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sábado, 4 de fevereiro de 2023

O Poderoso Chefão - Desfecho: A Morte de Michael Corleone (The Godfather Coda: The Death of Michael Corleone, 2020)

O Poderoso Chefão - Desfecho: A Morte de Michael Corleone (The Godfather Coda: The Death of Michael Corleone, 2020). Dir: Francis Ford Coppola. Netflix. Para começo de conversa, eu nunca achei o terceiro filme da saga "O Poderoso Chefão" ruim. Não estava no mesmo nível dos dois filmes lançados nos anos 1970, mas era uma boa conclusão aos épicos sobre a Máfia dirigidos por Coppola (baseados no livro de Mario Puzzo). A crítica foi de morna a selvagem. Foi considerado um filme "menor" e a presença de Sofia Coppola no papel da filha de Michael Corleone, desastrosa (de novo, também não achei a interpretação dela ruim; é claramente uma atriz amadora, chamada às pressas para substituir Winona Ryder, que desistiu do papel no ultimo minuto).


Trinta anos depois do lançamento, Francis Ford Coppola resolveu lançar esta nova versão, chamada de "Coda: The Death of Michael Corleone". "Coda" significa epílogo, conclusão. É como que um pedido de desculpas de Coppola, apresentando uma edição reeditada e melhorada. Curiosamente, é um filme mais curto do que o original (as "edições especiais" costumam ter cenas a mais, não a menos). Este filme é uns quinze minutos mais curto do que o original, e realmente me pareceu mais fluido. Ele já começa com Michael Corleone (Al Pacino) negociando com o Arcebispo Gilday (Donal Donnelly); ele pagaria 600 milhões de dólares ao Vaticano em troca do controle de uma empresa multinacional que o tornaria o homem mais rico do mundo. Não só isso... a negociação precisaria do apoio do próprio Papa, o que traria, aos olhos de Michael Corleone, "absolvição" por uma vida de crimes e pecados.

"Absolvição", aliás, é o tema deste desfecho. Ou a tentativa de absolvição. Michael Corleone nunca quis seguir os passos do pai (interpretado por Marlon Brando no primeiro filme e De Niro no segundo), mas as circunstâncias o tornaram um dos homens mais poderosos e temidos do mundo. Esta versão, além de mais curta, troca algumas cenas de lugar e deixa a trama mais clara. Coppola trabalhou novamente com o mágico Gordon Willis na direção de fotografia, com seus claros e escuros, e direção de arte deslumbrante de Dean Tavoularis. O elenco traz Andy Garcia como Vincent, o provável herdeiro do império Corleone (por anos se falou em filmes com seu personagem, mas eles nunca aconteceram). Diane Keaton, Talia Shire, Eli Wallach, George Hamilton, Bridget Fonda, Joe Mantegna, entre dezenas de outros, completam o elenco.

Há uma mudança sutil na última imagem do filme (que não vou revelar), que a deixa ainda mais trágica. Acho que Al Pacino deveria ter levado um Oscar só por aquela cena, incrível, um pouco antes, em que ele dá um grito silencioso (ideia do editor Walter Murch), terrivelmente desesperado, em frente à Ópera de Palermo. Tá na Netflix.

domingo, 17 de julho de 2022

Casa Gucci (House of Gucci, 2021)

 
Casa Gucci (House of Gucci, 2021). Dir: Ridley Scott. Amazon Prime Video. Tragicomédia de Ridley Scott baseada em uma história real, este filme foi bastante criticado pelo exagero nas interpretações, pelos sotaques italianos em atores americanos e ingleses e pela ridícula interpretação de Jared Leto. Tudo isso, de fato, existe em "Casa Gucci", mas o filme está longe de ser ruim. Pelo contrário, diria que são essas coisas que fazem o filme mais interessante.

