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sexta-feira, 15 de abril de 2022

Cyrano (2021)

Cyrano (2021). Dir: Joe Wright. Eu assisti à peça "Cyrano de Bergerac", estrelada por Antônio Fagundes, quando tinha uns 15 anos de idade. Vi depois a bela adaptação francesa estrelada por Gerárd Depardieu de 1990, e a comédia de Steve Martin chamada "Roxanne". A peça original foi escrita em 1897 por Edmond Rostand e conta a história de um espadachim (e poeta) chamado Cyrano de Bergerac, que é apaixonado por uma mulher chamada Roxanne. O problema é que ela gosta de outro homem, Christian. Cyrano tem um "defeito" na face, um nariz enorme, e acredita que Roxanne nunca se apaixonaria por ele por causa disso. Ele então ajuda Christian, que é um homem bonito, a conquistar Roxanne através de longas cartas apaixonadas.

Esta versão de 2021 troca o nariz longo de Cyrano pela baixa estatura (1,35 m) de Peter Dinklage; o roteiro foi transformado em um musical mas, a não ser por estas diferenças, ele é bastante fiel à peça original. O Cyrano de Dinklage também é perdidamente apaixonado por Roxanne (Haley Bennet), que ele conhece desde criança. Ele acredita que ela não possa gostar dele por sua estatura; além disso, ela se apaixona à primeira vista por Christian (Kelvin Harrison Jr.), que é bonito, mas não sabe se expressar bem. Assim como na peça, Cyrano então passa a ajudar Christian enviando cartas apaixonadas em nome dele. Mas será que Roxanne está apaixonada só pela aparência de Christian ou pelas palavras de Cyrano?

A produção é belíssima, tendo sido filmada na Itália durante a pandemia. É também um filme feito em família. A adaptação do roteiro foi escrita pela esposa de Dinklage, Erica Schmidt. O diretor, Joe Wright, é casado com Haley Bennet, que interpreta Roxanne. Wright já fez vários outros filmes históricos como "Orgulho e Preconceito", "Desejo e Reparação" e "Anna Karenina", e está à vontade na bela recriação de época, figurinos e fotografia. Peter Dinklage, como sempre, está excelente e é uma pena que ele tenha sido ignorado pelo Oscar (a única indicação do filme, aliás, foi pelo figurino). As músicas, de Bryce Dessner e Aaron Dessner, nem sempre funcionam, mas há alguns momentos inspirados (como a música pouco antes de um ataque, em uma cena de guerra).

Apesar da presença de Peter Dinklage, famoso por seu papel em "Game of Thrones", "Cyrano" foi um fracasso de bilheteria. O público, pelo jeito, não se interessou em vê-lo como um poeta e espadachim apaixonado. A versão com Gerárd Depardieu é, no geral, melhor, mas gostei bastante deste filme, principalmente pelo carisma e interpretação de Peter Dinklage.
 

sexta-feira, 4 de março de 2022

West Side Story (2021)

West Side Story (2021). Dir: Steven Spielberg. Disney+. Chega ao streaming a versão de Spielberg para o clássico musical de 1961 (que, por sua vez, era baseado em uma peça musical). Apesar de saber que Spielberg trabalhou com vários gêneros durante sua longa carreira, ainda me causa certa estranheza sua decisão de refazer um musical. O que não deveria ser surpresa é o quão bom ele é como diretor; poucos cineastas sabem posicionar e mover uma câmera como Steven Spielberg, e sua versão de "West Side Story" é realmente bonita de se ver. É também bem mais "realista", parecendo se passar na Nova York dos anos 1950, ao invés de em um cenário ou em um palco da Broadway. Por outro lado, como estamos vendo um musical, leva um tempo para se acostumar com o fato de que as pessoas, de repente, saem dançando e cantando pela tela.

