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domingo, 24 de dezembro de 2023

Resistência (The Creator, 2023)

Resistência (The Creator, 2023). Dir: Garreth Edwards. Belíssimo filme de ficção científica que é um sopro de ar fresco em meio a tantas versões de Star Wars ou filmes da Marvel dominando as telas. "Resistência" usa de muitas referências, claro, "Blade Runner", "Akira", "A.I" do Spielberg até mesmo "E.T.", mas é uma história totalmente original.
No futuro, a Terra está em guerra com as IA (Inteligência Artificial). Ou melhor, os Estados Unidos estão em guerra com a IA porque, supostamente, uma explodiu uma bomba atômica em Los Angeles, pulverizando milhões de pessoas em segundos. Os Estados Unidos constroem uma fortaleza voadora chamada NOMAD, que vigia todo o planeta e dispara mísseis sobre os inimigos.
John David Washington é um soldado das forças especiais que é recrutado para encontrar uma arma construída pelas IA na Ásia. Ao mesmo tempo, ele espera poder reencontrar sua esposa, que teria sido morta no começo do filme mas que ele acredita que ainda esteja viva. A tal "arma" que ele encontra tem o formato de uma criança pequena de uns seis anos (Madeleine Yuna Voyles), que ele passa a chamar de "Alphie". A criança, aos poucos, começa a se aproximar dele e a agir como uma criança comum, não como uma arma que poderia destruir os americanos. Fica a dúvida no ar... a criança realmente tem sentimentos ou é só programada para fingir? Como espectador, você fica o tempo todo "mudando de lado", ora torcendo para os americanos, ora torcendo pela Resistência.
O que realmente impressiona é a construção de mundo. Há centenas de efeitos visuais o tempo todo, misturados às paisagens filmadas na Tailândia e países vizinhos. Tudo é tão integrado que você se esquece que está vendo efeitos especiais. Há até monges budistas que são robôs, tudo integrado à narrativa. O roteiro tem algumas parte difíceis de engolir e todo o terceiro ato depende de uma série de conveniências para dar certo, mas não importa. É bastante emocionante.

O filme foi feito com um orçamento baixo, 80 milhões de dólares (contra uns 300 milhões do último Indiana Jones e 200 milhões de Aquaman 2). A recepção foi mista, muita gente esperava mais; para mim, é um filmão a ser visto e revisto. Disponível na Star+. 

domingo, 6 de novembro de 2022

Enola Holmes 2 (2022)

Enola Holmes 2 (2022). Dir: Harry Bradbeer. Netflix. Millie Bobby Brown está de volta como a irmã mais nova de Sherlock Holmes (Henry Cavill). É mais do mesmo e eu quase parei de assistir na primeira meia hora. O filme melhora mais para o final (só que, aí, não sabe a hora de terminar, hehe).

O diretor Harry Bradbeer fez a excelente série "Fleabag", com Phoebe Waller-Bridge, e usa alguns dos mesmos truques aqui. Enola frequentemente olha direto para a câmera e fala com o espectador, o que era interessante no primeiro filme mas, aqui, já ficou cansativo. Millie Bobby Brown é ótima e já é uma mulher de 18 anos (o que já ficou aparente há tempos em Stranger Things). Henry Cavill faz, talvez, o Sherlock Holmes mais fortão e com cara de modelo do cinema. Cavill e Brown têm boa "química" e o filme é melhor quando os dois estão em cena.
A trama é confusa e envolve o desaparecimento de uma garota que trabalhava em uma fábrica de fósforos, em Londres. Enola é contratada pela irmã para encontrá-la e, coincidência, o caso dela coincide com uma investigação que Sherlock Holmes está fazendo. Assim com o primeiro, é bastante um "filme de menina", com Bobby Brown interpretando uma adolescente inteligente, geniosa e independente, sim, mas que ainda morre de amores pelo rapaz que conheceu no primeiro filme (Louis Partridge). Há cenas de ação e luta que lembram as versões de Holmes dirigidas por Guy Ritchie, com Robert Downey Jr. Helena Bonham Carter reprisa o papel da mãe dos irmãos Holmes (Sam Claflin, que fazia Mycrof Holmes, não retorna para esta aventura). O elenco é bastante inclusivo, seguindo tendência atual de colocar atores de raças e gêneros diferentes em diversos papéis, o que é interessante.
Enfim, "Enola Holmes 2" está longe de ser necessário, mas é diversão passageira e, sem dúvida, prólogo para outras aventuras que virão por aí. Tá na Netflix.

