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domingo, 11 de novembro de 2012

Argo

"Argo" é o terceiro filme dirigido por Ben Affleck que, como ator, é bastante limitado. Como diretor, porém, Affleck atingiu a maturidade com este filme inteligente que, baseado livremente em fatos reais, é uma boa mistura de entretenimento e suspense. Em novembro de 1979, a embaixada americana no Irã foi invadida por uma multidão que apoiava o Aiatolá Khomeini. Vários americanos foram feitos reféns mas, durante a confusão, seis diplomatas conseguiram fugir para a casa do embaixador do Canadá, onde ficaram escondidos por várias semanas, aguardando serem resgatados.

Ben Affleck interpreta Tony Mendez, um especialista da CIA em repatriar reféns. Ele é chamado pelo Departamento de Estado para dar sua opinião e, após refutar vários planos (um deles sugeria que os reféns pedalassem 500 quilômetros até a fronteira ao norte), criou um plano tão absurdo que poderia dar certo. Inspirado pelos filmes de ficção-científica e fantasia que viraram moda nos Estados Unidos no final dos anos 1970 (principalmente após o lançamento de "Star Wars", em 1977), Mendez sugere que a CIA crie uma companhia de cinema fictícia que iria procurar por locações exóticas no oriente para um filme B chamado "Argo". Para dar mais verossimilhança à ideia, Mendez contrata um produtor real de Hollywood chamado Lester Siegel (o ótimo Alan Arkin) e um especialista em efeitos especiais chamado John Chambers (o igualmente competente John Goodman). Os dois ficam responsáveis por espalhar  por Hollywood a notícia de que "Argo" é uma produção real, inclusive promovendo uma leitura de roteiro e publicando cartazes  do filme em jornais e revistas especializadas como a "Variety". Mendez então viaja ao Irã para treinar os seis reféns americanos, que fingiriam ser a equipe de filmagem de "Argo" e, se tudo desse certo, sairiam do país diretamente pelo aeroporto internacional, debaixo dos narizes da polícia fanática do aiatolá.

O filme é uma junção competente de filme de suspense, espionagem e, de quebra, mostra os bastidores de Hollywood. O roteiro (de Chris Terrio) lembra bastante "Mera Coincidência" (1997), de Barry Levinson, em que um produtor de Hollywood (Dustin Hoffmann) era contratado para criar uma guerra fictícia e desviar a atenção da imprensa de um escândalo da Casa Branca. Alan Arkin e John Goodman estão muito bem como produtores reais criando um filme irreal. Hollywood é uma força tão grande na imaginação coletiva mundial que a ideia "maluca" de Mendez de dizer que está no Irã para fazer um filme de ficção-científica em plena crise dos reféns não soa inverossímil. Há uma cena muito boa que mostra os guardas iranianos maravilhados com o "storyboard" de "Argo" enquanto o oficial superior tenta checar a história de Affleck. A recriação de época é muito boa e o filme transporta o espectador para o início dos anos 1980. Ben Affleck ficou tão orgulhoso com este aspecto do filme que "Argo" termina comparando imagens reais da época com outras recriadas para o filme. "Argo" estreou bem no mundo todo e há grandes chances de ser escolhido um dos candidatos ao próximo Oscar. Vale lembrar que Ben Affleck, junto com Matt Damon, já tem um Oscar de "Melhor Roteiro Original" por "Gênio Indomável", filme que escreveu em 1997.

Um aspecto que deve ser mencionado é o fato de que as relações entre os EUA e o Irã hoje vão de mal a pior, com grandes chances de uma intervenção militar por causa de supostas armas nucleares que o Irã estaria fabricando. Um filme como "Argo", que mostra os iranianos como fanáticos ignorantes, cai facilmente no gosto do público no momento político atual. Independente disso, é um ótimo filme de entretenimento, que pode dar a Affleck uma indicação ao Oscar de Melhor Diretor.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A Separação

Muitos filmes já foram feitos sobre divórcios, mas o iraniano "A Separação", escrito e dirigido por Asghar Farhadi, pode ser colocado entre os melhores. Vencedor do Urso de Ouro, em Berlim, em 2011 e do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, o roteiro inteligente recebeu uma indicação ao Oscar, além da indicação a melhor filme estrangeiro. O filme parte de uma trama relativamente simples, a separação de um casal iraniano, e debate temas como religião, honra, o Direito e o próprio conceito de verdade. O espectador fica envolvido não só pelo lado humano, mas pelo fato do filme ser, também, uma trama de mistério.

