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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Lion: Uma Jornada para Casa (2016)

Ser adotado pode, em alguns casos, gerar dúvidas sobre a própria origem e problemas de identidade. Imagine então ser adotado em outro continente, a milhares de quilômetros do país natal. Esta é a situação vivida por Saroo Brierly (Dev Patel), um indiano que foi adotado por uma família australiana. O filme passa os primeiros 45 minutos mostrando a origem do jovem Saroo (o ótimo ator mirim Sunny Pawar), um menino de apenas cinco anos que se perdeu do irmão mais velho em uma estação de trem na Índia. O garoto embarca em outro trem e é levado a centenas de quilômetros de distância para Calcutá. Ele passa fome e frio pelas ruas da cidade até ser levado a um orfanato e, finalmente, ser escolhido para adoção por um casal da Austrália (vivido por Nicole Kidman e David Wenham).

Este primeiro ato é bem longo e, por um momento, você se questiona quando é que o filme vai "começar" de verdade. A trama poderia ter começado no presente, com Dev Patel já na Austrália, e sua origem na Índia poderia ter sido mostrada em flashbacks. Ao adotar a ordem cronológica, porém, o impacto da separação de Saroo de sua família e seu mundo é acentuado. Quando ele é levado de avião para a Austrália é como se fosse um extraterrestre chegando a outro planeta, e o diretor Garth Davis mostra muita sensibilidade no modo como filma o encontro do menino com os pais adotivos.

Anos depois, já adulto e vivido por Dev Patel, Saroo é inundado por lembranças da infância ao comer um prato indiano. Os amigos e a namorada (vivida por Rooney Mara) lhe apresentam o Google Earth e ele passa a princípio horas, depois dias, meses e anos, tentando encontrar sua cidade natal através de fotos de satélite. Sua obsessão acaba afetando a vida profissional e pessoal. Ele não conta aos pais adotivos o que está fazendo pois tem medo de magoá-los, mas o segredo só aumenta seu desespero e solidão. "Lion" é um filme assumidamente emocional e há algumas cenas que certamente farão a platéia chorar. Nicole Kidman tem um monólogo em que explica o que a levou à adoção que lhe valeu uma indicação ao Oscar. A bela trilha sonora de Dustin O'Halloran e Hauschka também é responsável por vários olhos vermelhos na platéia. A presença de Dev Patel automaticamente nos remete a "Quem quer ser um milionário?" (2008) e, em alguns momentos, parece que estamos vendo uma continuação daquele filme.

"Lion: Uma Jornada para Casa" foi indicado a seis Oscars: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Patel), Atriz Coadjuvante (Kidman), Roteiro Adaptado, Fotografia e Trilha Sonora.

João Solimeo
Câmera Escura

sábado, 22 de dezembro de 2012

As aventuras de Pi

"As Aventuras de Pi" é um filme com dois lados. Um é uma ótima aventura de fantasia que mostra a convivência forçada entre um garoto indiano e um tigre de bengala. O outro lado é um filme confuso sobre a disputa entre a Razão e a Religião. Baseado em um livro de Yann Martel, o roteiro de David Magee, provavelmente fiel ao material original, é bastante irregular. Acrescenta-se o fato de que o diretor Ang Lee, que já fez obras tão diversas quanto "Razão e Sensibilidade" (1995), "O Tigre e o Dragão" (2000) ou mesmo "Hulk" (2003) ter decidido testar em "As aventuras de Pi" todo tipo de efeito especial digital possível e o produto final, repetimos, é uma salada mista, por vezes brilhante, em outras entediante, frequentemente exagerado.

