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segunda-feira, 7 de novembro de 2022

The Looming Tower (2018)

 
The Looming Tower (2018). Criada por Dan Futterman, Alex Gibney e Lawrence Wright. Amazon Prime Video. Minissérie muito boa em dez capítulos que mostra os eventos que levaram aos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington. Há um bocado de informação nos episódios, mas a conclusão a que se chega é que milhares de pessoas morreram nos atentados mais pela incompetência americana do que pela organização da al-Qaeda, grupo terrorista liderado por Osama Bin-Laden.

Jeff Daniels interpreta um agente do FBI chamado John O´Neill; a história dele é tão bizarra que achei que ele tivesse sido inventado, mas ele realmente existiu. O´Neill tinha bom faro para descobrir terroristas mas não era muito com com a política interna americana. Arrogante e bonachão, ele tinha brigas constantes com um diretor da CIA responsável por uma unidade chamada "Alec Station", que investigava Osama Bin-Laden. Interpretado por Peter Sarsgaard, este diretor da CIA acreditava que o FBI não tinha direito às informações obtidas pela agência, que ele guardada a sete chaves. A minissérie mostra como a inteligência americana tinha conhecimento dos terroristas responsáveis pelo 11 de setembro meses ou mesmo anos antes dos atentados, mas escolheu não divulgar suas descobertas.

Outro personagem importante é o agente Ali Soufan (Tahar Rahim), uma americano-libanês que era dos poucos agentes do FBI que, na época, sabiam falar árabe. A série trata das ações da al-Qaeda que levaram a atentados no Quênia (a explosão da embaixada americana) e no Iêmen (quando explodiram um navio de guerra americano). Todos estes eventos, aparentemente isolados, eram peças de um quebra cabeças desconhecido pelos americanos, acostumados a guerrear com nações, e não com grupos independentes. A série mostra também como os americanos perdiam tempo e espaço da mídia se preocupando com histórias "escandalosas" como o o caso do Presidente Clinton com Monica Lewinsky enquanto que FBI e CIA tentavam descobrir ameaças ao país.

A chegada do Presidente Bush só complicou as coisas. A administração não dava importância aos avisos das agências e, pós 11 de setembro, estava mais interessada em culpar o Iraque de Saddan Hussein. É uma super produção filmada em vários países. Por vezes, as birras entre FBI e a CIA parecem exageradas, mas o capítulo 9 mostra um trecho real da investigação feita depois do atentado e vemos como a série reproduziu fielmente o depoimento absurdo de um diretor da CIA. A série é baseada em um livro de Lawrence Wright. Disponível na Amazon Prime Video.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Quanto Vale (Worth, 2021)

Quanto Vale (Worth, 2021). Dir: Sara Colangelo. Netflix. O filme vale pelas interpretações de Michael Keaton, Stanley Tucci e Amy Ryan. Baseado na história de real dos acontecimentos após os atentados de 11 de setembro de 2001, Keaton interpreta o advogado Ken Feinberg; ele foi o responsável por chefiar uma comissão que iria determinar o valor das indenizações que os sobreviventes e suas famílias receberiam do governo americano. A comissão foi criada, também, para evitar que milhares de pessoas abrissem processo contra as companhias aéreas usadas pelos terroristas para derrubar o World Trade Center, em Nova York, e atacar o Pentágono, em Washington.

As melhores cenas envolvem o embate entre Michael Keaton e Stanley Tucci (excelente), que interpreta Charles Wolf; ele havia perdido a esposa no WTC e criado um grupo civil independente que não concordava com os valores determinados pela comissão oficial. Quanto vale uma vida? O valor da indenização deveria ser igual a todos ou variar dependendo da riqueza (ou pobreza) da família da vítima? É possível colocar um valor financeiro da perda de um pai, marido, esposa ou filho? O personagem de Michael Keaton tenta ver tudo de forma racional e matemática enquanto que Stanley Tucci quer que as vítimas sejam vistas como seres humanos, e não números.

