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domingo, 23 de setembro de 2012

A vida de outra mulher

É de se surpreender que atores do calibre de Juliette Binoche ("Cópia Fiel", "A Liberdade é Azul") e Mathieu Kassovitz ("Munique", "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain") tenham aceitado fazer um filme tão formulaico como este. Binoche é Marie, uma mulher que acorda em um apartamento enorme, em Paris, e não sabe quem é. A última coisa de que se lembra é de ter 25 anos e de ter conhecido Paul (Kassovitz), um desenhista de histórias em quadrinhos. Agora ela se olha no espelho e descobre que está com 41 anos e é casada com Paul, com quem tem um filho pequeno. Os três vivem em um apartamento luxuoso e ela é uma empresária de sucesso, muito rica.

Só que as coisas não vão bem entre eles. Paul está lançando um livro de histórias em quadrinhos que é um sucesso, mas ele está o tempo todo com um rosto triste e não entende a súbita mudança no comportamento da esposa. Clichê atrás de clichê, o filme mostra como Marie descobre que havia se tornado uma "bruxa" odiada por todos e que, agora, tem a chance de se redimir e salvar o casamento. Você já viu este filme antes. O roteiro da diretora Sylvie Testud (de "Piaf, um hino ao amor") e Claire Lemaréchal é um pastiche de filmes americanos como "Quero ser grande" ("Big", Penny Marshall, 1988), "Uma Segunda Chance" ("Regarding Henry", Mike Nichols, 1991) e vários filmes adolescentes em que uma pessoa se descobre muito mais velha de uma hora para outra, como "De repente 30", com Jennifer Garner. Chega a ser triste ver a grande Juliette Binoche, de 48 anos, agindo como uma criança perdida em Paris, correndo para lá e para cá enquanto tenta convencer o mundo (e os espectadores) de que ela ainda é a mesma empresária barra pesada que todos conheciam. Matthieu Kassovitz faz o que pode em um papel unidimensional de marido abandonado pela esposa. Em "Uma segunda chance", de Nichols, ao menos havia um motivo para que o personagem de Harrison Ford, um advogado ranzinza, perdesse a memória de repente (ele leva um tiro durante um assalto). E mesmo quando Tom Hanks acorda adulto em "Quero ser grande" há uma explicação razoável, dentro do gênero fantasia ao qual o filme pertence. "A vida de outra mulher" nem se dá ao trabalho de criar um motivo para a súbita amnésia de Marie. Ou de criar um final para o filme que, de repente, termina.

Com exceção de uma ou outra cena interessante (como algumas em que Binoche contracena com o filho), o roteiro é preguiçoso e redundante. Uma pena. Binoche e Kassovitz mereciam coisa melhor. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.

sábado, 1 de setembro de 2012

Intocáveis

Philippe (François Cluzet) é um ricaço que tem uma casa enorme, vários empregados e carros esporte estacionados na garagem. O problema é que ele depende dos outros para quase tudo; ele perdeu os movimentos do pescoço para baixo em um acidente de paraglider anos atrás e agora está procurando um novo cuidador. Na fila de entrevistados há um grande número de candidatos, mas nenhum lhe agrada. Até que entra sala adentro Driss (Omar Sy), um senegalês de dois metros de altura, falante e sem intenção de pegar a vaga. Ele só quer que assinem um documento para poder entrar com o seguro desemprego. Philippe, cansado de ser olhado com dó e compaixão por todos, resolve desafiar Driss. "Você é capaz de aceitar a responsabilidade? Aposto como terá desistido em duas semanas".

"Intocáveis" é uma comédia dramática muito bem feita que mostra a amizade que nasce destas pessoas tão diferentes. Driss, que mora em um apartamento pequeno com vários irmãos mais novos e tem passagem pela polícia, é um homem das ruas. Malandro, sem educação formal, é fã das músicas dançantes do grupo "Earth, Wind and Fire". Philippe é um aristocrata francês, especialista em Chopin e Berlioz, que é capaz de passar horas olhando uma pintura moderna antes de comprá-la por 41 mil euros. Driss não é bobo e percebe que tirou a sorte grande, o que não o impede de, a princípio, se recusar a fazer algumas das tarefas a ele delegadas, como vestir Philippe com meias especiais ou lhe fazer a higiene pessoal. O filme funciona em grande parte pelo acerto da escolha do elenco. Cluzet só pode atuar do pescoço para cima, mas consegue passar frases inteiras apenas com um olhar. Omar Sy é um vulcão constantemente em erupção, e seu bom humor contagia a todos rapidamente. Há cenas bem escritas pelos roteiristas e diretores Olivier Nakache e Eric Toledano. A relação entre Philippe e Driss é uma troca de amizade e de conhecimento. Driss tem contato com um mundo que lhe é extraterreno, tanto materialmente ("Eu tenho uma banheira!" diz ele a uma empregada da casa) quanto intelectualmente. Ele leva Philippe a galerias de arte e concertos de música erudita, nem sempre com os resultados esperados, e sua honestidade causa momentos hilariantes. Já Philippe aprende com Driss a escutar música popular, a fumar um baseado de vez em quando e, principalmente, a ter coragem para enfrentar algumas situações, como finalmente telefonar para uma mulher com quem vinha se correspondendo há seis meses.

"Intocáveis" fez grande sucesso na França e chega ao Brasil em um circuito que não se limita aos cinemas de "arte", o que é bom sinal. O roteiro, apesar de um pouco longo e não fugir do final feliz, é uma bem sucedida mistura de momentos cômicos com cenas dramáticas, e é ótima pedida.

Câmera Escura


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Políssia

"Meu pai me tocou no bumbum", diz a menina à policial. Um pai conta que dá banho na filha e, sim, a lava nas partes íntimas. Uma mãe diz que o filho dorme melhor quando ela o masturba à noite. Estas declarações, e outras mais chocantes, são ouvidas durante "Políssia" (forma propositalmente errada de grafar a palavra "Polícia"), filme escrito, dirigido e interpretado por Maïwenn Le Besco (que assina apenas "Maïwenn"). O filme mostra, quase como em um documentário, o cotidiano de uma equipe da Brigada de Proteção aos Menores de Paris. É trabalho destes policiais (além de psicólogos e assistentes sociais) investigar casos como os vistos acima e tentar descobrir quais deles são evidência de abuso sexual, pedofilia, estupro ou violência relacionada a menores. Não é tarefa fácil, e mais difícil ainda é manter uma vida pessoal diante do estresse relacionado à profissão.

Maïwenn dirige um elenco numeroso com competência, embora por vezes fique difícil entender os relacionamentos entre os personagens. Há Íris (Marina Foïs), uma mulher fria que esconde dos colegas que sobre de bulimia e está sempre interferindo na vida da colega Nadine (Karine Viard), que está se separando do marido. Baloo (Frédérick Pierrot) é o chefe de equipe que não consegue enfrentar os burocratas e, por isso, causa atrito com os subordinados. Fred (o rapper Joeystarr) vive com os nervos à flor da pele e não é capaz de manter distância emocional dos casos. Há uma cena impressionante em que um garoto é separado da mãe,o menino se põe a chorar desesperadamente e Fred tenta acalmá-lo. A dor do menino é tão convincente que é de se imaginar como a cena foi filmada. A própria Maïwenn interpreta uma fotógrafa chamada Melissa, e a presença da diretora no filme é questionável. Metade da trama ela passa muda, de cabelos presos e óculos, parecendo completamente perdida enquanto fotografa os policiais em ação. É possível que a personagem seja assim de propósito, mas o problema é que a presença dela é totalmente desnecessária. Ela então passa por uma transformação rápida, e pouco convincente, quando Fred se interessa por ela. De cabelos soltos, olhos claros e beleza de modelo, a personagem Melissa ganha importância na trama, mas ainda dá a impressão de habitar um filme diferente dos outros personagens.

