O Espião Inglês (The Courier, 2020). Dir: Dominic Cooke. Amazon Prime. Bom filme de espionagem baseado na história real de um vendedor chamado Greville Wynne (Benedict Cumberbatch). Ele era um inglês que vendia peças para máquinas em países do leste europeu nos anos 1950 e 1960. Um dia ele é convidado para almoçar com um agente do MI-6 (Angus Wright) e uma agente da CIA (Rachel Brosnahan). Eles querem que o personagem de Cumberbatch comece uma "transação comercial" em Moscou com um homem chamado Oleg Penkovsky (Merab Ninidze); ele é um coronel soviético do alto escalão que, preocupado com as manobras do premier Nikita Kruschev com armas nucleares, decide compartilhar informações com o Ocidente. Segundo ele, o premier soviético quer provocar os americanos a começar uma guerra nuclear.
O vendedor interpretado por Cumberbatch não é um espião, mas é um vendedor com muita lábia; apesar do perigo, ele consegue se aproximar de Penkovsky e começa a trazer de Moscou fotos e documentos secretos. É um filme de espionagem à moda antiga, com os soviéticos cumprindo seu papel de vilões, embora os americanos não sejam vistos como os bonzinhos de sempre (a agente da CIA interpretada por Rachel Brosnahan é muito manipuladora).
Além da trama de espionagem, há também o lado humano dos personagens. O coronel soviético é interpretado por um ótimo ator russo chamado Merab Ninidze e seu personagem cria uma grande amizade com o vendedor britânico. Há também cenas mostrando as famílias dos dois espiões (Jessie Buckley interpreta a esposa de Cumberbatch) e como o trabalho os afeta. É um bom filme, que lembra um pouco "Ponte dos Espiões", de Steven Spielberg. Disponível na Amazon Prime.
Estranho Passageiro - Sputnik (2020). Dir: Egor Abramenko. Netflix. Ficção científica russa com charme de filme B, "Sputnik" tem mais a ver com "Vida" (Life, 2017), do que com "Alien" (1979), mas bebe da mesma fonte. Passado em 1983, em plena Guerra Fria, a trama começa com dois astronautas soviéticos em órbita, se preparando para voltar para casa. Eles então percebem que "alguma coisa" está fora da nave, tentando entrar. Corta para uma base soviética, algum tempo depois; uma cientista chamada Tatiana (Oksana Akinshina) é chamada por um coronel para examinar um dos astronautas, Konstantin (Pyotr Fyodorov). Ele é o único sobrevivente daquele voo e carrega consigo algo assustador; um alien está alojado dentro do corpo dele, e sai todas as noites pela boca para explorar em volta. O design do alien é apropriadamente assustador, com longos braços e vários olhos, como uma aranha.
E é basicamente isso. O resto do filme é um embate entre a cientista, que quer salvar a vida do astronauta, e do coronel, que quer transformar o alien em algum tipo de arma. Há alguns segredos desagradáveis que o coronel não contou à cientista, que rendem as cenas mais violentas do filme. Há também uma discussão leve sobre o papel de pais e filhos (o astronauta teria largado um filho ilegítimo em um orfanato) e sobre a ligação simbiótica entre o alien e o astronauta. O filme é escuro e passa o visual utilitário (e analógico) de uma base soviética na Guerra Fria. A primeira parte é melhor que a segunda, mas é um filme interessante. Tá na Netflix.
Vencedor do prêmio de público na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2009, só agora "O Último Dançarino de Mao" chega a Campinas. O filme tem produção australiana e conta história real do dançarino chinês Li Cunxin (Chi Cao) que, nos anos 80, abandonou a República Popular da China para viver nos Estados Unidos.
Dirigido por Bruce Beresford ("Conduzindo Miss Daisy", 1989), o filme começa com a chegada de Li a Houston no início dos anos 80 e conta sua história através de flashbacks. Sexto filho de uma família de sete crianças, Li era um "filho da revolução" comunista de Mao Tsé Tung (1893-1976). Ele vivia com a família no interior rural da China quando foi recrutado por Pequim para ser treinado como dançarino. Lá ele foi alfabetizado e tinha uma alimentação melhor que a da família; em troca, passou anos treinando balé clássico. Sua grande chance aconteceu com a visita cultural de membros do Balé de Houston, chefiados por Ben Stevenson (Bruce Greenwood), que gostou de Li e conseguiu uma autorização para que o chinês passasse três meses nos Estados Unidos. Em plena Guerra Fria, Li cresceu acreditando que os Estados Unidos eram a terra da perdição. Há uma cena em que ele recusa as roupas compradas por Stevenson dizendo que o pai ganhava 50 dólares por ano, enquanto que Stevenson havia gasto 500 dólares em uma tarde.