O filme não chega a responder direito a estas questões, mas, como disse, vale pelas interpretações. Amy Ryan (sócia de Michael Keaton na firma de advocacia), entrevista pessoalmente dezenas de vítimas e suas famílias e se envolve de forma mais pessoal com seus dramas. O tema ainda é atual. Os atentados completam 20 anos este mês e centenas de bombeiros ainda lutam para receber indenizações por doenças adquiridas durante as operações de salvamento. Tá na Netflix.


sábado, 14 de fevereiro de 2015

Sniper Americano

Independente de toda controvérsia gerada a respeito do protagonista deste filme, Chris Kyle, um sniper que teria matado oficialmente 160 pessoas (mais de 200 extra-oficialmente), a questão que fica é: "Sniper Americano" é um bom filme? A resposta é não. Clint Eastwood, que já fez o ótimos "Os Imperdoáveis" e "Sobre Meninos e Lobos", entrega um filme de guerra bastante convencional.

O inimigo iraquiano é sempre chamado de "selvagem" ou classificado como o "mal". Há um vilão caricato que é tão ruim que mata criancinhas com uma furadeira elétrica. Há incontáveis e repetitivas "DR" toda vez que o marido volta para a esposa chorona e solitária (Sienna Miller). Há balas voando em câmera lenta para o destino sangrento. Há aquela cena passada no cemitério, com salva de tiros, marcha fúnebre e bandeira americana sendo dobrada solenemente. Enfim, era de se esperar que Clint Eastwood pudesse fazer um filme de guerra sem seguir tantos clichês. "Guerra ao Terror", de Katherine Bigelow, fez muito melhor alguns anos atrás.

Chris Kyle é interpretado por Bradley Cooper, que apesar de estar muito bem dificilmente mereceria uma indicação ao Oscar (seu nome foi a surpresa entre os indicados a ator). Jake Gyllenhaal, não indicado, está muito melhor em "O Abutre". Kyle, personagem que realmente existiu e é considerado um herói nos Estados Unidos, é daqueles texanos típicos; machão, amante de armas e mulheres e que dizem em voz alta que os EUA são "o melhor país do mundo". Após os atentados de 11 de setembro de 2001 ele se vê na obrigação de defender seu país e se alista nos SEALS, o que gera outra onda de cenas clichês de recrutas sofrendo com um treinamento exaustivo. (leia mais abaixo)



No Iraque, o trabalho de Kyle era se posicionar no topo de prédios e matar friamente qualquer pessoa que ele julgasse uma ameaça aos comboios americanos. Ele é visto matando homens, mulheres e até crianças que, sempre, são mostrados por Eastwood como uma ameaça real, justificando, assim, as mortes. Kyle ganha o apelido de "Lenda" entre os companheiros pela impressionante quantidade de mortes inimigas. Chega a ser engraçado que um sniper iraquiano conhecido como "Mustafá" (Sammy Sheik) seja visto como um grande vilão por fazer exatamente a mesma coisa que Kyle faz, ou seja, matar covardemente, de longe, soldados inimigos.

É verdade que, na parte final, "Sniper Americano" chega a questionar a guerra e tenta mostrar os efeitos que ela tem nos soldados que voltam para casa. Bradley Cooper busca alguma humanidade em Kyle nas cenas em que ele não consegue lidar com o dia-a-dia "normal" e com as exigências da mulher. Em nenhum momento, porém, ele duvida de suas ações. Soa falsa a tentativa do filme de mostrar alguma ambiguidade em um personagem que foi mostrado o tempo todo como um matador frio e eficiente. E o final é tão abrupto que parece que Jason Hall, o roteirista, não sabia como finalizar a trama. O já citado "Guerra do Terror" e mesmo "A Hora mais Escura" são muito mais eficientes em retratar um conflito que se estende por anos e está longe de uma solução.

ps: e se o seu objetivo for ver uma boa briga entre snipers assista "Círculo de Fogo" (não o filme de robôs, mas "Enemy at the Gates", produzido em 2001), que mostra Ed Harris e Jude Law na 2ª Guerra Mundial.