sábado, 20 de agosto de 2022

Ameaça Profunda (Underwater, 2020)

 
Ameaça Profunda (Underwater, 2020). Dir: William Eubank. Star+. Ficção científica B que é uma mistura de "O Segredo do Abismo" com "Alien". É daquele tipo de filme que usa os créditos iniciais para explicar a premissa com vários trechos de reportagens; ficamos sabendo que "estranhas criaturas" foram vistas nas "Fossas Marianas", o lugar mais profundo do planeta. Um ótimo lugar para se instalar uma estação submarina e uma broca de mineração, certo? Dez quilômetros debaixo d´água? O filme parte logo para a ação e uma Kristen Stewart de cabelo curtinho e pouca roupa está correndo desesperada na estação submarina. A estação é (aparentemente) atingida por um terremoto e os poucos sobreviventes tem que tentar ir de um ponto X a um ponto Y, sob a pressão de 10 km de água sobre suas cabeças, para tentar chegar à superfície.


Além de Kristen Stewart, o filme ainda tem Vincent Cassel como o "capitão" da estação submarina. Os outros personagens podem ser descritos como "a garota assustada", "o maluco", "o personagem negro que vai ser o primeiro a morrer", etc. É bastante difícil ver o que está acontecendo por grande parte do filme porque os efeitos são ruinzinhos e eles usam a desculpa do fundo do mar para deixar tudo bem escuro. Há um lado "terror" na forma de seres estranhos que foram acordados pela intervenção humana no fundo do Oceano (insira mensagem ecológica aqui) e atacam de tanto em tanto tempo. Ao menos é rapidinho, tem uma hora e meia e até que o monstrão final (claramente inspirado no Cthulhu de Lovecraft) é razoavelmente bem feito. Chamem a Ripley. Disponível no Star+.

sábado, 30 de julho de 2022

Sem Limites (Sin Limites, 2022)

Sem Limites (Sin Limites, 2022). Dir: Simon West. Amazon Prime Video. Minissérie histórica de seis capítulos que fala sobre a expedição de Fernão de Magalhães em busca de um novo caminho para as "Índias Ocidentais". Magalhães é interpretado por Rodrigo Santoro, que tem feito boa carreira internacional. A produção é espanhola e britânica e dirigida pelo inglês Simon West (que tem no currículo vários filmes de ação como "Con Air" e "Tomb Raider", que não são grande coisa). Santoro interpreta em espanhol e em português (de Portugal) e está bem no papel. Ele é acompanhado pelo espanhol Álvaro Morte (de Casa de Papel), que interpreta o piloto Juan Sebastian Elcano.

O roteiro toma algumas liberdades com a História, mas a série vale a pena pelo ar de aventura de quando o mundo ainda era inexplorado (pelos Europeus, pelo menos). Magalhães é visto, no início, sendo desprezado pela corte portuguesa, o que o força a procurar patrocínio na vizinha Espanha. Seu plano é encontrar uma ligação entre o Oceano Atlântico e o "grande mar" que havia do outro lado das Américas (que ele viria a batizar de Oceano Pacífico). Ele parte com cinco naus e quase 250 pessoas para encontrar o tal "estreito" que, hoje, leva seu nome.

