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domingo, 4 de fevereiro de 2024

Stillwater - Em busca da verdade (Stillwater, 2021)

Stillwater - Em busca da verdade (Stillwater, 2021). Dir: Tom McCarthy. Netflix. "Stillwater" é daqueles filmes que não sabem o que querem ser. Há duas boas histórias convivendo aqui, mas não há muita liga entre elas. Matt Damon é Bill, o típico americano médio, trabalhador braçal, boné, cavanhaque, dirigindo um utilitário e rezando antes de toda refeição. Bill vai para Marselha, França, visitar a filha. Allison (Abigail Breslin) está presa pelo assassinato da namorada, Linda, há cinco anos. A filha alega ter descoberto novas evidências de sua inocência, mas como a promotora não quer reabrir o caso, cabe a Bill investigar por conta própria.

Bill não fala francês (claro) e está hospedado em um pequeno hotel, onde conhece uma mãe solteira, Virginie (Camille Cottin, ótima) e a filha pequena, Maya (Lilou Siauvaud). É conveniente demais que Virginie saiba falar inglês e, do nada, resolva ajudá-lo na investigação, mas... ok. O problema é que o filme não sabe se vai ser sobre a investigação do caso de assassinato da filha ou sobre a relação de Bill com essa francesa e a filha. Há momentos em que as duas histórias convergem mas, por grande parte do filme (que é longo demais, com duas horas e vinte de duração), parece que estamos vendo uma estranha comédia romântica. Virginie é atriz de teatro e tenta fazer o americano ignorante gostar de arte. Bill se apaixona pela garotinha, Maya, e passa a buscá-la na escola e até arruma um emprego na construção civil. Logo todos estão morando juntos, Bill faz comida para as mulheres da casa, Virginie arruma um emprego na televisão e.... que filme estamos vendo mesmo?

Damon, mais "gordo", de cavanhaque e boné, tenta fazer a gente esquecer que ele é Jason Bourne, mas é estranho vê-lo andando pelas ruas da França sem saber muito o que fazer. Lá pelo final o filme se lembra da trama de assassinato e muda drasticamente, partindo para um final estranho demais. A direção é de Tom McCarthy, que dirigiu o vencedor do Oscar "Spotlight". Tá na Netflix.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Intruso (Foe, 2023)

Intruso (Foe, 2023). Dir: Garth Davis. Amazon Prime Video. Filme que decepciona porque tinha várias coisas a favor; o elenco é composto por Saoirse Ronan e Paul Mescal, que são muito bons e se entregam por inteiro. A premissa de ficção-científica é interessante. Em 2065, o mundo está passando por secas terríveis e parte da população é convocada a trabalhar em estações espaciais. Hen e Junior (Ronan e Mescal) são donos de uma fazenda no meio oeste americano. Um dia chega um representante da empresa OuterMore, Terrance (Aaron Pierre) e informa o casal que Junior foi convocado a trabalhar no Espaço. Hen, a esposa, não foi chamada e deve aguardar o retorno do marido. Terrance avisa que um substituto vivo, um clone controlado por AI, iria ficar no lugar de Junior enquanto ele estivesse no espaço. O representante da empresa também diz que tem tem que observar o casal, então ele se muda para a casa deles e se torna uma presença complicadora.

A ideia é interessante (e muito parecida com um episódio recente de Black Mirror). O problema é que o filme investe pesado no melodrama e há cenas intermináveis em que Ronan e Mescal discutem, brigam, depois retomam em cenas quentes de sexo. Há cenas visualmente belas em que o casal, pequenas figuras em meio a uma vastidão vazia, percorrem as paisagens em volta da fazenda. Há discussões sobre a vida e a morte, sobre o passado, sobre o futuro, tudo regado por uma trilha instrumental melancólica.

Tudo muito bem se o filme se assumisse "cerebral" e misterioso, mas há uma cena desastrosa em que tudo é explicado nos mínimos detalhes, quebrando o mistério com uma "revelação" que não era tão difícil de imaginar. Fica difícil também entender a lógica por trás da empresa. Por que eles se dariam a todo este trabalho e custos apenas para recrutar um simples operário espacial? Por que enviar pessoas comuns ao espaço se, em seu lugar, poderiam ir clones perfeitos? Enfim, um filme difícil de terminar. Há várias boas ideias e as interpretações são ótimas, mas mal aproveitadas. Disponível na Amazon Prime Video.

 

Priscilla (2023)

Priscilla (2023). Dir: Sofia Coppola. A história de Priscilla Presley parece feita sob medida para o cinema de Sofia Coppola. Um cinema às voltas com personagens meio perdidas, procurando a aprovação e/ou atenção de um personagem mais velho ("Encontros e Desencontros"), ou mesmo do pai ("As Virgens Suicidas", "Um Lugar Qualquer" e "On the Rocks"). Aqui, Coppola aponta suas lentes para uma menina de 14 anos chamada Priscilla Beaulieu. Ela morava na Alemanha em uma base militar na mesma época em que Elvis Presley estava no exército. Priscilla é interpretada por Cailee Spaeny como uma garota solitária e com saudades dos EUA. Um amigo de Elvis a convida para uma festa da casa do "rei" e é amor à primeira vista.