João Solimeo


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A hora mais escura

Osama Bin Laden, o mentor por trás dos ataques aos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001, foi morto pelos americanos em 2 de maio de 2011 na cidade de Abbottabad, Paquistão. Há quem diga, porém, que não foi bem assim; ele teria sido morto dez anos antes na Batalha de Tora Bora, Afeganistão, logo após os atentados. Outras teorias dizem que ele nunca foi encontrado e que a pessoa morta em Abbottabad não era Bin Laden. A decisão dos Estados Unidos de não mostrar o corpo (que teria sido sepultado no mar duas horas após a missão) só aumentou as dúvidas a respeito da suposta morte do líder terrorista.

Estas controvérsias provavelmente seriam o tema de algum filme dirigido por  Oliver Stone ou pelo documentarista Michael Moore; nas mãos de Kathryn Bigelow (Oscar de direção por "Guerra ao Terror"), no entanto, "A hora mais escura" deixa de lado as teorias de conspiração e retrata, de forma extremamente séria, a obsessão de uma agente em encontrar e matar Bin Laden. Se é real ou pura ficção não importa; como cinema, "A hora mais escura" é extremamente competente. Maya (Jessica Chastain)  é uma agente da CIA que foi recrutada recentemente e enviada ao Paquistão para acompanhar os interrogatórios aos terroristas da Al Qaeda, a organização terrorista de Bin Laden. Fria, com a pele branca como porcelana, cabelos ruivos e o corpo esguio sempre vestindo roupas escuras e elegantes, Maya é uma estranha representação do "anjo da morte". Os interrogatórios usam de métodos pouco éticos e o filme de Bigelow gerou polêmica por, supostamente, apoiar o uso da tortura. As cenas são bastante gráficas e Bigelow mostra abertamente sessões de afogamento, surras e humilhação de prisioneiros para obter informações para a CIA. Analisando os depoimentos de vários destes prisioneiros, Maya acha ter descoberto o mensageiro pessoal de Bin Laden, Abu Ahmed, que seria seu contato com o mundo exterior. Encontrando Ahmed, Maya acredita que encontrariam Bin Laden. Jessica Chastain foi indicada ao Oscar de melhor atriz por sua interpretação de Maya, mas ela é uma personagem um pouco difícil de acreditar. Não tem amigos, família, namorado, amante, nada. Maya existe para encontrar Bin Laden, e apesar do roteirista Mark Boal ter declarado que ela é baseada em uma agente da CIA de verdade, a informação foi negada pela própria agência americana. Como cinema funciona. Chastain surgiu "do nada" alguns anos atrás e já estrelou uma série de filmes como "A Árvore da Vida", "Histórias Cruzadas" e "Os Infratores", e carrega grande responsabilidade pelo sucesso de "A hora mais escura".

É na direção segura de Bigelow, porém, que o filme tem o maior mérito. Visto na tela grande do cinema, somos transportados para o calor das ruas paquistanesas ou para a frieza das reuniões da CIA. Durante a meia hora final, quando o sinal verde para o ataque é dado, o espectador se torna parte do time de assalto à casa fortificada onde Bin Laden estaria escondido. Aqui também Bigelow não "adoça" a realidade e mostra a forma fria e "profissional" com que os soldados eliminam quem encontram pela frente conforme avançam, sala a sala, andar por andar, casa adentro. O alvo principal é eliminado mas... é Bin Laden? A personagem de Chastain diz que sim, da mesma forma como tinha 100% de certeza desde o início. Mas Bigelow deixa a pergunta para o espectador. Com quase três horas de duração (2012 foi o ano dos filmes longos), "A hora mais escura" é um dos melhores filmes do ano e foi indicado a cinco Oscars: melhor filme, edição de imagens, edição de som, melhor atriz e melhor roteiro. Kathryn Bigelow, surpreendentemente, foi deixada de lado.


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Tão Forte e Tão Perto

Oskar Schell (Thomas Horn) é um garoto de nove anos que perdeu o pai no atentado de 11 de setembro de 2001. Naquela manhã, Oskar chegou mais cedo da escola e encontrou algumas mensagens gravadas pelo pai na secretária eletrônica, seus últimos registros com vida. A mãe (Sandra Bullock) realizou um enterro simbólico com um caixão vazio, coisa que o pequeno Oskar não consegue aceitar. Ele não é um garoto comum. Extremamente inteligente mas pouco sociável (com suspeita de que seja portador da Síndrome de Asperger), Oskar não consegue digerir a ideia da morte do pai, de quem era muito próximo. Thomas Schell (Tom Hanks, visto em flashbacks) também não era um pai comum. Joalheiro de profissão, ele queria ter sido um cientista e gostava de desafiar o filho com missões estranhas como encontrar provas da existência de um sexto bairro de Nova York, que teria desaparecido.

