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terça-feira, 21 de junho de 2022

A Escada (The Staricase, 2022)

 
A Escada (The Staricase, 2022). Dir: Antonio Campos. HBO Max. Minissérie em oito capítulos baseada na história real de Michael Paterson (Colin Firth), um escritor americano acusado de matar a esposa. Em dezembro de 2001, Paterson chamou uma ambulância para socorrer a mulher, que encontrou caída na escada; ela estava em uma poça de sangue e Paterson foi acusado de assassinato, apesar de jurar que a esposa havia simplesmente sofrido um acidente. A minissérie é muito bem produzida e tem um elenco e tanto; Colin Firth, Toni Collette, Juliette Binoche, Michael Stuhlbarg, Sophie Turner, Rosemarie DeWitt, Parker Posey, entre muitos outros.

A trama faz um vai e vem entre várias linhas de tempo, informadas por letreiros na tela ou indicadas por mudanças no visual dos personagens. A série também é metalinguística; uma equipe de documentaristas acompanhou a história real (o documentário está na Netflix, aliás) e a equipe técnica (diretor, produtor, editora) estão presentes como personagens. Colin Firth está muito bem como Paterson, uma pessoa difícil de decifrar, mas que tem um ego enorme e gosta de estar no centro das atenções (quem aceitaria a presença de câmeras durante uma investigação de assassinato?).

Independentemente de ser um assassino ou não, Paterson é bem contraditório, aquele tipo de pessoa que pode elogiar a esposa ou os filhos em uma frase e, em seguida, falar alguma coisa horrível. O ritmo é bem lento, são oito capítulos de uma hora de duração e o roteiro dá espaço para revelar as facetas de várias personagens. Toni Collette, como a esposa Kathleen, é uma personagem trágica, sempre exausta, lutando para manter o trabalho, a casa, os filhos e o marido, que mais parece outro filho. As várias teorias sobre a morte dela são mostradas em cenas bastante sangrentas. Binoche, uma das maiores atrizes do cinema, também é uma figura trágica como uma mulher que acredita em Paterson, mas nunca consegue realmente compreendê-lo. A direção é de Antonio Campos, americano nascido em Nova York filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes. Harrison Ford estava escalado originalmente para viver Paterson, mas desistiu. A série me lembrou muito “O Reverso da Fortuna” (1990), de Barbet Schroeder, em que Jeremy Irons era acusado de matar a esposa. "A Escada" está disponível na HBO Max.

sábado, 8 de abril de 2017

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017)

Há um momento neste filme em que Juliette Binoche fala para Scarlett Johansson que os serem humanos não são definidos por suas memórias, mas por suas ações. Ok, mas então por que é que esta versão "Ghost in the Shell" foca tanto nas memórias e no suposto passado da personagem de Johansson ao invés de a revelar por suas ações? É isto que a extraordinária animação fez, muito melhor, há mais de vinte anos. A personagem da Major era muito mais intrigante e interessante na animação por que o roteiro não ficava tentando explicar quem ela é ou de onde veio a cada dez minutos. Minha cena preferida da animação, aliás, é uma sequência sem nenhuma fala em que a Major cruza a cidade de barco e, intrigada, vê uma "cópia" dela mesma calmamente tomando um café em um restaurante. O filme, provavelmente, tentaria explicar esta cena, ao invés de deixar o mistério ter tempo para se desenvolver. (continua abaixo)


Isso posto, "A Vigilante do Amanhã", a aguardada versão em filme do cultuado anime de Mamoru Oshii, é melhor do que eu esperava. É, porém, um tanto frustrante justamente por esta mania ocidental de tratar o espectador como criança. O filme já começa com um letreiro explicando que, no futuro, as pessoas têm implantes cibernéticos. A sequência de abertura (que, infelizmente, não é acompanhada da maravilhosa trilha original de Kenji Kawai) mostra o corpo de Johansson sendo construído. Como se não bastasse, quando ela acorda outra explicação é dada por uma cientista interpretada por Juliette Binoche. É por este motivo, aliás, que o filme é uns 40 minutos mais longo do que a animação, que era mais direta e, curiosamente, mais profunda e muito mais ousada.