Há cenas de batalhas navais com os Portugueses, problemas com a tripulação, calmarias e lutas com os "selvagens" que eles encontram pelo caminho. A produção é bastante boa, dá para ver que gastaram bastante dinheiro aqui com cenários, navios, figurino e locações (apesar de algumas cenas com fundo verde). Magalhães pode não ser tão "famoso" quanto Cristóvão Colombo, mas seu nome se tornou sinônimo de explorações, sendo usado pela NASA e comunidade científica para nomear espaçonaves e crateras na Lua e em Marte. Claro que, homem da sua época, ele ajudou na difusão do colonialismo e submissão de povos indígenas, o que é mostrado pela trama, o que não desmerece suas descobertas. Disponível na Amazon Prime Video.

sábado, 5 de março de 2022

Contra o Gelo (Against the Ice, 2022)

Contra o Gelo (Against the Ice, 2022). Dir: Peter Flinth. Netflix. Aventura histórica passada no começo do século XX na Groenlândia. O capitão Ejnar Mikkelsen (Nikolaj Coster-Waldau) deixa seu navio para trás e parte para o norte com apenas um colega, Iver Iversen (Joe Cole), em dois trenós puxados por cachorros. O objetivo da dupla era encontrar os documentos deixados por uma expedição anterior, que tentava provar uma disputa territorial com os Estados Unidos.

Filmado na Islândia e na Groenlândia, o filme tem belas paisagens geladas e algumas cenas de suspense envolvendo a dupla (e um monte de cachorros) tentando sobreviver no Ártico. Para os sensíveis a cenas com sofrimento animal, um aviso: os cachorros que puxam os trenós são usados como comida para os mais fortes conforme eles vão morrendo.

O roteiro é baseado na história real de Mikkelsen e Iverson, e é co-escrito por Coster-Waldau. Há um longo terceiro ato em que a ação é trocada pela espera dos dois por um salvamento (que pode vir ou não). Charles Dance (que trabalhou com Waldau em "Game of Thrones") faz seu tradicional papel de vilão como um burocrata dinamarquês. O filme poderia (e deveria) ter acabado meia hora antes. Tá na Netflix.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

20.000 Léguas Submarinas (20,000 Leagues Under the Sea, 1954)

20.000 Léguas Submarinas (20,000 Leagues Under the Sea, 1954). Dir: Richard Fleischer. Disney+. Sempre bom rever este clássico da Disney, baseado no livro de Júlio Verne. O roteiro de Earl Felton não é muito fiel ao livro, mas este é dos raros exemplos em que o filme é até melhor que o original. James Mason está inspirado como o Capitão Nemo, um homem que se rebela contra a sociedade e vai para o mar em um submarino que é uma maravilha tecnológica. O Nemo do livro era bem menos obcecado e vingativo que o do filme, mas a mudança é boa. O grande Kirk Douglas interpreta o marinheiro Ned Land, que é contratado para matar o "monstro marinho" que estaria atacando navios no final do século 19. O monstro acaba se revelando ser o submarino Nautilus, do Capitão Nemo; Ned Land (Douglas), o Professor Aronnax (Paul Lukas) e seu assistente (Peter Lorre) se tornam seus prisioneiros.

Os efeitos especiais, feitos com miniaturas e pinturas, ainda impressionam, mesmo para um filme feito em 1954. Um dos pontos altos é o combate com uma lula gigante que ataca o Nautilus. Nunca havia percebido como algumas cenas podem ter servido de inspiração para "Caçadores da Arca Perdida" (1981); quando um homem do governo americano vem recrutar o Professor Aronnax para uma expedição, a cena lembra o momento em que os agentes americanos recrutam Indiana Jones para achar a Arca Perdida antes dos nazistas. Outra cena parecida é quando Kirk Douglas sai correndo de uma floresta, perseguido por dezenas de índios, assim como Harrison Ford no começo de "Caçadores". E o clímax de "20 mil Léguas Submarinas" se dá em uma ilha remota, assim como o final de "Caçadores da Arca Perdida" (Indiana Jones vai até a ilha em um submarino, falando nisso). Destaque para as belas cenas submarinas e para a trilha sonora de Paul Smith. O filme está na Disney+ e continua ótimo. 

domingo, 17 de maio de 2015

Mad Max: Estrada da Fúria



O herói dos aos 1980 está de volta nas mãos do diretor original, George Miller, com Tom Hardy no papel que foi de Mel Gibson. Charlize Theron também está no elenco e quase rouba o filme. Confira o vídeo!