Um ano após os atentados, Oskar encontra no quarto do pai um misterioso envelope em que está escrita a palavra "Black". Dentro do envelope há uma chave. Acreditando ser um desafio deixado pelo pai, o garoto cria um método para visitar as 472 pessoas com sobrenome "Black" da cidade de Nova York, para descobrir que porta aquela chave abre. "Tão Forte e Tão Perto" é baseado no livro "Extremely Loud & Incredibly Close", de Jonathan Safran Foer. Dirigido por Stephen Daldry ("O Leitor"), com roteiro de Eric Roth ("Forrest Gump") e trilha de Alexander Desplat, o filme tem uma premissa interessante, mas peca pela falta de bom senso. Por mais brilhante que seja o garoto, é necessária uma boa dose de fé para acreditar que Oskar, com nove anos de idade, consiga se virar sozinho pelas ruas de uma cidade como Nova York. E mais, Oskar sofre de vários tipos de fobias (ele se recusa a andar de metrô, por exemplo), o que torna sua missão ainda mais inacreditável. A interpretação do garoto e a boa qualidade técnica em geral, no entanto, conseguem criar suspense suficiente para, ao menos no princípio, tornar o filme interessante. Tom Hanks (e mesmo Sandra Bullock) estão muito bem e o elenco é complementado pela participação especial de Max von Sidow, que aos 82 anos interpreta um senhor que se torna parceiro de Oskar em parte de sua jornada.

O "espectro" do 11 de setembro paira sobre toda a obra e há certa verdade nas acusações de que tanto livro quanto filme explorem a tragédia para arrancar lágrimas da platéia. A parte final, quando se descobre que a mãe de Oskar sabia mais do que aparentava, torna a trama ainda mais absurda e até cruel. O que o garoto precisava é de uma boa terapia para lidar com a morte violenta do pai e não de uma aventura improvável, sozinho, em uma das cidades mais perigosas do mundo. O filme foi feito a toque de caixa para coincidir com o aniversário de dez anos dos atentados, mas foi lançado só no final de 2011 nos Estados Unidos e chega ao Brasil dia 24 de fevereiro. O veterano Max von Sidow recebeu uma indicação (merecida) ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, mas "Tão Forte e Tão Perto" surpreendeu a todos com a indicação a Melhor Filme, sem nenhuma outra indicação a prêmios importantes como direção ou roteiro. Se ganhar, vai ser uma das maiores zebras do Oscar.


domingo, 26 de abril de 2009

O visitante

Curioso este momento de transição pelo qual passamos. Os oito anos de governo Bush deixaram um gosto amargo na política internacional dos EUA, única potência do mundo e mais xenofóbico e assustador do que nunca. A chegada de Barack Obama à Casa Branca vem carregada de esperança para o futuro, mas ainda há muita desconfiança entre os países do mundo e o fantasma do 11 de setembro ainda permanece na memória recente das pessoas. Com Bush ou sem, o fato é que há uma enorme desigualdade social no Brasil e no mundo, o que força cada vez mais as pessoas a fugirem de seus países em busca de uma vida melhor em outro lugar. E Nova York ainda mantém o posto não oficial de capital do mundo, com a Estátua da Liberdade dando boas vindas aos imigrantes famintos, desde que eles consigam fugir da imigração americana. É neste cenário que se passa "O Visitante", produção sensível escrita e dirigida por Thomas McCarthy.