O roteiro de Tony Kushner mudou algumas canções de lugar e tentou dar mais "relevância" à trama; há diversas falas em espanhol que não são legendadas, para dar mais "autenticidade". A briga entre as gangues "Jets" e "Sharks" agora tem como pano de fundo a destruição de parte da cidade para dar lugar a prédios modernos (e ao Lincoln Center). Tecnicamente é um deslumbre, da direção de fotografia de Janusz Kaminski (colaborador de Spielberg desde "A Lista de Schindler"), aos belos cenários de Adam Stockhausen e figurinos de Paul Tazewell.

Tenho que confessar que não sou grande fã de musicais (apesar de gostar de vários... "Cantando na Chuva" é um dos meus filmes favoritos); com duas horas e trinta e oito minutos de duração, há alguns números musicais que, sinceramente, são bem chatinhos (e eu posso ter acelerado alguns para chegar à próxima cena). É inegável, porém, que a trilha original de Leonard Bernstein e letras de Stephen Sondheim tem alguns grandes clássicos, como "Maria", "Tonight", "Somewhere", ou "America". Há também números bem chatinhos como "One Hand, One Heart" ou "I feel pretty". O elenco é também bem mais diverso e "realista" do que na versão de 1961 (que escureceu a pele dos atores que interpretavam porto-riquenhos). Ariana DeBose está excelente como Anita, e Rachel Zegler é mais natural do que Natalie Wood como Maria. Já Ansel Elgort, apesar de bastante esforçado, às vezes parece estar em outro filme. Rita Moreno, que venceu um Oscar na versão de 1961, está de volta em um papel especialmente criado para ela.

Com altos e baixos, o filme de Spielberg é bastante sólido e tem grandes momentos. Talvez ele devesse ter tido menos reverência às fontes originais e cortado uma canção ou outra. O filme está indicado a vários Oscar (Melhor Filme, Diretor, Fotografia, Atriz coadjuvante, Figurino, Som e Direção de Arte). Disponível na Disney+.

 

domingo, 2 de janeiro de 2022

tick, tick...BOOM! (2021)

tick, tick...BOOM! (2021). Dir: Lin-Manuel Miranda. Netflix. Vibrante musical que marca a estreia na direção de Lin-Manuel Miranda, que agitou a Broadway com seu "Hamilton" alguns anos atrás (hoje disponível na Disney+). O roteiro de "tick, tick...BOOM!" é baseado no musical (e na vida) de Jonathan Larson (um ótimo Andrew Garfield), um compositor e dramaturgo que, assim como Miranda faria depois, deixou sua marca nos palcos da Nova York dos anos 1990.

Larson era um compositor desconhecido que trabalhava em uma lanchonete de dia enquanto passava todos os outros momentos da sua vida trabalhando em um musical. A namorada, Susan (Alexandra Shipp), uma dançarina, se sentia deixada de lado. Michael (Robin de Jesus), um ator fracassado que havia trocado os palcos por um emprego bem pago como publicitário, também ficava em segundo plano. Tudo, na verdade, ficava em segundo plano para a "futura obra prima" de Larson, que iria apresentar uma leitura do musical para críticos no final da semana.

Andrew Garfield canta, dança, toca piano e carrega o filme nas costas. As músicas (compostas pelo Jonathan Larson real) não são nenhuma obra-prima, mas são animadas e ficam na cabeça. O roteiro é estruturado a partir de uma apresentação de Garfield e banda (Vanessa Hudgens é uma das cantoras). Diversas "lendas" da Broadway fazem participações especiais, como Bernardette Peters e Bebe Neuwirth, além de membros de "Hamilton", como a cantora Phillipa Soo. O ator Bradley Whitford interpreta outra lenda dos musicais, o compositor Stephen Sondheim. Lin-Manuel Miranda faz um "cameo" como um cozinheiro da lanchonete em que Larson trabalha. A trama leve e "para cima" tem alguns momentos dramáticos, como quando retratam as vítimas da AIDS da época. Divertido. Tá na Netflix.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

La La Land (2016)

Apesar de algumas similaridades, é difícil imaginar que o mesmo diretor/roteirista de "Whiplash: Em busca da Perfeição", o jovem Damien Chazelle, tenha dirigido "La La Land". Os dois filmes falam sobre música (especificamente, jazz), mas enquanto "Whiplash" era sobre obsessão e perfeccionismo, "La La Land" é um filme sobre sonhos e amor. É também uma grande homenagem à era de ouro dos musicais da MGM, em que figuras como Gene Kelly dançava em Paris, e Fred Astaire bailava elegantemente com Ginger Rodgers.