O roteiro também trata dos problemas raciais e de imigração que são constantes na França. Há uma cena em que um suspeito desrespeita uma policial muçulmana, que tira o Alcorão do armário e lhe passa um sermão sobre o que é ser um bom muçulmano. As relações de abuso de poder entre os gêneros, seja de homem contra mulher ou, nos dias de hoje, mulher contra homem, também são mostradas. O filme soa  realista e tem diálogos e cenas bastante fortes (como um aborto feito por uma garota que havia sido estuprada). Só que se alonga demais, com duas horas e quinze minutos de duração. "Políssia" faz parte do "Festival Varilux de Cinema Francês 2012", que está em cartaz em 33 cidades do país e traz 17 filmes inéditos. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.

sábado, 10 de março de 2012

Tomboy

O dicionário Merriam Webster define "Tomboy" como "uma garota que se comporta de uma forma considerada masculina". Assim, não há muito o que esconder ao se escrever sobre um filme com este nome. Sim, "Tomboy" é sobre uma garota que se comporta como menino. O interessante é como, mesmo já tendo esta informação antes de entrar no cinema, você não deixa de se surpreender com a interpretação fantástica de Zoé Herán como o garoto "Michael". É necessário um vislumbre rápido do corpo de Herán em uma cena de banho para você se certificar de que se trata de uma menina. Mas este não é daqueles filmes engajados que normalmente são feitos por e para o público "mix". "Tomboy" é uma história contada com extrema sensibilidade pela diretora Céline Sciamma, responsável por algumas das melhores interpretações infanto-juvenis já vistas.

Uma família composta por pai, mãe grávida e duas crianças se muda para um calmo subúrbio francês. O pequeno conjunto de prédios é cercado por uma paisagem verdejante onde as crianças brincam como nos velhos tempos; há um bosque onde elas brincam de pega-pega, um campinho de futebol e um lago onde elas nadam tranquilamente. Nesta época de crianças super atarefadas ou grudadas constantemente no computador, chega a estranhar ver um cenário tão idílico. A menina mais velha se veste o tempo todo com bermudas, camisetas e tênis e só sabemos que é uma garota porque os pais a chamam de Laure. Para a vizinha pré-adolescente Lisa (Jeanne Disson), no entanto, Laure se apresenta como Michael, e é aceita como garoto por ela e por todas as crianças locais. Aos dez anos de idade, as características sexuais ainda não estão aparentes, de forma que Michael pode até jogar futebol sem camisa com os garotos sem levantar suspeitas. A irmã mais nova, Jeanne (uma pequena atriz maravilhosa), acaba entrando na "brincadeira" de Laure e fica até contente por ter um "irmão mais velho" que a leva para brincar com as outras crianças e a proteje dos garotos.

Quanto aos pais, o roteiro evita todos aqueles clichês que eram de se esperar de um filme como este. O pai é amoroso com as duas filhas e não se altera nem quando fica sabendo que Laure estava agindo como um garoto. Fica no ar a sensação de que a indefinição de gênero da garota não é novidade para a família, que já teria se mudado anteriormente por causa disso. A naturalidade com que Laure age como Michael é tamanha que a vizinha Lisa começa a se interessar por ele/ela. Há uma cena curiosa em que Lisa leva Michael para seu apartamento e começa a passar maquiagem nele. Mas é evidente que não são duas meninas brincando. Claro que a situação é uma bomba relógio. Uma hora ou outra a verdade virá à tona, até porque o período escolar está chegando e as crianças vão notar que não há nenhum "Michael" na lista de chamada. Novamente, a sensibilidade da diretora impede que a resolução seja "cinematográfica" e exagerada. Belo filme. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Os Nomes do Amor

É de se imaginar que uma história de amor entre um homem judeu e uma mulher árabe seja confusa, mas o filme de Michel Leclerc adicionou elementos ainda mais complicadores. Arthur Martin (Jacques Gamblin) é um quarentão que se define como o típico francês. Seu nome é tão comum que ele se sente como um membro da seleção de futebol coreana (em que mais da metade dos jogadores se chamava "Kim"). Já Bahia Benmahmoud (Sara Forestier) tem orgulho de ter um nome único, apesar de ser sempre confundida como brasileira. Ela é descendente de um imigrante ilegal argelino e de uma hippie francesa, mas suas feições (branca e com grandes olhos azuis) não aparentam sua origem. Já Arthur é filho de um ex militar francês que trabalha com energia nuclear e que se casou com uma judia com um passado difícil; os pais dela foram enviados ao campo de concentração de Auschwitz, e ela cresceu em um orfanato. Os pais de Arthur nunca conversavam sobre o assunto e ele passou a vida aprendendo a como falar com eles sobre "nada", já que não podia mencionar assuntos considerados tabu.

A família de Bahia, apesar de muito mais liberal, também guarda um segredo. Quando criança, ela foi abusada sexualmente por um professor de piano. Segundo os psicólogos, Bahia tinha duas opções quando se tornasse adulta: tornar-se pedófila ou prostituta. Ela decidiu tornar-se prostituta, mas de um tipo diferente. Seguindo o ditado "faça amor, não faça a guerra", Bahia tem como missão transar com homens da "direita" para mudar sua opção política. Assim, do encontro deste homem reprimido e careta, Arthur, com esta garota desinibida e política, Bahia, o roteiro faz uma bizarra história de amor. Mistura-se a isso uma forte dose de crítica aos problemas raciais e de imigração que existem hoje na França e se tem "Os nomes do amor".

O filme foi escrito pelo diretor Michel Leclerc e por sua esposa, Baya Kasmi, com grande quantidade de fatos autobiográficos. Há tantas questões sendo tratadas (racismo, imigração, nazismo, sexismo, política etc) que o roteiro peca por excesso. O ponto principal, quando todas estas diferenças acabam se chocando, demora a chegar em uma ótima cena em que Michel, Bahia e seus pais se encontram em um jantar. Sara Forestier é um vulcão em erupção o tempo todo, contrastando com o modo frio e controlado de Jacques Gamblin. Há partes românticas, como na delicada cena em que Arthur veste Bahia, misturadas a  outras  inverossímeis, como quando Bahia se esquece de colocar as roupas e sai nua pelas ruas. É usado o recurso (já um tanto batido) dos personagens falarem diretamente para o espectador, principalmente quando contam a história de seus pais. Em outros momentos, os personagens conversam com versões mais novas deles mesmos.