Pi (Suraj Sharma) é um rapaz indiano que cresceu em um zoológico administrado pela família. As finanças vão mal e o pai decide fechar o zoo e partir para o Canadá, onde pretende vender os animais e começar uma vida nova. Durante uma tempestade no Oceano Pacífico, o cargueiro em que viajam é tragado pelas ondas e Pi vai parar em um bote salva-vidas na companhia de um orangotango, uma zebra, uma hiena e do tigre do zoológico. A cena do naufrágio é assustadora e realmente impressionante. Há um plano que mostra Pi, sob as ondas, vendo o grande navio iluminado afundar na escuridão do mar, que é fantástico. De volta ao bote salva-vidas, Pi tem não só que cuidar da própria vida como administrar os animais a bordo que, aos poucos, vão sendo devorados primeiro pela hiena e depois pelo tigre. Quando sobram apenas Pi e o tigre, é um conflito entre a inteligência do garoto contra a força e os instintos do animal que, como mostrado em uma cena anterior, é um predador eficiente e letal. Pi constrói uma balsa com os coletes salva-vidas e os remos e passa grande parte do tempo nela, deixando o bote para o tigre. É uma convivência complicada, mas o roteiro (ao menos nesta parte da trama) é inteligente e mostra como Pi tem que pensar não só em saciar a própria fome (ele come biscoitos do bote salva-vidas) como a do tigre, que ele alimenta com peixes pescados com uma vara improvisada. Não é apenas uma boa ação; se o tigre ficar com fome demais ele pode tentar alcançar Pi na balsa e devorá-lo. Há belas cenas em que a tela do cinema se transforma em uma espécie de pintura em que Ang Lee mistura as cores do céu e do mar, ou as nuvens e as águas vivas. Há um clima um pouco "new age" demais, mas é certamente bonito. Se "As Aventuras de Pi" fosse feito apenas desta longa sequência passada no mar, seria um filme ótimo.

(ATENÇÃO SPOILERS) O problema é que há outra trama, passada no presente, que mostra um Pi adulto (Irrfan Khan) narrando sua história para um escritor canadense. Isto causa vários problemas; para começar, revela que Pi sobreviveu à aventura no mar, já que é visto vivo, e adulto, logo no início do filme. Além disso, passa-se um bom tempo (tempo demais) acompanhando a narração de Pi falando sobre a infância e seu envolvimento com várias religiões. Mas o pior é uma sequência final em que, depois de contar sua aventura fantástica ao escritor canadense, o Pi adulto resolve contar uma outra versão, possivelmente a "verdadeira", sobre o que realmente teria acontecido a ele e sua família durante o naufrágio. Seria uma decisão corajosa por parte de Ang Lee ou um terrível erro de cálculo? O resultado é que "As aventuras de Pi" termina com um tremendo anti clímax, lembrando aquelas histórias antigas que acabavam com "e foi tudo um sonho". 

De qualquer forma, "As aventuras de Pi" é ambicioso e muito bem feito. Os efeitos especiais chegaram a um nível em que praticamente tudo que pode ser imaginado pode ser materializado; fato que, se não for usado com cuidado, pode ser um problema.

terça-feira, 15 de maio de 2012

O Exótico Hotel Marigold

O lugar se chama "The Best Exotic Marigold Hotel for the Elderly and Beautiful". Apesar dos panfletos mostrarem fotos "photoshopadas" de um imponente edifício indiano, o hotel real está caindo aos pedaços e é gerenciado por um rapaz (Dev Patel, de "Quem quer ser um milionário?") que é tão entusiasmado quanto incompetente. Para lá se mudam sete aposentados ingleses que, atraídos pela propaganda enganosa, esperavam encontrar paz e tranquilidade.

É um grupo e tanto. Judi Dench (maravilhosa) é uma mulher que ficou viúva após um casamento de 40 anos e que vive sua primeira aventura. Douglas (Bill Nighy, sempre uma figura) e a esposa Jean (Penelope Wilton) perderam as economias e foram atraídos pelo falso luxo do lugar. Jean odeia cada minuto passado na Índia e não consegue ver a beleza do país. Não é o caso de Grahan (Tom Wilkinson), que cresceu na Índia e diz adorar suas cores e sorrisos. Muriel Donelly (Maggie Smith) é uma governanta aposentada que vai à Índia fazer uma operação de quadril. Racista e preconceituosa, a convivência com os indianos acaba por revelar um lado que ela própria desconhecia. E há Norman (Ronald Pickup) e Madge (Celia Imrie), o casal que se recusa a aceitar a própria idade e está à caça de um par romântico.

O filme é dirigido por John Madden (de "Shakespeare Apaixonado", 1998) e tem um grande coração. Apesar de alguns clichês inevitáveis, o roteiro de Ol Parker consegue lidar com o grande número de personagens e tem alguns ótimos momentos. A trama vivida por Tom Wilkinson, que revela ter voltado à Índia para reencontrar um grande amor da juventude, surpreende pelo modo natural com que se desenrola. Bill Nighy, sempre engraçado, tem cenas muito boas com Judi Dench, que quase rouba o filme sozinha. A personagem de Maggie Smith também tem um bom momento quando é convidada para visitar a família de uma das empregadas do hotel. Há ainda uma trama paralela que conta o romance complicado entre o gerente do hotel, Sonny (Patel) e uma operadora de telemarketing chamada Sunaina (Tena Desae). A trilha sonora de Thomas Newman é vibrante e acompanha a fotografia quente de Ben Davis.