Câmera Escura

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Lucy

Imagine uma mistura de "A Árvore da Vida", de Terrence Malick, com "Kill Bill", de Quentin Tarantino. Adicione umas pitadas de "Matrix", um pouco de "Watchmen" e fartas doses de animê e você tem "Lucy", o novo filme do francês Luc Besson.

Lucy (Scarlett Johansson) é uma americana que mora em Taipei, China. Não sabemos exatamente o que ela está fazendo por lá, mas o filme começa com ela e o namorado parados em frente a um hotel da cidade.

O namorado quer que ela entre no prédio e entregue uma mala para um tal de Sr. Jang (Min-sik Choi), em troca de quinhentos dólares. Lucy pressente que algo de errado está para acontecer, mas ela nem imagina o tamanho da encrenca.

Tudo o que podemos dizer é que, vários minutos depois, Lucy é escoltada para fora do prédio com um saco na cabeça e um quilo de drogas introduzidas cirurgicamente em seu abdômen. O Sr. Jang planeja enviar Lucy e outras três "mulas" para várias cidades da Europa, onde pretende distribuir a droga, que é experimental e é chamada simplesmente de CHP4.

O caso é que a tal droga começa a vazar dentro do corpo de Lucy que, sob seu efeito, se torna uma espécie de super-humana. Estas cenas são convenientemente intercaladas com uma palestra ministrada em Paris por Morgan Freeman; com sua "Voz de Deus", ele explica o que aconteceria se os humanos usassem mais do que 10% do cérebro, como popularmente se acredita.

O roteiro, do próprio Luc Besson, é claramente absurdo, mas o filme é bem dirigido e Johansson abraça o papel de tal forma que o espectador mal tem tempo de pensar durante os curtos 90 minutos de projeção. (leia mais abaixo)


Besson sempre gostou de papéis femininos fortes e desde a década de 1990 criou personagens como a assassina profissional Nikita ("Nikita - Criada para Matar", 1990), interpretada por Anne Parillaud, ou Leelloo (Mila Jovovich), que ajudava Bruce Willis a salvar o universo em "O Quinto Elemento" (1997), sem falar da jovem Natalie Portman em "O Profissional" (1994).

A Lucy de Scarlett Johansson é uma mistura da assassina de Nikita com o misticismo misturado com ficção-científica de "O Quinto Elemento". Há também estranhas cenas que mostram o passado do planeta Terra e do próprio Universo que, por um momento, lembram imagens em "A Árvore da Vida", de Malick. Em versão pop, claro.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A Vida Secreta de Walter Mitty

Walter Mitty (Ben Stiller) é um homem analógico. Logo na primeira cena nós o vemos enfrentando problemas para postar em um site de relacionamentos enquanto, atrás dele, podemos ver uma estante cheia de discos de vinil e um aparelho de som antigo. Ele trabalha para a revista "Life" no setor que lida com os poucos negativos de fotos que ainda são enviados por fotógrafos mundo afora. Walter e sua vida analógica enfrentam um grande desafio quando a "Life" é comprada e é anunciada a extinção da revista em papel. A "Life" vai se transformar em "Life Online", que é uma metáfora bastante direta para o que está acontecendo hoje não só com Walter, mas com todo mundo.