Ao contrário da biografia exagerada feita por Baz Luhrmann em 2022, este é um filme quieto e calmo. O foco aqui não é Elvis, mas a menina que ele levou para os EUA e colocou sob uma redoma de vidro em Graceland, o rancho dos Presley. Elvis é interpretado por Jacob Elordi, que não se parece muito com Elvis, mas convence bastante. A relação entre ele e a garota mistura um conto de fadas com uma história de terror. Apesar de ficar com muitas mulheres estrada afora, em casa Elvis é um cavalheiro que diz à jovem namorada que eles não podem "se deixar levar pelos desejos". Ao mesmo tempo, ele a vicia em vários tipos de remédios (para dormir, para ficar acordado) e a leva a lugares não apropriados à idade dela (como Las Vegas).

O filme tem boa recriação de época mas a trilha sonora tem vários momentos anacrônicos, com músicas modernas tocando por cima de montagens dos anos 1960. Li uma entrevista de Coppola em que ela dizia que não queria pintar Elvis como um "vilão", mas ele é mostrado, no mínimo, como um idiota. Carente, narcisista e controlador, ele trata a garota como um bibelô, enquanto está sempre cercado de vários "amigos" puxa-sacos que fazem todas as suas vontades. O roteiro é baseado nas memórias da própria Priscilla Presley. Nos cinemas.

domingo, 6 de agosto de 2023

A Vida Depois (The Fallout, 2021).

A Vida Depois (The Fallout, 2021). Dir: Megan Park. HBO Max. Filme bonito e muito sensível sobre um assunto bastante comum nos últimos anos (infelizmente). Duas adolescentes estão no banheiro de uma escola de ensino médios dos EUA quando escutam tiros vindos do corredor. As duas se escondem em um box e a câmera nunca sai delas; ouvimos os tiros continuando no corredor, os gritos de desespero e, minutos depois, a polícia, tudo do ponto de vista das garotas (e de um rapaz, que entra no meio do tiroteio).
É mais um dia nas escolas dos Estados Unidos, mas este filme foca nos sobreviventes e como eles enfrentam as semanas seguintes. Jenna Ortega (famosa por "Wandinha") está excelente como uma das garotas, Vada. Ela é esperta, natural e completamente a vontade na pele da adolescente (Ortega já tinha quase 20 anos quando fez o filme, mas a personagem dela tem 16 e, francamente, ela parece ter uns 13). A outra garota da cena inicial é completamente diferente de Vada; Mia (Maddie Ziegler) é alta, bonita e uma "influencer" com milhares de seguidores no Instagram. Enquanto Vada tem família, com pai, mãe e uma irmã mais nova para lhe darem suporte (embora eles não saibam exatamente como agir), Mia parece popular mas é solitária e mora em uma casa grande, cheia de objetos de arte, mas os pais estão sempre viajando pela Europa (e não voltam nem depois do tiroteio).

Vada e Mia acabam engatando uma amizade gerada pelo trauma e pela necessidade de apoio. Há cenas inocentes delas vendo TV e dançando juntas, mas há também álcool e drogas envolvidas (e confesso que é meio estranho ver Ortega, com o rosto de uma criança, fazendo essas coisas). A personagem dela tenta lidar com o trauma como pode, inclusive ficando confusa sobre seus sentimentos tanto por Mia quanto por Quinton (Niles Fitch), um garoto que também sobreviveu ao ataque. Shailene Woodley (da série "Divergente"), que até um tempo atrás fazia papéis de adolescente, faz uma participação aqui como uma psicóloga. Um bom filme, bem interpretado e dirigido com sensibilidade. Disponível na HBO Max. 

domingo, 21 de maio de 2023

O pior vizinho do mundo (A man called Otto, 2022)

O pior vizinho do mundo (A man called Otto, 2022). Dir: Mark Forster. HBO Max. Versão americana de um filme sueco que, infelizmente, não vi (mas provavelmente era melhor), "O pior vizinho do mundo" é simpático e previsível. Tom Hanks, quem diria, já tem idade para fazer o papel do "velho rabugento" que, em outras épocas, seria feito por Walter Matthau ou, talvez, Clint Eastwood. Ele é Otto, um viúvo que está desgostoso da vida, briga com todo mundo e implica com a vizinhança; mas, para surpresa de zero pessoas, no fundo ele tem bom coração.


O bom elenco de coadjuvantes é elevado pela mexicana Mariana Treviño, que interpreta a nova vizinha de Otto, Marisol. Ela é cheia de vida, tem um marido bobão, duas filhas lindas e mais um bebê a caminho. Otto já estava literalmente com a corda no pescoço quando a mexicana bateu à sua porta trazendo comida e se apresentando. Aos poucos, o coração gelado do velho acaba sendo derretido pela moça e pela família dela. Em uma subtrama, ficamos sabendo que uma imobiliária quer despejar os moradores da vizinhança e construir prédios no lugar. Por um momento achei que a casa de Hanks fosse sair voando, carregada por balões de festa.

Como disse, o filme é bem simpático, apesar de previsível. Hanks está bem como o velho Otto e o roteiro mistura comédia com boas pitadas de drama. Flashbacks mostram a vida de casado de Otto com o amor da sua vida, Sonya (Rachel Keller), uma professora. A boa trilha sonora é de Thomas Newman e a direção de Mark Forster, que teve uma carreira bem diversa, dirigindo 007 (Quantum of Solace), Guerra Mundial Z, Em busca da Terra do Nunca, etc. Disponível na HBO Max.

quarta-feira, 12 de abril de 2023

Kill Boksoon (2023)

 
Kill Boksoon (2023). Dir: Sung-hyun Byun. Netflix. Há um bom filme de 90 minutos dentro deste loooongo filme de ação coreano de 137 minutos. Estrelado por Jeon Do-yeon (de "The Housemaid") como uma assassina profissional, "Kill Boksoon" é muito bem feito, bem interpretado e tem um roteiro que seria ótimo com, no mínimo, 30 minutos a menos (mas eu tenho achado isso da maioria dos filmes ultimamente, então talvez o problema seja eu?).