Claro que também há pobres e miseráveis nos Estados Unidos, mas alguém com o talento de Li poderia fazer muito sucesso e, de fato, é o que acontece. Ele conquista a simpatia das platéias de Houston e se apaixona por uma bailarina chamada Elizabeth (Amanda Schull). Terminados os três meses, Li decide ficar nos Estados Unidos e, auxiliado por um advogado (Kyle MacLachlan), se casa com Elizabeth, causando um incidente internacional. Após ser mantido contra a força na Embaixada da China, Li recebe autorização para ficar nos EUA, desde que nunca mais retorne ao país natal ou veja sua família. Considerando que em pleno século XXI um país como Cuba ainda proíbe cidadãos de deixarem seu território sem autorização (como aconteceu recentemente com a blogueira Yoani Sánchez), é de se imaginar as dificuldades durante a Guerra Fria.
Apesar de alguns momentos melodramáticos, o filme tem boa fotografia de Peter James e bons números de dança (há encenações de "O Lago dos Cisnes" e "Sagração da Primavera", entre outros). O dançarino Chi Cao, se não é um grande ator, é certamente um ótimo dançarino (é membro da companhia britânica Birmingham Royal Ballet) e Bruce Greenwood está à vontade como Ben Stevenson. A Guerra Fria causou grande impacto tanto no mundo das artes quanto dos esportes (com sucessivos boicotes aos Jogos Olímpicos tanto por parte dos americanos quanto do bloco soviético). A mensagem que fica é que, no fundo, o que importa é o talentos humano, independente da política.
Meryl Streep está bem, como sempre, interpretando a Primeira Ministra britânica Margaret Thatcher. O filme sobre Thatcher, no entanto, é sofrível. Dirigido por Phyllida Lloyd (que já havia trabalhado com Streep antes no musical "Mamma Mia"), "A Dama de Ferro" é uma confusa montagem de três elementos: 1) a representação fictícia de um momento na velhice de Thatcher quando, senil e tendo alucinações com o marido morto, ela recorda sua vida; 2) cenas de arquivo tiradas da televisão mostrando multidões protestando em uma Inglaterra decadente e 3) a cinebiografia propriamente dita da filha do dono de uma mercearia que chegou ao governo de uma das nações mais poderosas do mundo entre 1979 e 1990.
A mescla destes três elementos é feita de forma quase aleatória e, o que é pior, com um peso muito grande nas cenas que representam a velhice de Thatcher. Grande parte do filme se dedica a mostrar Streep coberta por uma pesada maquiagem que a envelhece e em acompanhá-la por seu apartamento, andando de um cômodo a outro na companhia do "fantasma" do marido, Denis (interpretado por outro grande ator desperdiçado, Jim Broadbent). Thatcher conversa com o marido como se ele estivesse vivo, escuta seus conselhos e lhe diz como se vestir enquanto ignora os empregados da casa que, vivos, não sabem o que fazer com ela. Entre uma conversa com o marido e outra, Thatcher relembra cenas da própria vida, e o filme parte para flashbacks que mostram como a jovem Margaret Roberts (interpretada quando moça por Alexandra Roach) idolatrava o pai que tinha idéias conservadoras. A jovem é aceita na renomada Universidade de Oxford e, em 1959, entra para o parlamento. Thatcher se tornaria a primeira mulher a liderar o Partido Conservador e a ser eleita Primeira Ministra em 1979, época em que a Inglaterra se via às voltas com problemas trabalhistas e com atentados do grupo separatista irlandês IRA.
