamente para os outros, que acabam levando a fama. Como diz um de seus clientes, para quem Costa escreve uma autobiografia, se ele tivesse tempo para escrever não teria tido tempo para viver. Costa é casado com Vanda (Giovanna Antonelli), uma apresentadora de telejornal que gosta da fama e que não entende a posição aparentemente subalterna do marido. Os dois têm um filho que tem problemas para falar. Parece o pai que, apesar de talentoso com as palavras, não consegue se expressar na própria voz.

Costa se apaixona por Budapeste, capital da Hungria, que conheceu quando o voo em que estava teve uma pane e teve de pousar. Ele diz que a cidade é "amarela", e a magnífica fotografia de Lula Carvalho (filho de Walter) a mostra em suaves tons dourados. Costa também se apaixona pela língua, tão difícil que dizem que até o Diabo a respeita. Ele assiste à televisão e tenta aprender algumas palavras, sem sucesso. É difícil saber quando uma termina e a outra começa. É então que ele conhece Kriska (Gabriella Hámori), uma bela húngara que resolve ensiná-lo a língua, mas não da forma tradicional. Há uma bela cena em que ela, de patins, corre pela cidade apontando as coisas e dizendo seus nomes, enquanto Costa corre atrás e vai repetindo. Fica claro que ele consegue se comunicar muito melhor com Kriska do que com a própria esposa, apesar deles não falarem a mesma língua. Isso tudo é visto no filme em húngaro e com legendas, o que me parece uma vantagem com relação ao livro (em que tudo era escrito em português). Há uma sonoridade estranha no incompreensível húngaro e o espectador se sente tão perdido quanto o personagem, apesar das legendas.

Como não poderia deixar de ser, o filme é magnificamente fotografado, e Carvalho faz um jogo de luzes e sombras que por vezes lembram seu documentário "Janelas da alma", em que explorava os limites da visão e sua diferente percepção entre as pessoas. Há uma grande quantidade de cenas de sexo e mulheres nuas, o bastante para chocar algumas moças que estavam no cinema comigo. Mas não é nada explícito nem necessariamente gratuito. É parte do espetáculo sensorial que é o filme. Para representar o distanciamento de Costa de sua esposa, por exemplo, há uma cena em que o vemos como que fora do próprio corpo, assistindo a si mesmo transando com a mulher. Já com Kriska é diferente, ao menos no início, quando eles ainda não entendem as palavras um do outro.

É um filme lento, provavelmente lento demais para o gosto médio do público que foi ver "A Mulher Invisível", por exemplo. Mas repare nos vários detalhes espalhados pelo filme. Veja com o tema do "contrário", do estar do avesso, ou nos bastidores da ação, é representado por várias imagens por toda produção. No relógio visto no espelho, ou em um mapa visto por trás, em uma vitrine, com as palavras ao contrário, da mesma forma como o biografado de Costa supostamente escrevia no corpo das mulheres. Ou reparem como o nome dele, José Costa, é pronunciado ao contrário na Hungria. Como a estátua de Lenin que se afasta até deixar o mundo, literalmente, de cabeça para baixo.