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terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Encontros (Encounter, 2021)

 
Encontros (Encounter, 2021). Dir: Michael Pearce. Amazon Prime. Hmmm, este é meio difícil de definir. Há várias coisas que podem ser vistas como "spoiler", talvez pelo fato de que o roteiro do próprio filme não sabe direito o que quer. Riz Ahmed, sempre bom, recém saído de uma indicação ao Oscar por "O Som do Silêncio", também da Amazon, interpreta aqui um pai ausente que foi Fuzileiro dos Estados Unidos. Ele entra na casa da ex-esposa uma noite e diz aos dois filhos que eles vão sair em uma aventura. Os três partem madrugada afora pelas estradas dos EUA. Ahmed diz aos filhos que a Terra foi invadida por seres extraterrestres que infectam os humanos através dos insetos. As primeiras imagens do filme, aliás, mostram "algo" entrando na atmosfera terrestre a partir do espaço e, em seguida, várias imagens de insetos devorando outros ou picando seres humanos.


O melhor do filme é a interação entre Riz Ahmed e os garotos (Lucian-River Chauhan e Aditya Geddada). Os meninos parecem mesmo filhos dele e li que as cenas entre eles foram bastante improvisadas. A direção de fotografia é boa e as belas paisagens americanas são acompanhadas por uma trilha "viajante" de Jed Kurzel. O clima de mistério e ficção-científica vai dando lugar a algo mais "pé no chão", mas o filme nunca mergulha de vez em uma coisa ou outra. Talvez o filme nunca deveria sair do foco em Ahmed e os garotos (a personagem de Octavia Spencer, por exemplo, poderia nem existir). Eu queria ter gostado mais. Riz Ahmed é bom mas, sozinho, não consegue segurar o filme. Disponível na Amazon Prime.

sábado, 28 de agosto de 2021

Estranho Passageiro - Sputnik (2020)

Estranho Passageiro - Sputnik (2020). Dir: Egor Abramenko. Netflix. Ficção científica russa com charme de filme B, "Sputnik" tem mais a ver com "Vida" (Life, 2017), do que com "Alien" (1979), mas bebe da mesma fonte. Passado em 1983, em plena Guerra Fria, a trama começa com dois astronautas soviéticos em órbita, se preparando para voltar para casa. Eles então percebem que "alguma coisa" está fora da nave, tentando entrar. Corta para uma base soviética, algum tempo depois; uma cientista chamada Tatiana (Oksana Akinshina) é chamada por um coronel para examinar um dos astronautas, Konstantin (Pyotr Fyodorov). Ele é o único sobrevivente daquele voo e carrega consigo algo assustador; um alien está alojado dentro do corpo dele, e sai todas as noites pela boca para explorar em volta. O design do alien é apropriadamente assustador, com longos braços e vários olhos, como uma aranha.

E é basicamente isso. O resto do filme é um embate entre a cientista, que quer salvar a vida do astronauta, e do coronel, que quer transformar o alien em algum tipo de arma. Há alguns segredos desagradáveis que o coronel não contou à cientista, que rendem as cenas mais violentas do filme. Há também uma discussão leve sobre o papel de pais e filhos (o astronauta teria largado um filho ilegítimo em um orfanato) e sobre a ligação simbiótica entre o alien e o astronauta. O filme é escuro e passa o visual utilitário (e analógico) de uma base soviética na Guerra Fria. A primeira parte é melhor que a segunda, mas é um filme interessante. Tá na Netflix.
 

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Raised by Wolves (2020)

Raised by Wolves (2020). HBO Max. Série de ficção-científica que tem os primeiros dois capítulos dirigidos por ninguém menos que Ridley Scott, "Raised by Wolves" é tão fascinante quanto decepcionante. A criação de mundo é bela; dá para sentir a influência de Scott na direção de arte, nos cenários, na trilha sonora, em tudo. Há também um bocado de referências a outros filmes dele, como Blade Runner, Alien, Prometheus (particularmente este último, mais discussões à frente). As interpretações são, no geral, muito boas. Discutem-se alegorias religiosas, inteligência artificial e reprodução, destino e acaso, ateísmo e fé. Pena que a série tenha longos 10 capítulos, que acabam esticando demais a trama e caindo em repetições e exageros, sem falar na decepção de chegar ao final do décimo episódio e não ter uma conclusão (uma segunda temporada está em produção).

No século 22, uma pequena nave pousa no planeta Kepler 22B. De dentro dela saem duas figuras humanoides, que tratam um ao outro como "Pai" (Abubakar Salim) e "Mãe" (Amanda Collin). São androides. Eles montam acampamento, preparam a terra e se fixam no local. É então que o "Pai" liga a "Mãe" a uma espécie de incubadora e, nove meses depois, ela gera seis bebês, de várias raças. Eles planejam começar uma nova civilização mas, com o passar dos anos, alguns dos filhos morrem por doenças. Para piorar a situação, uma outra nave chega ao planeta, com tripulantes de uma facção religiosa rival, e uma disputa se estabelece. Os dois primeiros episódios são dirigidos por Ridley Scott e o primeiro, particularmente, é sensacional; com algumas modificações, poderia ter sido lançado como um filme independente.

