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sábado, 8 de fevereiro de 2014

A Menina que Roubava Livros

Antes de começar, o aviso obrigatório: esta crítica se baseia exclusivamente no filme "A Menina que Roubava Livros", e não no bestseller escrito por Markus Zusak. Não li o livro do Zusak, o que é uma vantagem e uma desvantagem. Por um lado, problemas de roteiro provavelmente seriam menos percebidos se tivesse a bagagem do livro. Por outro, o filme foi visto sem qualquer expectativa quanto a ser fiel ao original ou não.

Isto posto, "A Menina que Roubava Livros", como filme, é apenas razoável. Como pontos positivos, em primeiro lugar está o elenco, seguido por uma boa qualidade técnica, com destaque para a direção de fotografia de Florian Balhaus. O grande mestre John Williams recebeu sua 49ª indicação ao Oscar pela trilha sonora, que infelizmente é bem banal.

Em 1938, na Alemanha nazista, a jovem garota Liesel (Sophie Nélisse), filha de uma mulher comunista, é adotada por um casal alemão, Hans e Rosa Hubermann (Geoffrey Rush, de "O Discurso do Rei", e Emily Watson, de "Cavalo de Guerra"). O irmãozinho de Liesel morrera no caminho para a Alemanha, no trem. O motivo pelo qual ela é adotada pelos Hubermann é um dos vários detalhes que, provavelmente, é melhor explicado no livro. No filme, há uma breve menção a uma "ajuda de custo" que a família receberia pela adoção, mas não fica claro. Liesel, a princípio, não se dá muito bem com a mãe adotiva, Rosa, mas é bem recebida pelo carinhoso Hans, o sempre competente Geoffrey Rush. Liesel também é "adotada" por um garoto vizinho chamado Rudy (Nico Liersch), que gosta dela e passa a segui-la por todos os lados. A garota é analfabeta, mas aprende rapidamente (de forma não muito realista) com o pai adotivo. O primeiro livro que ela lê é um manual funerário que ela roubou do homem que enterrou o irmãozinho dela. Ela se apaixona pela leitura e (após uma hora e dez minutos de filme) começa a roubar alguns livros da biblioteca do prefeito da cidade. Ela rouba os livros para ler para Max (Ben Schnetzer), um rapaz judeu que os Hubermann estão escondendo dos nazistas no porão da casa. (leia mais abaixo)


Apesar de aspectos técnicos como figurino e fotografia serem bem feitos, a rua em que moram os Hubermann é claramente um cenário. Os anos vão se passando, a II Guerra Mundial avança mas, na rua "Paraíso", nada muda muito. A ameaça representada pelos nazistas é mais mencionada do que realmente sentida. Algumas boas cenas se perdem em meio a outras conduzidas sem brilho pelo diretor Brian Percival (da série Downtown Abbey). O pior detalhe do filme, porém, é uma narração monótona feita pela "Morte", que recita as frases com a animação de um GPS. Para complicar, a voz da Morte, feita por Roger Allam, lembra muito a voz de Geoffrey Rush, o que confunde ainda mais o espectador.

Assim, "A Menina que Roubava Livros" resulta em um filme que nunca empolga de verdade e, talvez, só interesse aos fãs do livro original.

domingo, 18 de setembro de 2011

Minhas Tardes com Margueritte

O filme está na sexta semana em cartaz no Topázio Cinemas, em Campinas, e a sala continua cheia. Não é para menos. A história da amizade entre um "ignorante" de bom coração e uma senhora amante dos livros é contada de forma bem humorada pelo veterano diretor francês Jean Becker.

Gérard Depardieu é Germain, um homem que teve a inteligência tolhida a vida toda pela mãe dominadora e cruel, pelos professores da escola ou pelos colegas. Ele vive de vários trabalhos, cuida de uma horta, é bom em trabalhos manuais e sabe o nome dos 19 pombos que alimenta, todos os dias, em uma praça. É neste lugar que ele conhece Margueritte (Gisèle Casadesus), uma senhora gentil que é das poucas pessoas no mundo que não zomba de seus eventuais defeitos. Pelo contrário, aos poucos ela começa a ler trechos de Albert Camus e outros autores clássicos para Germain, que se revela um aluno aplicado. As cenas entre Depardieu e Casadesus são ótimas, uma aula de interpretação.

