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sábado, 8 de abril de 2017

A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell (2017)

Há um momento neste filme em que Juliette Binoche fala para Scarlett Johansson que os serem humanos não são definidos por suas memórias, mas por suas ações. Ok, mas então por que é que esta versão "Ghost in the Shell" foca tanto nas memórias e no suposto passado da personagem de Johansson ao invés de a revelar por suas ações? É isto que a extraordinária animação fez, muito melhor, há mais de vinte anos. A personagem da Major era muito mais intrigante e interessante na animação por que o roteiro não ficava tentando explicar quem ela é ou de onde veio a cada dez minutos. Minha cena preferida da animação, aliás, é uma sequência sem nenhuma fala em que a Major cruza a cidade de barco e, intrigada, vê uma "cópia" dela mesma calmamente tomando um café em um restaurante. O filme, provavelmente, tentaria explicar esta cena, ao invés de deixar o mistério ter tempo para se desenvolver. (continua abaixo)


Isso posto, "A Vigilante do Amanhã", a aguardada versão em filme do cultuado anime de Mamoru Oshii, é melhor do que eu esperava. É, porém, um tanto frustrante justamente por esta mania ocidental de tratar o espectador como criança. O filme já começa com um letreiro explicando que, no futuro, as pessoas têm implantes cibernéticos. A sequência de abertura (que, infelizmente, não é acompanhada da maravilhosa trilha original de Kenji Kawai) mostra o corpo de Johansson sendo construído. Como se não bastasse, quando ela acorda outra explicação é dada por uma cientista interpretada por Juliette Binoche. É por este motivo, aliás, que o filme é uns 40 minutos mais longo do que a animação, que era mais direta e, curiosamente, mais profunda e muito mais ousada.

Em uma tentativa de humanizar o personagem da Major, o roteiro faz algumas mudanças na personagem original e cria um passado para ela, que é revelado aos poucos no decorrer da narrativa. Nem sempre funciona, porque cenas de ação e a trama principal, confusa, acaba sofrendo com as crises existenciais de Johansson. O hacker "Master of Puppets" do anime foi trocado por outro hacker  chamado Kuze (vivido por Michael Pitt) que também ganhou uma "história de origem". O lendário diretor, ator e produtor japonês Takeshi Kitano interpreta o Sr. Aramaki, o superior da Major. É curioso que Kitano fale sempre em japonês, enquanto todos os outros falem inglês.

O filme demora a engrenar e funciona melhor, ironicamente, quando segue mais de perto cenas originais do anime. Há planos e sequências idênticas à animação japonesa e é nestes momentos que o filme cresce. Há inclusive o embate final entre a Major e um tanque cujo design talvez não seja muito prático no mundo real, mas é definitivamente cool. "Ghost in the Shell" foi comprado pelo estúdio "Dreamworks" (de Steven Spielberg) há vários anos e passou por um longo período de desenvolvimento para finalmente chegar às telas. Não é um filme ruim mas, infelizmente, creio que o espectador ganhe mais se assistir à animação original de 1995 (e à continuação feita em 2004, que também emprestou algumas cenas a esta versão com atores).

João Solimeo

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Consumido pelo Ódio

Dirigido por Yoishi Sai e contando com Takeshi Kitano no papel principal, o filme é uma deprimente repetição de uma mesma história. Kitano interpreta Kim Shumpei, um imigrante coreano que chega a Osaka, Japão, em 1923. Shumpei é um homem brutal que, logo nas primeiras cenas, é visto batendo e violentando a própria esposa, de quem ficou afastado vários anos. Ele então abre uma fábrica de "kamaboko" (massa de peixe) e, usando métodos violentos para explorar os trabalhadores, muitos deles seus filhos, consegue se enriquecer. Violento e machista, ele tem várias amantes e instala uma delas em uma casa em frente à sua. Sua esposa, filhos e filhas crescem sob constante ameaça de espancamento ou mesmo morte, como quando uma de suas filhas, após uma surra do pai, tenta se matar.
Há uma sensação constante de estrangulamento amplificada pela própria cenografia. O filme é quase todo passado em uma mesma rua (cenográfica) de Osaka, onde Shumpei é ao mesmo tempo respeitado e temido. Pode parecer uma versão japonesa de "O Poderoso Chefão", mas o problema é que o filme bate sempre na mesma tecla. Há uma série de sequências repetitivas em que Shumpei entra em um lugar e quebra tudo e todos que vê pela frente. Sua esposa tem a tradicional submissão feminina oriental, mas mesmo seus filhos não são páreos para ele. O que mais se ressente é Massao (Hirofumi Arai), que é quem narra o filme. Após a tentativa de suicídio da irmã, Massao tenta esfaquear o pai em um banho público e acaba com o nariz e algumas costelas quebradas. Outro filho de Shumpei se torna comunista e acaba preso pela polícia após um atentado. Para ampliar o clima depressivo do filme, uma das amantes de Shumpei tem um tumor do cérebro e se torna totalmente dependente dos outros para comer, se limpar e fazer as necessidades. As únicas cenas em que Shumpei demonstra algum traço humano, aliás, são as que o mostram tomando conta da amante doente. De resto, é uma sucessão de brigas, espancamentos, gritaria e estupros.
Takeshi Kitano, que também é um talentoso diretor, ator e editor de filmes, dá uma interpretação impressionante. Sua presença em tela, sem dúvida, é a melhor coisa do filme. O roteiro é baseado no livro do nipo-coreano Sogin Yan que tenta, em alguns momentos, levantar temas como mostrar a situação da comunidade coreana no Japão, sua dificuldade de adaptação e a saudade da terra pátria. Mas, no fundo, "Consumido pelo Ódio" é apenas a história de um homem cruel que leva sua maldade, literalmente, até o túmulo, em longas duas horas e vinte minutos de duração.