Em uma tentativa de humanizar o personagem da Major, o roteiro faz algumas mudanças na personagem original e cria um passado para ela, que é revelado aos poucos no decorrer da narrativa. Nem sempre funciona, porque cenas de ação e a trama principal, confusa, acaba sofrendo com as crises existenciais de Johansson. O hacker "Master of Puppets" do anime foi trocado por outro hacker  chamado Kuze (vivido por Michael Pitt) que também ganhou uma "história de origem". O lendário diretor, ator e produtor japonês Takeshi Kitano interpreta o Sr. Aramaki, o superior da Major. É curioso que Kitano fale sempre em japonês, enquanto todos os outros falem inglês.

O filme demora a engrenar e funciona melhor, ironicamente, quando segue mais de perto cenas originais do anime. Há planos e sequências idênticas à animação japonesa e é nestes momentos que o filme cresce. Há inclusive o embate final entre a Major e um tanque cujo design talvez não seja muito prático no mundo real, mas é definitivamente cool. "Ghost in the Shell" foi comprado pelo estúdio "Dreamworks" (de Steven Spielberg) há vários anos e passou por um longo período de desenvolvimento para finalmente chegar às telas. Não é um filme ruim mas, infelizmente, creio que o espectador ganhe mais se assistir à animação original de 1995 (e à continuação feita em 2004, que também emprestou algumas cenas a esta versão com atores).

João Solimeo

domingo, 23 de setembro de 2012

A vida de outra mulher

É de se surpreender que atores do calibre de Juliette Binoche ("Cópia Fiel", "A Liberdade é Azul") e Mathieu Kassovitz ("Munique", "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain") tenham aceitado fazer um filme tão formulaico como este. Binoche é Marie, uma mulher que acorda em um apartamento enorme, em Paris, e não sabe quem é. A última coisa de que se lembra é de ter 25 anos e de ter conhecido Paul (Kassovitz), um desenhista de histórias em quadrinhos. Agora ela se olha no espelho e descobre que está com 41 anos e é casada com Paul, com quem tem um filho pequeno. Os três vivem em um apartamento luxuoso e ela é uma empresária de sucesso, muito rica.

Só que as coisas não vão bem entre eles. Paul está lançando um livro de histórias em quadrinhos que é um sucesso, mas ele está o tempo todo com um rosto triste e não entende a súbita mudança no comportamento da esposa. Clichê atrás de clichê, o filme mostra como Marie descobre que havia se tornado uma "bruxa" odiada por todos e que, agora, tem a chance de se redimir e salvar o casamento. Você já viu este filme antes. O roteiro da diretora Sylvie Testud (de "Piaf, um hino ao amor") e Claire Lemaréchal é um pastiche de filmes americanos como "Quero ser grande" ("Big", Penny Marshall, 1988), "Uma Segunda Chance" ("Regarding Henry", Mike Nichols, 1991) e vários filmes adolescentes em que uma pessoa se descobre muito mais velha de uma hora para outra, como "De repente 30", com Jennifer Garner. Chega a ser triste ver a grande Juliette Binoche, de 48 anos, agindo como uma criança perdida em Paris, correndo para lá e para cá enquanto tenta convencer o mundo (e os espectadores) de que ela ainda é a mesma empresária barra pesada que todos conheciam. Matthieu Kassovitz faz o que pode em um papel unidimensional de marido abandonado pela esposa. Em "Uma segunda chance", de Nichols, ao menos havia um motivo para que o personagem de Harrison Ford, um advogado ranzinza, perdesse a memória de repente (ele leva um tiro durante um assalto). E mesmo quando Tom Hanks acorda adulto em "Quero ser grande" há uma explicação razoável, dentro do gênero fantasia ao qual o filme pertence. "A vida de outra mulher" nem se dá ao trabalho de criar um motivo para a súbita amnésia de Marie. Ou de criar um final para o filme que, de repente, termina.