Gil Boksoon (Jeon Do-yeon) é uma assassina de elite de uma "empresa" coreana chamada MK. Veterana, ela está no fim do seu contrato e pensando em parar. O motivo seria a filha adolescente, Gil Jae Yeong, que está em uma fase difícil. Como uma jogadora de xadrez, Boksoon tem a habilidade de ver vários movimentos à frente quando enfrenta um adversário. Assim, diversas vezes a vemos sendo morta por alguém... aí a cena volta para o início e ela tenta uma manobra diferente. O mesmo acontece quando ela tem que lidar com a filha (para ver como ela tem dificuldades em ser mãe, já que encara a filha da mesma forma como seus alvos). Já vimos antes no cinema histórias de assassinos que têm que manter uma fachada quando em suas vidas "normais", e aqui não é diferente.

As boas cenas de ação e luta corpo a corpo são bem poucas quando comparadas a intermináveis cenas em que se discute de tudo; há cenas intermináveis em um bar em que assassinos de "classes" diferentes conversam. Há cenas intermináveis em "reuniões de diretoria" das empresas de assassinos. Há cenas intermináveis em que os irmãos (homem e mulher, que mais parecem amantes) donos da MK tentam decidir o que fazer com Boksoon, que nunca segue as regras. Em meio a tudo isso, como disse, há um bom filme de ação e um bom filme da relação entre uma mãe e sua filha (assunto de vários filmes ultimamente, como o também interminável "Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo"). Tá na Netflix. 

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Mães Paralelas (Madres Paralelas, 2021)

Mães Paralelas (Madres Paralelas, 2021). Dir: Pedro Almodóvar. Netflix. Belo filme do espanhol Almodóvar, um delicado conto que mistura maternidade, guerra civil, memórias, escavações, segredos, vida e morte. Parece muito, mas o espanhol sabe equilibrar como poucos tantos temas em um melodrama que beira o exagero, mas é dirigido e interpretado com tanto talento que tudo parece honesto.

Penélope Cruz, excelente, é Janis Martínez, uma fotógrafa de Madrid que está para dar à luz; no mesmo quarto está Ana (Milena Smit), uma adolescente também muito grávida. As duas têm bebês praticamente ao mesmo tempo, gerando duas meninas. Elas trocam telefones e prometem manter contato. Em uma trama paralela, Penélope Cruz procura por um arqueólogo forense para escavar uma vala comum em sua vila natal; lá estariam enterradas dez pessoas mortas durante a Guerra Civil Espanhola, entre elas seu bisavô. O responsável pela escavação é Arturo (Israel Elejalde), que é o pai da filha de Penélope Cruz.

Falar mais sobre a trama provavelmente revelará segredos que devem ser descobertos vendo o filme. Evite saber detalhes. O que vale, repito, é a maestria com que o veterano diretor espanhol desenrola seu melodrama, auxiliado por colaboradores tradicionais como Alberto Iglesias (indicado ao Oscar pela trilha sonora) e colorida fotografia de José Luis Alcaine. Penélope Cruz (indicada ao Oscar), que fez vários filmes com Almodóvar, está ótima. O roteiro faz paralelos interessantes entre as mães que perderam seus filhos na Guerra Civil com os problemas enfrentados pelas mães solteiras modernas. Repare como exames de DNA são usados para situações tão diversas. Belo filme. Tá na Netflix (assim como várias outras obras de Almodóvar, aproveite).

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Bar Doce Lar (The Tender Bar, 2021)

 
Bar Doce Lar (The Tender Bar, 2021). Dir: George Clooney. Amazon Prime. Filme bonito, muito bem dirigido por Clooney e com um surpreendente Ben Affleck em um dos papéis principais, "The Tender Bar" não foi muito bem recebido pela crítica. Eu gostei. O roteiro (de William Monaham) é baseado nas memórias de J.R. Moehringer. O bar to título é onde se passa grande parte da história, que revolve ao redor de um garoto chamado JR (Daniel Ranieri, uma graça de menino). Ele e a mãe (Lily Rabe) voltam para a casa dos pais porque ela não consegue mais pagar o aluguel. O pai de JR é um canalha que é "só uma voz na rádio" (ele é um locutor que liga para o menino de tantos em tantos anos). O avô do garoto é interpretado pelo grande Christopher Lloyd, meio sumido das telas ultimamente. Há uma bela sequência em que o avô leva o neto para a escola em um evento de dia dos pais.

Quem rouba a maioria das cenas, no entanto, é Ben Affleck como o Tio Charlie. Ele se torna uma espécie de pai substituto para o garoto, lhe ensinando sobre os fatos da vida e descobrindo o talento dele como escritor. Tye Sheridan interpreta JR quando adolescente e o acompanhamos a Yale, onde se matricula em Direito (sonho da mãe). Lá ele desenvolve uma paixão não correspondida por uma mulher manipuladora chamada Sidney (Briana Middleton), que enrola o rapaz por vários anos.

O filme é bem dirigido por George Clooney, que mantém um ar nostálgico, com uma fotografia quente e a câmera em movimento. Há um plano sequência muito bom que mostra a ideia de "uma volta com o filho" que o pai de JR faz um dia, aparecendo do nada e dirigindo com o garoto em uma volta pelo quarteirão. O foco, no entanto, está sempre na interação entre os atores, nos olhares e reações. Bonito. Disponível na Amazon Prime Video.