"Os nomes do amor" melhora quando diminui um pouco o ritmo para dar lugar à seriedade de certas situações, como a reação da mãe de Arthur ao ser confrontada pelo passado. A II Guerra Mundial ainda tem marcas profundas na Europa ("Things all long gone, but the pain lingers on", como diz a letra de Pink Floyd, The Wall), e a França teve um comportamento questionável na época. As consequências podem ser sentidas até hoje e o filme levanta, de modo leve, questões extremamente sérias. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.



domingo, 30 de outubro de 2011

A criança da meia-noite

Romain (Quentin Challal) é uma "criança astronauta", assim chamado por ter que andar protegido dos pés à cabeça, durante o dia, por uma roupa especial. Ele sofre de um tipo raro de câncer que o impede de se expor aos raios do Sol ou qualquer outra fonte de raios ultra-violeta. Seu médico, o doutor David (o ótimo Vincent Lindon, de "Mademoiselle Chambon") é um homem obstinado que tenta encontrar a cura para a doença há anos. Ele cuida do garoto desde que ele tinha dois anos de idade; o pai verdadeiro, ao receber a notícia de que a doença era incurável, abandonou o garoto e sua mãe. Assim, há naturalmente uma ligação afetiva entre o médico e o paciente, embora o filme de Delphine Gleize esteja longe do dramalhão americano associado a estes filmes sobre doenças terminais.

A figura do médico David, por exemplo, é extremamente contraditória. Após atender por 20 anos e dedicar sua vida a cuidar de pacientes com câncer, ele é chamado pela Organização Mundial da Saúde para um trabalho burocrático. Sua substituta, Carlotta (Emmanuelle Devos, de "Coco antes de Chanel"), aos poucos, descobre que David está relutante em largar seu posto. David sequer consegue contar a Romain sobre sua saída do hospital, o que certamente traz problemas ao relacionamento dos dois. A vida familiar de David também está longe da perfeição. Apesar de ser um médico renomado e prover materialmente uma boa vida para a família, ele não conhece os próprios filhos e tem uma relação distante da esposa. Há uma cena muito breve, e reveladora, em que Romain cruza com um rapaz que nunca havia sido mostrado no filme, e descobrimos se tratar do filho de David.

Quentin Challal, que interpreta Romain, está muito bem. Seu personagem, como um vampiro, só pode circular livremente durante a noite; e é fantasiado como um que Romain vai à uma festa em que conhece a garota com quem vai experimentar o amor pela primeira vez. O filme tem um tom agridoce e trata de forma franca a doença terminal. Em uma cena passada em um restaurante, quando a mãe de Romain lhe permite experimentar uma bebida alcoólica, ele retruca: "por que você não me diz que só posso beber quando crescer?". O espectro da morte paira sobre os personagens o tempo todo mas, apesar de bons momentos de emoção, o filme nunca escorrega para o melodramático. Em cartaz no "Topázio Cinemas".


domingo, 18 de setembro de 2011

Minhas Tardes com Margueritte

O filme está na sexta semana em cartaz no Topázio Cinemas, em Campinas, e a sala continua cheia. Não é para menos. A história da amizade entre um "ignorante" de bom coração e uma senhora amante dos livros é contada de forma bem humorada pelo veterano diretor francês Jean Becker.

Gérard Depardieu é Germain, um homem que teve a inteligência tolhida a vida toda pela mãe dominadora e cruel, pelos professores da escola ou pelos colegas. Ele vive de vários trabalhos, cuida de uma horta, é bom em trabalhos manuais e sabe o nome dos 19 pombos que alimenta, todos os dias, em uma praça. É neste lugar que ele conhece Margueritte (Gisèle Casadesus), uma senhora gentil que é das poucas pessoas no mundo que não zomba de seus eventuais defeitos. Pelo contrário, aos poucos ela começa a ler trechos de Albert Camus e outros autores clássicos para Germain, que se revela um aluno aplicado. As cenas entre Depardieu e Casadesus são ótimas, uma aula de interpretação.

Flashbacks revelam os problemas de Germain com a mãe, que o gerou depois de um caso passageiro. Ela é uma mulher orgulhosa e rude com o menino, que trata aos berros. O garoto tem que lidar com o abuso da mãe, dos eventuais namorados dela e de seus professores. Adulto, Germain mora em um trailer no quintal da casa da mãe, ainda viva mas, aos poucos, perdendo a lucidez. Ele tem uma namorada que é motorista de ônibus e tem idade para ser sua filha, mas a relação entre os dois revela a maturidade da garota. O filme ainda conta com uma série de personagens secundários muito interessantes, imigrantes e trabalhadores amigos de Germain que passam a trama toda em um pequeno bar. A convivência de Germain com Margueritte provoca uma melhora em seu vocabulário e um aumento em sua cultura, o que não passa despercebido por seus colegas. O roteiro é bem escrito e incorpora na trama elementos aprendidos por Germain dos livros que lê com Margueritte no banco da praça. Tudo isto é visto em bela fotografia de Arthur Cloquet.

O final é um pouco apressado e comportado demais, mas coroa de forma alegre a relação de amizade entre os personagens principais. Belo filme. Visto como cortesia no Topázio Cinemas.

Câmera Escura

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Gainsbourg - O Homem que Amava as Mulheres

Você já escutou esta música. As notas graves da guitarra dão lugar a uma melodia suave, acompanhada por sussurros que parecem ter sido gravados durante o momento íntimo de um casal. "Je T ´aime...moi non plus", de Serge Gainsbourg, foi um escândalo ao ser lançada em 1969 e chegou a ser proibida em vários países. A não ser por esta canção, porém, Gainsbourg não é muito conhecido fora da França, seu país de origem. Pintor, desenhista, escritor, músico, cineasta e boêmio profissional, Gainsbourg teve uma vida cercada de sucessos e polêmicas. Seu talento multimídia foi transformado agora em filme pelo cartunista francês Joann Sfar, que tentou ser tão anárquico quanto o personagem.

O melhor elogio que se pode fazer a "Gainsbourg - O Homem que Amava as Mulheres" (no subtítulo infeliz escolhido no Brasil) é sobre o quanto os atores são parecidos com as pessoas que estão representando. A começar pelo próprio Gainsbourg, replicado à perfeição por Eric Elmosnino, que ganhou o prêmio "César" pelo papel. Muito bem representadas também estão figuras como a deusa francesa Brigitte Bardot (Laetitia Casta), a inglesa Jane Birkin (Lucy Gordon) ou mesmo a filha de Serge, Charlotte (Orphée Silard).

A trama acompanha a vida de Gainsbourg (nascido Lucien Ginsburg) desde a infância; o pai o forçava a tocar piano e o garoto já provocava polêmica por desenhar mulheres nuas nos cadernos dos colegas da escola. Quando os nazistas invadiram a França e os judeus foram obrigados a usar a Estrela de Davi no ombro, o pequeno Lucien foi o primeiro da fila. O fato de ser judeu e ter as feições exageradas fizeram com que o garoto criasse um companheiro imaginário na forma de uma enorme cabeça caricatural que o segue para todos os lados. A idéia pode dar certo em uma história em quadrinhos ou charge, mas a figura é muito entranha em um filme. Quando Gainsbourg se torna adulto, o companheiro imaginário ainda o segue, agora na forma de um homem alto, com orelhas e nariz compridos. Há cenas bizarras em que Gainsbourg conversa consigo mesmo (ou com a tal figura) e a seriedade do momento fica comprometida. A trilha sonora e as cenas musicais funcionam melhor em apresentar o talento de Serge e sua relação com as mulheres. "Je T´aime...", na verdade, foi composta com (e para) Brigitte Bardot, com quem Gainsbourg teve uma tórrida relação. Só que a atriz era casada e o romance terminou, fazendo com que Serge transferisse a música para sua próxima paixão, a atriz inglesa Jane Birkin. Gainsbourg também provocou a ira dos tradicionalistas ao fazer uma versão "jamaicana" da "Marselhesa", o hino da França.