Walter Vale (Richard Jenkins, perfeito) é um professor universitário cuja vida está estagnada. Ele repete a mesma aula há anos sem muito interesse tanto de sua parte quanto de seus alunos. Tenta sem sucesso, nem muito esforço, aprender a tocar piano, tendo trocado várias vezes de professor. Viúvo de uma pianista, ele agora passa seus dias sozinho, dando poucas aulas e reservando tempo para escrever um livro. Sua vida muda ao ter que ir para Nova York falar em um congresso. Ao chegar ao apartamento que tem na cidade, mas que não visitava há anos, ele encontra um casal de imigrantes morando lá. Tarek (Haas Sleiman) é um percussionista da Síria, e sua mulher Zainab (Danai Gurira) é do Senegal e vende bijuterias. Os dois foram enganados por um homem que se dizia dono do apartamento e já estavam morando lá há dois meses. Inicialmente Walter os manda embora, mas muda de idéia e acaba deixando que eles permaneçam ali até encontrarem outro lugar. Uma improvável amizade se estabelece entre Walter e Tarek, que têm um amor em comum, a música. Richard Jenkins, que concorreu ao Oscar de melhor ator por este filme, é minimalista ao fazer de Walter Vale um senhor aparentemente sem nenhum atrativo. Aos poucos, porém, percebemos que ele não é má pessoa. Apenas passou muito tempo sozinho e sem desafios. O encontro com o jovem casal de imigrantes desperta nele as memórias da própria esposa e a vontade de fazer algo diferente da vida. Aos poucos Walter começa a ter aulas de tambor com Tarek e há cenas muito engraçadas dos dois batucando.

Acontece, no entando, de Tarek ser preso injustamente pela polícia de Nova York. Como está no país ilegalmente, ele é enviado a um presídio da imigração no Queens, bairro afastado de Nova York. Walter está tão envolvido com o percussionista que passa a visitá-lo na prisão e tenta encontrar uma saída para o problema. Ele também tem que lidar com a mãe de Tarek, Mouna (Hian Abbass, do belo "Lemon Tree"), que vem de Michigan procurar pelo filho. Aos poucos Walter descobre como é difícil a vida para um imigrante ilegal nos Estados Unidos quando este é preso pela imigração. Tarek pode ser enviado para qualquer parte do país ou mesmo deportado sem aviso prévio, e os oficiais da imigração não estão dispostos a dar muitas informações.

O filme poderia cair em um drama fácil ou em um protesto político superficial, mas mantém o foco no lado humano dos personagens. Walter, ao se envolver com os imigrantes, percebe como sua vida tem sido vazia, e a presença feminina de Mouna também desperta sentimentos há muito esquecidos. A trama me lembrou do filme que Peter Weir fez em 1990, "Green Card, Passaporte para o Amor", em que Gerard Depardieu simulava um casamento com Andie MacDowell para tentar ficar nos Estados Unidos. As duas produções tem a música como um dos focos principais (o personagem de Depardieu também era músico) e em ambos aparece um músico de rua que toca percussão em uma lata. "O visitante", porém, é um filme mais sério e mais realista sobre as condições de vida nos Estados Unidos. Digamos que "Green Card" seja uma fantasia dos tempos anteriores ao 11 de setembro, enquanto que "O Visitante" mostre como o mundo mudou, infelizmente para pior, nesse período.


sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Jogos do Poder

Outro dia falei aqui de "Leões e Cordeiros", de Robert Redford, e mencionei que lembrava algum episódio de "The West Wing", de Aaron Sorkin. Pois é, "Jogos de Poder" é um Sorkin "legítimo" e conta com uma equipe impressionante. O filme conta a história real de um congressista americano chamado Charlie Wilson (Tom Hanks), um mulherengo que dividia seu tempo entre o congresso em Washington e bordéis em Las Vegas, cercado de "strippers" e cocaína. Apesar deste caráter duvidoso, o filme mostra como Wilson, auxiliado por uma socialite de Houston (Julia Roberts) e um agente excêntrico da CIA (Philip Seymour Hoffman, excelente), ajudou a terminar com a Guerra Fria. Nos anos 80 a antiga União Soviética invadiu o Afeganistão e estava massacrando a população local com helicópteros e armamento pesado. A CIA tinha um orçamento anual de apenas 5 milhões de dólares para "operações especiais" (leia-se espionagem e sabotagem) no país. Wilson se interessa pela situação e pede para dobrar este orçamento, o que atrai a atenção de Joanne Herring (Julia Roberts), a 6a. mulher mais rica do Texas, que "encontrou Jesus" e quer tirar os comunistas do Afeganistão. Apesar de "religiosa", Joanne se envolve sexualmente com o mulherengo Wilson desde a primeira "reunião", e ambos decidem procurar ajuda para resolver o conflito no oriente. Usando os contatos de Joanne e contando com a ajuda do agente da CIA Gust Avrakotos, Wilson elabora um plano de fornecer armamento russo para os rebeldes afegãos contando com a ajuda de inimigos históricos como Israel e a Palestina. O armamento não pode ser americano porque, oficialmente, os Estados Unidos não estavam envolvidos no conflito. Extra-oficialmente, porém, os EUA elevaram cada vez mais o orçamento das operações secretas da CIA, chegando de 5 milhões anuais para até um bilhão de dólares. Com todo esse dinheiro, treinamento e armamento anti-helicópteros, os rebeldes afegãos conseguiram derrotar a União Soviética, que acabou ruindo alguns anos depois. A ironia é que estes afegãos, treinados pelos americanos, iriam se tornar o Taliban.

