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quarta-feira, 12 de abril de 2023

Kill Boksoon (2023)

 
Kill Boksoon (2023). Dir: Sung-hyun Byun. Netflix. Há um bom filme de 90 minutos dentro deste loooongo filme de ação coreano de 137 minutos. Estrelado por Jeon Do-yeon (de "The Housemaid") como uma assassina profissional, "Kill Boksoon" é muito bem feito, bem interpretado e tem um roteiro que seria ótimo com, no mínimo, 30 minutos a menos (mas eu tenho achado isso da maioria dos filmes ultimamente, então talvez o problema seja eu?).


Gil Boksoon (Jeon Do-yeon) é uma assassina de elite de uma "empresa" coreana chamada MK. Veterana, ela está no fim do seu contrato e pensando em parar. O motivo seria a filha adolescente, Gil Jae Yeong, que está em uma fase difícil. Como uma jogadora de xadrez, Boksoon tem a habilidade de ver vários movimentos à frente quando enfrenta um adversário. Assim, diversas vezes a vemos sendo morta por alguém... aí a cena volta para o início e ela tenta uma manobra diferente. O mesmo acontece quando ela tem que lidar com a filha (para ver como ela tem dificuldades em ser mãe, já que encara a filha da mesma forma como seus alvos). Já vimos antes no cinema histórias de assassinos que têm que manter uma fachada quando em suas vidas "normais", e aqui não é diferente.

As boas cenas de ação e luta corpo a corpo são bem poucas quando comparadas a intermináveis cenas em que se discute de tudo; há cenas intermináveis em um bar em que assassinos de "classes" diferentes conversam. Há cenas intermináveis em "reuniões de diretoria" das empresas de assassinos. Há cenas intermináveis em que os irmãos (homem e mulher, que mais parecem amantes) donos da MK tentam decidir o que fazer com Boksoon, que nunca segue as regras. Em meio a tudo isso, como disse, há um bom filme de ação e um bom filme da relação entre uma mãe e sua filha (assunto de vários filmes ultimamente, como o também interminável "Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo"). Tá na Netflix. 

sábado, 10 de julho de 2010

Não, minha filha, você não irá dançar

Há duas fábulas contadas por personagens de "Não, minha filha, você não irá dançar" que lidam com mulheres que venderam a alma ao diabo. Uma explica o título original, e fala sobre uma mulher que não queria se casar e só gostava de dançar. Ela promete ao pai que se casaria com o homem que conseguisse dançar com ela por 12 horas seguidas. Vários pretendentes tentaram e morreram no processo, até que o próprio diabo apareceu para dançar. Na outra fábula, uma mulher vende a filha ao diabo por 14 moedas de ouro. Só que quando ela vai pegar as moedas, elas estavam tão quentes (por terem vindo do Inferno), que ela queimou as mãos e não pode usá-las. No novo filme de Christophe Honoré (exibido na Mostra Internacional de São Paulo em 2009 e em cartaz em Campinas no Cine Topázio), Chiara Mastroianni é Lena, mãe de dois filhos que um dia decide ser "livre", abandona o marido e foge com as crianças. Mas, como mostra uma cena no início do filme, ela não tem condições sequer de cuidar de um filhote de passarinho, quanto mais de um casal de crianças.

O filme é passado em uma daquelas charmosas casas de campo francesas, onde a família de Lena se reúne para um final de semana. Lá estão seu pai e mãe (Marie-Christine Barrault e Fred Ulysse), apaixonados depois de décadas de intimidade (e protagonistas de rara cena de sexo entre idosos) mas, como pais em todo mundo, um pouco intrometidos na vida dos filhos. Na casa também estão a irmã de Lena, Frédérique (Marina Foïs) que está grávida, e Gulven (Julien Honoré), o irmão "palhaço" de Lena, com a namorada. Chamar a família de Lena de "complicada" é redundante, embora, como diz a música do Titãs, as famílias nunca perdem essa mania, não importa a cultura a qual pertencem. Todos têm sugestões e planos para Lena. A mãe, em uma idéia ousada e que deixa Lena brava, também convida o ex-marido dela, Nigel (Jean-Marc Barr) para o final de semana, para ver os filhos.

A bela direção de fotografia e a interpretação dos atores é ótima, mas o roteiro (do próprio Honoré), extremamente ácido a sarcástico na relação entre os personagens, tem problemas. Lena é uma personagem que, apesar de bastante humana, está longe de ser simpática. Ela é paranóica, mimada e egoísta, e mesmo o amor que demonstra pelos filhos parece ser mais uma questão de superproteção do que algo verdadeiro. Honoré peca ao não focar a trama em Lena, deixando algumas questões em aberto ou criando dramas que não se desenvolvem. Por exemplo, no início do filme sabe-se que o pai de Lena está com um "problema neurológico" incurável, e em uma cena em Roma ele comenta o fato com a esposa. Mas nada mais se fala no assunto depois. A irmã Frédérique, a mais parecida com a mãe, começa o filme grávida e cheia de problemas psicológicos. O marido suspeita que ela o tenha traído. Na segunda parte do filme nada é dito sobre o filho que ela supostamente teve (ela não está mais grávida) e apesar de algumas conversas sobre um possível divórcio, nada realmente acontece. Há algumas soluções de roteiro muito fáceis, como uma explicação ao espectador dada pelo pai de Lena, no início do filme, basicamente falando para a câmera.

Chiara Mastroianni, que carrega uma herança incrivelmente cinematográfica (é filha de Catherine Deneuve e Marcello Mastroianni) interpreta Lena muito bem. Sua personagem é vítima da complicada mistura entre o desejo de liberdade com a falta de responsabilidade de alguém que, no fundo, sempre teve tudo na vida.