Ridley Scott é um mestre visual. Ao adaptar a história real de uma empresa ícone da moda, envolvendo intrigas familiares, personagens histéricos, traições e crimes, Scott resolveu apresentá-la como uma ópera cômica, uma farsa. Veja como Lady Gaga está ótima como Patrizia Reggiani, a filha do dono de uma empresa de caminhões, que se apaixona pelo refinado Maurizio Gucci (Adam Driver, ótimo). Patrizia é um furacão, sempre vestida com roupas provocantes e a certeza de que veio ao mundo para vencer. Scott recria o final dos anos 70 em Milão, Itália, com belíssima fotografia, direção de arte e sucessos da época na trilha sonora. O elenco é uma surpresa atrás da outra, Jeremy Irons como o pai de Maurizio, Al Pacino como um tio. Salma Hayek é uma trambiqueira que "vê o futuro" de Patrizia e alimenta seus sonhos. Jared Leto está irreconhecível como Paolo, um designer de moda incompetente que sonha em criar uma linha de roupas para a Gucci. Leto está tão exagerado e ridículo que, estranhamente, até funciona para seu personagem.

O maior problema com "Casa Gucci" é a duração, longa demais. Não há razão para esta estranha comédia de erros ter duas horas e trinta e oito minutos de duração. Os exageros, que no começo são divertidos e bem vindos, com o (longo) tempo se tornam irritantes e fora de lugar. A paródia acaba se tornando uma tragédia e a graça termina. O filme, porém, nunca perde a beleza visual e o apuro técnico. Teria sido muito melhor com quarenta minutos a menos. Disponível na Amazon Prime Video.

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Val (2021)

Val (2021). Dir: Ting Poo e Leo Scott. Amazon Prime. Bom documentário sobre a vida do ator Val Kilmer. O filme apareceu sem nenhuma propaganda na Amazon Prime, mas eu o aguardava há algum tempo. Val Kilmer nunca chegou ao status de "astro" como Tom Cruise ou Harrison Ford, longe disso, mas foi sempre um ator marcante mesmo nas produções "B" que fizeram parte de seu currículo nos últimos anos. Recentemente foi atacado por um câncer de garganta que acabou com sua voz forte e debilitou sua aparência. Ele sobreviveu, mas é triste ver o que a doença fez com sua figura.

Sem poder falar (a não ser tampando um buraco na garganta com os dedos), Val Kilmer resolveu contar a própria história, usando centenas de horas de filmagens feitas por ele mesmo desde criança. Sim, é um projeto cheio de vaidade, mas Kilmer é um ator, acostumado à própria imagem a vida inteira. Ele e os irmãos brincavam de fazer filmes amadores em um rancho na Califórnia e Kilmer continuou gravando a própria vida; bastidores de filmes, testes para diretores como Scorsese (ele tentou o papel de Ray Liotta em "Os Bons Companheiros") e Stanley Kubrick, ensaios, conversas com a família, etc. Há cenas curiosas dos bastidores de "Top Gun", "Batman", "The Doors", "Fogo contra Fogo", "Tombstone" e o caos que foram as filmagens de "A Ilha do Dr. Moreau", com Marlon Brando.

Todo o "glamour" do passado contrasta com a situação presente de Kilmer. Há uma sequência bem desconfortável em que o vemos assinando centenas de autógrafos para fãs em uma convenção qualquer; Kilmer passa mal e tem que interromper a sessão de autógrafos. Sem poder fazer mais filmes, ele agora depende de aparições públicas para ganhar algum dinheiro. O documentário é narrado pelo filho de Kilmer, Jack, que tem a voz bem parecida com a do pai. O trabalho de edição é muito bem feito, misturando centenas de imagens de várias décadas diferentes para contar a história de um grande ator. Disponível na Amazon Prime.

sábado, 9 de abril de 2011

Sidney Lumet (1924 - 2011)

Morreu o grande cineasta Sidney Lumet. Estava com 86 anos, mas bastante ativo. Seu último filme foi "Antes que o diabo saiba que você está morto" (2007), com Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke e Marisa Tomei, que mostrava a ousadia e força de um diretor em início de carreira.

