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sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

Os Rejeitados (The Holdovers, 2023)

Os Rejeitados (The Holdovers, 2023). Dir: Alexander Payne. Paul Giamatti é Paul Hunham, professor de História em um internato para garotos no leste americano. Paul é universalmente odiado por professores e alunos. Durante o Natal de 1970, ele fica responsável por tomar conta dos alunos que, por algum motivo, não podem voltar para casa nas férias. É o caso de Angus Tully (Dominic Sessa), um rapaz que é deixado para trás pela mãe porque ela saiu em lua-de-mel com o novo marido. Assim, Paul, Angus e a cozinheira da escola, Mary, acabam ficando sozinhos no campus, tendo que arrumar o que fazer durante o período de férias.

Dirigido pro Alexander Payne (de "Sideways", também com Giamatti), "Os Rejeitados" é uma delícia de filme (desde que você não espere por muita ação). Giamatti está excelente, no tipo de papel que sabe fazer bem, um cara meio deprimido, meio raivoso. Dominic Sessa, o rapaz, está em seu primeiro filme e é excelente. Mary (Da'Vine Joy Randolph), a cozinheira, é uma mulher vivida que está de luto pela morte do filho no Vietnam. Esse trio, mais alguns poucos outros personagens, acabam descobrindo que talvez não sejam tão "rejeitados" como diz o título. A vida é dura, mas também pode ser bela.

Tecnicamente, "Os Rejeitados" é feito como se tivesse sido produzido na década de 1970. Os créditos iniciais usam uma vinheta antiga da Universal e criaram vinhetas "vintage" para a Focus Features e Miramax. Apesar de gravado em digital, a imagem parece película antiga e a edição usa longas transições de imagens, como era comum na época. As locações reais te transportam para outra época. A trilha, cheia de canções de Natal, contrastam com o humor dos personagens, mas trazem muita nostalgia. Paul Giamatti já ganhou alguns prêmios pelo papel e, quem sabe, talvez até consiga desbancar Cillian Murphy, de Oppenheimer, no próximo Oscar.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Tudo pelo Poder

Falta pouco mais de dois meses para o próximo Oscar, o prêmio mais importante do cinema americano. É nessa época que os filmes do circuito comercial apresentam uma qualidade maior do que os tradicionais filmes de ação, efeitos especiais ou comédias românticas. "Tudo pelo Poder" chega como candidato sério a vários prêmios. George Clooney dirige, atua, produz e co-escreve o roteiro desta intriga política; ele interpreta Mike Morris, um dos finalistas à indicação de candidato oficial do Partido Democrata à presidência da república. Clooney é bom diretor, já tendo mostrado seu valor no ótimo "Boa noite e boa sorte" (2005) e em "Confissões de uma mente perigosa" (2002). Ele é abertamente liberal e simpatizante do Partido Democrata, o que não significa que "Tudo pelo Poder" seja um filme enaltecendo o partido. Pelo contrário, é um retrato cínico sobre os bastidores de uma campanha presidencial, em que não basta ser a "melhor pessoa" para ser o melhor candidato.

Ryan Gosling (de "Amor a toda prova") é Steve Meyers, um dos coordenadores da campanha de Morris ao lado do veterano Paul Zara (Philip Seymour Hoffman). Steve é competente mas tem uma característica que, no mundo da política, pode ser um ponto fraco; ele acredita que seu cliente seja não só o melhor candidato, mas um homem íntegro e honesto. "Ele é um político", lhe diz a jornalista interpretada por Marisa Tomei. "Ele vai decepcioná-lo". Morris está concorrendo à indicação democrata contra o Senador Pullman (Michael Mantell), mas seus inimigos verdadeiros estão entre os coordenadores da campanha do adversário, chefiados por Tom Duffy (Paul Giamatti). Como se pode ver, a produção tem um elenco acima da média; Gosling mostra a cada filme que é um ator de primeira e encara de frente feras como Clooney, Hoffman e Giamatti. Este último, como Tom Duffy, representa o tipo de assessor de imprensa que acredita que os fins justificam os meios.