O filme é dirigido pelo grande Mike Nichols (A primeira noite de um Homem, Closer) e escrito por Aaron Sorkin, roteirista "queridinho" da TV americana que criou e escreveu as séries "Sports Night" (ótima série, mas pouco vista), "The West Wing" e "Studio 60 on the Sunset Strip". Sorkin é conhecido por seus diálogos rápidos e inteligentes ("The West Wing" é provavelmente a série com mais diálogos da história da televisão). "Jogos do Poder" é cheio destes diálogos, mas o filme não é tão bom quanto poderia ser. Achei ele um pouco confuso com o que está realmente tentando passar. A trama é muito focada na ação "heróica" de Wilson e seus companheiros em ajudar os afegãos a derrotar a União Soviética. Quando isso acontece, o filme perde a oportunidade de ser realmente polêmico e mostrar o que aconteceu depois. Sim, nós sabemos que aqueles heróis rebeldes acabaram se tornando os terroristas que os próprios americanos estão caçando hoje, mas por que não deixar isso mais explícito? Talvez o fato de haver tantos astros no filme (três vencedores do Oscar, Hanks, Roberts e Hoffman, fora o diretor Nichols) e o tom leve tenham impedido um aprofundamento maior nas causas e consequências do ocorrido. Fica uma sensação de que falta alguma coisa quando o filme termina, em uma cerimônia de premiação do governo americano para Charlie Wilson.

A direção de fotografia, a cargo de Stephen Goldblatt, é maravilhosa. E Philip Seymour Hoffman rouba todas as cenas. Impressionante comparar sua interpretação aqui como um agente bruto e boca suja, com seu retrato de Truman Capote, pelo qual ganhou o Oscar. Disponível em DVD.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Leões e Cordeiros

Um filme com algumas das maiores estrelas do cinema americano, Robert Redford, Tom Cruise e Meryl Streep... conversando. Não só conversando, mas debatendo idéias, procurando e analisando causas e conseqüências relevantes para a situação política e histórica dos dias de hoje. Soa tedioso? Como teatro filmado? Pois é, muita gente achou que sim. O filme teve vida curta nos cinemas e em pouco tempo estava nas prateleiras das locadoras. Eu gostei.

Não é um filme “cinematográfico”, é verdade. São basicamente duas longas conversas entrecortadas por alguma ação. Em uma escola de Washington, o professor Stephen Malley (Robert Redford, que também dirige o filme) não está satisfeito com a performance de um aluno que, um dia, ele considerou brilhante. Ele é Todd Hayes (Andrew Garfield), um rapaz que tem boas notas, mas muitas faltas, e simplesmente perdeu o interesse nas aulas de Ciência Política ministradas por Malley. O professor lhe propõe um trato: ele não precisaria vir a mais nenhuma aula até o final do ano e ainda assim receberia nota “B” na média final. Ou então ele poderia decidir não faltar mais a nenhuma aula, mas teria que participar ativamente de todas elas, como costumava fazer. Por que ele perdera o interesse? O aluno explica que não tem mais esperança na política e que resolveu que iria apenas “fazer a sua parte”, pagar seus impostos, trabalhar e tirar proveito do que o país tivesse a oferecer, mas nada mais do que isso.

