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quinta-feira, 16 de maio de 2013

The Road (livro)


Are we going to die?
Sometime. Not now.

"The Road" (2006), o livro, consegue ser mais pesado que o filme. Cormac McCarthy descreve o desespero de um mundo pós-apocalíptico em que o céu está coberto por uma constante camada de fuligem, o Sol não pode ser visto e a vida, toda a vida, está em extinção. Ele não se dá ao trabalho de explicar o que aconteceu (o que importa?). A única coisa relevante é o amor de um pai para com o filho, que já nasceu neste mundo e nunca viu o céu azul. A mãe decidiu se matar, não viu propósito em continuar vivendo. Considerando que ela provavelmente seria estuprada ou, pior, transformada em alimento pelos poucos sobreviventes que existem no planeta, não se pode dizer que ela tenha feito mal. O livro não tem separação de capítulos, os diálogos não têm aspas ou travessões e McCarthy consegue o feito de descrever, dia a dia, a jornada (inútil?) de pai e filho em direção ao Sul e ao mar, na esperança de que, lá chegando, as coisas sejam melhores. Cenas de arrepiar, em uma descrição minimalista, seca. McCarthy narra os dias que vão se tornando cada vez mais escuros, "como se um glaucoma frio estivesse cegando o mundo".

Os personagens não têm nome. O pai é chamado simplesmente de "o homem", e o filho é "a criança", ou "o menino". Não há muitas referências de lugar ou de tempo. A fome é como um terceiro personagem, constantemente presente. Quando eles encontram alguma coisa para comer, o leitor sabe que o alívio é apenas temporário, que a Fome estará de volta em questão de dias, horas. Há alguns momentos em que pai e filho conseguem viver com um pouco mais de dignidade e fartura. Em um abrigo subterrâneo eles encontram um verdadeiro tesouro, escovas de dente, sabonetes, lanternas e, principalmente, comida. Há grande ternura no modo como o pai prepara um banho quente (o primeiro em meses, talvez anos) para o garoto e lhe corta os cabelos. Os dois vivem naquele paraíso por alguns dias, mas sabemos que eles não podem ficar ali por muito tempo. McCarthy cria um mundo cruel, em que os poucos sobreviventes são canibais, constantemente procurando por carne humana; resta a pai e filho permaneceram em movimento contínuo. O que eles encontram em outro porão, escuro, úmido e mal cheiroso, é prova disso.

"The Road" ganhou o Prêmio Pulitzer de ficção em 2007, além de inúmeros outros prêmios, e foi transformado em um bom filme de John Hillcoat em 2009.

O livro pode ser lido em inglês, em PDF, aqui.

Câmera Escura

quarta-feira, 27 de março de 2013

Guerra dos Mundos, o livro e as diferentes versões

Capa da edição original. fonte: Wikipedia

"The War of the Worlds" (Guerra dos Mundos) é um livro de ficção científica escrito por H.G. Wells em 1898 na Inglaterra. Já havia visto duas adaptações cinematográficas, a ótima de 1953 dirigida por Byron Haskins e produzida por George Pal e a versão que Steven Spielberg fez em 2005 com Tom Cruise, mas nunca havia lido o livro, até agora.  Foi uma experiência muito interessante por dois motivos; um pelo conteúdo, outro pelo meio pelo qual li; foi meu primeiro ebook, lido metade em um e-reader para Windows Phone chamado "Freda" e a segunda metade li do em um "Kobo Glo", o e-reader canadense que a Livraria Cultura trouxe ao Brasil.

O livro é muito interessante, ainda mais quando se pensa na data em que foi escrito. Leva um tempo, com todas aquelas imagens de filmes de ficção-científica americanos dos anos 50 na cabeça, com seus soldados, jipes, tanques de guerra etc, para embarcar no planeta Terra do final do século 19. Quando Wells descreve soldados chegando, temos que imaginá-los vindo a cavalo, pilotando charretes ou puxando grandes canhões. Da mesma forma, a cidade de Londres, descrita por Wells como tendo 6 milhões de habitantes, deve ser imaginada no século 19, sem carros nas ruas etc. A diferença de tecnologia entre os invasores Marcianos e o povo da Terra fica ainda maior quando imaginamos as armas e artefatos humanos há mais de 100 anos. 