"A Vida de Walter Mitty" é estrelado e também dirigido por Stiller; a produção seria comandada por Gore Verbinski, mas Stiller assumiu o posto quando Verbinski foi dirigir o fracasso "O Cavaleiro Solitário". Ben Stiller é bom comediante e é um ator muito melhor do que o insuportável Adan Sandler, por exemplo, passando um ar de "gente comum" que cai bem em um personagem como Walter Mitty (por outro lado, Steve Carell teria sido perfeito). Mitty tem um herói, um fotógrafo aventureiro chamado Sean (ninguém menos que Sean Penn, de "Milk"), que lhe manda um rolo de filme com instruções específicas para usar a foto número 25 como capa da última edição impressa de "Life". O problema é que Walter não consegue encontrar o negativo e resolve, pela primeira vez em anos, sair da zona de conforto, partindo para uma aventura em busca de Sean e da misteriosa foto. Há algo de "Forest Gump" em Walter Mitty quando ele parte, geralmente correndo, mundo afora por países como a Groenlândia, Islândia e Afeganistão. Não foram usadas câmeras digitais nas filmagens, mas sim a película (analógica) Kodak. O que não impede, porém, que o filme tenha algumas sequências cheias de efeitos especiais (digitais) que mostram as fantasias de Walter. Algumas destas cenas são interessantes, mas há outras exageradamente longas e desnecessárias, como uma luta entre Mitty e seu "inimigo" Ted Hendricks (Adam Scott), o executivo responsável pela transição da "Life" (um personagem que lembra o de George Clooney em "Amor sem Escalas").


As cenas com as aventuras reais de Mitty funcionam muito melhor, filmadas em locações reais na Islândia (que também foi usada para se passar pela Groenlândia e o Himalaia). Há também um romance com altos e baixos entre Mitty e uma colega de trabalho, Cheryll (Kristen Wigg, de "Meu Malvado Favorito 2"). Incomoda um pouco o uso descarado de merchandising; além da revista "Life", claro, há uma propaganda constante do site de relacionamentos e-Harmony. A veterana Shirley MacLaine faz uma participação como a mãe super-protetora de Mitty. A "mensagem" do filme não é nenhuma novidade, mas um convite à aventura nunca é demais. "A Vida Secreta de Walter Mitty" não é nenhuma obra-prima, mas diverte.

PS: e quem percebeu a sutil referência a "Matrix"?

Câmera Escura

domingo, 8 de abril de 2012

Xingu

Em mais de quarenta anos passados no sertão do Brasil, os irmãos Villas-Bôas abriram mais de mil quilômetros de trilhas, exploraram rios, criaram dezenas de campos de pouso e postos avançados e, no caminho, fizeram amizade com centenas de índios, servindo de intermediários entre eles e os brancos. Cultos e bem estudados, os irmãos Orlando (Felipe Camargo), Claudio (João Miguel) e Leonardo (Caio Blat) deixaram a cidade para participar da expedição Roncador-Xingu que, nos anos 40 de Getúlio Vargas, era parte da Marcha para o Oeste promovida pelo presidente. O objetivo era explorar as regiões ainda pouco desconhecidas do país e levar o progresso, ou o que era entendido como tal, para os confins do país.

A história dos irmãos Villas-Bôas é levada agora ao cinema pelas mãos competentes de Cao Hamburger, cineasta que começou como animador, trabalhou vários anos na TV Cultura dirigindo programas como o "Castelo Rá-Tim-Bum" (que transformou em longa-metragem em 1999) e realizou o ótimo "O ano em que meus pais saíram de férias" (2006). "Xingu" é um trabalho de fôlego e com uma envergadura maior do que os feitos anteriores de Hamburger. A direção de fotografia de Adriano Goldman não se cansa de mostrar as fartas paisagens do Xingu, com seus rios e grandes planícies, e o filme tem um tom épico auxiliado pela trilha sonora de Beto Villares. Há de se criticar apenas algumas cenas "noturnas" feitas obviamente durante o dia, com o uso de filtros (coisa que podia funcionar nos anos 50, mas que hoje é desnecessário). O elenco é muito bom, com destaque para Felipe Camargo e João Miguel, que trazem muita humanidade aos irmãos mais velhos e, historicamente, mais importantes. Caio Blat ficou com o ingrato papel do irmão mais novo Leonardo, mostrado como assustado e mulherengo, que foi expulso da expedição após engravidar uma índia.