Há boas cenas perdidas no filme de Joann Sfar que, no geral, é confuso. Mas o tom cartunesco é bem vindo por subverter a fórmula tradicional das cinebiografias de artistas, que sempre seguem a lógica do "desconhecido que alcança a fama, se entrega às drogas e mulheres e entra em decadência". Mas se o espectador fica conhecendo mais sobre a obra de Gainsbourg depois de ver o filme, o personagem ainda é um enigma. Tudo parece vir muito fácil para o homem pequeno e feio, mas talentoso, que se vê na tela. E o filme termina antes que outras polêmicas, principalmente envolvendo a filha Charlotte Gainsbourg, aconteçam na vida de Serge. Charlotte se tornou atriz e cantora de sucesso, interpretando em filmes como "Anticristo" e "Melancolia", de Lars von Trier, entre dezenas de outros. Gainsbourg, expert em criar polêmicas, gravou com a filha de 13 anos "Lemon Incest", em que os dois são vistos deitados na mesma cama, ele sem camisas, cantando um para o outro. Ao que parece, Serge Gainsbourg foi provocador até o fim. Morreu de ataque cardíaco em 1991.

sábado, 9 de julho de 2011

Vênus Negra

Exibido em Campinas há um mês no Fesvital Varilux de Cinema Francês, "Vênus Negra" volta ao Topázio Cinemas. É, sem dúvida, uma das experiências mais impactantes e difíceis de suportar já colocadas em uma tela de cinema. "Vênus Negra" conta os últimos anos de vida de Sarah Baartman, uma sul-africana que era empregada doméstica e babá na Cidade do Cabo, antes de ser levada por seu patrão para Londres, onde era exibida como uma "curiosidade" (ou aberração). É o ano de 1810 e vários tipos de atrações bizarras são mostradas em um bairro pobre da capital inglesa. Sarah é apresentada como a "Vênus Hotentote", uma "selvagem" que seu patrão, Hendrick Caezar (André Jacobs), diz ter capturado sob o risco da própria vida. A apresentação da Vênus é um longo, humilhante e bizarro espetáculo mostrado com detalhes pelo diretor Abdellatif Kechiche, que parece fazer um teste com os espectadores de cinema de hoje, comparando-os com os frequentadores destes "freak shows" do século 19. É uma encenação, claro, mas qual o limite entre o teatro e a realidade? Sarah é uma mulher de 25 anos, aparentemente adulta, por que ela se submete à humilhante representação de um ser selvagem e subdesenvolvido?

Quando membros de uma "sociedade africana" começam a levantar este tipo de questões, Caezar se junta a outro "artista", Réaux (Olivier Gourmet) e eles partem para Paris, para continuar com as apresentações da Vênus. O filme é longo, com duas horas e quarenta minutos de exibição. Durante este tempo, o espectador é testemunha de várias apresentações de Sarah, que se tornam cada vez mais degradantes, chegando perto da pornografia. Ela pertence à tribo dos Hotentotes, que têm como característica física as nádegas e órgão genital feminino avantajados. Há uma longa sequência, também humilhante, em que Sarah é levada aos cientistas franceses para ser medida, pesada, examinada e analisada como mero espécime de laboratório. Quando ela se recusa e expor a genitália, é simplesmente devolvida ao "dono". Sarah voltará a ser examinada, desta vez mais profundamente, pelos cientistas, na sequência final do filme.

"Vênus Negra" levanta a questão de como a curiosidade humana leva a extremos terríveis. A ciência "naturalista" da época não fica de fora. O resultado de todas as medições dos cientistas serve apenas para "provar" que os africanos são inferiores aos brancos, que seriam descendentes de uma raça superior. A curiosidade dos espectadores dos shows da "Vênus Hotentote" não é muito diferente do público dos "big brothers" e "pegadinhas" dos programas de televisão de hoje. Mas o próprio "Vênus Negra", paradoxalmente, acaba testando os próprios limites. Até que ponto é ético mostrar o sofrimento de uma mulher de forma tão detalhada e por tempo tão longo? Até que ponto a atriz Yahima Torres, que interpreta Sarah, não está sendo exposta da mesma forma? Claro que ela é apenas uma atriz mas, curiosamente, esta é uma justificativa dada pelos personagens ao modo como tratavam Sarah Baartman. Quanto à personagem, ela é vista sendo espancada, estuprada, cavalgada, chicoteada e humilhada de diversas formas. Que tipo de homenagem é esta à Sarah Baartman real? Curiosamente, um pouco de humanidade é mostrado apenas quando os créditos estão subindo e cenas reais do corpo de Baartman sendo devolvido à África do Sul, em 2002, são mostradas. Filme difícil, que requer estômago do espectador.


sábado, 11 de junho de 2011

Copacabana

A julgar pelos filmes vistos hoje no Festival Varilux de Cinema Francês ("Um gato em Paris", "Uma Doce Mentira" e "Potiche: Esposa Troféu", além deste), o relacionamento entre mães e filhas anda mal na França. Isabelle Huppert é Babou, uma mulher que vive de forma "livre", mas é tão irresponsável que está sempre desempregada, sem dinheiro e, ultimamente, sem o respeito da filha Esmeralda (Lolita Chammah). O relacionamento entre as duas está tão ruim que Esmeralda diz à mãe que não quer que ela vá ao seu casamento, pois não quer passar vergonha.

Querendo mudar sua imagen diante da filha, Babou aceita um trabalho como vendedora de imóveis na cidade de Oostende, na Bélgica. Sempre exagerando na maquiagem e nas roupas e desbocada, Babou não é muito querida pelos outros vendedores com quem divide um apartamento mas, surpreendentemente, ela consegue atrair mais clientes que os outros; aos poucos, ganha a confiança de Lydie (Aure Atika, de "Mademoiselle Chambom"), sua encarregada. Também arruma rapidamente um amante (que se sente como um objeto sexual) e, por identificação, começa a ajudar um casal de moradores de rua.

Escrito e dirigido por Marc Fitoussi, o filme depende completamente da interpretação magistral de Isabelle Huppert. Interpretada de forma errada, Babou poderia facilmente cair em uma caricatura de mulher engraçada e decadente; Huppert faz da personagem (que, sim, é exagerada) uma mulher viva e cheia de defeitos, mas que fica realmente sentida por ter decepcionado a única filha. No fundo, ela não tem mau coração e tenta ajudar as companheiras de trabalho, mesmo sendo suas competidoras. O título vem da vontade de Babou, que já viajou por vários países da Europa, de um dia vir para o Brasil, mais especificamente (e tipicamente) para o Rio de Janeiro. A trilha sonora, aliás, é toda composta por samba e bossa-nova. "Copacabana" é um filme engraçado e vibrante, que deve ser visto pela interpretação de Huppert (que demonstra sua versatilidade quando comparada, por exemplo, com sua personagem fria e dura de "Minha Terra: África"). Visto como cortesia no Topázio Cinemas, em Campinas.


Um Gato em Paris

Boa surpresa esta animação francesa em cartaz no Festival Varilux de Cinema Francês, no Topázio Cinemas. O desenho dos diretores Alain Gagnol e Jean Loup Felicioli é estilizado e bonito, com figuras arredondadas e cores que parecem feitas com lápis de cor ou giz de cera. Há várias cenas noturnas e Paris é mostrada com muitas luzes, mas não da forma realista como, digamos, a Pixar a pintou em Ratatouille, mas como uma pintura vista por uma criança.