"Guerra dos Mundos", filme de 1953
A trama é narrada em primeira pessoa por um escritor que nunca é nomeado e que, por coincidência, sorte ou vontade do autor, é testemunha da maior parte dos eventos desde a descoberta de "jatos de gás" saindo da superfície do planeta Marte (que se encontra na aproximação máxima da Terra) até a queda de "cilindros" nos arredores de Londres, Inglaterra, de onde saem os Marcianos. A descrição das criaturas, a meu ver, não é muito boa, ficando difícil visualizá-los. Wells os descreve como "grandes cabeças, com olhos enormes, uma boca em forma de V e tentáculos". Estas criaturas estranhas se tornam poderosas ao construírem "Tripods" gigantes que andam pela paisagem inglesa destruindo tudo com "raios de calor" e uma fumaça tóxica que mata quem a respira. A versão de Spielberg, apesar de passada na época contemporânea, também equipa os Marcianos com estes veículos, enquanto que na versão dos anos 50 eles usavam naves flutuantes, uma espécie de discos voadores.

A narração de Wells é bem interessante e o leitor vai reconhecer vários dos "clichês" de filmes de invasão por extraterrestres feitos em Hollywood no próximo século. A lentidão e tranquilidade com que se narra a queda do primeiro cilindro, a curiosidade causada nas pessoas, que vão se aproximando; o cilindro que se abre lentamente, revelando as criaturas que saem de dentro até que o cenário aparentemente pacífico se transforma em um campo de batalha. Os Marcianos de Wells usam um "Raio de Calor" para explodir ou queimar imediatamente pessoas, casas, peças de artilharia, etc. Quando um dos marcianos é derrubado por um canhão, eles passam a usar uma "Fumaça Negra" que, como um líquido, vai se espalhando pelas ruas das cidades e matando a todos por envenenamento. Vale lembrar novamente que estamos em uma época pré Primeira Guerra Mundial, mas algumas das descrições de Londres destruída pelos Marcianos lembram cenas que aconteceriam só meio século depois, quando os nazistas bombardearam a cidade na II Guerra Mundial.

A versão de 2005, de Steven Spielberg
O livro é dividido em duas partes, "A chegada dos Marcianos" e "A Terra sob os Marcianos". Há muito poucos diálogos entre os personagens, sendo que quase toda a trama é narrada pelo escritor segundo os fatos que ele "testemunhou" ou escutou de outras pessoas, como um irmão que mora em Londres. O narrador (e as multidões inglesas) estão em constante movimento, fugindo dos invasores, mas há dois momentos de pausa; um quando o narrador, na companhia de um pároco, fica 15 dias preso em uma casa cercada de Marcianos, quando ele testemunha, horrorizado, que eles se alimentam de sangue humano. A outra pausa é quando ele encontra um soldado que tem planos mirabolantes de comandar a "resistência" dos seres humanos contra os invasores. O militar tem um longo monólogo em que descreve a apatia humana e sobre como muitos seriam "cultivados" pelos Marcianos e usados como comida ou mesmo como bichos de estimação. Wells traça paralelos interessantes entre a superioridade marciana e nós e a relação de poder que existe na Terra entre humanos e animais. Há também uma relação entre a alegoria de Wells e temas como Darwinismo e Colonialismo.

Por fim (SPOILERS?), os Marcianos, aparentemente indestrutíveis, são vítimas das bactérias terrestres, para as quais não são imunes, e acabam morrendo depois de terem destruído grande parte de Londres e, aparentemente, vários outros locais do globo. Vale também lembrar a versão para rádio produzida por ninguém menos que Orson Welles (que tem o nome parecido com o do autor) em 1938, já um garoto prodígio do Teatro e que em breve dirigiria "Cidadão Kane" (1941). A versão de Welles, narrada como se fosse um jornal ao vivo, causou pânico em diversas regiões dos Estados Unidos, pois o público acreditou se tratar de uma invasão real.

domingo, 11 de julho de 2010

In Cold Blood - O livro e suas adaptações cinematográficas

O livro

"In Cold Blood - A True Account of a Multiple Murder and Its Consequences" escrito por Truman Capote, foi publicado pela primeira vez na revista The New Yorker, ao longo de quatro edições, em 1965, e em seguida na forma de livro. Apesar de não ter sido o primeiro do gênero "jornalismo literário", é certamente um marco. Exemplos anteriores podem ser vistos nos trabalhos do inglês Daniel Dafoe ou do brasileiro Euclides da Cunha (em "Os Sertões"). Capote, que tinha um ego tão grande quanto seu talento, no entanto, gostava de dizer que havia criado o gênero do "livro de não-ficção". Controvérsias à parte, o livro é realmente brilhante.