Lumet teve uma carreira prolífica e marcante.

Em 1957 dirigiu Henry Fonda em "12 Homens e uma Sentença". A parceria com Al Pacino deu ao mundo "Serpico" (1973) e "Um dia de Cão" (1975); quem pode se esquecer de Pacino gritando "Attica! Attica!"?
Em 1976, fez um dos filmes mais corrosivos sobre o mundo do jornalismo, "Rede de Intrigas", com o famoso discurso de Peter Finch revelando, ao vivo, os "podres" da mídia televisiva. Com Paul Newman, James Mason e Charlotte Rampling fez o drama de tribunal "O Veredicto" (1982).

E mais uma série de filmes de todos os tipos, bons e ruins, sempre interessantes e com algo a dizer.

Parte Lumet, ficam seus filmes. Sua morte deixa o cinema menos inteligente.








sábado, 21 de agosto de 2010

Almas à venda

Impossível falar de "Almas à venda" sem citar o roteirista e diretor Charlie Kaufman. O filme da diretora Sophie Barthes é uma espécie de colagem dos temas de Kaufman, particularmente dos filmes "Quero ser John Malkovich" e "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças". Isso não significa que seja um filme de segunda categoria, longe disso. O extraordinário Paul Giamatti, famoso por interpretar personagens angustiados com um toque de Woody Allen, encarna um ator de Nova York envolvido em uma produção teatral de "Tio Vânia", de Anton Chekov. O nome de seu personagem? Paul Giamatti, claro. Fazendo uma versão fantasiada e exagerada dele mesmo, Giamatti encontra em um anúncio de revista o que pode ser a solução para seus problemas: uma empresa que alega conseguir tirar a "alma" da pessoa, armazenando-a em um local seguro. A vantagem, segundo a empresa, é que um sujeito "desalmado" pode viver de forma muito mais leve, sem ter problemas de consciência, por exemplo, ou outros dilemas morais.

Como se vê, Paul Giamatti interpretando ele mesmo lembra o tema de "Quero ser John Malkovich", e o processo de retirada da alma lembra "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças", em que os personagens pagavam para tirar lembranças problemáticas da memória. Sophie Barthes, também autora do roteiro, no entanto, acrescenta ainda uma trama que envolve a máfia russa, que usa mulheres para fazer o papel de "mulas", contrabandeando almas entre os Estados Unidos e a Rússia. Uma delas é Nina (Dina Korzun), uma "mula" que já carregou tantas almas através do Atlântico que ela não sabe mais direito quem é. Ela vaga pelas ruas com "resíduos" das almas que já transportou, tendo flashes de lembranças que não são dela. Giamatti vai até a empresa e é convencido pelo "Dr. Flinstein" (David Strathairn) a passar pela extração de alma. Giamatti fica surpreso com o tamanho dela depois do procedimento. Sua alma, que tanto lhe pesava e atormentava, tem a aparência e tamanho de um grão de bico.

Há, obviamente, grande dose de humor negro por todo o filme. As cenas entre Strathairn e Giamatti, dois grandes atores que por anos foram coadjuvantes em Hollywood, são ricas em diálogos ácidos e irônicos entre o "cientista", frio, otimista e prático e o "artista", emocional, denso e egocêntrico. O roteiro não funciona em alguns detalhes. A personagem de Nina, principalmente, resulta em um enigma não resolvido. Giamatti "aluga" a alma que ele supõe ser de um poeta russo quando, na verdade, pertencia a uma mãe atormentada. O roteiro seria mais interessante, creio eu, se os personagens de Nina e de Olga (a mãe) fossem a mesma pessoa. Mesmo assim, "Almas à venda" é um filme muito interessante e carregado nas costas por Paul Giamatti. Há diversas piadas citando atores americanos como Al Pacino, Robert DeNiro e Johnny Depp, entre outros.