Enquanto isso, em outra parte de Washington, um senador republicano (Tom Cruise) chama para uma entrevista exclusiva a jornalista Janine Roth (Meryl Streep), com o objetivo de lhe passar uma nova estratégia militar que seria implementada pelo governo americano no Afeganistão. O que se segue é um longo debate entre os dois em que questões como a guerra do Iraque e o clima político pós 11 de setembro são discutidos. A nova estratégia consiste em usar um número menor de soldados no Afeganistão. Eles ocupariam as montanhas durante o inverno e teriam vantagem tática contra o Talibã quando o verão chegasse. A jornalista, que começou a carreira em plena Guerra do Vietnam, vê com desconfiança e sensação de “deja vu” tais táticas militares. Apesar da troca de gentilezas entre os dois, fica claro o clima tenso no ar, com acusações fundamentadas de ambos os lados. A jornalista levanta os vários erros militares cometidos no Iraque e as milhares de vidas perdidas. O político, por seu lado, pede para que ela se concentre no presente e a lembra de que a imprensa havia apoiado integralmente a ofensiva contra o Iraque.

Em uma terceira trama, acompanhamos a tática mencionada por Cruise sendo aplicada no Afeganistão. Mas nem tudo é simples como os engravatados em Washington imaginavam. Um helicóptero americano é atacado por uma bateria antiaérea no topo das montanhas geladas. Dois jovens soldados, Arian Finch (Derek Luke) e Ernest Rodriguez (Michael Pena), são jogados na neve lá embaixo. Os dois, ficamos sabendo através de flashbacks, foram alunos exemplares do professor Malley. As três histórias são entrecortadas durante todo o filme. Arian e Rodriguez eram alunos pobres que chamaram a atenção do professor durante um debate em classe, em que eles pregavam mais comprometimento por parte dos americanos para se criar uma sociedade melhor. Os outros alunos os chamaram de hipócritas, dizendo que eles também, no fundo, só estavam esperando a hora de entrar em uma boa universidade e ganhar dinheiro. Os dois resolvem provar seu comprometimento mostrando seus papéis de alistamento no exército. Redford não acredita que esta seja a melhor maneira de ajudar o país e tenta fazê-los mudar de idéia.

Tudo isso é discutido e debatido em longas conversas. Senti influência da série “The West Wing”, de Aaron Sorkin, famosa por conter debates políticos pelos corredores da Casa Branca. Repetindo, não é muito cinematográfico (a série, diga-se de passagem, era até mais dinâmica). Tudo se passa em duas salas em Washington (a sala do professor e o gabinete do senador) e na montanha gelada. Mas os pontos levantados são relevantes e é raro vê-los discutidos em um filme deste modo. Devemos simplesmente falar mal da política ou fazer algo a respeito? Há o que ser feito? O mundo aprendeu alguma coisa com as guerras do passado ou estamos repetindo os mesmos erros geração a geração? Pode não ser um filme muito “agitado”, mas vale pegar o DVD.

sábado, 19 de julho de 2008

Batman - O Cavaleiro das Trevas


Em meu texto sobre "Batman Begins", em 2005, eu terminei dizendo: "Em alguns anos, imagina-se, Batman estará de volta. Agora que seu início já foi contado, vai ser difícil fazer uma continuação tão interessante quanto este primeiro episódio". Eu estava enganado. Em vários aspectos, "Batman - O Cavaleiro das Trevas" é tão bom quanto seu predecessor. Em outros, é até melhor. Este é um filme mais pesado que o anterior. O diretor e roteirista Christopher Nolan resolveu explorar ainda mais o lado sombrio de seu personagem principal trazendo tons trágicos para a narrativa. O que inclui a morte de personagens principais, um clima de insegurança constante e a criação de dois personagens que são como os lados opostos da mesma moeda: o promotor Harvey Dent (Aaron Eckhart, muito bem no papel) e o vilão Coringa. Este último, para aumentar ainda mais o tom trágico do filme, foi interpretado por Heath Ledger, jovem ator que morreu de overdose de remédios pouco depois das filmagens. O ator estava com problemas pessoais (separação da esposa e filha) e a overdose pode não ter sido acidental. Há quem diga que interpretar o Coringa pode ter contribuído para sua morte. Jack Nicholson, que interpretou o mesmo personagem na versão de Tim Burton em 1989, ao saber da morte de Ledger, teria dito apenas: "Eu avisei ele".