Com exceção de uma ou outra cena interessante (como algumas em que Binoche contracena com o filho), o roteiro é preguiçoso e redundante. Uma pena. Binoche e Kassovitz mereciam coisa melhor. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Melhores de 2011

Fazer listas é sempre complicado. Qual o critério? Como comparar uma animação americana feita com milhões de dólares com um filme europeu de baixo orçamento? Estabelece-se um número? Os dez melhores? Os vinte? O Câmera Escura escreveu 91 textos este ano a respeito de vários tipos de filme, com uma predileção por filmes fora do grande circuito. Há filmes produzidos em outros anos mas que passaram no Brasil ou foram vistos por nós este ano. Obrigado aos leitores e até o ano que vem.

- Os Dez

- A Pele que Habito - Pedro Almodóvar se reinventa, choca e cria uma das histórias de obsessão mais fortes do cinema.

- Melancolia - Lars von Trier pinta um quadro ultra romântico (não no sentido amoroso) sobre o fim do mundo, ao som de Richard Wagner.

- Árvore da Vida - Se Melancolia é o "Apocalipse", o filme de Terrence Malick vai até o "Genesis" para, sem medo de ser pretensioso, explicar o sentido da vida. Há quem ame e quem odeie o espetáculo visual do diretor.

- Meia-Noite em Paris - Woody Allen típico, sim, mas com um toque de mágica e arte que conquistou o mundo.

- Trabalhar Cansa - Juliana Rojas e Marco Dutra fazem um filme brasileiro que não é uma comédia nem tem atores globais e constroem um retrato pesado, com toques de sobrenatural, da classe média do país.

- Um Conto Chinês - Ricardo Darín, o ator argentino mais presente nas telas brasileiras nos últimos anos, enfrenta seus preconceitos na convivência com um hóspede do outro lado do mundo. Escrito e dirigido por Sebastián Borensztein.

- Um Sonho de Amor - A sempre ótima Tilda Swinton em belíssimo filme de Luca Guadagnino. Roteiro, direção de arte, fotografia, interpretações, tudo é apropriadamente exagerado neste ambicioso filme italiano.

- Cópia Fiel - Abbas Kiarostami faz um filme curioso e inteligente sobre identidades, conflitos amorosos e o conceito da Arte em uma tarde passada na Toscana, Itália. Com Juliette Binoche.

- O Garoto da Bicicleta - Os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne continuam a acertar com seu estilo documental e direto nesta história sobre um garoto abandonado pelo pai e sua amizade com a bela Cécile de France.

- Homens e Deuses - Filme sóbrio, mas comovente, sobre um grupo de monges que vive na Argélia em paz com a comunidade muçulmana local, até a chegada de rebeldes assassinos. De Xavier Beauvois.

- Outros notáveis

- Medianeiras - A crítica deste filme argentino é das mais visitadas no blog. Uma meditação sobre a solidão moderna em qualquer cidade grande do mundo; no caso, uma Buenos Aires irreconhecível.

- Rock Brasília - Era de Ouro - Documentário de Vladimir Carvalho sobre o grupo de jovens de Brasília que reinventaram o rock nacional nos anos 80, encabeçados por Renato Russo e sua Legião Urbana.

- Tudo pelo Poder - O primeiro filme "sério" da leva do Oscar 2012 é dirigido por George Clooney. Com grande elenco encabeçado pelo homem do momento em Hollywood, o bom ator Ryan Gosling, como um assessor de imprensa enfrentando problemas éticos.

- Rango - Esta animação de Gore Verbinski retoma os westerns italianos de Sérgio Leone em um filme mais voltado a adultos do que a crianças.