Mia (Emma Stone) é uma aspirante a atriz que trabalha na cafeteria de um estúdio de Hollywood. Sebastian (Ryan Gosling) é um pianista de jazz que luta contra um mundo que acha que seu gênero musical está morto e enterrado. Como em todo bom romance, Mia e Sebastian se esbarram pela cidade e apesar das faíscas voarem cada vez que os dois estão na tela (Gosling e Stone nasceram um para o outro), a princípio eles fingem não estarem interessados. Mas esta é a Hollywood dos musicais, em que os pores de sol são maravilhosamente coloridos e Chazelle coloca Gosling e Stone para dançar em frente de um em um belo plano sequência. Quase todos os números musicais, aliás, são filmados de forma muito elegante por Chazelle (esqueça os exageros de Baz Luhrmann). Mesmo na sequência mais imaginativa do filme, em que os dois namorados são vistos dançando entre as estrelas do planetário de Los Angeles, Chazelle mantém a câmera fluida mas sem exageros nos ângulos e cortes.

As canções, todas inéditas, são de Justin Hurwitz, com letras de Benj Pasek e Justin Paul. Este não é daquele tipo de musical em que as pessoas cantam o tempo todo (felizmente), e as canções de Hurwitz estão bem integradas nos diálogos. O musical sempre foi o gênero mais escapista de Hollywood e é necessária boa vontade do público em aceitar que alguém simplesmente saia cantando e dançando no meio da rua, mas Chazelle consegue manter um bom equilíbrio entre os diálogos e músicas. Não sei até que ponto Ryan Gosling é responsável pelas várias cenas de virtuosismo em que o vemos ao piano, mas há também momentos calmos e emocionantes proporcionados pelas poucas notas da canção que é o carro chefe do filme, "City of Stars".

A mensagem, claro, é piegas e simples do tipo "siga seus sonhos", mas nem tudo é lindo e maravilhoso no roteiro, que vai em um crescente até algumas das cenas mais agridoces do cinema dos últimos anos. "La La Land" é colorido, vibrante, belo e emocionante. Tornou-se o queridinho de todos os festivais por onde passou, venceu um recorde de sete troféus no último "Globo de Ouro" e, provavelmente, vai repetir o feito no próximo Oscar. Para se assistir de coração aberto.

João Solimeo

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis

Interessante ver como uma obra pode ser traduzida para diferentes mídias, com diferentes graus de sucesso. "Os Miseráveis" é um livro  escrito por Victor Hugo em 1862. A trama segue a vida de Jean Valjean, um homem condenado a 20 anos de trabalhos forçados por roubar um pedaço de pão. Ao ser solto, ele foge da condicional e assume diversas outras identidades para não ser preso pelo cruel Inspetor Javert. A história de Victor Hugo foi transformada em um musical por Claude-Michel Schönberg e Alains Boublil em 1980, em Paris, e depois ganhou apresentações em Londres, Nova York e, com o grande sucesso, no resto do mundo.