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

A Filha Perdida (The Lost Daughter, 2021)

A Filha Perdida (The Lost Daughter, 2021). Dir: Maggie Gyllenhaal. Netflix. Filme de estreia na direção da atriz Maggie Gyllenhaal, "A Filha Perdida" é um drama ambíguo e bastante feminino. O roteiro, adaptado por Gyllenhaal de um livro de Elena Ferrante, trata de uma professora divorciada chamada Leda (a grande Olivia Colman), que vai passar as férias sozinha na Grécia. Leda se instala em um apartamento alugado e está tranquila na praia quando é interrompida pela chegada de uma barulhenta família ítalo-americana. Leda fica interessada na complicada dinâmica entre uma jovem mãe, Nina (Dakota Johnson) e a filha pequena, Elena. Nina não tem um momento de paz e sua relação com a filha desperta memórias dolorosas em Leda, que é especialista em literatura comparada e, quando jovem, também tinha uma relação complicada com duas filhas pequenas, Bianca e Martha.

O filme mistura cenas do presente com flashbacks em que Leda é interpretada por Jessie Buckley, que está ótima. A princípio você não imaginaria que Colman e Buckley pudessem interpretar a mesma pessoa em idades diferentes, mas a sensível direção de Gyllenhaal as faz bastante parecidas. Leda não é uma personagem fácil e o roteiro não tenta deixá-la mais agradável ao espectador.

Noções tradicionais de maternidade são atropeladas pela vontade de crescer na carreira e ser "livre", mas como fazer isso com marido e duas filhas pequenas? Leda acaba tomando decisões que, repito, não a tornam muito agradável. "Eu sou muito egoísta", ela acaba confessando a Nina em uma cena. Há também uma trama envolvendo uma boneca que até começa engraçada mas, com o tempo, fica perigosa. O que quer Leda? O filme é mais longo do que o necessário (eu dei uma pausa em um momento e ainda havia uma hora de duração). A fotografia de Hélène Louvart abusa dos closes. A edição do brasileiro Affonso Gonçalves é muito boa; grande parte do filme é contada com olhares e reações e tudo é resultado da boa montagem dos planos. Olivia Colman e Jessie Buckley estão excelentes e, provavelmente, estarão entre as indicadas ao Oscar. Tá na Netflix. 

Encontros (Encounter, 2021)

 
Encontros (Encounter, 2021). Dir: Michael Pearce. Amazon Prime. Hmmm, este é meio difícil de definir. Há várias coisas que podem ser vistas como "spoiler", talvez pelo fato de que o roteiro do próprio filme não sabe direito o que quer. Riz Ahmed, sempre bom, recém saído de uma indicação ao Oscar por "O Som do Silêncio", também da Amazon, interpreta aqui um pai ausente que foi Fuzileiro dos Estados Unidos. Ele entra na casa da ex-esposa uma noite e diz aos dois filhos que eles vão sair em uma aventura. Os três partem madrugada afora pelas estradas dos EUA. Ahmed diz aos filhos que a Terra foi invadida por seres extraterrestres que infectam os humanos através dos insetos. As primeiras imagens do filme, aliás, mostram "algo" entrando na atmosfera terrestre a partir do espaço e, em seguida, várias imagens de insetos devorando outros ou picando seres humanos.


O melhor do filme é a interação entre Riz Ahmed e os garotos (Lucian-River Chauhan e Aditya Geddada). Os meninos parecem mesmo filhos dele e li que as cenas entre eles foram bastante improvisadas. A direção de fotografia é boa e as belas paisagens americanas são acompanhadas por uma trilha "viajante" de Jed Kurzel. O clima de mistério e ficção-científica vai dando lugar a algo mais "pé no chão", mas o filme nunca mergulha de vez em uma coisa ou outra. Talvez o filme nunca deveria sair do foco em Ahmed e os garotos (a personagem de Octavia Spencer, por exemplo, poderia nem existir). Eu queria ter gostado mais. Riz Ahmed é bom mas, sozinho, não consegue segurar o filme. Disponível na Amazon Prime.

Imperdoável (The Unforgivable, 2021)

Imperdoável (The Unforgivable, 2021). Dir: Nora Fingscheidt. Netflix. Dramalhão de Supercine que dá para assistir pelo bom elenco. Sandra Bullock estava já com 56 anos nas filmagens e, pelo que entendi, interpreta uma mulher de uns 45. Ela está bem, apesar do rosto bem plastificado. Ela é Ruth Slater, uma mulher que é solta da prisão após cumprir 20 anos pelo assassinato de um policial. A cena do crime é vista em fragmentos durante o filme e é propositalmente confusa. Ruth estava defendendo a própria casa de uma reintegração de posse e não queria se separar da irmã mais nova, Kate.

Vinte anos depois, livre da prisão, Ruth tem como missão reencontrar a irmã, que foi adotada por outra família e tem apenas vagas lembranças do passado. O elenco, como disse, é bom. Vincent D´Onofrio interpreta um advogado que aceita ajudar Ruth. A esposa dele é a grande Viola Davis, totalmente desperdiçada e que faz só umas três cenas. Jon Bernthal é um companheiro de trabalho. Richard Thomas (caramba.... o John Boy?? rs) é o pai adotivo de Kate (Aisling Franciosi).

As filmagens foram interrompidas pela pandemia e retomadas depois, o que talvez explique o sumiço do personagem de D'Onofrio na parte final. Um cara que interpreta o chefe de Sandra Bullock também some sem explicações. É filme de Supercine, mas tem seus momentos. Tá na Netflix.
 