Flashbacks revelam os problemas de Germain com a mãe, que o gerou depois de um caso passageiro. Ela é uma mulher orgulhosa e rude com o menino, que trata aos berros. O garoto tem que lidar com o abuso da mãe, dos eventuais namorados dela e de seus professores. Adulto, Germain mora em um trailer no quintal da casa da mãe, ainda viva mas, aos poucos, perdendo a lucidez. Ele tem uma namorada que é motorista de ônibus e tem idade para ser sua filha, mas a relação entre os dois revela a maturidade da garota. O filme ainda conta com uma série de personagens secundários muito interessantes, imigrantes e trabalhadores amigos de Germain que passam a trama toda em um pequeno bar. A convivência de Germain com Margueritte provoca uma melhora em seu vocabulário e um aumento em sua cultura, o que não passa despercebido por seus colegas. O roteiro é bem escrito e incorpora na trama elementos aprendidos por Germain dos livros que lê com Margueritte no banco da praça. Tudo isto é visto em bela fotografia de Arthur Cloquet.

O final é um pouco apressado e comportado demais, mas coroa de forma alegre a relação de amizade entre os personagens principais. Belo filme. Visto como cortesia no Topázio Cinemas.

Câmera Escura

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Cinema - Entre a Realidade e o Artifício (livro)

Ótima dica para quem quer saber mais sobre a história do Cinema é este livro do crítico Luis Carlos Merten (O Estado de S. Paulo). Em "Entre a Realidade e o Artifício", Merten narra a tragetória da que viria a ser chamada de "a arte do século XX", que teve seu início em dezembro de 1885, em Paris, com a exibição dos irmãos Lumiére. O livro é didático sem ser técnico ou tedioso. Fica clara a paixão de Merten pelo assunto enquanto discorre sobre as várias fases do cinema, dos filmes mudos à revolução (?) digital pela qual estamos passando atualmente. O livro se inicia e termina com questão lançada pelo teórico francês André Bazin: "O que é o cinema, afinal?". Seria apenas entretenimento? Seria arte? Um filme feito em digital ainda é um "filme", ou é um "video"? Escrito em 2003, Merten questiona qual teria sido a melhor interpretação do ano de 2002: a resposta, um personagem que não existe, "interpretado" por pelos pixels digitais que formam a criatura "Gollun", de "O Senhor dos Anéis".

Mas as questões técnicas ficam em segundo plano. O livro é escrito em capítulos que procuram englobar certos diretores ou tendências cinematográficas, como o trabalho pioneiro e revolucionário do americano D.W. Griffith ou do russo Einsentein; o lado social do Neorrealismo Italiano; a genialidade de Orson Welles (criador do filme que é considerado o melhor de todos os tempos, "Cidadão Kane"); o suspense de Hitchcock; a revolução francesa da nouvelle vague, os westerns de John Ford; a estética de Glauber Rocha, e assim por diante.

Merten não se limita a citar datas e fatos. Ele faz verdadeiras análises de literalmente centenas de filmes e os compara à outra centena, comentando o estilo dos diretores, a contribuição dos atores e referências extra cinema bastante eruditas e bem informadas. Exercício interessante seria anotar todos os filmes citados por Merten no livro e separar, talvez, um ano (ininterrupto) para vê-los. É uma lista para deixar qualquer cinéfilo nas nuvens. Interessante comentar que Merten não fala apenas dos diretores mais óbvios, nem mesmo só de seus filmes mais conhecidos. No capítulo sobre Hitchcock, por exemplo, o esperado seria ler análises de seus filmes com James Stewart (a "trilogia" "Janela Indiscreta" (1954), "O Homem que Sabia Demais" (1956) e "Um Corpo que Cai" (1958) ), mas Merten prefere falar sobre o obscuro "Marnie, Confissões de uma Ladra" (1964), "Os Pássaros" (1963) e "Psicose" (1960, este sim, muito popular e influente).

Os últimos capítulos são dedicados à maravilhosa filmografia de Kieslowski ("Abrir-se para os outros significa criar laços que restringem nossa liberdade", diz Merten sobre "A Liberdade é Azul"), ao cinema iraniano e às experimentações com o plano sequência (como no filme de um só plano, "Arca Russa"), o fenômeno Quentin Tarantino (e sua eventual decadência) e as tendências para o futuro. Merten finaliza dizendo "o cinema ainda é uma arte criança. Um mundo imenso e complexo abre-se diante dele. Que nos traga filmes tão belos como aos que assistimos até aqui".