- Abutres - Ricardo Darín, sempre ele, é um corretor de seguros sem escrúpulos que explora vítimas de acidentes automobilísticos em um filme noturno e seco de Pablo Trapero.

- A criança da meia-noite - Delphine Gleize mostra a vida difícil de um grupo de jovens acometido por um tipo raro e incurável de câncer de pele. Com Vincent Lindon.

- Os nomes do Amor - Michel Leclerc mostra a salada cultural e étnica que é a França de hoje, com vários problemas raciais e sociais. A herança do nazismo toca em um assunto também focado no bom "A Chave de Sarah", com Kristin Scott Thomas.

domingo, 17 de abril de 2011

Cópia fiel

Abbas Kiarostami trata de dois temas em "Cópia Fiel": o conceito de Arte e as relações amorosas. O filme brinca o tempo todo com noções pré-concebidas do que seria uma narrativa linear, além do que é "real" ou "fictício" em uma obra cinematográfica. Como toda boa obra de arte, a trama é polissêmica, isto é, tem vários significados, que podem ser interpretados de forma diferente por cada espectador. Complicado? Tão complicado quanto são as relações amorosas.

Há um casal. Ele é James Miller (William Shimell), um escritor que vai à Toscana, na Itália, para o lançamento de seu último livro, chamado "Cópia Fiel". Ela é Juliette Binoche, que sequer tem um nome (o banco de dados IMDB a chama de "Elle", que quer dizer "ela" em francês), a dona de uma loja de antiguidades e mãe de um pré-adolescente. Binoche compra seis cópias do livro de Miller e o convida para um passeio pela Toscana, de carro, em uma bela tarde de domingo. Aparentemente, são dois estranhos que estão se conhecendo. No caminho conversam sobre o significado da arte e o tema do livro de Miller. Há uma tensão palpável no ar, partindo principalmente da personagem nervosa de Binoche. Quando os dois param para tomar um café o filme, sutilmente, muda de direção. A dona do "Café" os confunde por marido e mulher e Binoche não a corrige. Enquanto Miller está ao celular, na rua, Binoche e a mulher discutem o valor do casamento e a aparente frieza e distância dos homens. Ao saírem deste café, Binoche e Miller começam a agir como se realmente fossem casados e a relação estivesse em crise.

É aqui que o espectador é convidado para refletir sobre o que está vendo. O casal na tela está apenas representando um papel? Estaria Miller, o escritor inglês, apenas provocando Binoche e entrando no jogo dela, fingindo ser seu marido? Ou, na verdade, eles são realmente casados e a representação era anterior, quando se faziam passar por desconhecidos? As possibilidades são muitas. Os significados, também. Kiarostami joga com os conceitos de "original" e "cópia" em uma obra de arte e os transfere para a criação e manutenção de uma relação amorosa. O casal na tela é "real" ou está apenas representando? Na verdade, não importa. Encarar "Cópia Fiel" como um enigma a ser desvendado não só é perda de tempo como também limita os vários significados encontrados no filme. Binoche e James Miller passam grande parte da trama andando pela pequena vila de Lucigniano, onde dezenas de noivos e noivas vão tirar uma foto junto a uma árvore considerada abençoada. É em meio a estes novos casais, cheios de esperança e alegria, que os personagens passam por várias das situações comuns de um casal que está junto há muito tempo: cobranças, acusações e discussões entrecortadas por pequenos momentos de compreensão e amizade. A interpretação de Juliette Binoche, como sempre, é extraordinária. Falando três línguas (inglês, francês e italiano), sua presença na tela é inigualável. Binoche ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, em 2010, pelo papel

O resultado é um filme intrigante e muito bem feito. Destaque para a bela fotografia de Luca Bigazzi. Repare como o enquadramento, por diversas vezes, também brinca com o conceito de "original versus cópia", utilizando diversos espelhos para mostrar o contra-plano.


domingo, 20 de junho de 2010

Aproximação

Juliette Binoche é uma força da natureza. O trabalho dela em "Aproximação", filme de 2007 dirigido por Amos Gitai, é excepcional. A atriz símbolo do cinema francês passa por uma transformação impressionante diante de nossos olhos, de uma francesa aparentemente fútil para uma mulher em busca de sua filha na Faixa de Gaza.