Gothan City está em guerra com os mafiosos, e Batman tem ajudado secretamente seu amigo Jim Gordon (Gary Oldman) a combater os criminosos. Mas agora há um rosto novo (e horrível) na cidade. O Coringa (cuja origem nunca é explicada direito) tem realizado grandes roubos do dinheiro da Máfia e o está usando para aterrorizar a cidade. Ele começa a matar inocentes e diz que só vai parar quando Batman revelar sua identidade. A cidade conta com a presença de Batman para ajudá-la embora, no fundo, ele seja considerado um justiceiro criminoso até pelo promotor Harvey Dent, que aparece como uma nova esperança. Dent é chamado de "cavaleiro branco" e há esta interessante oposição entre sua figura limpa e decente e a figura sombria e conturbada de Batman. O "Cavaleiro das Trevas", no fundo, está mais próximo do Coringa do que de Dent, e ele tem consciência disto. Christian Bale, novamente no papel de Bruce Wayne/Batman, é um ator completo, que consegue passar tanto a imagem do rico "playboy" que aparentemente não liga para nada quanto sua sombra vestida de morcego. Seu Batman parece uma máquina quando enfrenta os criminosos, e sua voz não soa humana. Mas o filme é plausível o suficiente para você acreditar que uma pessoa comum (extremamente bem treinada e equipada) poderia fazer o que Batman faz. Katie Holmes, atual senhora Tom Cruise, foi substituída no papel da promotora Rachel Dawes por Maggie Gyllenhaal, e foi uma boa troca. Ela é mais talentosa e serve como ponto de apoio entre Harvey Dent e Bruce Wayne.


O "fantasma" do 11 de setembro paira sobre o filme. O Coringa é chamado várias vezes de "terrorista" e certas cenas lembram o ataque que destruiu o World Trade Center. O próprio poster do filme (veja acima), me lembrou muito a imagem do avião invadindo as Torres Gêmeas (compare ao lado). O Coringa não está interessado em dinheiro. Como diz Alfred (o grande Michael Caine) a seu patrão, algumas pessoas só querem ver o circo pegar fogo. Heath Ledger desaparece na figura terrível do Coringa, cujas cicatrizes no rosto o deixam permanentemente com um sorriso macabro. A trilha sonora (de Hans Zimmer e James Newton Howard) criou uma nota distorcida que fica soando toda vez que o Coringa está em cena, e há a sensação de que algo ruim pode acontecer a qualquer momento. O tema do antagonismo, da existência de lados opostos e da escolha permeia todo o filme. O Coringa representa o próprio "Medo" encarnado, a existência de um mundo sem ética, moral ou regra de qualquer espécie. Há uma cena em que Batman está batendo nele, tentando tirar uma informação, e ele diz simplesmente que não há nada que ele possa fazer para assustá-lo, pois ele não conhece limites. Até Batman tem limites e regras, como foi visto no primeiro filme (quando Bruce Wayne, em seu treinamento no Oriente, se recusou a matar um homem desarmado).
Há um ótimo símbolo no filme na forma de uma moeda que tem o mesmo desenho nas duas faces. É com ela que Harvey Dent aparentemente "tira a sorte" quando quer decidir alguma coisa. Mas o que aconteceria se esta moeda deixasse de ter apenas uma face? Será que ele se tornaria tão cruel quanto o assassino de "Onde os fracos não têm vez"? Não é sempre que um "blockbuster" de verão como este levanta questões tão interessantes sobre moral e ética. Christopher Nolan seguiu a cartilha de George Lucas quando criou "O Império Contra Ataca", o sombrio segundo capítulo da trilogia original de "Guerra nas Estrelas", em 1981.
"O Cavaleiro das Trevas" termina de forma depressiva, mas com a esperança de que, em um terceiro capítulo que certamente virá, as coisas melhorem.