Livro: Cinema - Entre a Realidade e o Artifício
Editora Artes e Ofícios, 246 páginas.

domingo, 6 de abril de 2008

Antonioni, Bergman e a Livraria Cultura

Neste sábado fui à concorrida sessão no Cinesesc na Augusta assistir a três documentários curtos sobre (e com) os mestres Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman. O primeiro se chamava "O olhar de Michelangelo" (Michelangelo Eye to Eye), um filme de 15 minutos composto basicamente por uma série de planos e contra planos entre o rosto do próprio Antonioni com detalhes de estátuas de Michelangelo. Os 15 minutos, a bem da verdade, passam como se fossem uma hora. O cinema lotado fazia silêncio enquanto o filme rodava e, quando ele acabou, seguiram-se algumas palmas esparsas pela sala. Fica complicado falar mal de um filme de Antonioni, certo? Seriam aqueles três planos repetidos do mestre italiano colocando a mão no rosto algum lance genial ou o editor não tinha mesmo outra opção? Na dúvida, então, prefiro achar que eu estava aquém do curta e não se fala mais nisso.

"O Rosto de Karin" (Karin´s Face, 1984), de Ingmar Bergman, é um pouco mais acessível, mas não muito. É basicamente um "slide show" da família de Bergman acompanhado por notas dissonantes de um piano. O foco principal é a mãe do cineasta sueco, Karin, e as fotos vão mostrando cenas de sua vida da juventude à velhice.


O terceiro documentário, "Ingmar Bergman: Intermezzo", foi o mais interessante, consistindo em uma entrevista de 40 minutos com Bergman realizada por Gunnar Bergdahl em 2002. Bergman estava com 83 anos e extremamente lúcido, e logo ao se sentar para a entrevista resolveu mudar tudo o que estava programado. Pediu que uma luz fosse jogada também no entrevistador e inverteu o jogo, perguntando a Bergdahl sobre como ele havia se envolvido com cinema, qual havia sido o primeiro filme que ele havia visto na tela grande, e se ele se considerava um "viciado" em cinema. Bergman confessou que o cinema era o único lugar em que seus "demônios" o deixavam em paz. Falou também sobre ficar velho e continuar trabalhando. Para ele, era ótimo ser produtivo e estava tudo bem enquanto ele estava só escrevendo algum roteiro ou fazendo traduções em sua casa; a dificuldade em ficar velho era durante a produção de seus filmes e peças de teatro, porque há sempre muita gente envolvida e ele tinha de prestar contas a um monte de pessoas. É um prazer ver o velho sueco falando sobre suas influências, sobre como ele passou pouco a pouco a aceitar a chegada da morte e, sempre com um olhar "maroto" no rosto, ver como ele trata bem a equipe de gravação e faz, na verdade, uma espécie de auto-entrevista.

Saindo do cinema fui até o Conjunto Nacional, na esquina da Avenida Paulista com a Augusta, e entrei na mega livraria Cultura, instalada onde funcionava o saudoso Cine Astor. Sim, doeu ver o espaço do cinema ocupado por outra coisa, mas ao menos não havia ali um bingo ou alguma atividade evangélica qualquer. Essas mega livrarias me espantam e, ao mesmo tempo, me fascinam. Há tamanha profusão de cores, cheiros, o barulho de centenas de pessoas e um ar que mistura cultura com mercadão mesmo. São Paulo tem dessas coisas. É grande, fria, complicada, implacável, assustadora mas, ao mesmo tempo, em quantos lugares do mundo você pode sair de um festival de documentários em que viu Ingmar Bergman e, em seguida, ir para uma mega livraria daquela?

Mas... havia uma sensação estranha que não podia identificar até que escutei um casal atrás de mim dizendo:

"Você vai comprar este livro?"
"Eu tenho que comprar esse livro"
"Como assim?"
"Este é daqueles livros que eu tenho vergonha de não ter lido".

Era isso! Você se encontra em meio aos Joyce, Kant, Schopenhauer, Hemingway lado a lado com os caçadores de pipas, os John Grisham, Tom Clancy, Coelho, King, livros de bolso, de arte, de poesia, de ficção científica, de auto-ajuda, de cinema, de.... e você se sente perdido. Ou, como disse a moça, você se sente culpado por todos os livros "obrigatórios" que nunca leu, pelas teorias científicas que nunca pesquisou, pelos tratados filosóficos que não pensou e assim por diante. Você até está genuinamente interessado em um livro de contos de Yukio Mishima mas, em meio a rejeições e separações você sente que talvez não seja inteligente ler um livro de um cara que se matou em um suicídio ritual cortando a própria barriga. Você compra o Nick Hornby e vai para casa feliz, por enquanto. Que tal passar no McDonald´s antes?

Como cansa ser "culto"!