Em 15 de novembro de 1959, dois ladrões comuns, Richard Hickcock e Perry Smith entraram na casa de uma tradicional família metodista em Holcomb, Kansas, atrás de dinheiro. Hickcock achava que havia um cofre com 10 mil dólares no escritório de Herbert Clutter, o dono da casa, por causa de informações passadas por um ex-companheiro de cela, Floyd Wells. Quando Hickock e Smith descobriram que não havia dinheiro na casa, eles amarraram Clutter, sua esposa, seu filho e sua filha e, a sangue frio, deram um tiro de espingarda na cabeça de cada um. O dono da casa, além do tiro, teve a garganta cortada por Smith que, em sua confissão, depois, diria que achava que Clutter era um bom homem, até o momento em que cortou sua garganta.

Truman Capote leu uma nota a respeito do caso em 16 de novembro, no The New York Times, e foi investigar o caso. O que começou como um estudo sobre como o crime afetaria a vida de uma cidade pequena se transformou em um projeto que consumiu quase seis anos da vida de Capote e o levou a milhares de páginas de pesquisa e entrevistar centenas de pessoas, inclusive os dois assassinos, de quem se tornou confidente. O livro é dividido em quatro capítulos: 1- The Last to see Them Alive (Os últimos a vê-los com vida), 2- Persons Unknown (Pessoas desconhecidas), 3 - Answer (A Resposta) e 4 - The Corner (A forca). Usando de uma prosa fluente e detalhada, Capote começa por descrever a pequena vila de Holcomb, parte da cidade de Garden City, do distrito de Finney. Área agrícola, de produção de trigo e criação de gado, a população do povoado é formada pelo típico "caipira americano", religioso (de várias congregações protestantes), tradicional, com grandes famílias. Os Clutter são descritos de forma a torná-los humanos para o leitor e nos acostumar a seu modo de vida e rotina. Capote não os descreve simplesmente, mas recria diálogos e até os pensamentos das vítimas em seu último dia de vida. Há certa idealização na forma como os Clutter são descritos como exemplos de bons americanos e cidadãos ativos da comunidade. O patriarca Herb é daqueles americanos que se fizeram do nada, tranformando uma área de Kansas em uma terra fértil em que empregava até 18 pessoas com bons salários. A filha Nancy era aluna exemplar que ajudava as companheiras de escola com aulas de música e culinária. O filho Kennyon, de 15 anos, era alto como o pai, também aluno exemplar e com boas habilidades manuais. A mãe é mostrada como uma mulher depressiva, com problemas mentais que talvez tivessem origem física, devido a um problema na coluna, que estava agendada para ser operada. A típica família WASP (branca, anglo-saxã e protestante) americana.

Os assassinos, Hickock e Smith, vieram do outro espectro desta sociedade. Hickock também era o típico caipira, com 28 anos e o ensino médio, mas desiludido com o "sonho americano". Casou-se aos 16 anos, teve três filhos, se divorciou, casou-se de novo e foi preso por uma série de pequenos furtos e por passar cheques sem fundo. Perry Smith é um caso mais complicado. Descendente de índios, o pai e a mãe tinham um show de rodeio e levavam a família em uma vida nômade pelos Estados Unidos. Eles se separaram, a mãe levou os filhos para São Francisco, teve casos com vários homens e literalmente bebeu até morrer. O irmão mais velho de Perry matou a esposa por ciúmes e se matou em seguida. Uma irmã também se matou se jogando da janela de um prédio em São Francisco. A irmã sobrevivente foi a única a ter uma vida "normal", se casando e tentando se manter o mais longe possível do irmão mais novo. Perry Smith viajou com o pai para o Alaska, entrou para o exército, esteve no Japão e na Guerra da Coréia, antes de voltar aos Estados Unidos. Ficou quase aleijado em um acidente de moto e foi parar na prisão por roubo.

