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sábado, 29 de janeiro de 2022

A Lenda do Cavaleiro Verde (The Green Knight, 2021)

 

A Lenda do Cavaleiro Verde (The Green Knight, 2021). Dir: David Lowery. Amazon Prime. Um filme de fantasia medieval que, confesso, estava esperando o tempo todo o momento em que alguém fosse fazer alguma piadinha fácil ou piscar para a câmera, mas não. "A Lenda do Cavaleiro Verde" é bastante sério e te transporta centenas de anos para um passado iluminado à luz de tochas, habitado por reis, rainhas, cavaleiros, bruxas e espíritos. Tudo com um visual arrebatador, direção de arte (Louise Mathews e Christine McDonagh) e fotografia (Andrew Droz Palermo) construindo quadros belíssimos, acompanhados por ótima trilha sonora (Daniel Hart).

Dev Patel é Gawain, sobrinho do Rei Arthur e futuro cavaleiro da Távola Redonda. No dia de Natal estão todos reunidos na corte quando o assustador Cavaleiro Verde entra, com cavalo e tudo, para fazer um desafio: aquele que o derrotasse ganharia seu machado e teria glórias por um ano. Ao final deste tempo, porém, o vencedor teria que reencontrar o Cavaleiro Verde para um acerto de contas. O rei e os cavaleiros ficam paralisados, mas Gawain aceita a aposta e corta a cabeça do Cavaleiro Verde. Ele vai conseguir cumprir sua parte do trato, um ano depois?

Não espere uma aventura como recentes encarnações de "Rei Arthur" ou coisas do gênero. O filme é escrito e dirigido por David Lowery, que em "Sombras da Vida" (A Ghost Story, 2017) escalou Casey Affleck como um fantasma e o deixou plantado em longos planos estáticos. "A Lenda do Cavaleiro Verde" te coloca no ritmo da Idade Média. Tudo é lento e ritualizado. Há belas (e longas) cenas de Dev Patel cruzando paisagens verdejantes, atravessando rios, enfrentando espíritos, gigantes e toda sorte de personagens estranhos. É um filme que discute valores como heroísmo, valentia e, por tabela, a masculinidade. Há forte ligação com superstições e com o sobrenatural. Um personagem chega a questionar Gawain sobre o que ele busca: "Honra?", ele diz. "É uma pergunta?", o outro responde. O elenco traz também Alicia Vikander, Joel Edgerton e Sean Harris. Disponível na Amazon Prime.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Lion: Uma Jornada para Casa (2016)

Ser adotado pode, em alguns casos, gerar dúvidas sobre a própria origem e problemas de identidade. Imagine então ser adotado em outro continente, a milhares de quilômetros do país natal. Esta é a situação vivida por Saroo Brierly (Dev Patel), um indiano que foi adotado por uma família australiana. O filme passa os primeiros 45 minutos mostrando a origem do jovem Saroo (o ótimo ator mirim Sunny Pawar), um menino de apenas cinco anos que se perdeu do irmão mais velho em uma estação de trem na Índia. O garoto embarca em outro trem e é levado a centenas de quilômetros de distância para Calcutá. Ele passa fome e frio pelas ruas da cidade até ser levado a um orfanato e, finalmente, ser escolhido para adoção por um casal da Austrália (vivido por Nicole Kidman e David Wenham).

Este primeiro ato é bem longo e, por um momento, você se questiona quando é que o filme vai "começar" de verdade. A trama poderia ter começado no presente, com Dev Patel já na Austrália, e sua origem na Índia poderia ter sido mostrada em flashbacks. Ao adotar a ordem cronológica, porém, o impacto da separação de Saroo de sua família e seu mundo é acentuado. Quando ele é levado de avião para a Austrália é como se fosse um extraterrestre chegando a outro planeta, e o diretor Garth Davis mostra muita sensibilidade no modo como filma o encontro do menino com os pais adotivos.