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

The White Lotus (2021)

The White Lotus (2021). Dir: Mike White. HBO Max. Minissérie em 6 capítulos que mistura o belo visual do Havaí com o retrato do pior que existe no ser humano, "The White Lotus" é deliciosamente perversa. A série é passada em um resort exclusivo de alta classe que só pode ser acessado por barco. A cena da chegada dos hóspedes, aliás, me lembrou o começo dos episódios de "Ilha da Fantasia". O hotel é frequentado pela "nata" dos turistas internacionais, quase todos brancos, ricos e acostumados ao melhor.

O hotel é gerenciado por Armond (Murray Bartlett, excelente), um alcoólatra que está sóbrio há cinco anos. Ele é cortês e competente, mas está no limite da paciência. Nesta semana, ele vai ter que lidar com: a) um casal em lua de mel formado por Shane Patton (Jake Lacy) e a esposa, Rachel (Alexandra Daddario). Shane é o típico "filhinho da mamãe", milionário que está passando férias em um paraíso, mas não se conforma que o hotel errou e o colocou na SEGUNDA maior suíte do hotel. Ele não vai se esquecer desse erro, nem que, com isso, estrague a lua-de-mel e as férias. A esposa, Rachel, vem de uma família com menos dinheiro e, aos poucos, percebe que entrou em uma roubada (embora ela não saiba direito o que quer da vida).

b)a família Mossbacher é formada por uma executiva bem sucedida, Nicole (Connie Britton), o marido Mark (Steve Zahn), a filha insuportável Olivia (Sydney Sweeney) e o filho Quinn (Fred Hechinger). Olivia trouxe uma amiga, Paula (Brittany O'Grady), e as duas têm um estoque de remédios e drogas capaz de dopar um exército. Nicole é workaholic e passa as férias em chamadas com a China. O pai, Mark, é um coitado que tenta se aproximar dos filhos mimados das formas mais idiotas do mundo. Os adolescentes, quando não estão no celular, só sabem mostrar como estão revoltados com as injustiças do mundo (enquanto aproveitam as férias em um resort dez estrelas).

c) Jennifer Coolidge é Tanya, uma "perua" de meia idade que traz na bagagem as cinzas da mãe, que ela pretende jogar no oceano. Ela bebe muito e está sempre com dores; em uma visita ao spa do hotel ela recebe uma massagem "milagrosa" de Belinda (Natasha Rothwell). Tanya se "apaixona" por Belinda e a convida para jantares e passeios, além de prometer financiar uma clínica particular para a massagista, que realmente acredita na promessa.

Todos estes personagens se cruzam pelos corredores luxuosos do hotel e pelas praias paradisíacas do Havaí mas, pelo jeito, nunca estão felizes. A série tem um humor muito sarcástico e há algumas cenas bastante fortes, que contrastam com a direção de fotografia maravilhosa e a trilha sonora composta por canções tradicionais do Havaí. Disponível na HBO Max.
 

Madame (2017)

Madame (2017). Dir: Amanda Sthers. Amazon Prime. Comédia dramática que poderia ter rendido bem mais, "Madame" lembra um pouco "Que horas ela volta?", filme brasileiro em que Regina Casé interpretava uma empregada "da família" em uma casa de São Paulo. Aqui, uma família americana rica tem uma casa enorme em Paris. O casal principal é interpretado pelos grandes Harvey Keitel e Toni Collette, excelentes. A empregada é Rossy de Palma, espanhola vista em vários filmes de Almodóvar.

A americana organiza um jantar de gala em que até o prefeito de Londres estará presente, mas há um problema: o filho de Harvey Keitel, Steven (Tom Hughes) aparece de surpresa, o que faz com que a mesa tenha 13 convidados. Para fazer um número par, a patroa pede que a empregada coloque um vestido e se sente à mesa ("fale pouco, beba pouco"). Só que um convidado, um vendedor de arte inglês (Michael Smiley), acaba se apaixonando pela espanhola (que ele acredita ser da realeza da Espanha).

Está armada uma comédia de erros em que o rico inglês começa a sair com a empregada espanhola, acreditando que ela é uma rica excêntrica, enquanto que a patroa americana não se conforma que a empregada tenha uma vida amorosa melhor do que a dela. Toni Collette está muito bem como uma mulher rica mas mal amada, que acha que a empregada deve voltar "ao seu lugar". O tom cômico se torna mais dramático conforme o ciúme da patroa aumenta e ela começa a interferir no romance da empregada. Harvey Keitel está divertido e Rossy de Palma está muito bem. É um filme bem europeu, com produção francesa mas falado em inglês. O tema poderia ter rendido mais, mas não é um filme ruim. Disponível na Amazon Prime.
 

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Força Maior (Force Majeure, 2014)

 

Força Maior (Force Majeure, 2014). Dir: Ruben Östlund. Amazon Prime. Comédia dramática desconfortável de se assistir, "Força Maior" é um estudo que trata principalmente da fragilidade masculina (embora também trate da fragilidade dos relacionamentos e da autoridade materna/paterna). Um casal sueco vai passar as férias em uma estação de esqui no Alpes Suíços. Eles levam junto os filhos (uma menina com uns 13 anos e um garoto de uns seis anos), para passar um "tempo em família". Eles parecem a família perfeita, sorrindo para fotos no topo da montanha. No segundo dia de férias, porém, eles estão em um restaurante na montanha e testemunham uma avalanche. O que começa como um belo espetáculo da natureza, no entanto, se transforma rapidamente em uma ameaça. A avalanche se aproxima rapidamente do restaurante onde a família está e parece que todos serão engolidos. As crianças gritam desesperadas e a mãe as abraça. O pai, assustado, sai correndo. Tudo acontece muito rápido mas, ao contrários das aparências, não havia perigo; a avalanche para e eles são apenas cobertos pelo vapor do gelo.