A questão da maternidade é explorada tanto como uma benção quanto como uma maldição; isso já foi visto antes em filmes de Scott como "Prometheus" (lembram da cena de Noomi Rapace na mesa de operação robótica?). Falando em "Prometheus", há várias pistas de que esta série se passe no mesmo "universo compartilhado"... os androides têm o mesmo sangue branco, por exemplo, e (sem entrar em spoilers) há outras dicas espalhadas pela trama. A "Mãe", vivida pela excelente atriz holandesa Amanda Collin, é programada para cuidar de crianças, o que ela faz com uma dedicação praticamente humana (o que remete a "Blade Runner 2049"). O problema, como disse, é que a trama é esticada para dez episódios, e as discussões e temas se tornam repetitivos. Vários mistérios vão surgindo com o decorrer dos episódios e, como espectador, você espera por uma conclusão que não chega. Claro que a HBO tem interesse em séries que possam ser esticadas por várias temporadas, como "Game of Thrones" e "Westworld", mas "Raised by Wolves" chega ao final não com gosto de "quero mais", mas de "faltou alguma coisa". Ela nunca deixa, porém, de ser fascinante de se assistir. Disponível na HBO Max.
 

sábado, 3 de julho de 2021

A Guerra do Amanhã (The Tomorrow War, 2021)

A Guerra do Amanhã (The Tomorrow War, 2021). Dir: Chris McKay. Amazon Prime. É a final da Copa do Mundo do Catar. Um jogador do Brasil chamado Peralta (sim), está partindo para o ataque quando um "portal temporal" se abre na frente dele e soldados aparecem no campo. Eles avisam a Humanidade que, 30 anos no futuro, a Terra será invadida por aliens sanguinários que vão devorar a todos. É assim que começa "A Guerra do Amanhã", produção com Chris Pratt que estreia na Amazon Prime. É uma ficção-científica militarista que usa de todo clichê imaginável, misturando filmes como "Aliens", "No Limite do Amanhã", "Independence Day", etc. Se você quer só "se divertir" com um filme de ação ininterrupta com um roteiro burro, rs, é um prato cheio.

Ao invés de se preparar por 30 anos para enfrentar a ameaça do futuro, milhares de soldados e civis são enviados para morrer na tal "guerra do amanhã". Chris Pratt é um deles, um veterano da guerra do Iraque que deixa esposa e filha para trás e aterrissa no caos futurista. Eles enfrentam uns monstros albinos que destroçam todos que encontram pelo caminho. Yvonne Strahovski (da série "The Handmaid´s Tale) é uma coronel "fodona" que está estudando a fraqueza dos aliens, para destruí-los.

O diretor veio de séries animadas como "Robot Chicken" e fez os filmes de Lego do Batman. Talvez "A Guerra do Amanhã" fosse mais divertido se não tentasse se levar a sério. São 140 minutos de duração (o que aconteceu com os bons filmes de uma hora e meia?). O grande J.K. Simmons faz uma ponta como o pai de Pratt. Para quem gosta de filmes de aliens com porrada e tiroteio. Disponível na Amazon Prime.
 

domingo, 9 de novembro de 2014

Interestelar

Um ótimo filme de ficção científica de uma hora e meia, no máximo duas horas, existe dentro de "Interestelar", o novo e ambicioso épico de Christopher Nolan. O problema é que, como em quase todo filme de Nolan, ele é longo demais, explicativo demais e chega ao público com longas três horas de duração.

Não me entenda mal, há muito que se elogiar em "Interestelar". O elenco é muito bom, encabeçado por Matthew McConaughey, ator que viveu um "renascimento" ultimamente na carreira, coroado com o Oscar de melhor ator por "Clube de Compras Dallas". O grande Michael Caine bate ponto novamente em um filme de Nolan (como fez na trilogia "Batman" e em "O Grande Truque") e há uma garota (Mackenzie Foy) que faz a filha de McConaughey, que quase rouba o filme. O visual é muito bom, capitaneado pelo diretor de fotografia Hoyte Van Hoytema (de "Ela"), que substituiu Wally Pfister, o habitual fotógrafo de Nolan (que foi dirigir outra ficção científica, o decepcionante "Trancendente").

Gostar ou não do filme vai depender muito do quanto o espectador gosta ou não do estilo exagerado de Christopher Nolan. Uma coisa, porém, é certa: "Interestelar" não é nenhum "2001 - Uma Odisséia no Espaço", filme que o próprio Nolan tem citado em entrevistas por aí. Não se trata de comparar Nolan com Kubrick. O caso é que falta muito em "Interestelar" o que sobra em "2001": silêncios. Nolan consegue fazer um filme de três horas de duração em que praticamente não há um respiro, um momento contemplativo sequer. Como faria bem ao filme ter uma sequência espacial sem que a música de Hans Zimmer não estivesse tocando a todo volume. Como faria bem ao filme ter uma sequência de mistério que não fosse explicada minuciosamente por algum personagem. De duas, uma; ou Nolan não confia em seu espetador ou acha que deve conduzi-lo pela mão, passo a passo, por cada sequência de seu filme.

Tanto assim que a melhor parte do filme é o início, situado em uma fazenda de milho cujo cenário e personagens lembram muito "Sinais", de M. Night Shyamalan. Assim como no filme do indo-americano, um viúvo mora em uma casa de fazenda com um casal de filhos e o sogro (no filme de Shyamalan, era um irmão). A Terra está passando por um período de grande fome; bilhões de pessoas já morreram e quase todos os sobreviventes são plantadores de milho, uma das últimas culturas que ainda crescem no planeta. Assim como em "Sinais", coisas inexplicáveis estão acontecendo na casa da família de Cooper (McConaughey), um ex-piloto e engenheiro. Sua filha Murph diz que um "fantasma" tem derrubado os livros da estante. Alguma coisa está atraindo para a casa as máquinas colheitadeiras robóticas e até mesmo um "drone" entra em pane perto da fazenda de Cooper. Em uma tempestade de areia, Cooper e a filha percebem sinais formados pelo pó no chão do quarto dela. São coordenadas de algum lugar misterioso. (leia mais abaixo)



Há nesta primeira parte um suspense e mistério que fazem falta no resto do filme. Cooper é recrutado pelo que restou da NASA para encontrar um planeta adequado a receber os últimos seres humanos do planeta. A Terra está condenada e a NASA descobriu que alguém colocou um "buraco de minhoca" ("wormhole", em inglês, basicamente um portal para outra parte da galáxia) nas proximidades de Saturno. A referência a "2001" é clara, já que o escritor Arthur C. Clarke também colocou seu "Monolito" próximo a Saturno em seu livro (Kubrick, no filme, mudou para Júpiter).