Anos depois, já adulto e vivido por Dev Patel, Saroo é inundado por lembranças da infância ao comer um prato indiano. Os amigos e a namorada (vivida por Rooney Mara) lhe apresentam o Google Earth e ele passa a princípio horas, depois dias, meses e anos, tentando encontrar sua cidade natal através de fotos de satélite. Sua obsessão acaba afetando a vida profissional e pessoal. Ele não conta aos pais adotivos o que está fazendo pois tem medo de magoá-los, mas o segredo só aumenta seu desespero e solidão. "Lion" é um filme assumidamente emocional e há algumas cenas que certamente farão a platéia chorar. Nicole Kidman tem um monólogo em que explica o que a levou à adoção que lhe valeu uma indicação ao Oscar. A bela trilha sonora de Dustin O'Halloran e Hauschka também é responsável por vários olhos vermelhos na platéia. A presença de Dev Patel automaticamente nos remete a "Quem quer ser um milionário?" (2008) e, em alguns momentos, parece que estamos vendo uma continuação daquele filme.

"Lion: Uma Jornada para Casa" foi indicado a seis Oscars: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Patel), Atriz Coadjuvante (Kidman), Roteiro Adaptado, Fotografia e Trilha Sonora.

João Solimeo
Câmera Escura

terça-feira, 15 de maio de 2012

O Exótico Hotel Marigold

O lugar se chama "The Best Exotic Marigold Hotel for the Elderly and Beautiful". Apesar dos panfletos mostrarem fotos "photoshopadas" de um imponente edifício indiano, o hotel real está caindo aos pedaços e é gerenciado por um rapaz (Dev Patel, de "Quem quer ser um milionário?") que é tão entusiasmado quanto incompetente. Para lá se mudam sete aposentados ingleses que, atraídos pela propaganda enganosa, esperavam encontrar paz e tranquilidade.

É um grupo e tanto. Judi Dench (maravilhosa) é uma mulher que ficou viúva após um casamento de 40 anos e que vive sua primeira aventura. Douglas (Bill Nighy, sempre uma figura) e a esposa Jean (Penelope Wilton) perderam as economias e foram atraídos pelo falso luxo do lugar. Jean odeia cada minuto passado na Índia e não consegue ver a beleza do país. Não é o caso de Grahan (Tom Wilkinson), que cresceu na Índia e diz adorar suas cores e sorrisos. Muriel Donelly (Maggie Smith) é uma governanta aposentada que vai à Índia fazer uma operação de quadril. Racista e preconceituosa, a convivência com os indianos acaba por revelar um lado que ela própria desconhecia. E há Norman (Ronald Pickup) e Madge (Celia Imrie), o casal que se recusa a aceitar a própria idade e está à caça de um par romântico.

O filme é dirigido por John Madden (de "Shakespeare Apaixonado", 1998) e tem um grande coração. Apesar de alguns clichês inevitáveis, o roteiro de Ol Parker consegue lidar com o grande número de personagens e tem alguns ótimos momentos. A trama vivida por Tom Wilkinson, que revela ter voltado à Índia para reencontrar um grande amor da juventude, surpreende pelo modo natural com que se desenrola. Bill Nighy, sempre engraçado, tem cenas muito boas com Judi Dench, que quase rouba o filme sozinha. A personagem de Maggie Smith também tem um bom momento quando é convidada para visitar a família de uma das empregadas do hotel. Há ainda uma trama paralela que conta o romance complicado entre o gerente do hotel, Sonny (Patel) e uma operadora de telemarketing chamada Sunaina (Tena Desae). A trilha sonora de Thomas Newman é vibrante e acompanha a fotografia quente de Ben Davis.

Comédia leve e divertida, o filme tem ecos com o recente "Late Bloomers", com William Hurt e Isabella Rossellini, que também tratava dos problemas (e alegrias) de se chegar à terceira idade. O filme está em cartaz no Kinoplex, em Campinas.

Câmera Escura