A versão cinematográfica do musical de Schömberg ficou a cargo do diretor britânico Tom Hooper, que ganhou o Oscar de diretor pelo simpático "O Discurso do Rei", em 2010. O filme é uma superprodução pomposa com 157 minutos de duração, é todo cantado e tem um elenco estelar. Hugh Jackman (o eterno "Wolverine") é Jean Valjean, um ex-presidiário que assume outra identidade (o Sr. Madeleine), prospera e se torna o prefeito de uma cidade ao sul da França. Em seu encalço está o Inspetor Javert (Russel Crowe, de "Intrigas de Estado", "72 Horas"), um policial com um firme código de conduta que, mesmo após anos, ainda procura por Valjean. Anne Hathaway (do último "Batman") é Fantine, uma mãe solteira que é levada à prostituição após perder o emprego em uma das fábricas de Valjean; ela se prostitui para enviar dinheiro para um casal que cuida da filha dela, Cossete (Isabelle Allen quando criança, Amanda Seyfried quando adulta). O destino leva Valjean a prometer a Fantine, no leito de morte, que cuidará da filha dela como se fosse sua, e após fugir mais uma vez de Javert, Valjean se refugia em um mosteiro com a menina. A trama pula para 1832, quando um grupo de revolucionários parisienses planeja uma rebelião. Cosette, já adulta, atrai a atenção de um dos rebeldes, o jovem Marius (Eddie Redmayne, de "Sete dias com Marilyn"). Tudo poderia terminar em uma sangrenta batalha em Paris, mas a trama ainda se estende até os últimos suspiros de Jean Valjean, já velho e ainda procurando pela paz.

O diretor Tom Hooper tomou algumas decisões arriscadas nesta versão de "Os Miseráveis". Uma, que deu certo, foi fazer os atores cantarem ao vivo durante as filmagens, ao invés de dublarem uma trilha pré-gravada. Isso trouxe mais realismo para as interpretações, que soam mais naturais do que geralmente se vê em musicais. Outra decisão, que não funcionou bem, foi aproximar a câmera o máximo possível dos atores durante as quase três horas de filme. Anne Hathaway tem grandes chances de levar o Oscar de melhor atriz coadjuvante por sua interpretação de "I dreamed a dream", a melhor música do filme, realizada em um plano ininterrupto de mais de três minutos de duração. A câmera fechada em Hathaway, sem cortes, passa todo o desespero da mãe que um dia teve uma vida feliz e que agora chegou ao fundo do poço, cabelos e dentes arrancados, trabalhando como prostituta e longe da filha. O problema é que o diretor usa a mesma tática em quase todos os números musicais, o que torna o filme desnecessariamente claustrofóbico. Percebe-se por trás dos atores grandes cenários (ou a sugestão deles) que simplesmente não são vistos, porque o diretor insiste em filmar em plano fechado. Há um solo de Russell Crowe em que a cidade de Paris está em segundo plano, mas é noite e podemos ver apenas as torres da Notre Dame, o resto da cidade fica na penumbra (o que é um velho truque para disfarçar efeitos especiais). O filme é longo e melodramático, o que causa tanto o choro de parte da platéia quanto a falta de paciência de outros, que abandonaram a sessão. "Os Miseráveis" foi indicado a oito Oscars, incluindo melhor filme, ator (Hugh Jackman) e atriz coadjuvante (Anne Hathaway).

ps: o longo plano de Hathaway já ganhou uma paródia no youtube em que a atriz Emma Fitzpatrick (cantando muito bem) brinca com a cena. A letra diz coisas como "eu perdi metade do meu peso, mas eles não fizeram nenhum plano aberto". Veja aqui.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Cantando na Chuva (60 anos), Lawrence da Arábia (50 anos)

O ano de 2012, além de marcar, para alguns, o fim do mundo, é também o aniversário de vários filmes. O Câmera Escura presta uma homenagem a alguns deles. Nesta primeira parte, um musical dos anos 50 e um épico dos anos 60.


Gene Kelly na clássica chuva
Cantando na Chuva (Singing in the Rain, 1952) - 60 ANOS

O filme de Stanley Donen e Gene Kelly é uma declaração de amor ao cinema. Kelly, que parecia ter chegado ao topo no ano anterior, quando coreografou e dançou Gershwin em "Sinfonia de Paris", dirigido por Vincente Minnelli, cria em "Cantando na Chuva" seu melhor número, em que dança e canta a música título debaixo de uma chuva torrencial pelas ruas da velha Hollywood (recriada nos estúdios da MGM, claro).