Apesar de tudo terminar "bem", o evento paira desconfortavelmente sobre a família. O pai teria realmente abandonado esposa e filhos e corrido para se salvar? É assim que a esposa, Ebba (Lisa Loven Kongsli) interpreta a situação; já o marido, Tomas (Johannes Kuhnke) não lembra desta forma. As férias continuam mas ninguém mais está se divertindo. O roteiro (do diretor) é muito bom em criar cenas desconfortáveis; o hotel é de luxo e as paisagens são deslumbrantes, mas o clima entre o casal se torna mais frio do que as pistas de esqui. Há um ótimo uso do som (e imagem) das explosões controladas que a estação de esqui faz para soltar a neve das montanhas. Vemos os clarões, à noite, enquanto o casal conversa sobre o ocorrido, e parece que estamos vendo uma cena de guerra. Há muitos sussurros e idas ao corredor do hotel para discussões do casal ("por causa das crianças"), mas o diretor faz questão de mostrar que as crianças sabem que o casamento vai mal e sofrem com isso.

É dramático mas, ao mesmo tempo, curiosamente engraçado. O modo como o marido se recusa a admitir o que fez revela sua fragilidade. A mulher, por outro lado, parece usar a situação para por o casamento em cheque (ela fica muito curiosa sobre a história de uma amiga casada que deixa marido e filhos em casa e sai em férias de vez em quando, acompanhada por outros homens). É um filme bem europeu, muito bem fotografado por Fredrik Wenzel. A última parte se alonga um pouco, com vários "falsos finais". Soube que cometeram uma versão americana com Will Ferrell (imagino que mataram toda a sutileza deste enredo). Disponível na Amazon Prime.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Manchester à Beira-Mar (2016)

Pense em um filme triste. Pense em um filme bom. Casey Affleck (bem melhor que o irmão Ben) é Lee Chandler, um zelador que mora sozinho em Boston fazendo trabalhos diversos. Um dia ele recebe uma ligação urgente e vai até Manchester, onde descobre que o irmão, Joe (Kyle Chandler) morreu de uma rara doença do coração. Lee é um cara de (bem) poucas palavras e é dado a explosões violentas. A trama, não linear, nos mostra flash backs de uma época em que ele era casado e tinha três filhos pequenos. O que teria acontecido com eles, onde eles estão? No presente, Lee tem que lidar com a logística de contatar funerária, advogados, ler o testamento e descobrir que o irmão lhe deixou a responsabilidade de ser guardião do filho adolescente, Patrick (Lucas Hedges, muito bem).

É um filme lento e bastante frio, quase tão frio quanto as paisagens cobertas de neve mostradas pela ótima fotografia de Jody Lee Lipes. O comportamento ausente e violento do personagem de Casey Affleck, aos poucos, vai sendo explicado por um evento trágico em seu passado. O sobrinho, agora órfão, precisa de uma figura paterna mas Lee está mais do que relutante em assumir a responsabilidade. Várias pessoas na cidade sequer o querem por perto.
"Manchester à Beira-Mar" não está muito interessado em mostrar aquelas grandes cenas de redenção que costumamos ver em dramas deste tipo. Casey Affleck está maravilhosamente contido e todos os personagens, na verdade, parece que estão precisando de um abraço. Não é um filme fácil, mas lentamente ele te conquista e, como na vida, mostra que não há respostas simples para os problemas cotidianos.

João Solimeo

domingo, 11 de dezembro de 2016

Sully: O Herói do Rio Hudson (2016)

Em 15 de janeiro de 2009, um Airbus 320 partiu do aeroporto de LaGuardia, em Nova York, carregando 155 passageiros e tripulantes. Apenas 208 segundos depois, com as duas turbinas destruídas por pássaros em voo, o avião pousou gentilmente sobre as águas geladas do Rio Hudson. Helicópteros e barcos da guarda costeira conseguiram resgatar todos com vida. A cidade de Nova York, ainda sofrendo os efeitos dos ataques ao World Trade Center em 2001, transformou o caso em uma grande celebração. O capitão do avião, Chesley "Sully" Sullenberger, foi transformado em herói nacional, fez inúmeras entrevistas e era abraçado por estranhos na rua; mas será que ele, ao pousar na água, teria tomado a decisão certa?

É esta questão que "Sully", o mais novo filme do veterano diretor Clint Eastwood, tenta responder. Sully é interpretado por ninguém menos que Tom Hanks, que aos 60 anos é, provavelmente, o ator mais amado desta geração (há vinte anos, provavelmente, o próprio Eastwood teria interpretado o papel). Hanks, desnecessário dizer, está ótimo e a produção é mais do que competente como entretenimento adulto. Falta, no entanto, um pouco mais de garra ao filme.

Clint Eastwood está com 86 anos e já fez desde obras primas (Os Imperdoáveis, Sobre Meninos e Lobos) a filmes divertidos, mas descartáveis (Cowboys do Espaço) até bobagens (Além da Vida). "Sully" se agarra às costas de Tom Hanks para se manter, literalmente, acima da água. Há alguns vícios antigos que chamam a atenção, como o fato dos burocratas que estão analisando o incidente terem todos cara de "mau" e agirem de forma desagradável. Laura Linney, brilhante em "Sobre Meninos e Lobos", está aqui reduzida à mulher "do lar" que fica apenas chorando no telefone com Tom Hanks ou falando sobre problemas financeiros. Uma trilha sonora açucarada é ouvida cada vez que testemunhamos um ato heroico ou tocante.