Cooper, em companhia de Anne Hathaway, Wes Bentley, David Gyasi e um robô chamado TARS partem para a aventura a bordo da espaçonave Endurance (que não foi feita em computação gráfica, mas com as boas e velhas miniaturas de antigamente). É então que, paradoxalmente, o filme perde força. O mistério e os bons dramas familiares são trocados por longas conversas sobre a Teoria da Relatividade, de Albert Einstein, e temas bem menos científicos, como uma teoria sobre a função do amor.

Nolan já havia brincado com a noção relativa do tempo em "A Origem", que dizia que ele corre em velocidades diferentes dependendo em que nível do sonho o personagem estava. Há uma passagem de "Interestelar" que diz que cada hora passada em determinado planeta equivaleria a sete anos na Terra. O conceito é interessante e cientificamente comprovado (o roteiro teve consultoria do físico teórico Kip Thorne), mas Nolan não o usa em todo seu potencial. Há uma passagem em que um personagem envelhece 23 anos entre uma sequência e outra, mas a não ser por alguns cabelos brancos permanece exatamente o mesmo. Até a conversa continua como se nada muito extraordinário houvesse acontecido.

Por outro lado, há boas sequências quando a personagem da filha de Cooper, Murph, volta à cena encarnada pela ótima Jessica Chastain (de "Árvore da Vida", este sim bastante similar a "2001"). Chastain consegue imprimir uma boa dose de drama à personagem, dividida entre o amor à ciência e a mágoa pela ausência do pai. É inevitável, porém, não lembrar da personagem de Jodie Foster em "Contato", baseado em livro de Carl Sagan, que também tratava de viagens intergalácticas em wormholes. A relação entre a personagem de Foster e o pai também era o centro dramático daquele filme.

Assim, há de tudo um pouco em "Interestelar". Ou melhor, há muito de tudo em "Interestelar". O filme se beneficiaria com o corte de algumas sequências (como a passada em um planeta coberto de água, por exemplo, que não é fundamental ao roteiro); acredito também que teria sido um filme muito mais interessante se Nolan não quisesse explicar tudo nos mínimos detalhes. "Antigamente nós olhávamos para o céu e nos maravilhávamos", diz Cooper em uma cena. Nada como um bom e velho mistério.

João Solimeo
Câmera Escura

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Os Escolhidos

Filmes de terror têm vários clichês. O mais irritante, provavelmente, seja aquele em que uma família se recuse a sair de casa quando algo muito estranho e perigoso está acontecendo. Eles não têm família? Amigos? Eles não têm...medo? Claro que se as pessoas agissem de forma racional em filmes deste tipo eles simplesmente deixariam de ser feitos; e há provavelmente certo prazer sádico na platéia em ver, na segurança do cinema, pessoas pagarem por seus erros estúpidos na tela.

"Os Escolhidos" está mais para a ficção-científica, embora utilize de todos os truques e sustos de um filme de terror. Um dos problemas deste filme é a total falta de originalidade. Substitua os fantasmas de "Poltergeist" (1982, oficialmente dirigido por Tobe Hooper, dirigido de fato por Steven Spielberg) por aliens, pegue os subúrbios americanos de "E.T." (1982, Spielberg novamente), com garotos andando de bicicleta e bandeiras americanas nas sacadas, misture com várias pitadas de "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" (1977, sim, de Steven Spielberg), adicione "Sinais" (2002, M. Night Shyamalan, inspirado por Spielberg) e qualquer episódio genérico de "Arquivo X" e você tem "Os Escolhidos".

O casal Daniel (Josh Hamilton) e Lacy (Keri Russell) Barrett estão a um passo de uma crise conjugal. Ele está desempregado e ela é uma corretora de imóveis que tenta vender uma casa (um elefante branco) sem sucesso. A falta de dinheiro começa a se fazer sentir no relacionamento, as pressões aumentam e as brigas se tornam frequentes. O casal tem dois filhos; Jesse (Dakota Goyo, o bom ator mirim de "Gigantes de Aço") está com 13 anos e demonstra os problemas da adolescência. Ele tem um amigo mais velho que não é flor que se cheire e uma paixão confusa (embora correspondida) por uma garota da vizinhança. (leia mais abaixo)


Os problemas começam quando Sam (Kadam Rockett), o filho mais novo do casal, começa a ter alguns pesadelos estranhos com um "ser" desconhecido. Seriam mesmo pesadelos? A mãe acorda durante a noite e encontra comida espalhada pelo chão. Em outra noite, alguém ou alguma coisa montou formas geométricas sobre a mesa da cozinha. Todas as fotos desaparecem dos porta retratos. Os alarmes da casa disparam de forma errática e a polícia está cética. Certamente um dos garotos está fazendo tudo isso?

Apesar da total falta de originalidade, é fato que o diretor/roteirista Scott Stewart, auxiliado por um bom elenco (Keri Russell está particularmente bem) consegue criar um suspense eficiente durante a longa exposição que estabelece a trama do filme. Há cenas bem feitas e os sustos são garantidos. O problema é que o filme começa com uma citação do escritor Arthur C. Clarke sobre extraterrestres (dizendo que tanto o fato deles existirem ou de estarmos sozinhos é assustador), então o espectador não tem que pensar muito sobre "quem" está causando os fatos estranhos experimentados pelos Barrett. E quando um "especialista" (vivido pelo ótimo J.K. Simmons, na melhor cena do filme) explica à família sobre "Greys" e outros tipos de "homenzinhos verdes", Stewart não sabe o que fazer com sua história. O final, apesar de uma tentativa do roteirista de criar uma "surpresa", não consegue salvar o filme. Melhor passar em uma locadora ou abrir a Netflix e assistir a todos os filmes que serviram de inspiração para este.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Lucy

Imagine uma mistura de "A Árvore da Vida", de Terrence Malick, com "Kill Bill", de Quentin Tarantino. Adicione umas pitadas de "Matrix", um pouco de "Watchmen" e fartas doses de animê e você tem "Lucy", o novo filme do francês Luc Besson.