domingo, 30 de março de 2008

Cada um com seu cinema (2007)


Ontem, após uma abortada idéia de ir a Sampa ver algo do “É tudo verdade” (ainda há tempo), acabei indo até o Cine Jaraguá em Campinas assistir “Cada um com seu cinema”. É uma coletânea de curtas de vários cineastas famosos produzidos em homenagem aos 60 anos do Festival de Cannes. São 33 curtas de três minutos cada. O tema é o próprio cinema, o assistir cinema, o pensar cinema, o sentir cinema. Imagina-se que tamanha fragmentação poderia resultar confusa, mas não é o que acontece. Um curta acaba complementando o outro de modo aparentemente aleatório, mas todos passam principalmente o sentimento de amor por esta arte. Cineastas como o brasileiro Walter Salles, Takeshi Kitano, Lars Von Trier, Roman Polanski, entre outros, usam seus três minutos à sua maneira.

Engraçado que, apesar de todos os curtas serem resultado de cineastas, a maioria se revela o trabalho de cinéfilos. Não há menção ao se fazer cinema, mas sim o prazer de se assistir cinema...e NO CINEMA. Uma certa nostalgia e a sensação, talvez, de que esta seja uma arte em extinção (e me refiro à ARTE de se assistir cinema) também permeiam as obras. Há outros pontos em comum; o tema da LUZ, principalmente a luz do projetor e seu contrário, a escuridão, rendem alguns roteiros semelhantes. A escuridão dá margem a comportamentos escondidos, como namorar e fazer amor, ou criminosos mesmo, como no curta em que um garoto tateia por entre as poltronas para roubar espectadores incautos. Andrei Konchalovski usa a luz do projetor e a compara com a luz que vem da porta que dá para a rua, enquanto uma senhora se delicia assistindo “Fellini 8½” e um casal faz amor apaixonadamente entre as fileiras escuras. A vida vem da tela ou da rua?

Pode-se sentir também o fetiche do cinema como algo físico, representado pela figura do projetor, do ato de se passar o filme por entre as engrenagens, se ligar a grande máquina e escutar o barulhinho de cinema. Em “O primeiro beijo”, de Gus Van Sant, o projecionista é um belo adolescente que acaba subindo à tela para beijar uma garota na praia. “Cinema ao ar livre”, de Raymond Depardon mostra uma “sala” que funciona na cobertura de um prédio, a imagem projetada vindo do outro lado da rua. Claude Lelouch conta a história do encontro dos próprios pais em “O cinema da esquina”, uma comovente auto biografia através dos tempos por meio do cinema. E assim por diante.

Há também espaço para o humor, por vezes vindo de fontes inesperadas. Eu esperava algo hermético e “cabeça” vindo de Lars Von Trier, mas seu “Ocupações”, a história de um chato que fica querendo contar sua vida para o vizinho de poltrona, é hilariante, e o final, confesso, já me passou pela cabeça em várias ocasiões. Roman Polanski também surpreende com o humor de “Cinema Erótico”, em que um casal assistindo ao clássico “Emmanuelle” fica incomodado com os gemidos de um espectador inconveniente. Walter Salles mostra um duelo entre dois repentistas em “5557 Milhas de Cannes”, em que um deles tenta convencer o outro de que já esteve em Cannes.

Filmes feitos por cinéfilos e para cinéfilos... daqueles para quem o ato de se ir ao cinema é tão ou mais importante do que o que se vai assistir na tela.

ps: a publicidade dizia que havia um curta dos irmãos Coen entre os filmes, mas não é verdade. É fato que eles participaram da idéia e, de acordo com a internet, também tinham um curta entre os selecionados, mas na cópia que assisti, infelizmente, eles não estavam presentes.