Ao contrário do filme "A Rainha", que contrabalançava a personagem da Rainha Elisabeth (interpretada por Helen Mirren) com cenas do Primeiro Ministro Tony Blair e ainda falava sobre a morte da Princesa Diana, "A Dama de Ferro" trata apenas da personagem convervadora, durona e intransigente que era Margaret Thatcher, e não sabe o que fazer com ela. Todas as tentantivas de humanizar Thatcher se dão durante as cenas em que ela está tendo alucinações com o marido, o que acaba por tirar a importância das passagens históricas que são tratadas de forma superficial e, em grande parte, usando material de arquivo. O único acontecimento real que é retratado de forma um pouco mais aprofundada é a absurda Guerra das Malvinas, travada entre a Inglaterra e a Argentina em 1982. Ainda assim, o filme cita apenas vagamente o uso político que Thatcher fez da guerra, que resultou na morte de centenas de soldados argentinos e britânicos e ajudou a Dama de Ferro a vencer as eleições de 1983. É de se perguntar o porquê deste filme ser lançado justamente no aniversário de 30 anos do conflito.
"A Dama de Ferro", confuso e sem direção, falha tanto como cinebiografia quanto como denúncia de uma das figuras mais importantes (para o bem e para o mal) do século XX. Resta apenas tecer elogios retóricos à interpretação de Meryl Streep, indicada pela 17ª vez ao Oscar (que, provavelmente, será ganho por Viola Davis por "Histórias Cruzadas"). Mesmo assim, o filme mostra Thatcher de forma tão caricatural que nem Streep consegue salvá-lo.
Nem James Bond ou Ethan Hunt podem ser vistos no ambiente esfumaçado da central de Inteligência britânica. No lugar de agentes impecáveis e de boa aparência, o que se vê são homens gastos pelo tempo, cheios de rugas e desconfiados da própria sombra. Este é o mundo da espionagem mostrado em "O Espião que Sabia Demais", baseado em livro do escritor John Le Carre. São os anos 70, na Inglaterra, em plena Guerra Fria. Uma série de vazamentos de informações sugerem que há um traidor dentro do serviço secreto inglês, alguém da alta cúpula. Após uma operação desastrosa em Budapeste, em que um agente britânico é baleado e aparentemente morto, o Primeiro Ministro pede a cabeça de Control (John Hurt), o chefe de operações do serviço secreto, e de seu principal aliado, o agente George Smiley (Gary Oldman). Control morre misteriosamente em seguida, e Smiley é chamado pelo Primeiro Ministro para investigar, agora de fora das operações, os principais agentes britânicos na ativa, todos suspeitos de serem o traidor. São eles Bill Haydon (Colin Firth, de "O Discurso do Rei"), Roy Bland (Ciáran Hinds), Percy Alleline (Toby Jones) e Toby Esterhase (David Dancik).
Dirigido com extrema competência por Tomas Alfredson (diretor sueco conhecido por "Deixe ela entrar", 2008), "O Espião que Sabia Demais" é um ótimo thriller de espionagem. A trama é apropriadamente complicada, deixando a maioria dos espectadores menos atentos perdida. Este não é um filme de perseguições em alta velocidade ou tiroteios como em uma aventura de Jason Bourne; é uma obra lenta, lapidada cena a cena e lidando com um mundo em que a desconfiança faz parte do dia-a-dia. Gary Oldman, 54 anos, foi envelhecido para o papel e está extremamente comedido, diferentemente de seus papéis habituais. George Smiley é um enigma. É gentil e calmo em suas investigações; é o tipo de pessoa a quem os outros sabem que podem confiar um segredo, e a trama se desenrola através de várias narrações e flashbacks. A recriação de época é precisa e o espectador se encontra em um mundo diferente do de hoje. Um mundo em que pessoas mais velhas tomavam as decisões (certas ou erradas), um mundo essencialmente masculino. Há apenas um papel feminino de mais destaque, Irina (Svetlana Khodchenkova), que é a esposa de um possível desertor russo. As outras mulheres são vistas de passagem; são secretárias, funcionárias, esposas, amantes, e a mulher de um dos agentes acaba tendo uma importância surpreendente na trama, apesar de quase nem ser vista.
A fotografia é do suíço Hoyte Van Hoytema (que também fotografou "O Vencedor", 2010), em tela larga que mostra locações em Londres, Budapeste e Istambul. A trilha é do preferido de Almodóvar, Alberto Iglesias. Um filme cheio de nuances e de pequenas pistas deixadas pelo roteiro complicado de Bridget O´Connor e Peter Straughan, que não perdoa espectadores desatentos. "O Espião que Sabia Demais" é bom cinema, com destaque para o elenco acima da média.