Lucy (Scarlett Johansson) é uma americana que mora em Taipei, China. Não sabemos exatamente o que ela está fazendo por lá, mas o filme começa com ela e o namorado parados em frente a um hotel da cidade.

O namorado quer que ela entre no prédio e entregue uma mala para um tal de Sr. Jang (Min-sik Choi), em troca de quinhentos dólares. Lucy pressente que algo de errado está para acontecer, mas ela nem imagina o tamanho da encrenca.

Tudo o que podemos dizer é que, vários minutos depois, Lucy é escoltada para fora do prédio com um saco na cabeça e um quilo de drogas introduzidas cirurgicamente em seu abdômen. O Sr. Jang planeja enviar Lucy e outras três "mulas" para várias cidades da Europa, onde pretende distribuir a droga, que é experimental e é chamada simplesmente de CHP4.

O caso é que a tal droga começa a vazar dentro do corpo de Lucy que, sob seu efeito, se torna uma espécie de super-humana. Estas cenas são convenientemente intercaladas com uma palestra ministrada em Paris por Morgan Freeman; com sua "Voz de Deus", ele explica o que aconteceria se os humanos usassem mais do que 10% do cérebro, como popularmente se acredita.

O roteiro, do próprio Luc Besson, é claramente absurdo, mas o filme é bem dirigido e Johansson abraça o papel de tal forma que o espectador mal tem tempo de pensar durante os curtos 90 minutos de projeção. (leia mais abaixo)


Besson sempre gostou de papéis femininos fortes e desde a década de 1990 criou personagens como a assassina profissional Nikita ("Nikita - Criada para Matar", 1990), interpretada por Anne Parillaud, ou Leelloo (Mila Jovovich), que ajudava Bruce Willis a salvar o universo em "O Quinto Elemento" (1997), sem falar da jovem Natalie Portman em "O Profissional" (1994).

A Lucy de Scarlett Johansson é uma mistura da assassina de Nikita com o misticismo misturado com ficção-científica de "O Quinto Elemento". Há também estranhas cenas que mostram o passado do planeta Terra e do próprio Universo que, por um momento, lembram imagens em "A Árvore da Vida", de Malick. Em versão pop, claro.

sábado, 14 de junho de 2014

No limite do amanhã

"No Limite do Amanhã" usa uma variação da mesma premissa da comédia "Feitiço do Tempo" (Harold Ramis, 1993) e a transporta para uma aventura de ficção-científica. O que aconteceria se uma pessoa, ao morrer, voltasse sempre para o mesmo momento no tempo? Ela poderia fazer algo diferente ou estaria fadada a repetir tudo? Esta é a situação em que se encontra o Major Cage (Tom Cruise, do inferior "Oblivion"), um assessor de imprensa do exército que é enviado para a linha de frente por um general cruel. Cage não tem treinamento militar e, bem ao estilo "Dia D" (a invasão da Normandia, no final da 2ª Guerra Mundial), é despejado em uma praia vestindo uma armadura robótica tendo que combater centenas de aliens que vieram conquistar o planeta. Despreparado, Cage morre em poucos minutos, apenas para se ver vivo novamente no dia anterior à invasão; o ciclo se repete infinitamente, para desespero do Major, que Tom Cruise interpreta muito bem.

Tudo muda quando ele interage com uma heroína de guerra chamada Rita (Emily Blunt, de "Looper"), que lhe revela que ela também havia passado por isso. Cruise passa a se encontrar com Rita a cada reset e, aos poucos, vai treinando para se transformar em um soldado experiente. Eles têm que descobrir onde é que o "cérebro" dos aliens está escondido, para destruí-lo e vencer a guerra. Assistir a "No limite do amanhã" acaba se tornando muito similar a se jogar videogame. Os personagens conseguem chegar até certo ponto da história, quando morrem e voltam na "jogada" seguinte, mais experientes e sabendo o que vão encontrar pela frente. O diretor Doug Liman (especialista em filmes de ação como "A Identidade Bourne") faz um bom trabalho em explicar a trama e em conseguir filmar as mesmas situações, repetidas dia após dia, de forma ligeiramente diferente. (leia mais abaixo)


Há momentos em que você acha que Cage está passando por uma experiência pela primeira vez, até que ele acaba revelando que já passou por aquilo antes. A relação dele com a personagem de Emily Blunt é delicada, porque ele passa a conhecê-la intimamente e querer protegê-la, enquanto que, para ela, Cage é um estranho a cada vez que ele volta. Outro filme de ficção-científica recente, "Contra o Tempo" (de Duncan Jones) também explorava esta situação.

Uma pena que as sequências finais sejam pouco inspiradas e, francamente, não fazem muito sentido. Um ataque final ao esconderijo dos aliens seria muito mais inteligente se fosse feito de surpresa; ao invés disso, preferiram fazer uma explosiva (e impossível) cena de ação. Apesar de tudo, "No limite do amanhã" é inventivo e inteligente. Tom Cruise, apesar de já aparentar ser um cinquentão, ainda consegue levar um filme de ação nas costas sem problemas.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Robocop

"Robocop" foi lançado em 1987 com direção do holandês Paul Verhoeven. Era uma ficção-científica passada em um futuro próximo, satírica e extremamente violenta. O sucesso gerou duas continuações (bastante inferiores) e até uma série de desenhos animados. O policial meio homem, meio máquina volta agora repaginado pelas mãos do brasileiro José Padilha, "quente" nos Estados Unidos depois do enorme sucesso de "Tropa de Elite". Levando-se em conta a crueza e violência dos filmes de Padilha, até que não era uma má escolha. O problema é que estamos no século 21 e, para os padrões do cinema atual, não cabe fazer um filme sobre um "herói" como Robocop da mesma forma violenta de Verhoeven. O cyborg retorna em um filme tão clean quanto vazio, o que é uma pena.