Nader (Peyman Moadi) e Simin (Leila Hatami) estão se separando. Simin quer sair do Irã e tentar a vida no exterior, mas precisa do divórcio do marido e a autorização dele para levar a filha Termeh (Sahina Farhadi, boa atriz, filha do diretor) com ela. Nader não quer sair do país porque tem um pai doente em casa (ele sofre de Alzheimer) e não quer se separar da filha. Com o impasse, Simin se muda para a casa dos pais e Nader contrata uma mulher chamada Razieh (Sareh Byat) para cuidar do pai doente. Uma tarde Nader e a filha voltam para casa e encontram o pai dele inconsciente, caido no chão e amarrado à cama. A empregada retorna e Nader, enfurecido, a expulsa de casa. Ela estava grávida e acaba abortando o filho, que já estava de quatro meses e meio. Na lei islâmica ele já era considerado um ser vivo, então Nader é acusado de assassinato. A trama então se transforma em um "filme de tribunal", mas bem diferente do que se está acostumado a ver em um filme americano. Não há um juri, ou advogados, em um tribunal cinematográfico. Há uma série de discussões com um juiz, em uma sala apertada, entre Nader, a ex-empregada e o marido dela. Eles acusam Nader de ter matado o filho deles; Nader acusa a mulher de maus tratos com o pai. Quem está com a razão? Nader sabia que Razieh estava grávida? Ele a expulsou verbalmente ou a empurrou escada abaixo? Ele provocou o aborto ou ela teria sofrido alguma outra coisa?

O que torna o filme interessante são as discussões morais que ele levanta. É perfeitamente compreensível que Nader estivesse alterado quando encontrou o pai amarrado à cama, mas ele tinha o direito de ser violento com a empregada? Por outro lado, ela não foi irresponsável ao deixar um senhor doente sozinho para tratar de assuntos particulares? A questão religiosa também permeia o drama. Razieh segue fielmente o Corão e há uma cena curiosa em que, descobrindo que o pai de Nader urinou nas roupas e precisa ser trocado, ela liga para alguém pedindo um conselho religioso: seria um pecado se ela trocasse o velho? A filha de Nader e Simin não quer que eles se separem, e o fato dela permanecer com o pai durante a trama demonstra a inteligência do roteiro; caso ela fosse com a mãe o casamento realmente estaria terminado. A cultura machista muçulmana é questionada no comportamento dos dois maridos da trama. Tanto Nader quanto o marido de Razieh são teimosos e com tendências violentas, embora amem suas famílias. Nader, particularmente, pode parecer um homem bruto e egoísta, mas o cuidado que ele tem com o pai é comovente. É também curioso saber que em um país aparentemente tão tradicional como o Irã questões como o divórcio são tratadas de forma natural.

Assim, "A Separação" é algo maior do que um simples filme de divórcio. É um filme sobre pessoas e seus problemas, seja no Irã ou em qualquer outro lugar do mundo.


terça-feira, 15 de setembro de 2009

Persépolis

Persépolis é a versão animada da premiada “graphic novel” autobiográfica de Marjane Satrapi. Indicada ao Oscar de Melhor Animação, o filme está longe do tom infantil associado a desenhos animados. Assim como “Valsa com Bashir”, Persépolis é um filme adulto, denso e que lida com assuntos como intolerância, perseguição e os efeitos da guerra.

Persépolis conta a história de Marjane a partir de sua infância no Irã, na década de 70. O clima político é tenso e o Xá (o monarca do país) está sendo derrubado pelo povo. Os pais de Marjane acreditam que o país será mais democrático com isso, mas a monarquia é substituída pelo fanatismo islâmico. A pequena Marjane, como toda criança, transforma a realidade à sua volta para sua fantasia, e acredita poder falar com Deus e ser sua profetiza. Quando um tio comunista é solto da prisão, ela o vê como herói e se torna sua principal confidente, e sofre quando o vê ser preso pelo novo regime e executado.

O filme é feito em preto e branco, com um traço simples, mas elegante, baseado nos quadrinhos. A própria Satrapi adaptou e dirigiu a versão cinematográfica de sua HQ para a telona. É interessante e revelador ter acesso a um ponto de vista pouco conhecido no ocidente, a vida de uma garota comum em um país em constantes conflitos tanto internos quanto externos. Marjane, quando adolescente, gosta de fitas de rock pesado, que compra no mercado negro, e está sempre falando mais do que deveria na escola. Como mulher, sofre com o rígido código de vestimenta e com a moralidade islâmica. A família, com medo de que ela seja presa pelo governo, a manda estudar em Viena, na Áustria, onde ela se sente um peixe fora d´água. Os colegas se interessam pelo seu lado “exótico” e pelas histórias de terror que ela tem para contar sobre a guerra com o Iraque. Conhece o amor, e sexo e a desilusão de ser traída pelo namorado. Acaba nas ruas, onde quase morre e fome e doenças.

De volta ao Irã, ela descobre que, apesar da guerra ter acabado, o país continua mais retrógrado do que nunca. Há uma cena emblemática em que alunos de uma escola de arte tentam desenhar uma modelo coberta dos pés à cabeça, e a própria Marjane quase é presa por estar usando maquiagem ou por ser vista de mãos dadas com o namorado.

A animação tem as vozes originais de Chiara Mastroiani e Catherine Deneuve, e é falado em francês. “Persépolis”, a propósito, era o nome da capital do antigo Império Persa, atual Irã. Uma região rica em História, guerras e contradições. Os Estados Unidos apoiaram Saddan Russein (que depois seria considerado inimigo) durante a guerra entre o Irã e o Iraque, que durou oito anos. Hoje a situação política ainda é tensa, com a ameaça de existência de armas nucleares e constantes problemas religiosos.