O roteiro, assinado pelo próprio Hamburger em parceria com Elena Soarez e Anna Muylaert, deixa a trama respirar e consegue contar anos de acontecimentos sem tornar-se enfadonho. Várias situações históricas foram romanceadas e a importância dos irmãos aumentada, mas com bom resultado. Há belos momentos, como o primeiro encontro dos Villas-Bôas com os índios, misturando boas doses de tensão com cenas lúdicas. João Miguel, ator camaleônico que já esteve em produções como "Cinema, Aspirinas e Urubus" (de Marcelo Gomes, 2004), é mostrado como o irmão mais próximo aos índios e protagoniza uma bela cena em que mostra a eles, pela primeira vez, um avião. Pode-se questionar até que ponto os irmãos estavam a serviço dos índios ou dos brancos, e é fato que suas expedições facilitaram a entrada de latifundiários de gado e garimpeiros. Mas é também fato que estas pessoas entrariam de qualquer forma país adentro e, aparentemente, os índios tiveram sorte de ter os Villas-Bôas ao lado deles. O trabalho deles culminou com a criação do Parque Nacional do Xingu, em 1961, que completou 50 anos. Como cinema, "Xingu" é um belo filme, com bom elenco e técnica impecável. Como História, continua curiosamente atual. Visto como cortesia no Kinoplex Cinemas, em Campinas. Site oficial do filme.


sábado, 14 de janeiro de 2012

As aventuras de Tintim

Como explicar um diretor como Steven Spielberg? Como explicar que, no mesmo ano em que ele lança um dos filmes mais clássicos dos últimos anos, Cavalo de Guerra (filmado em película de 35mm, editado em moviola como nos velhos tempos), ele também lance um dos filmes mais avançados tecnicamente que o cinema atual pode produzir? "As aventuras de Tintim" não é só a primeira animação do diretor, mas também seu primeiro filme em computação gráfica, seu primeiro filme digital e o primeiro em três dimensões. A explicação está no fato de que ser ao mesmo tempo clássico e inovador nunca foi novidade para Spielberg. No mesmo ano em que lançou "Jurassic Park" (1993), com sua extraordinárias criaturas criadas em computação gráfica, também foi responsável por "A Lista de Schindler", um drama adulto sobre o holocausto, feito com atores de carne e osso e rodado em preto e branco.

Tintim, personagem do quadrinista belga Hergé, já era propriedade de Spielberg desde os anos 80, quando fez os filmes de Indiana Jones. Muitos notaram a semelhança entre o arqueólogo interpretado por Harrison Ford e o jovem jornalista de topete que investigava mistérios pelo mundo ao lado de seu cachorro Milu. De tantos em tantos anos ouvia-se rumores de que Spielberg finalmente faria a versão cinematográfica dos quadrinhos do aventureiro, mas o projeto nunca saia do papel. Então surgiu Peter Jackson e sua empresa de efeitos especiais, a WETA, baseada na Nova Zelândia. Em uma parceria que lembra os bons tempos da dupla Spielberg/Lucas (que produziu a série Indiana Jones), Spielberg e Jackson uniram forças para fazer um dos filmes mais empolgantes e inovadores dos últimos anos. "As Aventuras de Tintim" tem todos os ingredientes de um bom filme de aventura, mais passagens de filmes de suspense, ação, lutas de capa e espada e duelos entre navios de guerra. A semelhança de certas cenas com Indiana Jones é tão grande que, em alguns momentos, o espectador fica esperando que a trilha de John Williams toque o tradicional tema do arqueólogo.

"As Aventuras de Tintim" seguem o jovem aventureiro (voz original de Jaime Bell) em sua tentativa de desvendar o enigma do navio "Unicórnio", que afundou séculos atrás com centenas de quilos de ouro a bordo. Tudo começa quando o garoto compra um modelo do navio em uma feira de antiguidades. Assim que ele finaliza a compra outros interessados no navio aparecem. Um deles é o estranho Sr. Sakharine (voz de Daniel Craig), que tem em sua mansão outro modelo idêntico ao que Tintim comprou. Após Tintim ter seu modelo roubado ele e descobre que há, na verdade, três modelos do navio "Unicórnio", cada um contendo um manuscrito que é parte de um enigma. A chave para desvendá-lo está não só nos manuscritos como na mente do Capitão Haddock (voz de Andy Serkis), um experiente (e bêbado) lobo do mar que seria descendente do capitão Francis Haddock, comandante do "Unicórnio" original. O filme leva o espectador em uma aventura por terra, mar, ar e deserto que não só fazem juz aos quadrinhos originais como lembram os bons tempos do cinema de aventura.