Os erros começam pela escalação do elenco. Há vários bons atores jovens por aí, mas Padilha escolheu para o papel principal o inexpressivo sueco Joel Kinnaman. O rapaz tem uma voz grave, o que é apropriado para Robocop, mas em um papel em que toda a interpretação depende das expressões faciais, Kinnaman é muito frio. E o que dizer dos vilões? O Robocop de 1987 trazia os ótimos Ronny Cox e Kurtwood Smith como os bandidos que aterrorizavam a cidade de Detroit. Na versão atual, fica até difícil saber quem são realmente os vilões da história. O grande Michael Keaton está desperdiçado como Raymond Sellars, o chefe da empresa que faz fortuna mundo afora com robôs de combate.  Gary Oldman é o Dr. Norton, o responsável pela criação do Robocop. Oldman é bom ator, mas os roteiristas não sabem o que fazer com o personagem dele. Em um momento ele é uma figura paterna para Alex Murphy, o policial transformado em Robocop. Em outro, porém, mexe no cérebro do rapaz para que ele não possa mais sentir emoções. Depois muda de ideia novamente. Há ainda um vilão chamado Antoine Vallon (Patrick Garrow), que entra mudo e sai calado, sendo praticamente irrelevante para a trama (que diferença de Clarence Boddicker). Samuel L. Jackson interpreta um jornalista de direita que, estranhamente, lembra muito o personagem Fortunato, de "Tropa de Elite 2". (leia mais abaixo)



Sem falar que, ao mudar a origem do personagem do Robocop, o filme de Padilha lhe tirou toda a motivação. Enquanto no filme original Alex Murphy (na época interpretado por Peter Weller) era brutalmente mutilado por Boddicker e sua gangue, na versão atual Murphy vai parar no hospital quando seu carro explode, em um impessoal atentado a bomba. Esta versão de Robocop é tão clean que as balas disparadas pela arma do cyborg são elétricas, ou seja, não matam (a não ser quando ele quer). Tudo parte do esforço em fazer um filme  "inofensivo" para pré-adolescentes (que encontram muito mais violência nos games que jogam em casa).

A sátira social presente no filme de Verhoeven se transformou, nesta versão, em um discurso vazio sobre o uso de drones pelos Estados Unidos mundo afora. José Padilha conseguiu levar seus habituais colaboradores, o fotógrafo Lula Carvalho e o editor Daniel Rezende para trabalhar com ele. Pena que o roteiro (escrito por Joshua Zetumer) seja tão fraco e pouco ousado.

Câmera Escura

domingo, 9 de junho de 2013

Depois da Terra

Mil anos depois que a Terra foi abandonada, os últimos seres humanos estão vivendo na colônia de Nova Prime. A Humanidade teve de abandonar o lar original depois de ter exaurido todos os recursos naturais. A vida em Nova Prime tambén não é fácil, já que uma raça alienígena começou a atacar os seres humanos com animais assassinos geneticamente fabricados chamados "Ursa" que, apesar de serem cegos à luz, podem sentir a presença de feromônios do medo no ar. Só um soldado incapaz de sentir medo poderia se tornar um "fantasma" e não ser visto pela "Ursa". Ele é o general Cypher Raige (Will Smith, "Eu sou a Lenda", "Eu, Robô"), um "Ranger" exemplar, mas péssimo pai. Seu filho Kitai (Jaden Smith, "Karate Kid"), sofre com a indiferença paterna e com o trauma de ter visto a irmã ser morta por uma "Ursa". O destino faz com que um dia, em uma viagem interplanetária, a nave em que pai e filho se encontram sofra um acidente, caindo no esquecido planeta Terra, mil anos depois de ter sido abandonado.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Oblivion

Terra, 2077. O planeta foi invadido por extraterrestres que, ao destruírem a Lua, causaram uma série de catástrofes naturais que arrasaram com todas as cidades e quase extinguiram a Humanidade. Ainda assim, eles foram derrotados e os humanos sobreviventes estão todos em órbita, em uma nave gigantesca, aguardando o momento de partir para um novo lar em Titã, uma das luas de Saturno. Apenas alguns poucos humanos ainda estão na Terra fazendo trabalho de manutenção nos drones, robôs automáticos que estão à caça dos extraterrestres que permanecem escondidos.

Tom Cruise é Jack Harper, um destes técnicos de manutenção. Ele vive em uma belíssima casa tecnológica que flutua acima das nuvens, acompanhado de Victoria (Andrea Riseborough), sua companheira e encarregada. Faltam apenas duas semanas para que o trabalho termine e eles possam embarcar para Titã, mas as coisas não são tão simples. Jack (que tem o nome gritado uma centena de vezes durante o filme, "Jack!", "Jack!") tem tido uns sonhos estranhos com uma mulher desconhecida, em uma época antes da guerra, em um claro "empréstimo" dos roteiristas da trama de "O Vingador do Futuro" (versões de 1990 e 2012). Para complicar as coisas, um dia cai do céu uma nave; contrariando ordens superiores, Jack vai investigar e resgata uma única sobrevivente, Julia (a modelo Olga Kurylenko), que é exatamente a mulher que tem aparecido em seus sonhos. Jack também descobre que há um grupo de rebeldes humanos na Terra liderados por Beech (Morgan Freeman e sua voz de Deus), que pretendem revelar a verdade sobre a guerra e o que aconteceu com o planeta.