A série de filmes "X-Men" começou em 2000 em filme dirigido por Bryan Singer. A produção já mostrava que os estúdios Marvel estavam falando sério ao transpor o universo de mutantes dos quadrinhos para o cinema. O elenco, em especial, chamava a atenção. Patrick Stewart (que já havia sido o capitão Jean-Luc Piccard na série Star Trek: A Nova Geração) interpretava o mentor dos mutantes "do bem", Charles Xavier, e Ian McKellen era Magneto, o chefe dos mutantes "do mal". Hugh Jackman era o carismático Wolverine e atores e atrizes como Famke Janssem, Halle Berry, James Marsden, Brian Cox, entre outros, completavam o time. "X-Men 2" (2003) era melhor que o primeiro e avançava na metáfora de racismo e homofobia que os mutantes claramente representavam. A série ainda contou com "X-Men 3" (dirigido por Brett Ratner), que era mais do mesmo, e com um filme feito sobre Wolverine (2009), que era particularmente ruim.
"X-Men: Primeira Classe" embarca na nova fórmula descoberta por Hollywood para explorar suas "franquias", as "prequels". Ao contrário de uma "sequel" (continuação), a "prequel" é um filme que mostra eventos anteriores às histórias originais. Pelo lado bom, é uma forma de mostrar a origem dos personagens e, quando bem feito, de melhor aprofundá-los. Pelo lado ruim (como foi o caso de "Wolverine"), pode ser apenas um caça-níqueis que se aproveita dos filmes originais para se promover, além de um elenco novo, e mais barato, para o estúdio explorar. "Primeira Classe" está em um estágio intermediário entre estas duas possibilidades. Apesar de se propor a mostrar a origem dos "X-Men" como um todo, o filme está claramente focado no personagem de Erik Lehnsherr, o Magneto, interpretado pelo alemão Michael Fassbender. Sua história é contada desde 1943, quando Erik era um garoto judeu que é separado da mãe pelos nazistas. A cena, aliás, já havia sido mostrada em flashbacks dos filmes anteriores, mas a situação é estendida. O pequeno Erik, quando está com raiva, mostra ser capaz de atrair e mover objetos de metal, o que atrai a atenção de Sebastian Shaw, um nazista interpretado por Kevin Bacon. A cena em que Shaw mata a mãe de Erik retrata bem os problemas de "Primeira Classe". A boa carga emocional é atrapalhada por erros ridículos (a fúria de Erik destrói todo um laboratório, mas não quebra paredes de vidro, por exemplo). Esta combinação de seriedade com amadorismo permeia todo o filme (dirigido por Matthew Vaughn, de "Kick-Ass").
Da II Guerra Mundial, a trama pula para os anos 60 e para a "Crise dos Mísseis" entre a antiga União Soviética e os Estados Unidos. Shaw, que se tornou um vilão mais ao estilo de James Bond, quer destruir todos os humanos "normais" em uma guerra nuclear entre as duas superpotências. Charles Xavier (o bom James McAvoy) é um estudioso de genética da Universidade de Oxford que é contratado pela CIA para combater os comunistas e, de quebra, encontrar e recrutar a nova raça de mutantes que está surgindo no planeta. "Primeira Classe" é muito bom quando foca na relação complicada entre Xavier e Magneto. Os dois têm inteligência acima da média e vários pontos em comum, mas são separados pela grande mágoa e sede de vingança carregadas por Erik. O filme é ruim, quase patético, no recrutamento e seleção dos outros mutantes, todos jovens, e na infeliz composição do vilão criado por Kevin Bacon; Sebastian Shaw (que, com o auxílio de outro mutante poderia ir de um ponto a outro do planeta) passa grande parte do filme navegando em um submarino que, vale repetir, parece vir diretamente de um filme de James Bond, com grandes salas decoradas e garotas mutantes em trajes mínimos. A "vida real", representada pela Crise dos Mísseis, Cuba, o Presidente Kennedy, etc, é misturada com a trama dos mutantes com resultados que variam, novamente, do ótimo ao patético, culminando com uma batalha final espetacular e absurda (que conta com a presença do ator Michael Ironside em uma ponta).