O filme se passa durante o período de transição do cinema mudo para o sonoro (assim como no recente "O Artista", vencedor do Oscar do ano passado). Don Lockwood (Kelly) é um astro que faz par com a insuportável Lina Lamont (Jean Hagen), uma loira platinada que acredita nas revistas de fofocas, que dizem que Lockwood está apaixonado por ela. Na verdade, o personagem de Kelly está enamorado de Kathy Selden (Debbie Reynolds), uma dançarina que foi a primeira que não caiu de amores por ele.

Com a chegada dos filmes sonoros, Hollywood é obrigada a se adaptar e a dupla Lockwood e Lamont precisa aprender a falar e a cantar. Como a voz de Lina é péssima, acabam contratando Kathy para dublar a voz dela. O filme chega a ser um pouco cruel com os astros do cinema mudo, embora o faça com muito humor. Há outras cenas memoráveis, além da música título. Donald O´Connor, que interpreta o amigo de infância de Kelly, Cosmo Brown, está hilariante no número "Make ´Em Laugh", em que dança com um boneco de pano, tromba em portas e até sobe pelas paredes. 


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Peter O´Toole e Omar Sharif

Lawrence da Arábia (Lawrence of Arabia, 1962) - 50 ANOS

Dirigido por David Lean, "Lawrence da Arábia" foi um dos últimos grandes épicos da velha Hollywood (Lean ainda dirigiria "Doutor Jivago" em 1965) e, em muitos aspectos, é surpreendente. Para começar, é um filme com mais de três horas de duração que não traz nenhum papel feminino. O papel principal foi dado a um estreante no cinema, Peter O´Toole, que, apesar de desconhecido à época, parecia ter nascido para interpretar o temperamental oficial inglês T.E. Lawrence. O roteiro (de Robert Bolt) foi baseado no livro "Os Sete Pilares da Sabedoria", de Lawrence, que descrevia sua  experiência no deserto árabe, quando auxiliou algumas tribos nômades a combater os Turcos, como aliados do Império Britânico. Havia muitas histórias sobre Lawrence, muitas das quais, dizem, não passavam de lendas. David Lean, acertadamente, decidiu filmar não o homem, mas o mito. Lawrence é um homem apaixonado pelo deserto e por seus habitantes, que conhece como poucos a região e, apesar da pele branca, cabelos loiros e olhos azuis, consegue se misturar com o povo local como se tivesse nascido lá.

Tecnicamente, o filme é um assombro. Filmando no deserto, com centenas de figurantes e equipamento pesado, Lean e o diretor de fotografia Freddie Young conseguiram filmar algumas das cenas mais belas já feitas. Omar Sharif aparecendo como um pequeno ponto, no horizonte, e se aproximando lentamente; o beduíno caminhando pelo deserto e o Sol nascendo no momento exato em que ele passa em frente à câmera; o ataque à cidade costeira de Aqaba; um navio no horizonte, que parece navegar por sobre a areia do deserto. Tudo isso regado à trilha sonora de Maurice Jarre, um jovem compositor francês, que também fazia sua estréia no cinema.

O épico, rodado originalmente em 70 mm, rodou o mundo por anos até ser quase dado como perdido.  O restaurador Robert A. Harris, com a ajuda do cineasta Martin Scorsese, fez um trabalho de arqueologia em que, após anos buscando cópias por cinemas e salas mundo afora, lançou uma versão restaurada em 1989, que é a base para os DVD e Blu-Ray de hoje. É uma obra-prima. Steven Spielberg declarou várias vezes que "Lawrence da Arábia" é seu filme preferido, e é possível notar a influência de David Lean em cenas de vários filmes de Spielberg, como "Tubarão", "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", "A Cor Púrpura", "Império do Sol", a série "Indiana Jones" etc.



Nos próximos posts continuaremos com um filme de máfia e dois filmes de ficção-científica.