Binoche é Ana, mulher que perdeu o pai, na França, mas que está feliz com a chegada do meio-irmão Uli (Liron Evo), um israelense. O corpo do pai repousa em um grande apartamento francês enquanto Ana fica provocando o meio-irmão, dando entrevistas a jornalistas sobre o pai e tentando forjar o testamento para que Uli fique com tudo. A executora dos bens, no entando, lhe revela que o pai havia decidido deixar tudo para uma filha que Ana teve vinte anos antes, mas havia abandonado em um kibutz, em Israel. Uli, um oficial israelense, revela que precisa voltar para participar da desocupação de ocupantes ilegais judeus na Faixa de Gaza, e Ana decide ir com ele procurar a filha.

A viagem leva Ana e o espectador para a constante zona de conflito entre judeus e palestinos. Em montagens paralelas, vemos de um lado Ana, sozinha e sem saber falar hebraico, tentando achar a filha enquando Uli treina, com outros soldados israelenses, para a desocupação. Amos Gitai filma com extrema elegância, em planos sequência longos que deixam a ação se desenrolar diante da câmera, que apenas contempla a ação. O que dizer desta situação entre judeus e palestinos? O filme não toma partido, mas mostra claramente como a situação é absurda. Os israelenses treinam com afinco técnicas de invasão e intimidação, para tirar outros israelenses das terras ocupadas. Ana, uma francesa de origem judaica que não conhece nem a própria língua, é o retrato do resto do mundo, perdido e sem entender o que realmente acontece na região. O encontro com a filha é doce e contido, sem pieguices nem dramalhões desnecessários. Mas o tempo é curto, já que os soldados estão às portas, prontos para invadir. Do outro lado da cerca, apenas por um momento, em um plano curto, vemos os palestinos gritando as mesmas palavras de ordem e clamando o mesmo direito pela terra que os judeus deste lado do arame. Quem está certo? Estarão todos errados? O fato é que a sequência final, filmada por Gitai, novamente, em longos planos, é de uma força arrasadora. O filme toma força maior neste momento, em que Israel invadiu navios de uma força de paz que estaria levando suprimentos para a Faixa de Gaza, matando vários ocupantes.

Vale um comentário sobre o começo do filme. Em um único plano (que não tem nada a ver com o resto do filme, aparentemente), um homem judeu pede um cigarro para um mulher palestina e os dois conversam. Ela se declara holandesa-palestina, enquanto ele se diz francês-judaico (e mais uma dezena de nacionalidades). Um oficial do trem lhes pede os passaportes e estranha que estejam conversando. O homem lhe diz que não há nada para se preocupar, eles são apenas um homem judeu e uma mulher palestina, conversando. E por que não poderia ser simples assim?


domingo, 23 de maio de 2010

Vencedores em Cannes

Segundo Kleber Mendonça Filho, direto de Cannes

Palma de Ouro: (Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives) directed by Apichatpong WEERASETHAKUL
Grand Prix: DES HOMMES ET DES DIEUX (OF GODS AND MEN), de Xavier Deaubois
Ator: Javier Bardem, por Biutiful.
Atriz: Juliette Binoche
Roteiro: Poetry
Prêmio do Júri: Un Homme qui Crie
Curta: Micky Bader e Chienne D'Histoire.

http://cinemascopiocannes.blogspot.com/

domingo, 1 de junho de 2008

Trilogia das Cores

O diretor polonês Krzysztof Kieslowski (que morreu em 1996, aos 55 anos, de ataque cardíaco) era especialista em filmes em série. Católico, realizou "O Decálogo", um conjunto de filmes baseados nos Dez Mandamentos. Com as comemorações dos duzentos anos da Revolução Francesa, em 1989, Kieslowski conseguiu financiamento francês para realizar mais uma série, desta vez baseada nos ideais da revolução e nas cores da bandeira francesa: liberdade, igualdade, fraternidade. Azul, branco e vermelho.