Zoe é uma menina que perdeu o pai durante uma ação policial. Ele foi morto pelo cruel bandido Vítor Costa, que está obsecado em roubar uma estátua famosa que vai passar pela cidade. A mãe de Zoe, Jeanne, também é policial e não tem tempo para a filha. Jeanne quer capturar Costa a qualquer preço e passa horas na delegacia, deixando a pequena Zoe com uma babá muito suspeita. Em meio a tudo isso há dois personagens que passam a noite perambulando pelos tetos de Paris, o gato Dino e o ladrão Nico, personagem que lembra aqueles ladrões "românticos" do cinema, que roubam mais pelo desafio do que para fazer mal a alguém. Há um toque de "Ladrão de Casaca", de Alfred Hitchcock, nas cenas noturnas em que as silhuetas de Nico e Dino pulam de telhado em telhado, fazendo roubos ousados. A trama se passa em apenas uma noite, com várias reviravoltas e cenas de perseguição muito bem feitas. Nico, apesar de ladrão, é bom rapaz e ajuda a salvar Zoe quando ela é sequestrada pelos capangas de Vitor Costa. Há uma cena muito boa, passada na completa escuridão, em que os personagens são apenas delineados em branco sobre o fundo preto. É bom ver uma animação que não abusa de efeitos tridimensionais feitos em computação gráfica.

A Torre Eiffel, claro, está presente no cenário, mas o clímax da história é passado no topo da Catedral de Notre Dame, em estilo de filme noir, com o embate final entre Nico e o gângster. Apesar da trama policial, a animação é apropriada para crianças que, certamente, vão se divertir com as cenas de ação e com o humor fino dos personagens, principalmente Nico e o gato Dino. Visto como cortesia no Topázio Cinemas, em Campinas.


domingo, 26 de dezembro de 2010

Minha Terra, África

A África foi e continua sendo um dos continentes mais explorados e prejudicados da era moderna. Os países europeus a dividiram em pedaços, desrespeitaram fronteiras culturais e tribais e a pilharam até o último centavo. Os reflexos continuam sendo vistos; revoluções contínuas, fome, doenças, ditadores, minas terrestres, morte.

"Minha Terra, África", da roteirista e diretora francesa Claire Denis, vai fundo na exposição de todos estes problemas do ponto de vista de uma mulher branca, Maria Vial, apegada a uma plantação de café em um país africano não identificado. Maria é interpretada por Isabelle Huppert, e o primeiro plano dela no filme é um choque. A grande atriz francesa se expõe com todas as marcas da idade e um olhar que mistura cansaço com determinação cega. O país está tomado por uma guerra civil, pessoas estão sendo mortas à esmo e todos os empregados de Maria na fazenda estão fugindo, mas Maria, com um pragmatismo branco e capitalista, argumenta que falta apenas uma semana para o café estar pronto para vender e é incapaz de ver os problemas à sua volta. Crianças portando armas como lanças e rifles automáticos invadem a fazenda e, como fantasmas, passeiam pelos cômodos fazendo pequenos furtos e atacando o filho de Maria, Miguel (Nicholas Duvauchelle), mas ainda assim a francesa não consegue desistir do que considera sua propriedade e sua colheita.

Christophe Lambert (sim, o velho galã careteiro dos anos 80) interpreta André, marido de Maria, que tenta fazer um acordo com o prefeito local para trocar a fazenda pela segurança da família. Para isso ele precisa da assinatura do sogro, um senhor que mora em uma casa ocidental com ar condicionado em meio ao calor africano. "Minha Terra, África" não é um filme fácil. A câmera na mão está quase sempre próxima dos personagens, dando uma sensação de claustrofobia. O trabalho de som é muito bom, mas também serve para oprimir o espectador em um mundo em que a natureza é onipresente, com o constante som dos insetos zumbindo alto. A vida humana não vale muita coisa neste ambiente doente e em decadência, e Denis não tem escrúpulos em mostrar como tudo é pobre e sem esperanças. Em um diálogo revelador, um velho africano diz à Maria que não foi embora porque não conseguiria se adaptar em nenhum outro lugar. Quando Maria diz que também não, ele diz que há uma diferença importante: ela não vai embora porque tem medo que tomem o que ela julga ser dela. É essa possessividade que fará com que, no final, Maria fique sem nada. (visto em pré-estréia no Topázio Cinemas, em Campinas).


domingo, 24 de outubro de 2010

Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague

Festival de Cannes, 1959. François Truffaut, crítico da mítica revista "Cahiers du Cinemá", que havia sido barrado pelo festival no ano anterior por seus textos polêmicos, é aclamado pela platéia. Seu primeiro longa-metragem, e obra prima, "Os Incompreendidos", acaba de ser exibido. Um garoto de 14 anos, Jean-Pierre Léaud, é levantado nos braços da multidão.

Em Paris, outro crítico da revista, Jean-Luc Godard, está inquieto. Ele gostaria de estar no festival. Graças à ajuda de Truffaut e de Claude Chabrol, que lhe servem de fiadores, ele consegue financiamento para seu primeiro filme, "Acossados", um filme "policial" com Jean-Paul Belmondo.

Truffaut e Godard. Godard e Truffaut. Dois cinéfilos de carteirinha, críticos de cinema e criadores do movimento conhecido como a "nova onda", a Nouvelle Vague. Seguidores do maior crítico de cinema da história, André Bazin, Truffaut e Godard vieram de origens diferentes. Truffaut era pobre, humilde. Aos 16 anos, criou um cineclube. Aproveitava quando a família ia ao teatro para fugir e ir ao cinema escondido. Foi preso e um reformatório por roubar dinheiro para pagar as dívidas do cineclube. Godard era de família rica. Morou na Suíça, andava em carros importados americanos. Estava sempre de óculos escuros e atitude esnobe. Os dois se tornaram amigos e colaboradores. Até que a política os separou irremediavelmente e nunca mais se viram.

Esta é a história contada no documentário "Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague", que o Topázio Cinemas está exibindo em sua "Semana do Cinema Francês" (o filme será exibido novamente dia 27 de outubro, às 19h10). Dirigido por Emmanuel Laurent, o documentário mostra a vida, obra e amizade destes dois gigantes do cinema através de imagens de arquivo, entrevistas, centenas de fotos e, claro, cenas de seus filmes. Truffaut sempre foi o mais humano dos dois, o mais esperançoso com relação à vida e as pessoas. Era o cineasta das mulheres e das crianças. Sua maior criação foi o personagem Antoine Doinel, alter-ego que iniciou sua vida cinematográfica em "Os Incompreendidos". Interpretado por Jean-Pierre Léaud, Doinel reapareceu em mais três filmes, mas a imagem final de "Os Incompreendidos", quando o jovem Doinel foge do reformatório, corre até a praia e se volta para a câmera, é inesquecível.

Léaud se tornou uma espécie de irmão mais novo de Truffaut. Em uma cena do documentário, o garoto diz que sua vida mudou totalmente depois do filme, e que agora só queria ir ao cinema para ver "bons filmes".

Já Godard era mais seco do que Truffaut, e gostava de brincar com a linguagem cinematográfica. "Acossados" tinha a trama de um filme policial tradicional, mas Godard o filmou e editou de forma completamente nova. Os cortes da montagem não seguem o tradicional esquema plano/contra plano; a continuidade não é sempre respeitada, assim como o eixo da câmera, quase sempre "quebrado". Godard continuaria fazendo experimentos com a forma do cinema por toda a carreira.