"X-Men: Primeira Classe", apesar de interessante, é bastante irregular. As inevitáveis continuações, talvez, acertem o passo.
Outro dia falei aqui de "Leões e Cordeiros", de Robert Redford, e mencionei que lembrava algum episódio de "The West Wing", de Aaron Sorkin. Pois é, "Jogos de Poder" é um Sorkin "legítimo" e conta com uma equipe impressionante. O filme conta a história real de um congressista americano chamado Charlie Wilson (Tom Hanks), um mulherengo que dividia seu tempo entre o congresso em Washington e bordéis em Las Vegas, cercado de "strippers" e cocaína. Apesar deste caráter duvidoso, o filme mostra como Wilson, auxiliado por uma socialite de Houston (Julia Roberts) e um agente excêntrico da CIA (Philip Seymour Hoffman, excelente), ajudou a terminar com a Guerra Fria. Nos anos 80 a antiga União Soviética invadiu o Afeganistão e estava massacrando a população local com helicópteros e armamento pesado. A CIA tinha um orçamento anual de apenas 5 milhões de dólares para "operações especiais" (leia-se espionagem e sabotagem) no país. Wilson se interessa pela situação e pede para dobrar este orçamento, o que atrai a atenção de Joanne Herring (Julia Roberts), a 6a. mulher mais rica do Texas, que "encontrou Jesus" e quer tirar os comunistas do Afeganistão. Apesar de "religiosa", Joanne se envolve sexualmente com o mulherengo Wilson desde a primeira "reunião", e ambos decidem procurar ajuda para resolver o conflito no oriente. Usando os contatos de Joanne e contando com a ajuda do agente da CIA Gust Avrakotos, Wilson elabora um plano de fornecer armamento russo para os rebeldes afegãos contando com a ajuda de inimigos históricos como Israel e a Palestina. O armamento não pode ser americano porque, oficialmente, os Estados Unidos não estavam envolvidos no conflito. Extra-oficialmente, porém, os EUA elevaram cada vez mais o orçamento das operações secretas da CIA, chegando de 5 milhões anuais para até um bilhão de dólares. Com todo esse dinheiro, treinamento e armamento anti-helicópteros, os rebeldes afegãos conseguiram derrotar a União Soviética, que acabou ruindo alguns anos depois. A ironia é que estes afegãos, treinados pelos americanos, iriam se tornar o Taliban.
O filme é dirigido pelo grande Mike Nichols (A primeira noite de um Homem, Closer) e escrito por Aaron Sorkin, roteirista "queridinho" da TV americana que criou e escreveu as séries "Sports Night" (ótima série, mas pouco vista), "The West Wing" e "Studio 60 on the Sunset Strip". Sorkin é conhecido por seus diálogos rápidos e inteligentes ("The West Wing" é provavelmente a série com mais diálogos da história da televisão). "Jogos do Poder" é cheio destes diálogos, mas o filme não é tão bom quanto poderia ser. Achei ele um pouco confuso com o que está realmente tentando passar. A trama é muito focada na ação "heróica" de Wilson e seus companheiros em ajudar os afegãos a derrotar a União Soviética. Quando isso acontece, o filme perde a oportunidade de ser realmente polêmico e mostrar o que aconteceu depois. Sim, nós sabemos que aqueles heróis rebeldes acabaram se tornando os terroristas que os próprios americanos estão caçando hoje, mas por que não deixar isso mais explícito? Talvez o fato de haver tantos astros no filme (três vencedores do Oscar, Hanks, Roberts e Hoffman, fora o diretor Nichols) e o tom leve tenham impedido um aprofundamento maior nas causas e consequências do ocorrido. Fica uma sensação de que falta alguma coisa quando o filme termina, em uma cerimônia de premiação do governo americano para Charlie Wilson.
A direção de fotografia, a cargo de Stephen Goldblatt, é maravilhosa. E Philip Seymour Hoffman rouba todas as cenas. Impressionante comparar sua interpretação aqui como um agente bruto e boca suja, com seu retrato de Truman Capote, pelo qual ganhou o Oscar. Disponível em DVD.