Por outro lado, fica claro que estamos diante de um diretor que, em grande parte do tempo, sabe o que está fazendo. Eastwood usa de efeitos criados em computação gráfica de forma discreta e muito eficiente. A direção de atores (a não ser com os "vilões") é boa e Aaron Ekhart, particularmente, está ótimo como Jeff Skyles, o espirituoso co-piloto de Sully. Os 208 segundos do voo são recriados de forma precisa e repetidos por diversas vezes durante o filme, de diferentes pontos de vista. Eastwood optou por contar a história de forma não linear, começando após o acidente e retornando a ele de tempos em tempos, durante o transcorrer da investigação. 

A sequência final se passa em uma daquelas "cenas de tribunal" que, se não fossem os talentos envolvidos, caberiam melhor em um telefilme de sábado à noite. O que fica de Sully é que pessoas são mais importantes do que simulações de computador, e bons atores como Tom Hanks, por enquanto, ainda batem qualquer computação gráfica. O produto final é um filme que merece ser visto, mas está longe de ser memorável.

João Solimeo

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Avenida ("Boulevard", 2014)

Havia o Robin Williams comediante, com sua performance acelerada, as frases saindo como uma metralhadora, os movimentos ágeis, as dezenas de vozes diferentes, o humor ácido e contundente, de filmes como "Bom dia, Vietnam", "Alladin", "Uma Babá Quase Perfeita" e "Jumanji". Havia também outro Robin Williams, de voz suave e paternal, o olhar triste e introspectivo, que interpretava o professor de "Sociedade dos Poetas Mortos", o psiquiatra de "Gênio Indomável", ou o viúvo trágico de "Amor Além da Vida". E havia ainda outro Robin Williams, pouco conhecido do grande público, que era o ator que se arriscava em filmes independentes como "Retratos de uma Obsessão", "Violação de Privacidade" e "O Melhor Pai do Mundo".  Todos estes personagens encontraram um fim trágico em agosto de 2014, quando o corpo do comediante foi encontrado em sua casa, aparentemente vítima de suicídio.

Um de seus últimos filmes, "Boulevard" (a Netflix exibe o filme com o título de "Avenida") traz Williams em um de seus papéis arriscados. Ele interpreta Nolan Mack, um bancário que trabalha há 26 anos na mesma agência, almoça sempre no mesmo lugar e está casado com a mesma mulher (a ótima Kathy Baker) há décadas. Ele parece o marido ideal. É carinhoso com a esposa, lhe leva café na cama, prepara jantares e até lava a louça. Nolan cuida do pai doente em uma casa de repouso e é tão profissional que o gerente do banco está preparando uma promoção para ele.

As coisas, porém, não são exatamente o que parecem. Nolan esconde de todos, até dele mesmo, um segredo; Nolan é gay. Uma noite, voltando da casa de repouso do pai, ele para em um semáforo e é atraído por um garoto de programa chamado Leo (Roberto Aguire). Ele leva o rapaz até um motel mas, apesar da disposição do garoto, Nolan quer "apenas conversar". Os dois começam um "relacionamento" baseado não só na enorme carência de Nolan mas também no seu dinheiro. Leo tenta manter as coisas de forma "profissional" mas, aos poucos, parece corresponder ao interesse de Nolan, que é uma mistura de desejo físico (apesar de quase platônico) e uma preocupação paternal pelo rapaz. A esposa, em casa, finge que não sabe o que está acontecendo, apesar deles dormirem em quartos separados e do marido tratá-la com muito respeito e carinho, mas nenhum (por falta de uma palavra melhor) "tesão".

O filme, escrito por Douglas Soesbe e dirigido por Dito Montiel, é lento e melancólico. Robin Williams carrega o filme nas costas, auxiliado pelo competente elenco (que também conta como Bob Odenkirk, de "Better Call Saul"). O fato de sabermos que foi o último papel de Williams empresta ao personagem ainda mais melancolia e peso. Robin Williams fala pouco, se movimenta devagar e está bem diferente do que se espera dele, mas é uma bela interpretação. O roteiro vai em um crescendo que, infelizmente, leva a um final que me pareceu fácil demais.

Um filme pequeno, bem dirigido e interpretado, que talvez será mais lembrado pela despedida precoce de Williams do que por sua trama. Disponível na Netflix.

João Solimeo

domingo, 11 de setembro de 2016

Tallulah (2016)

Quem vê o poster de "Tallulah" entre as opções da Netflix pode pensar, por um momento, que se trata de uma continuação de "Juno" (2007, de Jason Reitman). Vemos Ellen Page segurando um bebê ao lado da atriz Allison Janney, que também estava naquele filme. "Tallulah" é uma produção original da Netflix escrita e dirigida por Siam Heder, atriz e roteirista que escreveu vários episódios da série "Orange is the new black" (também da Netflix). Este é seu primeiro longa metragem e é um filme bastante feminino, tanto no tema quanto na equipe que o produziu (a diretora de fotografia também é uma mulher, Paula Huidobro).