Dirigido por Joseph Kosinski (de "Tron: O Legado"), "Oblivion" tem um visual fantástico, embora nada original, que mostra a cidade de Nova York, sempre ela, praticamente enterrada por toneladas de lama. A trama tem todos os ingredientes para um bom filme de ficção-científica, envolvendo memórias apagadas, preocupações ambientais, rebeldes e um herói que conhece muito pouco sobre ele mesmo. Por que, então, o filme não funciona? Apesar do todo o carisma de Tom Cruise (que simplesmente se recusa a envelhecer), os personagens não empolgam. Há diversas sequências de ação que causam menos entusiasmo do que um jogo de videogame e o roteiro, quando começa a revelar os "segredos" da trama, simplesmente desmorona. 

ATENÇÃO, SPOILERS, NÃO LEIA DAQUI PARA FRENTE SE NÃO VIU O FILME.

SPOILERS. ESTEJA AVISADO.

Por que os alienígenas precisariam de auxiliares como Jack e Victória? Por que se dar ao trabalho de criar estas histórias na cabeça deles? Se eles são tão superiores tecnologicamente, como claramente se pode ver, qual a necessidade de ter "técnicos de manutenção" humanos e, pior, cheios de memórias complicadas na cabeça? Por que não clonar um outro humano qualquer, criar milhares de escravos? Por que os alienígenas parecem saber tudo e ver tudo no planeta, em certas partes do filme, e serem completamente cegos em outros momentos? Como é que o personagem de Cruise (ou um de seus clones) estava exatamente no lugar certo na hora que a nave Odisseu caiu no planeta, e como é que ele conseguiu salvar, de todos os humanos presentes, exatamente sua mulher? Por que é que Cruise pode parar os drones com um comando de voz durante praticamente todo o filme, mas quando eles atacam o esconderijo dos rebeldes ele não faz isso? Por que é que os alienígenas iriam querer que ele levasse Julia para a nave mãe, convenientemente abrindo a porta para que ele entrasse com a bomba? O que eles teriam a ganhar ao vê-la?

Estas são apenas algumas das perguntas que podem ser feitas a partir dos absurdos apresentados pelo roteiro. Isso sem falar no final inacreditável, em que o marqueting de Tom Cruise é tão grande que ele pode, ao mesmo tempo, se "sacrificar" pelo planeta e ainda "voltar" para um final feliz (o que fizeram com os outros 50 clones de Jack Harper que, teoricamente, existem espalhados pelo planeta?). Assim, "Oblivion" pode ter visuais espetaculares e uma premissa interessante, mas não consegue responder às próprias perguntas.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Guerra dos Mundos, o livro e as diferentes versões

Capa da edição original. fonte: Wikipedia

"The War of the Worlds" (Guerra dos Mundos) é um livro de ficção científica escrito por H.G. Wells em 1898 na Inglaterra. Já havia visto duas adaptações cinematográficas, a ótima de 1953 dirigida por Byron Haskins e produzida por George Pal e a versão que Steven Spielberg fez em 2005 com Tom Cruise, mas nunca havia lido o livro, até agora.  Foi uma experiência muito interessante por dois motivos; um pelo conteúdo, outro pelo meio pelo qual li; foi meu primeiro ebook, lido metade em um e-reader para Windows Phone chamado "Freda" e a segunda metade li do em um "Kobo Glo", o e-reader canadense que a Livraria Cultura trouxe ao Brasil.

O livro é muito interessante, ainda mais quando se pensa na data em que foi escrito. Leva um tempo, com todas aquelas imagens de filmes de ficção-científica americanos dos anos 50 na cabeça, com seus soldados, jipes, tanques de guerra etc, para embarcar no planeta Terra do final do século 19. Quando Wells descreve soldados chegando, temos que imaginá-los vindo a cavalo, pilotando charretes ou puxando grandes canhões. Da mesma forma, a cidade de Londres, descrita por Wells como tendo 6 milhões de habitantes, deve ser imaginada no século 19, sem carros nas ruas etc. A diferença de tecnologia entre os invasores Marcianos e o povo da Terra fica ainda maior quando imaginamos as armas e artefatos humanos há mais de 100 anos. 

"Guerra dos Mundos", filme de 1953
A trama é narrada em primeira pessoa por um escritor que nunca é nomeado e que, por coincidência, sorte ou vontade do autor, é testemunha da maior parte dos eventos desde a descoberta de "jatos de gás" saindo da superfície do planeta Marte (que se encontra na aproximação máxima da Terra) até a queda de "cilindros" nos arredores de Londres, Inglaterra, de onde saem os Marcianos. A descrição das criaturas, a meu ver, não é muito boa, ficando difícil visualizá-los. Wells os descreve como "grandes cabeças, com olhos enormes, uma boca em forma de V e tentáculos". Estas criaturas estranhas se tornam poderosas ao construírem "Tripods" gigantes que andam pela paisagem inglesa destruindo tudo com "raios de calor" e uma fumaça tóxica que mata quem a respira. A versão de Spielberg, apesar de passada na época contemporânea, também equipa os Marcianos com estes veículos, enquanto que na versão dos anos 50 eles usavam naves flutuantes, uma espécie de discos voadores.

A narração de Wells é bem interessante e o leitor vai reconhecer vários dos "clichês" de filmes de invasão por extraterrestres feitos em Hollywood no próximo século. A lentidão e tranquilidade com que se narra a queda do primeiro cilindro, a curiosidade causada nas pessoas, que vão se aproximando; o cilindro que se abre lentamente, revelando as criaturas que saem de dentro até que o cenário aparentemente pacífico se transforma em um campo de batalha. Os Marcianos de Wells usam um "Raio de Calor" para explodir ou queimar imediatamente pessoas, casas, peças de artilharia, etc. Quando um dos marcianos é derrubado por um canhão, eles passam a usar uma "Fumaça Negra" que, como um líquido, vai se espalhando pelas ruas das cidades e matando a todos por envenenamento. Vale lembrar novamente que estamos em uma época pré Primeira Guerra Mundial, mas algumas das descrições de Londres destruída pelos Marcianos lembram cenas que aconteceriam só meio século depois, quando os nazistas bombardearam a cidade na II Guerra Mundial.