Em 1968, três semanas antes do famoso "maio de 68", os cineastas da Nouvelle Vague, liderados por Truffaut e Godard, marcharam por Paris para protestar contra a demissão de Henri Langlois da Cinemateca Francesa. O local era o "templo" dos cinéfilos parisienses, que queriam manter Langlois na curadoria dos filmes. (Este protesto foi recriado por Bernardo Bertolucci em "Os Sonhadores", de 2003). No ano seguinte, também Truffaut e Godard conseguiram cancelar o Festival de Cannes, como uma forma de protesto por todos os problemas que estavam ocorrendo no mundo.

Depois disso, no entanto, as carreiras dos dois amigos mudou drasticamente. Godard se tornou completamente político, um ativista que queria fazer do cinema uma forma de protesto. Truffaut era um cineasta que amava o cinema em sua forma mais pura. A amizade dos dois foi definitivamente rompida quando Godard enviou uma carta cheia de "veneno" para Truffaut quando do lançamento do ótimo "A Noite Americana", a homenagem que Truffaut fez ao cinema em 1973. Godard chamou Truffaut de "mentiroso". Este retrucou em uma carta de 20 páginas em que acusava Godard de se aproveitar das classes pobres (das quais Godard nunca fez parte) para se promover.

O documentário termina com uma cena ótima, o teste de Jean-Pierre Léaud para o papel de Antoine Doinel em "Os Incompreendidos". A entrevista é muito parecida com uma cena do próprio filme, quando Doinel é entrevistado pelo psiquiatra do reformatório. Truffaut morreu precocemente, aos 52 anos, em 1984, e deixa saudades. Seu amor pelo cinema era enorme, expresso em mais de 25 filmes. Godard continua vivo e ativo, produzindo dezenas de filmes de "arte" com mensagens políticas.






domingo, 26 de setembro de 2010

O Refúgio

Mousse (Isabelle Carré) e Louis (Mevil Poupaud) recebem a heroína tarde da noite. Louis prepara a droga cuidadosamente e os dois a usam durante a noite toda. Pela manhã, a mãe de Louis aparece no apartamento e encontra o filho morto no chão. Mousse é levada ao hospital e entra em coma. Quando acorda, descobre que o namorado está morto e que está grávida dele. Assim começa "O Refúgio", de François Ozon, em cartaz em Campinas no Topázio Cinemas.

É um filme pequeno e com poucos atores. E há algo na cinematografia francesa que gosta de contar histórias passadas em uma casa no campo, em contato com a natureza, longe da cidade grande; vários filmes com este cenário foram feitos nos últimos anos. É para uma destas casas no campo (perto do litoral, na verdade) que Mousse se muda durante a gravidez. Ela está longe de ser a mãe ideal. Viciada em heroína, toma vidros de xarope com metadona para impedir um aborto. Está sempre de óculos escuros e, de vez em quando, também bebe. Um dia chega à casa o irmão de Louis, Paul (Louis-Ronan Choisy), um rapaz jovem e bonito cujas intenções são incertas. Ele quer cuidar de Mousse? Gosta dela? Quer estar perto do futuro sobrinho?

"O Refúgio" não tem uma trama muito bem definida, lidando sobre o tema da solidão. Mousse estava com o namorado na noite da morte dele, mas nem presenciou o fato. Isolada agora na cabana, mesmo grávida e acompanhada de Paul, há nela uma solidão profunda. Seja por isso ou por carência, aos poucos ela começa a ter sentimentos por Paul. O problema é que a opção sexual dele é outra. Logo ele está saindo com Serge (Pierre Louis-Calixte), um rapaz que cuidava da casa e trazia mantimentos para Mousse. Em uma cena bizarra, um homem que se diz "atraído por grávidas" leva Mousse para a casa dele (por causa da "bela vista para o mar"). Não fica claro se eles transam ou não, mas a princípio Mousse só quer que alguém a abrace.

É um filme bem feminino. O diretor, François Ozon, já trabalhou com grandes atrizes como Catherine Deneuve e Isabelle Rupert em "Oito Mulheres" (2002) ou Charlote Rampling e Ludivine Sagnier em "À Beira da Piscina" (2003). Em "O Refúgio" ele deixa o filme ser levado por Isabelle Carré que, a propósito, estava realmente grávida durante as filmagens. O filme não é muito ambicioso e o final me pareceu muito calculado. Interessante que a trilha sonora foi composta pelo ator que faz Paul, Louis-Ronan Choisy, que canta a canção tema, acompanhado do piano, em uma cena.



domingo, 29 de agosto de 2010

Um Segredo em Família

François Grimbert é um garoto amedrontado. Enquanto seus pais, Maxime (Patrick Bruel) e Tania (Cécile de France), são atletas, ele é um rapaz fraco e fechado, que tem um irmão imaginário. Este irmão, ao contrário dele, é forte, ágil e é o orgulho dos pais. São os anos 50 na França, captados pelo diretor Claude Miller em tons fortes e coloridos. O que há de errado com François? Por que a sensação de que há “fantasmas” na vida de seus pais?

“Um Segredo em Família” é baseado na história real de Philippe Grimbert e mostra a ferida do Holocausto de outra forma. François nasceu em uma família judaica e foi circuncidado quando criança, como pregam os ritos. Um pouco mais velho, no entanto, ele é batizado católico pelos pais. Como toda criança, ele capta trechos de conversas sussurradas pelos adultos e constrói sua própria fantasia sobre como os pais se conheceram, se apaixonaram e se casaram. A verdade, porém, é muito mais sombria, e quando adolescente François descobre que há mais verdades na história de seu irmão “imaginário” do que ele pensava.

A trama do filme é muito mais interessante do que o modo como a história é contada. Duas histórias se desenrolam na primeira parte, os anos 50 na França (em colorido) e trinta anos depois, em 1985, em um preto e branco apagado. Estas cenas nos anos 80 mostram François (o ótimo Mathieu Almaric) como um terapeuta especializado em crianças com problemas. Seu pai está desequilibrado com a morte do cachorro, que foi atropelado, e François ainda tem memórias dolorosas da infância. O meio do filme, com François já adolescente, marca o início de outra história, que se passa antes da II Guerra Mundial e revela quem era o irmão “fantasma” de François, um garoto chamado Simon. Seu pai era casado com outra mulher, Hannah (Ludivine Sagnier), mas nutria uma paixão secreta pela cunhada, Tara. A história é muito interessante, mas o filme ganharia com uma narrativa mais linear. O nazismo começa a estender suas garras e os judeus franceses são obrigados a usar a Estrela de Davi, para desgosto de Maxime, que se recusa. Interessante o espelhamento das imagens entre François, no início do filme, e Simon, nesta segunda parte. Simon é um garoto atlético como o pai, e Hannah é a típica esposa judaica perfeita. Mas a atração física cada vez maior que Maxime sente por Tara começa a ficar aparente, o que leva a uma tragédia quando a família tenta fugir dos nazistas para o outro lado da fronteira.