Ellen Page é Tallulah, uma órfã que mora em uma van com a qual cruza os EUA na companhia do namorado Nico (Evan Jonigkeit). Nico, cansado da vida nômade, abandona Tallulah e diz que vai voltar para casa, em Nova York. Tallulah chega antes do namorado à "Big Apple" e entra em contato com a mãe dele, Margo (Allison Janney), que mora em um apartamento enorme na Quinta Avenida. Tallulah não está sozinha; ela carrega no colo uma linda bebê e diz que ela é filha de Nico. Explicando: no dia anterior Tallulah havia sido confundida com uma camareira de um hotel por Carolyn (Tammy Blanchard), uma mulher que lhe pediu que cuidasse da filha aquela noite. A mulher estava claramente bêbada e não tinha nenhuma condição de ser mãe ou cuidar de uma criança, e Tallulah, em um impulso, acabou sequestrando a menina.


O filme, que poderia facilmente cair no melodrama, é bastante sensível e tem ótimos momentos causados pela química entre Page e Janney. Além da maternidade, um tema forte no filme é o abandono. Tallulah havia sido abandonada pela mãe aos seis anos de idade, que a largou em um orfanato e nunca mais voltou. A personagem de Allison Janney não só foi abandonada pelo filho Nico como pelo marido, que há três anos a trocou por outro homem (vivido por Zachary Quinto, o Spock dos novos filmes de Star Trek). Mesmo Carolyn, que a princípio é mostrada como uma mãe completamente irresponsável, acaba se revelando uma personagem complexa que tenta atrair a atenção do marido, que a renega. Há algumas conveniências, como o fato de demorar tanto para Nico chegar à Nova York e revelar a farsa de Tallulah, ou o fato de que ninguém a reconhece das notícias de jornal que mostram seu rosto. E há uma daquelas cenas difíceis de engolir quando um personagem encontra outro, sem querer, em uma cidade do tamanho de Nova York.

No geral, porém, "Tallulah" é um bom filme, muito bem interpretado e dirigido com competência. A cena final, cheia de poesia, é ótima. O filme está disponível na Netflix.

João Solimeo

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Cake: Uma Razão para Viver



Jennifer Aniston, a eterna "Rachel" do seriado Friends, dá uma guinada na carreira e investe em um personagem sofrido, que lida com um trauma do passado. Aniston está bem no papel, pelo qual foi indicado ao Globo de Ouro de melhor atriz dramática. Confira a crítica completa no vídeo.

domingo, 9 de outubro de 2011

Um Sonho de Amor

Em uma rica mansão em Milão, Itália, um grande número de empregados uniformizados, eficientes e discretos está preparando um jantar especial. É o aniversário do patriarca da família Recchi, um magnata dono de uma rica tecelagem que carrega seu nome; com a idade avançada do Sr. Recchi, ele decide passar a empresa para seu filho mais velho, Tancredi (Pippo Delbono) e para o neto Edoardo (Flavio Parenti). Nos bastidores e calmamente comandando o jantar está Emma (Tilda Swinton), esposa de Tancredi, uma russa de nascimento que aprendeu, com o tempo, a se tornar italiana (o que, no mundo refinado dos Recchi, significa ser eficiente e obediente).

"Um Sonho de Amor" (no original, "Eu sou o amor"), sem exageros, é uma jóia rara. O diretor Luca Guadagnino produz uma obra elegante, extremamente ambiciosa e muito bela de se ver. A direção de fotografia de Yorick Le Saux é deslumbrante. Esta sequência inicial do jantar é filmada à meia luz, em tons quentes que contrastam com o cenário frio de Milão durante uma tempestade de neve. A sofisticação da direção de arte revela, a cada plano, os anos de tradição (e muito dinheiro) que existem naquela família. Ao mesmo tempo, percebe-se que algo não vai bem. O roteiro mostra, aos poucos, os pequenos dramas familiares que vão surgindo, como quando o patriarca se decepciona com o presente dado pela neta Elizabetta (Alba Rohrwacher, de "Que mais posso querer")  que, mais tarde, se revela homossexual. Ou o ciúme não declarado do irmão mais novo por Edoardo, claramente o preferido pela mãe. Para culminar a sequência, ela termina com a chegada de Antonio (Edoardo Gabbriellini), um cozinheiro amigo de Edoardo, que lhe traz um bolo de presente e é apresentado à mãe dele.

Um filme comum seria sobre o adultério de Emma e sobre suas consequências, mas este é um filme mais inteligente. Ele gira em torno das mudanças trazidas pelo tempo e pela sociedade sobre os personagens. Tilda Swinton sempre foi uma atriz excelente e é fascinante o modo como ela encarna o papel de Emma, uma mulher aparentemente sem passado que largou tudo para se tornar membro desta família italiana. A chegada da primavera traz novas cores ao filme e leva os personagens para as ruas, com consequências inesperadas. A revelação da homossexualidade da filha leva Emma a San Remo, onde Antonio, o cozinheiro amigo de Edoardo, planeja abrir um restaurante. Os dois iniciam um caso tórrido e inesperado, filmado por Guadagnino com grande beleza, em cenas passadas em meio à natureza. O relacionamento parece mais uma traição ao filho Edoardo do que ao marido de Emma, constantemente envolvido com a tecelagem e fazendo negócios em Londres.

Claro que a trama não vai acabar bem, mas, novamente, com que elegância o roteiro mescla a decadência familiar dos Recchi com os fatores externos, como a globalização, que vão tirar a tecelagem das mãos da família. Curioso também o modo como a sexualidade é retratada no filme, da frieza entre Tancredi e Emma para o calor de seu relacionamento com Antonio; do homossexualismo de fato de Elizabetta à insinuação de que a amizade entre Antonio e Edoardo poderia se tornar algo mais. Tudo culminando em um final apropriadamente operático, com tragédia, drama e romance resultando em uma emocionante cena de libertação. Imperdível. Visto como cortesia no Topázio Cinemas.

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