A versão de 2005, de Steven Spielberg
O livro é dividido em duas partes, "A chegada dos Marcianos" e "A Terra sob os Marcianos". Há muito poucos diálogos entre os personagens, sendo que quase toda a trama é narrada pelo escritor segundo os fatos que ele "testemunhou" ou escutou de outras pessoas, como um irmão que mora em Londres. O narrador (e as multidões inglesas) estão em constante movimento, fugindo dos invasores, mas há dois momentos de pausa; um quando o narrador, na companhia de um pároco, fica 15 dias preso em uma casa cercada de Marcianos, quando ele testemunha, horrorizado, que eles se alimentam de sangue humano. A outra pausa é quando ele encontra um soldado que tem planos mirabolantes de comandar a "resistência" dos seres humanos contra os invasores. O militar tem um longo monólogo em que descreve a apatia humana e sobre como muitos seriam "cultivados" pelos Marcianos e usados como comida ou mesmo como bichos de estimação. Wells traça paralelos interessantes entre a superioridade marciana e nós e a relação de poder que existe na Terra entre humanos e animais. Há também uma relação entre a alegoria de Wells e temas como Darwinismo e Colonialismo.

Por fim (SPOILERS?), os Marcianos, aparentemente indestrutíveis, são vítimas das bactérias terrestres, para as quais não são imunes, e acabam morrendo depois de terem destruído grande parte de Londres e, aparentemente, vários outros locais do globo. Vale também lembrar a versão para rádio produzida por ninguém menos que Orson Welles (que tem o nome parecido com o do autor) em 1938, já um garoto prodígio do Teatro e que em breve dirigiria "Cidadão Kane" (1941). A versão de Welles, narrada como se fosse um jornal ao vivo, causou pânico em diversas regiões dos Estados Unidos, pois o público acreditou se tratar de uma invasão real.

domingo, 11 de novembro de 2012

Argo

"Argo" é o terceiro filme dirigido por Ben Affleck que, como ator, é bastante limitado. Como diretor, porém, Affleck atingiu a maturidade com este filme inteligente que, baseado livremente em fatos reais, é uma boa mistura de entretenimento e suspense. Em novembro de 1979, a embaixada americana no Irã foi invadida por uma multidão que apoiava o Aiatolá Khomeini. Vários americanos foram feitos reféns mas, durante a confusão, seis diplomatas conseguiram fugir para a casa do embaixador do Canadá, onde ficaram escondidos por várias semanas, aguardando serem resgatados.

Ben Affleck interpreta Tony Mendez, um especialista da CIA em repatriar reféns. Ele é chamado pelo Departamento de Estado para dar sua opinião e, após refutar vários planos (um deles sugeria que os reféns pedalassem 500 quilômetros até a fronteira ao norte), criou um plano tão absurdo que poderia dar certo. Inspirado pelos filmes de ficção-científica e fantasia que viraram moda nos Estados Unidos no final dos anos 1970 (principalmente após o lançamento de "Star Wars", em 1977), Mendez sugere que a CIA crie uma companhia de cinema fictícia que iria procurar por locações exóticas no oriente para um filme B chamado "Argo". Para dar mais verossimilhança à ideia, Mendez contrata um produtor real de Hollywood chamado Lester Siegel (o ótimo Alan Arkin) e um especialista em efeitos especiais chamado John Chambers (o igualmente competente John Goodman). Os dois ficam responsáveis por espalhar  por Hollywood a notícia de que "Argo" é uma produção real, inclusive promovendo uma leitura de roteiro e publicando cartazes  do filme em jornais e revistas especializadas como a "Variety". Mendez então viaja ao Irã para treinar os seis reféns americanos, que fingiriam ser a equipe de filmagem de "Argo" e, se tudo desse certo, sairiam do país diretamente pelo aeroporto internacional, debaixo dos narizes da polícia fanática do aiatolá.

O filme é uma junção competente de filme de suspense, espionagem e, de quebra, mostra os bastidores de Hollywood. O roteiro (de Chris Terrio) lembra bastante "Mera Coincidência" (1997), de Barry Levinson, em que um produtor de Hollywood (Dustin Hoffmann) era contratado para criar uma guerra fictícia e desviar a atenção da imprensa de um escândalo da Casa Branca. Alan Arkin e John Goodman estão muito bem como produtores reais criando um filme irreal. Hollywood é uma força tão grande na imaginação coletiva mundial que a ideia "maluca" de Mendez de dizer que está no Irã para fazer um filme de ficção-científica em plena crise dos reféns não soa inverossímil. Há uma cena muito boa que mostra os guardas iranianos maravilhados com o "storyboard" de "Argo" enquanto o oficial superior tenta checar a história de Affleck. A recriação de época é muito boa e o filme transporta o espectador para o início dos anos 1980. Ben Affleck ficou tão orgulhoso com este aspecto do filme que "Argo" termina comparando imagens reais da época com outras recriadas para o filme. "Argo" estreou bem no mundo todo e há grandes chances de ser escolhido um dos candidatos ao próximo Oscar. Vale lembrar que Ben Affleck, junto com Matt Damon, já tem um Oscar de "Melhor Roteiro Original" por "Gênio Indomável", filme que escreveu em 1997.