O diretor Claude Miller, que foi gerente de produção de vários filmes do mestre François Truffaut nos anos setenta, conduz muito bem o elenco e cria uma tensão palpável e não dita entre as duas mulheres de Maxime. A Segunda Guerra e o nazismo deixaram marcas na Europa e na Humanidade que se estendem até hoje. “Things all long gone, but the pain lingers on”, como diria uma letra de “The Wall”, do Pink Floyd. Em todas as guerras, as maiores vítimas são as crianças.



segunda-feira, 26 de julho de 2010

O Pequeno Nicolau

"O Pequeno Nicolau" é vibrante, divertido e deliciosamente nostálgico. O filme remete a uma época em que as crianças brincavam na rua sem medo, não havia computadores em casa e a imaginação reinava solta. Nicolau (o ótimo Maxime Godart) é um garoto que não sabe o que vai ser quando crescer. Segundo ele, isso acontece porque ele adora sua vida como é hoje. Seu pai (o engraçado Kad Merad, de "A Riviera não é aqui") é um empregado esforçado que está tentando uma promoção no trabalho. Sua mãe (Valérie Lemercier) o adora e, segundo Nicolau, "sempre quis ser mãe" (sim, junto com a nostalgia o filme também remete a um tipo de sociedade machista do século passado, mas com boas intenções).

Um dia, na escola, a professora (Sandrine Kiberlain, de "Mademoiselle Chambon") conta à classe a história do Pequeno Polegar, que foi abandonado pelo pai na floresta. Um garoto da sala, Joachim (Virgile Tirard), conta outra história assustadora aos amigos: ele ganhou um irmãozinho; o bebê recebe toda atenção da casa e seus pais estão agindo de forma muito estranha e sendo amáveis um com o outro. Nicolau, com sua grande imaginação, acha que seus pais também vão ganhar um bebê e, assim como na história do Pequeno Polegar, vão levá-lo para a floresta e deixá-lo lá. Há uma cena muito engraçada em que, de fato, os pais vão até a floresta e Nicolau, precavido, se tranca dentro do carro.

O filme de Laurent Tirard é baseado nas histórias do quadrinista René Goscinny, criador das ótimas HQ de "Asterix, o Gaulês". Tirard conduz o filme com leveza e grande apuro técnico. Tudo funciona muito bem, como a direção de arte, fotografia e efeitos especiais invisíveis, que recriam a França dos anos cinquenta. O elenco infantil é impecável. Há os tipos que todo mundo já conheceu um dia, como o comilão da sala, o sabe-tudo "puxa-saco" da professora, o distraído, o riquinho e assim por diante. O roteiro é inteligente por mostrar a ingenuidade do mundo infantil não só no que tem de gentil, mas também no que tem de egoísta ou mesmo cruel. Nicolau, assustado com a idéia de ser abandonado pelos pais, começa a fazer planos cada vez mais malucos para se livrar do susposto irmãozinho. Ele e a turma planejam contratar um "gângster" para sequestrar o bebê. Mas como conseguir o dinheiro para pagá-lo?

"O Pequeno Nicolau" é uma opção inteligente para levar as criaças aos cinemas nas férias. Certifique-se de deixar claro que eles não vão ser abandonados na floresta depois.


sábado, 10 de julho de 2010

Não, minha filha, você não irá dançar

Há duas fábulas contadas por personagens de "Não, minha filha, você não irá dançar" que lidam com mulheres que venderam a alma ao diabo. Uma explica o título original, e fala sobre uma mulher que não queria se casar e só gostava de dançar. Ela promete ao pai que se casaria com o homem que conseguisse dançar com ela por 12 horas seguidas. Vários pretendentes tentaram e morreram no processo, até que o próprio diabo apareceu para dançar. Na outra fábula, uma mulher vende a filha ao diabo por 14 moedas de ouro. Só que quando ela vai pegar as moedas, elas estavam tão quentes (por terem vindo do Inferno), que ela queimou as mãos e não pode usá-las. No novo filme de Christophe Honoré (exibido na Mostra Internacional de São Paulo em 2009 e em cartaz em Campinas no Cine Topázio), Chiara Mastroianni é Lena, mãe de dois filhos que um dia decide ser "livre", abandona o marido e foge com as crianças. Mas, como mostra uma cena no início do filme, ela não tem condições sequer de cuidar de um filhote de passarinho, quanto mais de um casal de crianças.

O filme é passado em uma daquelas charmosas casas de campo francesas, onde a família de Lena se reúne para um final de semana. Lá estão seu pai e mãe (Marie-Christine Barrault e Fred Ulysse), apaixonados depois de décadas de intimidade (e protagonistas de rara cena de sexo entre idosos) mas, como pais em todo mundo, um pouco intrometidos na vida dos filhos. Na casa também estão a irmã de Lena, Frédérique (Marina Foïs) que está grávida, e Gulven (Julien Honoré), o irmão "palhaço" de Lena, com a namorada. Chamar a família de Lena de "complicada" é redundante, embora, como diz a música do Titãs, as famílias nunca perdem essa mania, não importa a cultura a qual pertencem. Todos têm sugestões e planos para Lena. A mãe, em uma idéia ousada e que deixa Lena brava, também convida o ex-marido dela, Nigel (Jean-Marc Barr) para o final de semana, para ver os filhos.

A bela direção de fotografia e a interpretação dos atores é ótima, mas o roteiro (do próprio Honoré), extremamente ácido a sarcástico na relação entre os personagens, tem problemas. Lena é uma personagem que, apesar de bastante humana, está longe de ser simpática. Ela é paranóica, mimada e egoísta, e mesmo o amor que demonstra pelos filhos parece ser mais uma questão de superproteção do que algo verdadeiro. Honoré peca ao não focar a trama em Lena, deixando algumas questões em aberto ou criando dramas que não se desenvolvem. Por exemplo, no início do filme sabe-se que o pai de Lena está com um "problema neurológico" incurável, e em uma cena em Roma ele comenta o fato com a esposa. Mas nada mais se fala no assunto depois. A irmã Frédérique, a mais parecida com a mãe, começa o filme grávida e cheia de problemas psicológicos. O marido suspeita que ela o tenha traído. Na segunda parte do filme nada é dito sobre o filho que ela supostamente teve (ela não está mais grávida) e apesar de algumas conversas sobre um possível divórcio, nada realmente acontece. Há algumas soluções de roteiro muito fáceis, como uma explicação ao espectador dada pelo pai de Lena, no início do filme, basicamente falando para a câmera.

Chiara Mastroianni, que carrega uma herança incrivelmente cinematográfica (é filha de Catherine Deneuve e Marcello Mastroianni) interpreta Lena muito bem. Sua personagem é vítima da complicada mistura entre o desejo de liberdade com a falta de responsabilidade de alguém que, no fundo, sempre teve tudo na vida.


quinta-feira, 1 de julho de 2010

A Riviera não é aqui

Comédia divertida, leve e despretensiosa, "A Riviera não é aqui" brinca com estereótipos e preconceitos. Philippe (Kad Merad) é funcionário público dos Correios e faz de tudo para agradar a esposa Julie (Zoé Félix). Para conseguir uma transferência para uma agência na Riviera francesa, ele se finge de paralítico para ganhar uma "vaga de deficiente". Mas o plano não dá certo e ele tem duas escolhas: ser demitido ou enviado para o norte da França, perto da Bélgica, a uma cidade chamada Bergues. Para Philippe, a notícia parece uma sentença de morte. Ele e a esposa tem várias idéias pré concebidas sobre o "norte", que seria habitado por pessoas ignorantes e permanentemente embriagadas, vivendo sob um frio congelante. Além disso, falariam um dialeto estranho, ininteligível. A esposa decide ficar no Sul com o filho pequeno e Philippe parte sozinho para seus dois anos de "exílio".