É impressionante o modo como Capote narra este encontro violento entre a vida ideal dos Clutter e estes dois párias da sociedade americana. Interessante também como ele consegue manter o suspense da narrativa, mesmo que saibamos, desde o princípio, o destino dos Clutter e quem os matou. Ele mantém a violenta descrição da noite do crime mais para o final do livro, de modo que o leitor fica ansioso para saber como crime foi cometido. O próprio Capote, curiosamente, é "invisível" durante o livro. Sabemos que ele estava presente a várias das cenas descritas e que foi testemunha dos diálogos, extremamente realistas, que "escutamos". Apesar do título de "história real", o livro gerou muita controvérsia sobre sua veracidade após a publicação. Este artigo da internet questiona até que ponto Capote não romanceou certas situações, misturou personagens ou mudou a cronologia para ajudar na narrativa. Por vezes, é verdade, é como se Capote estivesse dentro da cabeça dos personagens. Há também um tom homossexual subentendido na relação de Hickock e Smith (principalmente neste último), que não é explicitado pelo autor. De qualquer forma, tudo termina em 1965 quando, também de forma violenta, os dois condenados são enforcados na penitenciária de Kansas. Um deles, Hickock, levou vinte minutos para ser considerado morto pelo médico legista.

Os filmes

"In Cold Blood" ganhou uma versão cinematográfica em 1967, um ano após a publicação do livro. Dirigido por Richard Brooks, em preto e branco (com fotografia do mestre Conrad Hall), foi indicado a vários Oscars. Os atores Robert Blake e Scott Wilson interpretam Perry Smith e Dick Hickcock, e o filme é bastante fiel ao livro, com um estilo de câmera por vezes televisivo, com farto uso de lentes zoom e montagem criativa, ligando um plano ao próximo, por similaridade. A cena final, da execução de Perrry, seguida do título "In cold blood", letras brancas em fundo preto, dá a impressão de que o enforcamento, assim como os assassinatos, também foi feito "a sangue frio", em clara crítica à pena de morte. O filme está fora de catálogo no Brasil, mas pode ser encontrado para baixar pela internet.


Já "Capote", de 2005, dirigido por Bennet Miller, tira o foco dos assassinatos e o coloca na figura controversa do próprio escritor. Truman Capote já era uma figura conhecida por seus livros e seu envolvimento com Hollywood (ele havia escrito o roteiro de "O Diabo Riu por Último", de John Huston, com Humphrey Bogart, em 1953, e teve vários livros transformados em filme) quando foi investigar o caso Clutter. Homossexual, excêntrico, ele era um peixe fora d´água no povoado de Holcomb, onde foi pesquisar os crimes com sua amiga, a escritora Harper Lee (interpretada por Catherine Keener). Capote foi interpretado fielmente por Philip Seymour Hoffman, que se transformou para encarnar o escritor e foi premiado com o Oscar de Melhor Ator pelo trabalho. O filme mostra os bastidores da criação do livro e o envolvimento, por vezes perigoso, de Capote com os acontecimentos. Ele fica fascinado principalmente pela figura trágica de Perry Smith (Clifton Collins Jr), com quem se identifica. A situação se complica porque, por um lado, Capote quer ajudar Perry Smith a arrumar novos advogados e tentar reverter sua sentença. Por outro lado, ele não consegue terminar seu livro enquanto o Estado do Kansas não enforcar os condenados. A cada vez que a execução é adiada pela apelação dos advogados, Capote fica cada vez mais desesperado. Lendo o livro, é possível sentir a ansiedade do escritor no último capitulo, que lida com os longos cinco anos em que Hickock e Smith ficaram no corredor da morte. Capote, tão detalhado e descritivo durante o decorrer do livro, neste capítulo tem que recorrer a frases como "Dois anos se passaram", e assim por diante. No filme, é com sentimentos mistos que Capote finalmente assiste à execução de Perry e Hickock. A sensação de não ter feito mais por Perry assombra sua consciência. Mas há o alívio de poder finalmente terminar o livro e tentar esquecer todo o caso.
Truman Capote, o verdadeiro, morreu em 1984, aos 60 anos, de problemas no fígado.