Um aspecto que deve ser mencionado é o fato de que as relações entre os EUA e o Irã hoje vão de mal a pior, com grandes chances de uma intervenção militar por causa de supostas armas nucleares que o Irã estaria fabricando. Um filme como "Argo", que mostra os iranianos como fanáticos ignorantes, cai facilmente no gosto do público no momento político atual. Independente disso, é um ótimo filme de entretenimento, que pode dar a Affleck uma indicação ao Oscar de Melhor Diretor.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Looper: Assassinos do Futuro

"Looper" é uma ficção-científica que tem viagens no tempo, cidades futuristas, mutantes, uma boa dose de "animê" japonês e até uma bem bolada releitura do clássico "O Exterminador do Futuro" (1984). Na década de 2040 as viagens no tempo ainda não foram inventadas. Mas, como explica o narrador, elas seriam criadas 30 anos depois e usadas para um fim macabro: organizações criminosas, quando quisessem executar uma pessoa e se livrar do corpo, enviariam a vítima para o passado onde "loopers", assassinos profissionais contratados, as matariam a sangue frio. Sim, é uma premissa um tanto exagerada; afinal, se os criminosos têm o poder de enviar pessoas para o passado, por que não enviá-las para o meio do Oceano Atlântico, por exemplo, onde morreriam afogadas? Não importa. A partir desta ideia o diretor e roteirista Rian Johnson criou um dos filmes mais originais dos últimos anos.

A trama é focada em um "looper" particular, Joe (Joseph Gordon-Levitt), que um dia tem que enfrentar um dilema: o homem que aparece à sua frente para ser assassinado é uma versão 30 anos mais velha dele mesmo (interpretado por Bruce Willis). O "velho Joe" consegue escapar e, com isso, cria um paradoxo que deve ser evitado, a todo custo, pelo chefão dos "loopers", Abe (o bom Jeff Daniels). Viagens no tempo quase sempre rendem boas histórias, ainda mais quando envolvem pessoas encontrando elas mesmas. O que aconteceria se o "velho Joe" matasse a sua versão mais nova? E se fosse o contrário? Há uma cena muito bem bolada em que o Joe mais novo quer se encontrar com o mais velho e "manda um recado" a  si mesmo cortando uma frase no próprio braço, o que faz surgir uma cicatriz no braço do Joe mais velho. O roteiro de "Looper" está cheio destas situações criadas pela relação de causa e efeito. Como se não bastasse a trama da luta do "velho Joe" contra o "novo Joe", o roteiro ainda acrescenta uma segunda trama que, de forma inteligente, faz uma releitura do filme de 1984 de James Cameron, "O Exterminador do Futuro". Um dos motivos do "velho Joe" em voltar para o passado é o de matar uma criança que, no futuro, se tornará um cruel criminoso conhecido como "Rainmaker". A referência fica escancarada quando se descobre que a mãe desta criança se chama Sara (Emily Blunt), o mesmo nome da mãe de John Connor nos filmes de Cameron. As cenas com o menino, interpretado pelo jovem Pierce Gagnon, são assustadoras e têm ecos do animê "Akira" (1988), de Katsuhiro Ohtomo.

Assim, Rian Johnson consegue a proeza de equilibrar todas estas referências e tramas em um filme envolvente, violento na dose certa e muito interessante. O final, surpreendentemente, não decepciona. Visto no Kinoplex, Campinas.

sábado, 16 de junho de 2012

Prometheus

O filme começa bem. Um prólogo mostra uma paisagem em planos largos que lembram a grandiosidade de Stanley Kubrick; fica claro que estamos em terreno influenciado por "2001 - Uma Odisséia no Espaço" (1968). E, assim como no filme de Kubrick, uma descoberta no passado faz uma ligação com seres extraterrestres, e uma nave espacial chamada "Prometheus" é enviada pela corporação Weyland para encontrar, talvez, os arquitetos da vida na Terra.

Tudo é extremamente bem feito pelo competente Ridley Scott, que tem no currículo pelo menos uma obra-prima, "Blade Runner" (1982), e que lançou, em 1979, um filme chamado "Alien - O Oitavo Passageiro", que gerou várias continuações inferiores. "Alien" também bebia na fonte de Stanley Kubrick mas, no fundo, não passava de um "filme de monstros", e é este o principal problema com "Prometheus", que traz a história anterior aos acontecimentos do filme de 1979. Por mais ambicioso que possa ser o roteiro, por melhores que sejam os atores e por mais impressionantes que sejam os efeitos especiais, o espectador sabe que, cedo ou tarde, o filme vai cair no terror "B" que, diga-se de passagem, muita gente foi ao cinema assistir. Pena que Ridley Scott não tenha tido coragem de fugir do óbvio mas, enquanto o filme é sério, ele é extremamente bom. O melhor personagem não é um ser humano, mas um andróide chamado David, interpretado pelo incansável Michael Fassbender (de "Shame"). É ele que mantém a nave funcionando na viagem de ida, enquanto a tripulação humana está hibernando, tempo que ele passa estudando línguas ou, em uma homenagem de Scott ao diretor David Lean, assistindo "Lawrence da Arábia" (1962).  David foi a estrela de um vídeo viral muito interessante lançado na internet meses antes do lançamento do filme, em uma esperta campanha de marketing. (veja aqui o discurso de Peter Weyland, interpretado por Guy Pearce, em outro viral)

A atriz sueca Noomi Rapace (a Lisbeth Salander original da série "Os Homens que não Amavam as Mulheres") é uma cientista chamada Elisabeth Shaw que, com o parceiro Charles Holloway (Logan Marshall-Green), foi quem descobriu que os extraterrestres visitaram a Terra há milênios. Rapace é boa atriz e foi uma boa escolha para substituir a figura memorável de Ripley, personagem que Sigourney Weaver interpretou nos filmes anteriores. Ridley Scott tem um senso estético apurado e o filme é bonito de se ver, com cenários e adereços que parecem reais, e não tirados de um videogame. O design da nave alienígena foi baseada no trabalho do artista H.R. Giger, que tem um visual orgânico e assustador.

E então começa o filme de terror, e é uma pena. Há uma cena tão absurda, que envolve Noomi Rapace passando por uma cirurgia no abdômen, que tira do filme qualquer seriedade ou verossimilhança. Apesar de tudo, "Prometheus" não deixa de ser uma experiência interessante e, ao menos durante a primeira parte, um bom filme de ficção científica. Visto no Kinoplex, em Campinas.