A Liberdade é Azul (Trois Couleurs: Bleu, 1993) conta a história de Julie (a jovem, bela e talentosa Juliette Binoche), uma mulher que perde o marido e a filha em um acidente de carro. O marido era um compositor famoso que estava compondo um concerto em homenagem à unificação da Europa. Julie se fecha atrás de um rosto fechado e incapaz de sentir qualquer emoção. Quando ela volta à sua casa encontra uma empregada chorando. Ela lhe pergunta: "Por que você está chorando?", e a empregada responde: "Porque a senhora não chora". Julie decide tentar mudar de vida e se muda do campo para a cidade grande, decidida a apagar o passado e nunca mais se ligar a mais ninguém. Mesmo assim, há uma cena em que ela pega o telefone e liga para um amigo, perguntando simplesmente: "Você ainda me ama? Então venha". Eles fazem amor mas ela parece não ter sentido nada. Kieslowski, auxiliado por seu ótimo compositor Zbigniew Preisner, usa a música como forma de indicar que as emoções não abandonaram totalmente Julie. Em alguns momentos, por exemplo, a tela fica simplesmente escura e escutamos alguns acordes da orquestra tocando parte da trilha (do suposto concerto perdido). É como se Julie carregasse a música, e todas as suas tristes memórias, presas dentro de si. Há também a desconfiança de que, na verdade, era ela quem compunha as músicas para seu marido. A bela fotografia e a direção de arte tratam de fazer com que todo o filme seja azulado. Binoche está maravilhosamente contida, e consegue transmitir emoção apenas com o olhar. O tema da música é levado por todo o filme. Em frente ao café que frequenta, por exemplo, Julie vê um músico de rua que, com a flauta, curiosamente toca as mesmas notas do concerto que ela escuta repetidamente na cabeça. Kieslowski gosta de colocar esses "acasos" em seus filmes, e há situações similares ou encontros casuais mesmo entre os personagens da trilogia. As emoções (ou a música) acabam vencendo no final, em uma sequência de arrepiar, mostrando os personagens do filme enquanto o concerto é escutado na trilha sem interrupções pela primeira vez. Juliette Binoche é mostrada fazendo amor como que através de um vidro, em um curioso efeito visual, como se ela estivesse finalmente exposta ao mundo e a seus sentimentos.

A Igualdade é Branca ( Trois Couleurs: Blanc, 1994) tem um tom bem mais leve e cômico que o filme anterior. O roteiro trata de um casal em crise. O polonês Karol Karol (Zibgniew Zamachowski) está sendo abandonado pela esposa Dominique (Julie Delpy). Em um tribunal, ela explica ao juiz que o motivo do divórcio é que o casamento não foi consumado. Envergonhado, Karol admite que não conseguiu fazer amor com a esposa desde o casamento, seis meses antes, mas que ele quer tentar salvar o relacionamento. Dominique não só não quer mais continuar casada como, aparentemente, quer acabar com a vida do ex-marido. Ela ateia fogo no salão de beleza deles e diz para a polícia que o culpado foi Karol. Ele tenta voltar para a Polônia mas está sem passaporte e sem dinheiro. Uma das cenas mais engraçadas do filme é o modo pelo qual Karol volta à Polônia: dentro de uma mala de viagem, embarcada por Milokaj (Janusz Gajus) um colega polonês que ele conheceu na estação de metrô de Paris. A idéia da "igualdade", ou melhor, da desigualdade, fica aparente na diferença de tratamento que imigrantes como Karol tem. De volta à Polônia, além de trabalhar como cabeleireiro no salão do irmão, Karol começa a trabalhar como segurança para um empresário e, com muita sorte e esperteza, começa a ganhar dinheiro e, aos poucos, elabora um plano para se vingar da ex-esposa. "A igualdade é branca" é o filme mais leve da trilogia, mas não deixa de ter seu charme.