O diretor do filme, Dany Boon, interpreta Antoine, funcionário dos correios de Bergues que, debaixo de um temporal, recebe Philippe à cidade. Ele ainda mora com a mãe super controladora e é apaixonado por Annabelle (Anne Marivin), que está namorando um motoqueiro. Como era de se esperar, Philippe tem todo tipo de problemas nos primeiros dias na cidade. Ele não consegue entender o que os nativos falam, o que por vezes é um problema também para o espectador. Imagino que muitas piadas foram perdidas na tradução, mas uma solução encontrada foi escrever várias legendas erradas, propositalmente, para tentar traduzir a confusão dos personagens. Também de forma previsível, aos poucos Philippe acaba sendo conquistado pelo povo da pequena cidade e a se familiarizar com seus costumes. O toque cômico é dado pela relação de Philippe com a esposa. Ela é do tipo que só fica feliz quando o marido está passando por problemas, de modo que ele começa a mentir para ela, reforçando os preconceitos que ele mesmo tinha. Há uma sequência engraçada em que a esposa vai visitá-lo em Bergues e todos começam a agir como os "bêbados ignorantes" que ela esperava encontrar.

O filme é bastante previsível e há várias situações que poderiam render soluções melhores. Mas ele funciona como comédia de costumes leve e divertida.


sábado, 5 de junho de 2010

O Inferno de Henri-Georges Clouzot

O ciúme foi tema de grandes obras de arte. Do Otello de Shakespeare, envenenado com as fofocas de Iago, ao Bentinho de Machado de Assis, para sempre condenado pela suposta traição de Capitú, o assunto sempre gerou polêmica e interesse. O cineasta francês Henri-Georges Clouzot quis usar do tema para criar o que seria sua obra prima. Apropriadamente chamado de "O Inferno", o filme trataria do ciúme doentio de um homem chamado Marcel (Serge Reggiani) por sua esposa, Odette (Romy Schneider). Clouzot estava determinado a fazer um filme como nunca havia sido produzido antes e contava com o apoio financeiro internacional da Columbia Pictures, que lhe deu carta branca no orçamento. Não há nada mais noçivo a um criador do que recursos ilimitados. Clouzot mergulhou em experimentalismos visuais que pretendiam passar as sensações doentias do marido ciumento para a platéia. O filme teria cenas em preto e branco, representando o mundo "normal", e cenas de um colorido forte, representando os delírios de Marcel. O problema é que "O Inferno" nunca foi terminado. O perfeccionismo do diretor, aliado aos maus tratos aos atores (particularmente Reggiani), culminaram com o abandono do ator do set e até no enfarto do diretor, em plena filmagem.

O documentário foi produzido por Serge Bromberg e Ruxandra Medrea. Tudo teria começado casualmente, quando o elevador em que Serge estava ficou parado entre dois andares, em Paris. Junto com ele estava a viúva de Clouzot, e os dois passaram horas conversando sobre a obra-prima perdida do cineasta. O documentário conta com depoimentos de técnicos envolvidos com o projeto, como o cineasta Costa-Gravas, e farto material visual recuperado das horas de filmagem realizadas por Clouzot antes de abandonar o filme.

O que provavelmente aconteceu, dizem os entrevistados, foi uma combinação de genialidade misturada com megalomania, recursos ilimitados e um tema talvez pessoal demais para o realizador. Clouzot tinha manias de deixar qualquer um maluco, como acordar todos às duas da manhã para anotar suas idéias, ou exigir que trabalhassem aos domingos. Ele tinha o roteiro meticulosamente decupado, com story-boards de todas as cenas, detalhando até que lentes seriam usadas em cada plano. Costa-Gravas diz que este tipo de preparação não era bem vista pelos outros diretores franceses da nouvalle vague, adeptos de um cinema mais livre e improvisado. O documentário mostra dezenas de testes visuais feitos pela equipe de fotografia e efeitos visuais, que usaram lentes especiais, espirais, espelhos d´água e vários outros recursos para tentar recriar a mente doentia de um homem ciumento. A sensação que passa é que, por mais interessantes que algumas cenas sejam, o filme seria muito pesado visualmente, sem espaço para sutilezas. Talvez esta preocupação com o visual contribuiu para a perda de rumo do cineasta, que tinha três equipes de câmera à postos para filmar, mas que, geralmente, ficavam paradas à espera de cenas para rodar.

Documentário interessante para quem gosta dos bastidores do cinema e para conhecer este curioso episódio do cinema francês. Em pré-estréia no Cinema Topázio, em Campinas.


domingo, 4 de abril de 2010

Ervas Daninhas

Escrever sobre "Ervas Daninhas" é tarefa difícil. O último filme do mestre francês Alain Resnais tem de tudo. Tem drama, tem comédia, tem suspense e romance. Tem aviões antigos e uma homenagem aos filmes hollywoodianos.

Marguerite Muir (Sabine Azéma) é uma dentista de meia idade, solteira. Ela sempre compra sapatos no mesmo lugar, em Paris, porque gosta do modo como a vendedora a atende. Saindo da loja, um dia, ela tem sua bolsa roubada, e perde todos os documentos. Sua carteira é encontrada no chão por Georges Palet (André Dussolier), um homem casado que, ao ver as fotos de Marguerite dentro da carteira, começa a fantasiar com ela. Ele tenta ligar para ela, mas não consegue encontrá-la. Leva então a carteira até a polícia, onde o policial Bernard (Mathieu Almaric) o atende, e contata Marguerite. Ela então liga para Georges para agradecer por ter devolvido a carteira, e ele pede para que ela saia com ele. Ela se recusa, e ele passa a lhe escrever e telefonar todos os dias, obcecado.

Tudo isso é mostrado por Resnais de forma extremamente fluida, com movimentos de câmera constantes e por um narrador que passa ao espectador todos os pensamentos dos personagens. Quando Georges está voltando para casa, depois de encontrar a carteira, por exemplo, nós o vemos imaginando como vai ser sua ligação para Marguerite. Assim como todos nós, seu pensamento não é linear, ele ensaia várias frases que pensa em usar quando ela atender... se ela atender. O roteiro vai se tornando cada vez mais fantástico e, em alguns momentos, imaginamos se tudo não passa de algum delírio da imaginação de Georges, ou do tal narrador que conta a história. Tecnicamente, Resnais e seu diretor de fotografia Eric Gautier mantém a câmera se movimentando constantemente em belas tomadas que, por vezes, tomam o lugar da montagem, em planos contínuos que simulam a passagem do tempo.

Interessante também como o cinema americano é tão marcante em remeter a momentos de romance clichê em filmes. Quando Marguerite, intrigada com a atenção de Georges, finalmente vai encontrá-lo, o local não poderia ser outro que não o exterior de um cinema que passa filmes clássicos de Hollywood. A fanfarra tema da 20th Century Fox também é usada em outro momento para remeter à uma cena tipicamente hollywoodiana, quando Georges e Marguerite finalmente se beijam. Mas que o espectador não se iluda, tudo não passa de uma farsa pregada por Alain Resnais no espectador incauto. O filme, classificado como "drama", na verdade é uma deliciosa comédia fantástica, uma brincadeira com os gêneros cinematográficos e com o próprio cinema. Resnais, um dos fundadores da nouvelle vague e diretor de clássicos eternos como "Hiroshima Moun Amour" (1959), está com 88 anos, e deve ter se divertido muito fazendo este filme.

ps: o trailer abaixo, que não tem nada a ver com o filme, mostra como tudo é uma farsa divertida.