Livro lido da edição da Penguin Classics, original em inglês, de 336 páginas. No Brasil, o livro "A Sangue Frio" é publicado pela Companhia das Letras, com tradução de Sérgio Flaksman, 440 páginas, e pode ser encontrado nas principais livrarias.


terça-feira, 15 de setembro de 2009

O Clube do Filme

O escritor canadense David Gilmour (não confundir com o guitarrista do Pink Floyd, de mesmo nome) estava tendo problemas com o filho adolescente. Jesse, de 16 anos, mostrava total desinteresse pela escola. Um “garoto” de um metro e oitenta de altura, ele faltava às aulas para ir ao cinema, para namorar ou sair com os amigos. Mas, apesar de inteligente e entusiasmado, não encontrava motivação para aguentar a rotina escolar diária.

O pai, em um momento de desespero, lhe fez uma “proposta indecente”: ele gostaria de abandonar a escola? Jesse não pensou duas vezes e aceitou mais rápido do que seu pai gostaria. Mas havia algumas regras: Jesse não poderia se envolver com drogas em hipótese alguma e teria de assistir a três filmes por semana com o pai. Esta é a trama básica de “O Clube do Filme”, livro lançado no Brasil pela Editora Intrínseca após grande sucesso lá fora. Não é um trabalho de ficção. Gilmour, que é roteirista, escritor e crítico de cinema, conta de forma apaixonada, mas leve, como foi este tempo que teve perto do filho adolescente, um luxo que poucos pais têm hoje em dia.

A seleção de filmes (a lista chega a 113 obras) é bem eclética. Filmes clássicos como “Cidadão Kane” ou “Casablanca” são intercalados com mais recentes como “Instinto Selvagem”. Havia os filmes da nouvelle vague francesa, em que a cena final de “Os Incompreendidos”, de François Truffaut, serve de paralelo com a situação de Jesse; suspenses de Alfred Hitchcock (como “Intriga Internacional”, “Os Pássaros” e “Psicose”); comédias e dramas de Woody Allen (“Crimes e Pecados”, “Manhattan”, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”); uma série de filmes de terror para tentar fazer Jesse se esquecer de uma namorada (“O Exorcista”, “O Massacre da Serra Elétrica”, “O Iluminado”). Havia também sessões em que Gilmour escolhia um tema, como “O talento aflora”, e mostrava filmes em que algum desconhecido se destacava, como Samuel L. Jackson em “Febre na Selva”, de Spike Lee, ou Sean Penn em “Picardias Estudantis”, de Amy Heckerling, Audrey Hepburn em “A Princesa e o Plebeu”, de William Wyler ou o enorme talento que um jovem diretor chamado Steven Spielberg mostrou em seu primeiro filme, “Encurralado”.

A linguagem é simples e fluente. Gilmour não só conta os problemas do filho como os próprios. Desempregado por um longo período, um psicólogo provavelmente diria que ele resolveu tirar o filho da escola para lhe fazer companhia. É interessante também notar as semelhanças entre as “falhas” do pai refletindo no filho, como um gosto exagerado pela bebida e, sim, certa irresponsabilidade em lidar com algumas situações. O livro também é um retrato do quão difícil é ser um homem adolescente tendo que lidar com uma série de desilusões amorosas. Uma “personagem” recorrente é uma garota chamada Rebbeca (nome que, provavelmente, Gilmour usou em homenagem ao grande filme de Hitchcock). Ela é estonteante, e sabe disso, e usa o charme para fazer um jogo de sedução com Jesse que dura meses.

Em vários momentos acompanhamos as dúvidas do pai em relação ao tipo de educação que está dando ao filho. Inevitavelmente ele acaba se envolvendo com drogas, principalmente após desilusões amorosas, e em dado momento Jesse confronta o pai sobre o que ele acha ser uma “influencia excessiva” sobre ele. “O Clube do Filme” é uma leitura gostosa e cheia de citações cinematográficas, por vezes profundas, em outras superficiais, mas sempre interessante e divertido.