Tecnicamente, o filme é surpreendente. Spielberg até engana o espectador com uma abertura com estilo "antiquado", com uma animação estilizada que lembra a abertura de "Prenda-me se for capaz" (2002), para então mergulhar a platéia em um espetáculo audiovisual que, à primeira vista, fica difícil identificar; é uma animação ou um filme com atores? Foi utilizado o sistema de "motion capture" para gravar a movimentação física e as expressões dos atores de verdade, que interpretam as cenas diante de um equipamento especial (veja vídeo de bastidores). Os dados então são transferidos para computadores e usados na animação dos personagens, que têm um visual que é um híbrido de realista com cartunesco. Após algum tempo o espectador se esquece que está vendo uma animação. Interessante como o estilo de dirigir de Spielberg foi bem traduzido para a técnica; em grande parte do tempo percebe-se que o diretor tentou se manter dentro das leis da física tanto na movimentação dos personagens quanto da câmera (que, a rigor, não existe). Em algumas sequências, porém, Spielberg se aproveitou da liberdade ilimitada proporcionada pela animação para criar planos fantásticos, principalmente na sequência em que o Capitão Hadocck se lembra de uma batalha naval e em um fantástico plano-sequência em que vários personagens estão tentando recuperar os manuscritos. Em meio à centena de nomes dos créditos finais pode-se notar que Steven Spielberg está também creditado como "Light consultant". A luz sempre foi marca registrada do diretor, que a usa para criar fachos na tela ou em belos planos em contraluz.

O final deixa clara a possibilidade de uma contiuação, que pode ser feita um dia por Peter Jackson. O filme não teve a bilheteria esperada nos Estados Unidos, apesar de ter sido bem aceito na Europa. De qualquer forma, "As Aventuras de Tintim" revelam que Spielberg, aos 65, ainda tem gás para inovar.


sábado, 5 de fevereiro de 2011

Santuário

Esta aventura usa duas "grifes": o nome James Cameron e o sistema 3D de projeção. Despois do sucesso de "Avatar", um praticamente virou sinônimo do outro, e o diretor de "Titanic" e "O Exterminador do Futuro" assina a produção executiva de "Santuário". Mas se o roteiro de "Avatar" já era bem simples, "Santuário" mais parece um falso documentário de televisão. Curiosamente, a ligação com Cameron também faz lembrar seu filme de 1989, "O Segredo do Abismo", em que mergulhadores descobriam uma civilização extraterrestre no fundo do oceano.

"Santuário" não passa da exibição de belas imagens em três dimensões povoada por personagens bidimensionais. Todos os clichês possíveis podem ser encontrados. O início do filme é praticamente igual a Jurassic Park, lançado por Steven Spielberg em 1993: "Santuário" começa com a chegada (em um helicóptero) de um milionário excêntrico, Carl (Ioan Gruffud) a uma ilha coberta por florestas tropicais. Lá se encontra o maior sistema de cavernas do mundo, que está sendo explorada por cientistas. O problema é que uma chuva se transforma inesperadamente em um ciclone e deixa a todos presos na caverna, enfrentando a fúria da Natureza. Em "Santuário" não há nem os dinossauros de Spileberg nem os extraterrestres de Cameron; assim, metade do filme é dedicado a mostrar as pessoas entrando na caverna e a outra metade os mostra tentando sair dela. Continuando com os clichês, há o relacionamento conturbado entre um pai linha dura, Frank (Richard Roxburgh) e seu filho adolescente, Josh (Rhys Wakefield). Há também uma mergulhadora (que além de mulher se chama "Jude", judia) que logo na primeira cena fica assustada e, claro, morre no mergulho. Há também uma cena em que um personagem começa a tossir, o que significa doença grave, e ele não dura muito tempo.