Baseado em uma peça de Beau Willimon, o roteiro foi co-escrito pelo autor com Clooney e Grant Heslov, e é inevitável a comparação com os roteiros que Aaron Sorkin (Oscar de roteiro por "A Rede Social") escreveu para a série política de TV "The West Wing". Os diálogos são inteligentes e revelam o tortuoso processo democrático norte-americano, em que às vezes valem mais os votos dos delegados do que o voto direto da população (deve-se lembrar que George W. Bush chegou à Casa Branca mesmo tendo perdido no voto popular). Para dar mais tempero ao roteiro, Steve se envolve com uma bela estagiária (Evan Rachel Wood, de "O Lutador"), que carrega um segredo que, se revelado, pode se tornar uma "bomba" nas mãos da mídia. Contar mais seria estragar a trama. É curioso como Clooney tenta mostrar que talvez seja possível ser íntegro nas intenções mas podre na vida pessoal. Qual é o limite ético? É válido quebrar as próprias convicções para que o melhor programa de governo chegue ao poder?


sábado, 21 de agosto de 2010

Almas à venda

Impossível falar de "Almas à venda" sem citar o roteirista e diretor Charlie Kaufman. O filme da diretora Sophie Barthes é uma espécie de colagem dos temas de Kaufman, particularmente dos filmes "Quero ser John Malkovich" e "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças". Isso não significa que seja um filme de segunda categoria, longe disso. O extraordinário Paul Giamatti, famoso por interpretar personagens angustiados com um toque de Woody Allen, encarna um ator de Nova York envolvido em uma produção teatral de "Tio Vânia", de Anton Chekov. O nome de seu personagem? Paul Giamatti, claro. Fazendo uma versão fantasiada e exagerada dele mesmo, Giamatti encontra em um anúncio de revista o que pode ser a solução para seus problemas: uma empresa que alega conseguir tirar a "alma" da pessoa, armazenando-a em um local seguro. A vantagem, segundo a empresa, é que um sujeito "desalmado" pode viver de forma muito mais leve, sem ter problemas de consciência, por exemplo, ou outros dilemas morais.

Como se vê, Paul Giamatti interpretando ele mesmo lembra o tema de "Quero ser John Malkovich", e o processo de retirada da alma lembra "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças", em que os personagens pagavam para tirar lembranças problemáticas da memória. Sophie Barthes, também autora do roteiro, no entanto, acrescenta ainda uma trama que envolve a máfia russa, que usa mulheres para fazer o papel de "mulas", contrabandeando almas entre os Estados Unidos e a Rússia. Uma delas é Nina (Dina Korzun), uma "mula" que já carregou tantas almas através do Atlântico que ela não sabe mais direito quem é. Ela vaga pelas ruas com "resíduos" das almas que já transportou, tendo flashes de lembranças que não são dela. Giamatti vai até a empresa e é convencido pelo "Dr. Flinstein" (David Strathairn) a passar pela extração de alma. Giamatti fica surpreso com o tamanho dela depois do procedimento. Sua alma, que tanto lhe pesava e atormentava, tem a aparência e tamanho de um grão de bico.

Há, obviamente, grande dose de humor negro por todo o filme. As cenas entre Strathairn e Giamatti, dois grandes atores que por anos foram coadjuvantes em Hollywood, são ricas em diálogos ácidos e irônicos entre o "cientista", frio, otimista e prático e o "artista", emocional, denso e egocêntrico. O roteiro não funciona em alguns detalhes. A personagem de Nina, principalmente, resulta em um enigma não resolvido. Giamatti "aluga" a alma que ele supõe ser de um poeta russo quando, na verdade, pertencia a uma mãe atormentada. O roteiro seria mais interessante, creio eu, se os personagens de Nina e de Olga (a mãe) fossem a mesma pessoa. Mesmo assim, "Almas à venda" é um filme muito interessante e carregado nas costas por Paul Giamatti. Há diversas piadas citando atores americanos como Al Pacino, Robert DeNiro e Johnny Depp, entre outros.