sábado, 3 de maio de 2008

Não estou lá


Robert Allan Zimmerman. Cantor de música folk. Ativista político. Gênio. Fraude. Rock star. Pastor evangélico. Arrogante. Bob Dylan. Estou falando da mesma pessoa? Foi este o desafio que o diretor Todd Haynes enfrentou ao querer filmar a biografia de Dylan, uma "metamorfose ambulante" que desafiou todos os rótulos que quiseram lhe colocar. A solução encontrada por Haynes foi audaciosa mas bem sucedida: contratou seis atores diferentes para interpretar as várias fases (reais ou imaginárias) da vida de Bob Dylan. Detalhe: nenhum deles é chamado de "Bob Dylan" durante o filme, mas por nomes diferentes. Há um garoto (negro) de 11 anos interpretado por Marcus Carl Franklin. Christian Bale interpreta Dylan em duas fases, como "Jack Rollins" ele é Dylan em sua fase de música folk mais tradicional; como o "Pastor John" ele interpreta Dylan como um pastor evangélico. Ben Whishaw empresta o nome do poeta "Arthur Rinbaud" em uma entrevista. Richard Gere é "Billy the Kid" em uma fase imaginária da vida de Dylan em um cenário de faroeste. Heath Ledger (que morreu recentemente de overdose de remédios) interpreta um ator de cinema chamado "Robbie Clark" que, vejam a ironia, está fazendo um filme sobre um cantor chamado Jack Rollins (o personagem de Christian Bale). E há Cate Blanchett em uma interpretação maravilhosa como Jude Quinn, que representa a fase "elétrica" de Dylan, quando ele deixou a guitarra acústica e entrou de cabeça no rock ´n roll, o que desapontou (e enfureceu) seus fãs tradicionais. Blanchett, ironicamente, é quem está mais parecida com o Bob Dylan original. Há vários videos no YouTube (como este) que mostram Dylan nesta fase...vejam como Blanchett conseguiu pegar seu tom de voz, maquiagem e maneirismos perfeitamente.

"I´m not there" não foi feito para esclarecer a vida de Dylan. Pelo contrário, é possível que se saia do cinema ainda mais confuso sobre sua biografia. Como filme, os episódios vividos por Cate Blanchett e por Heath Ledger são os melhores. Como já disse, Blanchett se transforma em Dylan e nos mostra seu lado mais "estrela"; ele usa drogas, bebe, é arrogante e cruel com os jornalistas e com as mulheres com quem teve algum relacionamento. É também um artista em luta com os próprios fãs, que não o perdoam por ter deixado de lado a música acústica de protesto para se "vender" para o rock ´n roll. Já Ledger mostra um lado mais humano do personagem. Ele tem um romance atribulado com uma bela artista francesa com quem tem duas filhas. Mas o casamento desmorona por causa de sua carreira e a esposa pede pelo divórcio, o que o separa das filhas.

Para conhecer mais sobre o Bob Dylan "real", há dois bons documentários que devem ser vistos: "Don´t look back", de 1967, mostra Dylan em uma turnê em sua fase mais arrogante e encrenqueira. Martin Scorsese, em 2005, lançou "No Direction Home", um documentário mais abrangente sobre a vida e a obra de Dylan.


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