A Fraternidade é Vermelha (Trois Couleurs: Rouge, 1994) lembra um pouco mais o primeiro filme. Até porque a personagem principal, Valentine, é interpretada por uma Iréne Jacob que me lembrou muito Juliette Binoche, de "Azul". Só que Valentine (que é uma modelo) é bem mais otimista e menos sofrida que Julie, apesar de ter sua cota de problemas, como um irmão viciado em drogas. Uma noite ela acidentalmente atropela uma cadela chamada Rita, que tem o nome e o endereço escritos na coleira. Valentine vai até o endereço e encontra um senhor amargo e indiferente com o destino de sua cadela. Ela leva Rita ao veterinário e cuida dela, mas fica curiosa com o velho, e volta à casa dele. Lá ela descobre que ele é um juiz aposentado (Jean-Louis Trintignant) que perdeu a esperança na Justiça e nos seres humanos. Como passatempo ele fica escutando as conversas telefônicas dos vizinhos através de um aparelho, o que inicialmente choca Valentine. Mas percebemos que, ao mesmo tempo que ela quer ir embora, parte dela é atraída seja pela conversa dos vizinhos ou pela figura triste do velho. Uma curiosa ligação acontece entre os dois. O filme tem uma série de tramas paralelas curiosas e interligadas. Há um vizinho de Valentine, por exemplo, que acabou de se tornar um juiz e que tem uma vida muito parecida, sabemos depois, com a juventuda da velho juiz. Valentine tem um namorado morando na Inglaterra que liga para ela todas as noites para checar se ela está em casa e, ciumento, fica fazendo perguntas sobre o dia dela. O tema da traição (e da Justiça) está presente nos três filmes da trilogia. No primeiro, a personagem de Juliette Binoche descobre que o marido recém falecido tinha uma amante que é advogada no mesmo tribunal em que o divórcio de Karol e Dominique é julgado no segundo filme. No terceiro, tanto o velho juiz quanto o rapaz foram traídos por suas companheiras e perdem a fé na Justiça. Irene Jacob, bela e inocente, ainda acredita nos seres humanos e, aos poucos, vai trazendo o juiz de volta à "vida". Há cenas de pura beleza como a sessão de fotos de Valentine, com o fundo vermelho sangue, ou seu desfile na parte final do filme. Apesar dos problemas com o namorado, Valentine resolve partir para a Inglaterra encontrá-lo, e ao final um acontecimento trágico junta todos os personagens da trilogia no mesmo lugar.

Kieslowski dirige com elegância e tem preferência por certos planos, como belos closes em perfil de suas atrizes, ou detalhes mecânicos como a roda do carro do primeiro filme, a esteira que transporta a mala no segundo, ou a sequência de abertura do terceiro, que acompanha os cabos telefônicos de um aparelho ao outro. Há uma série de dicas visuais ligando um filme ao outro, como as cores de certas roupas ou objetos de cena. Ou então certas piadas como uma senhora que aparece nos três filmes na mesma situação, tentando depositar uma garrafa de vidro em uma lixeira alta demais para ela. Só Irene Jacob, em "Fraternidade", ajuda a senhora a jogar a garrafa. Kieslowski declarou, terminada a trilogia, que estava se aposentando e que jamais faria outro filme. Os DVDs contém uma entrevista dada a Rubens Ewald Filho em que ele diz que cinema é apenas sua profissão, e que ele pode parar quando quiser. Soa um pouco duro escutar isso de alguém tão competente na fabricação de suas imagens. Se ele falava sério ou não, o caso é que o cinema perdeu Kieslowski, morto por um ataque cardíaco, dois anos após filmada sua bela e sensível trilogia.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Caché


