quinta-feira, 29 de maio de 2008

Caché


Caché ("escondido", em francês) é um exercício de cinema de suspense. E é também um exercício de cinema como manipulação da imagem e do ponto de vista de quem filma (e de quem assiste). Os créditos iniciais, pequenos e de difícil leitura, são todos exibidos sobre um plano estático: uma rua que dá para uma casa. Vemos o portão, vemos uma fileira de janelas e o sótão. Escutamos apenas som ambiente...carros passando, passos de pessoas. De repente, a imagem começa a voltar sozinha e vemos marcas de fita rebobinando na tela, e por um instante checamos o controle remoto do DVD para ver se não apertamos o rewind acidentalmente. Não, quem está voltando a imagem (e o filme, por consequência), são os personagens na tela.


A casa pertence a um apresentador de televisão chamado Georges Laurent (o sempre competente Daniel Auteuil), sua esposa Anne (Juliette Binoche, muito bem neste filme) e seu filho adolescente. A suposta harmonia familiar está sendo ameaçada por misteriosas fitas de video que estão sendo deixadas anonimamente na porta da casa. Elas sempre apresentam a mesma coisa: uma imagem da casa gravada do ponto de vista da rua, por um cameraman escondido. Quem estaria gravando estas imagens? E para que? O casal vai até a polícia, mas eles dizem que não podem fazer nada. É curioso o jogo do diretor Michael Haneke em mostrar primeiro a imagem do ponto de vista da camera escondida, e depois, quando conhecemos os personagens da casa, o ângulo se inverte. Em uma dessas imagens escondidas feitas durante a noite, um carro chega e seus faróis lançam uma sombra bem nítida de uma câmera na parede à esquerda da imagem. Mas quando o personagem principal desce do carro e passa ao lado da suposta câmera ele não a vê. Teria sido a sombra acidental durante a filmagem ou o diretor está nos dizendo alguma coisa?


O fato é que há muitas coisas escondidas neste filme, além do cameraman misterioso. Aos poucos, junto com as fitas, começam a chegar desenhos que mostram um garoto com sangue na boca, ou então uma galinha com o pescoço cortado, e pela reação de Georges percebe-se que ele está começando a se lembrar de algo. Ao mesmo tempo, estranhas (e assustadoras) cenas começam a aparecer rapidamente no filme, às vezes entrecortadas com as imagens das fitas, e não sabemos mais o que é real ou imaginação dos personagens. Juliette Binoche está muito bem como uma mulher aparentemente segura de si que, de repente, não sabe mais em quem confiar e se assusta com o simples tocar do telefone. Através de pistas nas imagens Georges tem uma idéia de quem possa ser o remetente das fitas e vai atrás da pessoa. O que ele encontra se torna mais uma peça no complicado quebra cabeças apresentado no filme. E por que será que, de repente, ele começa a mentir para a esposa?


"Caché" pode, talvez, frustrar um espectador mais convencional, que espera ter todas suas perguntas respondidas e/ou um filme mais tradicional. O filme cria suspense às vezes pela supressão de informações, nos deixando "no ar". Em outros momentos, o suspense é criado pela simples imobilidade da câmera, mostrando uma sequência que acontece inteira diante de nossos olhos, sem cortes de imagem, mas nem por isso mais reveladora. Mais do que entregar respostas prontas, "Caché" levanta questões sobre o que é a imagem e qual sua validade como verdade absoluta. Um sonho é uma imagem? E uma lembrança? Interessante também como a TV, quando não está servindo para passar as imagens das fitas, geralmente está passando imagens dos notíciários sobre a Guerra do Iraque ou outroas problemas mundiais. Novamente, fica a questão da validade e da importância das imagens.

3 comentários:

Jaime Grebmops disse...

Grande crítica João! O site está fodaço. Também sou super FAN do Michael Haneke, acho Caché surpreendente, um filme assustador e brilhante!

João Solimeo disse...

Opa, o filme é incrível, hein? Mas é daquele tipo que precisa ser visto mais algumas vezes para se pegar os detalhes. Valeu pela visita e pelos comentários.
Abraço.

João Solimeo disse...

Andei lendo na internet comentários sobre este filme e é engraçado como as opiniões são divididas. Não só entre os que amam e os que odeiam, mas entre os que acham que uma "explicação" para o filme é necessária e os que acham que o filme se sustenta sozinho, sem a necessidade de saber quem é que enviou as fitas para a família por exemplo. E há um debate sobre a famosa cena final. Sem entregar nada do filme, muita gente nem reparou que duas pessoas chave não só se encontram como conversam por certo tempo. O que isso significa? Seria a "solução" para o enigma do filme? Ou há outros significados?
Só sei que pretendo rever o filme assim que possível. Muito bom.