Câmera Escura

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Pink Floyd - The Wall

Em 1977, o grupo inglês Pink Floyd estava em plena turnê mundial do disco "Animals", lançado recentemente. O letrista e baixista Roger Waters não estava gostando do show. A banda havia ficado famosa demais, as demandas técnicas muito específicas, o público cada vez mais barulhento e fanático. Um desses fãs estava na primeira fila gritando histericamente quando, de repente, Waters perdeu a paciência e cuspiu no rosto do rapaz. Ao sair do show, espantado com a própria atitude, Waters imaginou um conceito tão ousado quanto inédito: para representar a sensação de separação entre a banda e o público, Waters imaginou um grande muro em frente ao palco, encobrindo toda a visão da platéia. Alguns anos depois, em 1979, era lançado o disco duplo "The Wall", uma das maiores conquistas artísticas do grupo, e também um dos responsáveis pela extinção da banda em sua formação mais tradicional (este é um assunto para mais tarde). Os shows ao vivo do disco eram dos mais teatrais já imaginados no rock. Conforme as músicas iam sendo tocadas, assistentes de palco iam montando um gigantesco muro branco que ia crescendo, tijolo a tijolo, escondendo a banda do público. No meio do show o último tijolo era inserido e o isolamento da banda (e do personagem principal do disco) estava completo. O muro branco então era usado como uma tela de cinema onde eram projetadas animações produzidas pelo chargista Gerald Scarfe. O muro literalmente vinha abaixo ao final de cada show enquanto a banda, protegida por uma grade, continuava tocando sob a chuva de tijolos que caia.
O diretor Alan Parker foi convidado a dirigir a versão cinematográfica do roteiro criado por Waters enquanto Gerald Scarfe produziria seqüências animadas para completar o filme. Lançado em 1982, "Pink Floyd - The Wall" era um filme à frente do seu tempo. Antes da MTV e da era dos videoclipes, Parker e Scarfe criaram um espetáculo audiovisual para ilustrar a música perfeccionista do Pink Floyd e os conceitos fortes de Waters. Já vi o filme diversas vezes e tive a oportunidade de revê-lo no "Cine Paradiso", um tradicional cineclube que fica no centro de Campinas e que tem resistido às ameaças de fechamento há anos.