De clichê em clichê, o diretor Alister Grierson leva o espectador pelos vários "níveis" da caverna que, como em um videogame, vai ficando cada vez mais perigosa. Um aviso no início do filme diz que "Santuário" foi inspirado em uma história real, uma forma de dar "credibilidade" ao roteiro de John Garvin e Andrew Wight. O site oficial informa que Wight realmente ficou preso por dois dias com uma equipe de filmagem em uma caverna na Austrália, mas este é o limite de "realidade" presente em "Santuário". A produção sem dúvida é bem feita; cenários enormes foram usados para simular o interior da caverna, além de cenas reais de mergulho filmadas em cavernas australianas. Mas "Santuário" é muito fraco. Teria sido mais interessante, talvez, se fosse um documentário de verdade.


quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

127 Horas

Aron Ralston (James Franco) é um aventureiro. Em um final de semana de março de 2003, ele partiu para uma região de canyons, no estado de Utah, sem avisar ninguém. Ao pisar em uma rocha que julgara ser firme, ela rolou e jogou Ralston no fundo de uma fenda, prendendo seu braço direito firmemente à parede. Aron tenta empurrar a pedra com toda a sua força, e nada. O que fazer? Ele está a quilômetros de qualquer cidade, fora da rota normal dos turistas e, o que é pior, ninguém sabe que ele está lá.

Danny Boyle, vencedor do Oscar por "Quem quer ser um milionário?" (2008) é o responsável pela versão cinematográfica desta aventura real vivida por Aron Ralston. Boyle e James Franco conseguem um feito e tanto, que é criar suspense e interesse em um filme que se passa quase o tempo todo dentro de um buraco. Por isso mesmo, o início de "127 horas" é bastante agitado, com um visual até exagerado e publicitário demais em que Boyle usa telas divididas e música muito alta para nos apresentar Ralston. O rapaz mora sozinho, está sempre com fones de ouvido e uma atitude hiperativa. Ao levar um tombo espetacular com sua bicicleta, ele não só dá risada como ainda tira uma foto de si mesmo com uma câmera digital. No caminho para o canyon ele encontra duas adolescentes perdidas e as leva para uma aventura em uma incrível lagoa escondida no fundo das rochas. O letreiro com o título só aparece depois de 15 minutos de filme, quando Aron percebe que está realmente preso no fundo da fenda.

Interessante como o filme mostra como o ser humano é frágil diante da natureza. Ainda assim, Aron tenta uma saída racional para seu problema. Com a mão livre, explora o conteúdo da sua mochila que, felizmente, tem uma garrafa de água e algumas barras de cereal. Ao menos ele não morreria de fome tão cedo. Ou será que os mantimentos só prolongariam o inevitável? Com um canivete ele tenta escavar um buraco para soltar seu braço, mas a rocha é sólida. As horas, e depois os dias, vão passando e o desespero só cresce. James Franco foi indicado ao Oscar por sua interpretação, que é bastante convincente. O diretor mantém o interesse do espectador mostrando flashbacks na forma de lembranças e sonhos de Aron, que pensa em sua família e sua primeira namorada. Interessante também a forma como a tecnologia moderna, se não consegue soltar Aron, ao menos lhe dá conforto; em vários momentos Aron faz declarações (ou fala consigo mesmo) para sua pequena câmera de vídeo, que carregava na bicicleta. É através do vídeo que ele se despede dos pais e lhes pede perdão. Há uma cena muito boa em que ele faz uma auto-entrevista, em que chega à conclusão que foi seu egoísmo que o colocou naquela situação.

Não vou falar sobre o final do filme, mas "127 Horas" levanta a questão de qual o limite para a sobrevivência? O que um ser vivo faz quando não tem nenhuma saída? Aron Ralston descobriu seu limite, e o espectador com ele. O filme está indicado ao Oscar de Melhor Filme, Ator (James Franco), Roteiro Adaptado, Edição, Trilha Sonora (A.R. Rahman) e Canção.