Comédia leve e divertida, o filme tem ecos com o recente "Late Bloomers", com William Hurt e Isabella Rossellini, que também tratava dos problemas (e alegrias) de se chegar à terceira idade. O filme está em cartaz no Kinoplex, em Campinas.

Câmera Escura 

domingo, 8 de março de 2009

Quem quer ser um milionário?

O filme é sem dúvida um fenômeno. Feito na Índia, com dinheiro inglês e indiano, sem nenhum astro internacional e contando uma história simples e previsível, "Quem quer ser um Milionário?" venceu praticamente todos os prêmios de cinema a que concorreu. No último dia 22 de fevereiro, levou para casa oito Oscars, inclusive os de Melhor Filme, Diretor e Roteiro Adaptado. É a consagração, no Ocidente, do cinema indiano, também chamado de "Bollywood", de onde sai a maior produção mundial de filmes. Para os brasileiros, o filme tem uma curiosidade: seu estilo de fotografia e edição é praticamente uma cópia do consagrado "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles. Há até uma cena de perseguição por entre as ruelas de uma favela em Mumbai que conta com a "marca registrada" de Cidade de Deus, uma galinha correndo. Muldialmente aceito pelo público e mesmo por grande parte da crítica, o filme é acusado por alguns de ser uma exploração da pobreza da Índia, um filme feito "para inglês ver", espetacularizando a miséria do país.

"Quem quer ser um milionário?" conta a fantástica história de Jamal Malik (vivido por vários atores, mas principalmente por Dev Patel), um rapaz que veio das favelas e que, no início do filme, está a uma pergunta de ganhar uma fortuna em um programa de televisão. A edição "nervosa" entrecorta cenas do programa com outras em que o rapaz está sendo torturado pela polícia: eles desconfiam que ele está trapaceando de alguma forma. Afinal, como um rapaz pobre e ignorante poderia ter chegado tão longe em um programa de perguntas e respostas? Sua história é contada em flashbacks que tentam explicar isso. O filme trata também do trio formado por Jamal, seu irmão mais velho Salim e a garota Latika, que é o amor da vida de Jamal. O cinema indiano é famoso por seus romances novelescos e seus filmes musicais. "Quem quer ser um milionário?" investe pesado na parte "açucarada" do romance, e por pouco os personagens não saem cantando e dançando. Mas o filme, ao menos no início, tem a pretensão de ser sério, e há certa verdade nas acusações de exploração da miséria indiana, principalmente nas cenas que mostram a infância de Jamal. Ele, o irmão e Latika caem nas mãos de um homem inescrupuloso que explora o trabalho infantil. Ele é tão cruel que chega a cegar certas crianças apenas para que ganhem mais esmolas. Jamal e Salim conseguem fugir de trem e acabam deixando Latika para trás, mas Jamal nunca se esquece dela. Dai para frente, "Quem quer ser um Milionário?" fica em um padrão que se repete: Jamal tenta achar Latika, a encontra, a perde novamente, e assim sucessivamente. Conforme os personagens vão crescendo, eles vão sendo substituídos por atores mais velhos. Dev Patel tem um rosto bastante expressivo mas, curiosamente, ele está sempre impassível nas cenas passadas no programa de televisão. Latika é interpretada pela bela Freida Pinto, e Salim por Madhur Kapoor.

Mas a maior personagem do filme é a própria Índia. Além das favelas, lá está também o famoso Taj Mahal, em uma sequência que me pareceu bastante "turística", provavelmente colocada ali para agradar ao gosto estrangeiro. O filme é dirigido por Danny Boyle, que tem uma carreira irregular. Ele dirigiu filmes tão diferentes quanto o cult "Trainspotting", a ficção científica 'Sunshine" e agora este "Quem quer ser um Milionário?". Como disse no início, é um filme simples, filmado em tons quentes e editado com a velocidade de um videoclip. Provavelmente seu lado "exótico" acabou conquistando as platéias européias e americanas mais do que por aqui. Agora que se tornou um fenômeno, pode-se dizer que foi um golpe calculado para agradar ao cinema indiano e selar a aproximação com o americano, que vem perdendo cada vez mais espectadores ano a ano. Embora haja certa verdade nisso, creio que o fator "sorte" (ou "destino", como prega o filme) tenha tido grande participação no sucesso do filme. A sequência final assume o lado "Bollywood" e exibe um grande número de música e dança.