Caché ("escondido", em francês) é um exercício de cinema de suspense. E é também um exercício de cinema como manipulação da imagem e do ponto de vista de quem filma (e de quem assiste). Os créditos iniciais, pequenos e de difícil leitura, são todos exibidos sobre um plano estático: uma rua que dá para uma casa. Vemos o portão, vemos uma fileira de janelas e o sótão. Escutamos apenas som ambiente...carros passando, passos de pessoas. De repente, a imagem começa a voltar sozinha e vemos marcas de fita rebobinando na tela, e por um instante checamos o controle remoto do DVD para ver se não apertamos o rewind acidentalmente. Não, quem está voltando a imagem (e o filme, por consequência), são os personagens na tela.


A casa pertence a um apresentador de televisão chamado Georges Laurent (o sempre competente Daniel Auteuil), sua esposa Anne (Juliette Binoche, muito bem neste filme) e seu filho adolescente. A suposta harmonia familiar está sendo ameaçada por misteriosas fitas de video que estão sendo deixadas anonimamente na porta da casa. Elas sempre apresentam a mesma coisa: uma imagem da casa gravada do ponto de vista da rua, por um cameraman escondido. Quem estaria gravando estas imagens? E para que? O casal vai até a polícia, mas eles dizem que não podem fazer nada. É curioso o jogo do diretor Michael Haneke em mostrar primeiro a imagem do ponto de vista da camera escondida, e depois, quando conhecemos os personagens da casa, o ângulo se inverte. Em uma dessas imagens escondidas feitas durante a noite, um carro chega e seus faróis lançam uma sombra bem nítida de uma câmera na parede à esquerda da imagem. Mas quando o personagem principal desce do carro e passa ao lado da suposta câmera ele não a vê. Teria sido a sombra acidental durante a filmagem ou o diretor está nos dizendo alguma coisa?


O fato é que há muitas coisas escondidas neste filme, além do cameraman misterioso. Aos poucos, junto com as fitas, começam a chegar desenhos que mostram um garoto com sangue na boca, ou então uma galinha com o pescoço cortado, e pela reação de Georges percebe-se que ele está começando a se lembrar de algo. Ao mesmo tempo, estranhas (e assustadoras) cenas começam a aparecer rapidamente no filme, às vezes entrecortadas com as imagens das fitas, e não sabemos mais o que é real ou imaginação dos personagens. Juliette Binoche está muito bem como uma mulher aparentemente segura de si que, de repente, não sabe mais em quem confiar e se assusta com o simples tocar do telefone. Através de pistas nas imagens Georges tem uma idéia de quem possa ser o remetente das fitas e vai atrás da pessoa. O que ele encontra se torna mais uma peça no complicado quebra cabeças apresentado no filme. E por que será que, de repente, ele começa a mentir para a esposa?


"Caché" pode, talvez, frustrar um espectador mais convencional, que espera ter todas suas perguntas respondidas e/ou um filme mais tradicional. O filme cria suspense às vezes pela supressão de informações, nos deixando "no ar". Em outros momentos, o suspense é criado pela simples imobilidade da câmera, mostrando uma sequência que acontece inteira diante de nossos olhos, sem cortes de imagem, mas nem por isso mais reveladora. Mais do que entregar respostas prontas, "Caché" levanta questões sobre o que é a imagem e qual sua validade como verdade absoluta. Um sonho é uma imagem? E uma lembrança? Interessante também como a TV, quando não está servindo para passar as imagens das fitas, geralmente está passando imagens dos notíciários sobre a Guerra do Iraque ou outroas problemas mundiais. Novamente, fica a questão da validade e da importância das imagens.