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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

"Rosetta" e "O Filho" - O cinema dos irmãos Dardenne

"Rosetta" (1999)
Há um profundo sentimento de "carência" nos filmes destes dois irmãos belgas, Jean-Pierre e Luc Dardenne. Seu filme mais recente, "O Garoto da Bicicleta" (em cartaz) trata da história de um garoto que é abandonado pelo pai em um orfanato. O garoto procura pelo pai e é auxiliado por uma bela cabeleireira (Cécile de France). O pai, encontrado, diz que não quer ficar com o filho. Da mãe nem se fica sabendo. Um filme frio? Na verdade não.


É mais uma bela obra dos belgas que começaram no cinema como documentaristas. Este texto trata de "Rosetta" (1999), vencedor da Palma de Ouro em Cannes e de "O Filho" (2002), filme seguinte de Luc e Jean-Pierre.

Em ambos percebe-se o sentimento de que falta alguma coisa. Isso se traduz esteticamente na forma como os diretores acompanham seus personagens. Tanto a jovem Rosetta (Émilie Daquenne) quando o carpinteiro Olivier (Olivier Gourmet) são acompanhados de forma claustrofófica pela câmera o tempo todo. É como se os diretores estivessem tentando traduzir o quanto o mundo interior destes personagens é reprimido e como lhes é difícil socializar com as outras pessoas. "Rosetta" acompanha a história de uma jovem que mora com a mãe alcoólatra em um trailer. O filme começa com a garota sendo demitida, aos berros, da firma em que trabalhava. A reação de Rosetta não é só a de quem está perdendo um emprego; sim, ela precisa do dinheiro, mas o problema é outro. Rosetta sonha com uma "vida normal", que ela imagina conseguir estando empregada. Os irmãos Dardenne, usando da experiência como documentaristas, constroem uma série de "rituais" que a garota executa todos os dias para tentar manter uma rotina. Nos fundos do acampamento em que o trailer está estacionado, Rosetta pula o alambrado e, com uma armadilha artesanal, pesca peixes em um riacho; aparentemente, eles são para comer. Ela também percorre lojas de roupa tentando vender peças usadas. E está sempre à procura de um emprego. Ela faz amizade com um rapaz que vende "waffles" em uma banca, e o chefe dele (Olivier Gourmet, o mesmo ator de "O Filho") , a contrata por alguns dias (para, depois, dispensá-la novamente). A amizade com o rapaz da banca é confusa. Ele está interessado nela, mas Rosetta parece incapaz de corresponder. Há uma cena perturbadora em que o rapaz cai em um riacho e fica gritando por socorro por um longo tempo; Rosetta finalmente o salva, mas suas ações estão longe do que se espera da protagonista de um filme tradicional. Até que ponto ela está disposta a arrumar um emprego? O que ela faz com o rapaz no decorrer do filme é necessidade financeira ou um grito de socorro?
"O Filho" (2002)

Em "O Filho" acompanha-se os passos do carpinteiro Olivier, um homem metódico que trabalha em uma oficina do governo para a reabilitação de jovens. Um dia Olivier recebe um novo aprendiz, um jovem chamado Francis (Morgan Marinne), que acabara de passar cinco anos preso por um roubo de carro que causou a morte de uma criança. Fica claro que Olivier tem algum interesse no rapaz, mas o espectador não sabe qual é. Os diretores apenas o mostra seguindo o rapaz à distância, descobrindo onde ele mora e inspecionando seu apartamento. Também se descobre que Olivier está separado da esposa, que vem lhe dizer que está grávida de um novo relacionamento. O trabalho de Olivier na marcenaria é tão detalhado que, novamente, tem-se a impressão de se estar assistindo a um documentário. Aos poucos, através de pequenos detalhes e frases trocadas por Olivier e a ex-mulher, descobre-se que o casal havia perdido um filho de forma violenta e que Francis, o aprendiz, havia cometido o crime aos 11 anos de idade. Os irmãos Dardenne são mestres em quebrar as espectativas do espectador; em um filme tradicional, o que se poderia esperar do encontro entre um pai e o assassino do filho? O ator Olivier Gourmet faz um trabalho excepcional. É notável o modo como ele consegue mostrar a raiva reprimida do carpinteiro que perdeu o filho e o casamento de forma violenta, e agora trababalha na recuperação de jovens. A sequência final é passada em um lugar distante em que estão apenas os dois personagens; o que vai acontecer? Seria este um filme de vingança tradicional, em que o pai resgata a "honra" do filho com outro ato de violência? Os irmãos Dardenne mostram que, na vida e no cinema, pode haver outros caminhos.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O Filho da Noiva

Ainda não havia visto este filme argentino, lançado em 2001 e candidado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Dirigido por Juan José Campanella, "O Filho da Noiva" é inteligente, doce e extremamente bem escrito. Passado em Buenos Aires, o filme trata da família Belvedere, cujo filho Rafael, quando criança, sonhava que era o herói "Zorro" e cresceu para herdar o restaurante italiano da família. Rafael (Ricardo Darín) é um pai separado que tem que lidar com as pressões diárias de tocar o restaurante, lidar com fornecedores, orientar os empregados, enfrentar a ex-mulher e dar atenção à filha pequena. Para complicar, sua mãe (Norma Aleandro) sofre do mal de Alzheimer e mora em um asilo, onde é visitada diariamente pelo marido devotado, Nino Belvedere (o excelente Héctor Alterio).

Um dia, após uma jornada particularmente estressante, Rafael sofre um ataque cardíaco e vai parar na UTI, onde fica 15 dias internado. A pausa forçada o faz repensar sua vida e sua rotina, e a princípio ele começa a ter sonhos vagos de querer largar tudo e ir para o México. Isso magoa sua atual namorada, a jovem e bela Naty (Natalia Verbeke), que tinha planos a longo prazo com Rafael.

O roteiro, do próprio diretor em parceria com Fernando Castets, é muito bem escrito e, mesmo lidando com todo este drama, muito bem humorado. Rafael tem aquela mentalidade parecida com a do brasileiro, e pergunta a um investidor: "Crise? Que crise? Quando não é inflação é recessão, estamos sempre em crise". A trama tem várias ramificações interessantes, como um amigo de infância de Rafael, Juan Carlos (Eduardo Blanco, muito engraçado), que reaparece do nada e passa a se interessar pela família dele (Juan Carlos havia perdido a própria em um acidente de carro). Ou o fato do pai de Rafael, Nino, querer se casar na igreja com sua mulher após 44 anos de união não oficial. O padre da igreja fica comovido com a história, mas argumenta que o direito canônico provavelmente não aceitaria o fato de que a noiva não tem capacidade para decidir por conta própria o que quer (a contra argumentação de Rafael, que diz que se casou sem nenhum discernimento com o consentimento da igreja, e quando quis se separar de forma consciente foi proibido pela mesma igreja, é ótima).

Há vários filmes sobre o Mal de Alzheimer, como o belo "Longe Dela" ou "Íris", mas o foco em "O Filho da Noiva" não é apenas a doença. O filme se concentra com carinho nos personagens, pessoas comuns enfrentando os problemas do dia a dia e lidando com as complicações do amor. Boa pedida para ver em DVD.