Raised by Wolves (2020). HBO Max. Série de ficção-científica que tem os primeiros dois capítulos dirigidos por ninguém menos que Ridley Scott, "Raised by Wolves" é tão fascinante quanto decepcionante. A criação de mundo é bela; dá para sentir a influência de Scott na direção de arte, nos cenários, na trilha sonora, em tudo. Há também um bocado de referências a outros filmes dele, como Blade Runner, Alien, Prometheus (particularmente este último, mais discussões à frente). As interpretações são, no geral, muito boas. Discutem-se alegorias religiosas, inteligência artificial e reprodução, destino e acaso, ateísmo e fé. Pena que a série tenha longos 10 capítulos, que acabam esticando demais a trama e caindo em repetições e exageros, sem falar na decepção de chegar ao final do décimo episódio e não ter uma conclusão (uma segunda temporada está em produção).
No século 22, uma pequena nave pousa no planeta Kepler 22B. De dentro dela saem duas figuras humanoides, que tratam um ao outro como "Pai" (Abubakar Salim) e "Mãe" (Amanda Collin). São androides. Eles montam acampamento, preparam a terra e se fixam no local. É então que o "Pai" liga a "Mãe" a uma espécie de incubadora e, nove meses depois, ela gera seis bebês, de várias raças. Eles planejam começar uma nova civilização mas, com o passar dos anos, alguns dos filhos morrem por doenças. Para piorar a situação, uma outra nave chega ao planeta, com tripulantes de uma facção religiosa rival, e uma disputa se estabelece. Os dois primeiros episódios são dirigidos por Ridley Scott e o primeiro, particularmente, é sensacional; com algumas modificações, poderia ter sido lançado como um filme independente.
A questão da maternidade é explorada tanto como uma benção quanto como uma maldição; isso já foi visto antes em filmes de Scott como "Prometheus" (lembram da cena de Noomi Rapace na mesa de operação robótica?). Falando em "Prometheus", há várias pistas de que esta série se passe no mesmo "universo compartilhado"... os androides têm o mesmo sangue branco, por exemplo, e (sem entrar em spoilers) há outras dicas espalhadas pela trama. A "Mãe", vivida pela excelente atriz holandesa Amanda Collin, é programada para cuidar de crianças, o que ela faz com uma dedicação praticamente humana (o que remete a "Blade Runner 2049"). O problema, como disse, é que a trama é esticada para dez episódios, e as discussões e temas se tornam repetitivos. Vários mistérios vão surgindo com o decorrer dos episódios e, como espectador, você espera por uma conclusão que não chega. Claro que a HBO tem interesse em séries que possam ser esticadas por várias temporadas, como "Game of Thrones" e "Westworld", mas "Raised by Wolves" chega ao final não com gosto de "quero mais", mas de "faltou alguma coisa". Ela nunca deixa, porém, de ser fascinante de se assistir. Disponível na HBO Max.
Mostrando postagens com marcador fé. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador fé. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 25 de agosto de 2021
Raised by Wolves (2020)
Marcadores:
alien,
aliens,
amanda collin,
ateísmo,
blade runner,
distopia,
fé,
ficção científica,
ficção-científica,
joão solimeo,
kepler,
maternidade,
prometheus,
Raised by Wolves,
religião,
reprodução,
ridley scott
sexta-feira, 10 de março de 2017
Silêncio (2017)
A fé sempre foi um tema forte no cinema de Martin Scorsese. Logo em um de seus primeiros sucessos, "Caminhos Perigosos" (Mean Streets, 1973), o personagem vivido por Harvey Keitel questionava sua fé em diversas narrações durante o filme. O próprio Jesus é mostrado questionando seu destino em "A Última Tentação de Cristo", filmado por Scorsese em 1988. Não por acaso, Martin Scorsese estudou em um seminário antes de decidir partir para a carreira artística.
Chega finalmente aos cinemas do Brasil seu último filme, "Silêncio"; são quase três horas dedicadas ao questionamento da fé, a existência ou não de Deus e sua ausência (ou seu silêncio) nos momentos em que mais se precisa dele. Não é um filme fácil de se assistir. É longo, bastante lento e praticamente sem trilha sonora, passado no Japão do século 17, quando a religião católica foi proibida e seus seguidores, perseguidos e mortos. O filme parte do desaparecimento no Japão de um jesuíta chamado Ferreira (Liam Neeson), que havia enviado cartas preocupantes sobre o estado da Igreja em terra nipônicas. Dois de seus pupilos, os padres Rodrigues (Andrew Garfield, de "Até o Último Homem") e Garupe (Adam Driver, de "Star Wars Episódio VII") partem para o Japão para tentar encontrar Ferreira. Boatos falam que ele teria praticado "apostasia", que é a renúncia da religião e que estaria vivendo como um japonês.
"Silêncio" tem um visual arrebatador. A belíssima direção de fotografia (indicada ao Oscar) de Rodrigo Pietro se aproveita das belezas naturais da paisagem e usa cavernas para criar molduras ou utiliza da forte neblina para revelar ou esconder personagens. Como o filme quase não tem música, o som do mar, das cigarras, do vento e outros elementos naturais também estão muito presentes. Os dois padres chegam ao Japão e são recebidos como semi deuses por simples vilarejos sedentos de fé. Há algo tanto de louvável quanto de desesperado na atitude destes simples camponeses que arriscam as próprias vidas por uma religião vinda de fora.
Inquisidores japoneses aparecem de vez em quando para apurar denúncias de que a religião católica estaria sendo praticada. Eles aplicam uma série de testes aparentemente simples para distinguir os devotos dos demais. Um dos testes é pisar em uma imagem de Jesus, ou cuspir na cruz. Deus ficaria contrariado se alguém pisasse em sua imagem para salvar a vida? E do ponto de vista da igreja, tal atitude seria considerada pecado? Todas estas questões são apresentadas lentamente por Scorsese, assim como suas consequências. Há uma longa sequência de martírio de um grupo de camponeses que não passou no teste dos inquisidores em que os padres, escondidos ao longe, assistem a tudo, impotentes.
O personagem de Andrew Garfield enfrenta grande parte destes desafios na segunda parte do filme; capturado pelos inquisidores, o Padre Rodrigues assiste muitos fiéis serem torturados ou mortos de uma jaula de madeira. Tudo o que ele tem que fazer para terminar com o sofrimento deles é renegar sua religião. Isso é válido? Deus "entenderia"?
Como disse anteriormente, não é um filme fácil de se ver. As questões de fé podem parecer absurdas do ponto de vista de espectadores do século 21, talvez por isso Scorsese alongue tanto nossa imersão naquele mundo. Mostra-se muita crueldade por parte dos japoneses que querem erradicar a religião, mas fica a questão sobre até que ponto os padres resistem. É pela glória divina ou pela própria salvação?
João Solimeo
Assinar:
Postagens (Atom)