“The Wall” fala sobre um rock star chamado “Pink” (interpretado pelo músico Bob Geldof), que já está cheio. Ele não agüenta mais os shows, a vida em hotéis, as orgias nos bastidores, as drogas, as mulheres, tudo. O filme o mostra trancado dentro de um quarto de hotel em Los Angeles gradualmente perdendo a razão enquanto acompanhamos sua trajetória em flash backs. O personagem “Pink” é baseado em duas pessoas. Uma, obviamente, é o próprio Roger Waters, que não conheceu o pai morto na II Guerra Mundial. O outro é o fundador do Pink Floyd, Syd Barrett, que não agüentou a pressão do sucesso inicial da banda e, afundado em drogas, se retirou da cena artística no final dos anos 60. Barrett acabaria morrendo aos 60 anos na casa da família, onde se manteve recluso e se tornou uma figura “cult” no mundo do rock. Os flash backs de Alan Parker recriam a morte do pai de Pink na II Guerra em uma seqüência no início do filme que é revisitada várias vezes. Acompanhamos também a infância dele na Inglaterra, crescendo com uma mãe castradora e sofrendo abusos na escola. A seqüência do professor em “Another Brick in the Wall part 2” é a mais conhecida da produção, e a música chegou ao número um tanto na Inglaterra quando nos Estados Unidos na virada dos anos 70 para os 80. O refrão “we don´t need no education” se tornou um slogan em várias partes do mundo, e é freqüentemente mal compreendido. Antes que um protesto contra a educação, era um protesto contra o rigoroso método educacional inglês, que ainda permitia que os professores batessem nos alunos quando “necessário” e era contra qualquer tipo de criatividade. A música se transforma em uma seqüência fantástica em que o pequeno Pink imagina a escola como um labirinto de ratos, em que todos os alunos têm o mesmo rosto e marcham como soldados para um moedor de carne. O solo final do guitarrista David Gilmour é dos mais simples e perfeitos da história do rock.
“The Wall” deixaria Freud orgulhoso. Vemos como as experiências sofridas pelo jovem Pink acabam afetando sua vida como adulto bem sucedido financeiramente, mas um desastre pessoalmente. Há uma seqüência em que vemos o garoto interessado na vizinha que troca de roupa na casa ao lado, enquanto em uma montagem paralela vemos Pink adulto ignorando a bela esposa que tenta chamar sua atenção. Cada experiência destas é representada por mais um tijolo em um muro psicológico que o personagem vai construindo ao redor de si mesmo. É curioso também, para quem conhece a história da banda, ver como o personagem de “Pink” vai se tornando cada vez mais parecido com a personalidade difícil e autoritária de Roger Waters, conhecido por querer tudo absolutamente à sua maneira e por maltratar os parceiros de banda David Gilmour (guitarra e vocais), Richard Wright (teclado) e Nick Mason (bateria). Wright foi uma das vítimas do abuso e saiu da banda ainda durante as gravações do disco. Anos depois ele diria que não conseguia entender o conceito de distância dos fãs (é fato também que ele sofria de abuso de cocaína na mesma época). Mason se tornou um músico de estúdio e apenas David Gilmour (que mais tarde reformaria o Pink Floyd à sua maneira) oferecia algum tipo de resistência ao domínio de Waters e deu contribuições artísticas inegáveis. Gilmour foi o diretor musical do álbum e o produtor da gravação para o filme. Também compôs as faixas “Young Lust”, “Run like Hell” e “Comfortably Numb”, um ponto chave do filme: os empresários de Pink invadem o quarto destruído e o encontram desacordado, ferido e com as sobrancelhas raspadas. Um médico dá uma injeção em Pink que, com um grito de dor, acorda e é levado dopado para apresentar seu show.
É então que Pink se imagina como um ditador, e seu show vira uma espécie de comício fascista. Ele vê os fãs apenas como um bando de seguidores fanáticos e começa a fazer uma seleção racista em que judeus, negros e homossexuais são retirados à força por seus capangas e levados para o “muro”. Há quem diga que Waters levou seus medos e paranóias um pouco longe demais e que a analogia entre um concerto de rock e um comício nazista seria, no mínimo, imprópria. De qualquer forma, a cena é assustadora e fascinante, e o diretor Alan Parker diria depois que ele teve problemas em controlar a multidão de figurantes ensandecidos, muitos deles “skinheads” de verdade que não sabiam a diferença entre fantasia e realidade.
O final é composto pela animação sarcástica de Scarfe e é passado em um tribunal imaginário dentro da mente perturbada de Pink. Lá ele é julgado diante de um juiz concebido por Scarfe como um grande traseiro que literalmente fala pelo ânus. Pink escuta depoimentos dados por seu antigo professor do colégio, por sua mãe superprotetora e pela ex-esposa. Pink é considerado culpado e sentenciado ao pior dos pesadelos: ser exposto diante do mundo sem a proteção do muro que foi construindo durante a vida. No show ao vivo era o momento em que o muro vinha abaixo diante da platéia. No filme, Parker mostra o muro explodindo violentamente, tijolos voando em câmera lenta, enquanto se escuta o grito de dor de Pink.
Vinte e seis anos depois, o filme ainda resiste ao tempo e é freqüentemente estudado em escolas. A mensagem anti bélica está mais atual do que nunca e, apesar dos avanços visuais no cinema, The Wall permanece uma grande obra artística. Quanto à mensagem de Waters contra a desumanização dos concertos de rock e de ter repetido continuamente ser contra os shows em grandes estádios, ele continuou contraditório como sempre. Enquanto seus desafetos David Gilmour e Richard Wright vêm se apresentando em lugares menores e apresentando shows cada vez mais intimistas, Waters tem feito grandes turnês mundiais em que se apresenta para platéias em estádios lotados (como no Morumbi em São Paulo, ano passado). Não importa. Sua contribuição para o rock está garantida.