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segunda-feira, 1 de abril de 2024

Descanse em paz (Descansar en paz, 2024)

 
Descanse em paz (Descansar en paz, 2024). Dir: Sebastián Borensztein. Suspense dramático razoável que começa em Buenos Aires no ano de 1994. Sergio (Joaquín Furriel) tem uma família perfeita; é casado com Estela (Griselda Siciliani) e tem dois filhos. Só que ele está com um problemão, está afundado em dívidas, não paga os funcionários há meses, a escola dos filhos está cobrando as mensalidades e um agiota, Hugo (Gabriel Goity) lhe deu um ultimato, pague ou sofra as consequências.

Fica difícil falar mais sobre o filme sem dar SPOILERS, o caso é que Sergio tem um seguro de vida que, caso ele morresse, resolveria os problemas financeiros da família. A direção é de Sebastián Borensztein, que fez o ótimo "Um Conto Chinês", com Ricardo Darín (com quem também fez "A Odisseia dos Tontos"). O roteiro é baseado em um livro de Martin Baintrub, que fala sobre um atentado a bomba real acontecido contra uma associação judaica em Buenos Aires nos anos 1990.

O filme é bem feito, embora um tanto melodramático. A trama se baseia muito na interpretação de Joaquín Furriel, que está bem e carrega as dores do mundo nos olhos. Há boa reconstrução de época mostrando Buenos Aires nos anos 1990. O suspense cresce bastante na parte final mas, pessoalmente, não acho que a resolução faça jus ao que foi construído antes. Tá na Netflix.

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Argentina, 1985 (2022)

Argentina, 1985 (2022). Dir: Santiago Mitre. Amazon Prime Video. Filme argentino novo com Ricardo Darín? Pois é, ele está de volta. Darín interpreta um promotor chamado Julio César Strassera que, em 1985, atuou em um dos julgamentos mais importantes da história argentina. Finda a ditadura militar, o país passou a ser governado por Raúl Alfonsín em 1983; dois anos depois, nove comandantes militares foram acusados de violação dos direitos humanos, assassinato, sequestro e tortura de centenas de pessoas durante a ditadura.

Darín, que está com 65 anos, foi envelhecido para o papel e faz um homem que, a princípio, não acreditava que o julgamento pudesse dar em alguma coisa. O filme faz uma bela recriação de época, mostrando Buenos Aires nos anos 1980 com ótima fotografia de Javier Julia. O roteiro humaniza a figura do promotor mostrando cenas da sua vida familiar; preocupado com o namoro da filha adolescente, Strassera pede ao filho mais novo (um competente Santiago Armas Estevarena) que siga a irmã e relate seus passos. Essas cenas bem humoradas contrastam com o peso das cenas de tribunal; o filme recria depoimentos pesados de pessoas que passaram por tortura ou tiveram familiares sequestrados e mortos. Promotor e equipe são frequentemente ameaçados por telefonemas anônimos ou por "recados" mais claros, como uma bala de revolver supostamente enviada pela Marinha ao promotor.

Darín está ótimo, como sempre, e brilha tanto nas cenas familiares como na cena em que ele lê a acusação aos militares. "Argentina, 1985" foi escolhido pelo país como o representante para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Falando em Oscar e em História argentina, não deixa de ver (na Netflix) "A História Oficial" (1985), belo filme sobre desaparecidos políticos que ganhou o Oscar de filme estrangeiro. "Argentina, 1985" está disponível na Amazon Prime Video.

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Neve Negra

Neve Negra (Nieve Negra, 2017). Dir: Martin Hodara. Este é daqueles filmes em que os personagens, ao entrar em um quarto escuro, não acendem a luz. É como se a escuridão os protegessem de segredos muito pesados, que deveriam sempre se manter no escuro.

Marcos (Leonardo Sbaraglia) é um homem que volta da Espanha para a Argentina com a esposa grávida, Laura (Laia Costa) por causa da morte do pai. O resto da família (um irmão mais velho e uma irmã mais nova) moram em um povoado nas montanhas argentinas. Além do enterro do pai, Marcos tem que resolver uma questão importante: uma mineradora canadense quer comprar as terras da família (por nove milhões de dólares) mas o irmão mais velho, Salvador (o sempre competente Ricardo Darín) se recusa a vender sua parte. A irmã, Sabrina (Dolores Fonzi) está internada em um sanatório.

Marcos e a esposa vão até a cabana onde mora Salvador, em um lugar eternamente coberto por neve; o diretor Martin Hodara encena a viagem deles até a cabana com uma solenidade que me lembrou o começo de O Iluminado, de Kubrick. Há um bocado de subtramas e segredos por todo o filme, revelados aos poucos. Quem é Juan, um dos irmãos de Marcos, e como é que ele morreu? Por que Sabrina está internada e seus cadernos de desenho estão cheios de imagens sangrentas? Por que Marcos se recusa a empunhar uma arma quando Salvador o convida para caçar? Tudo isso é entrecortado por flashbacks bem costurados na narrativa que, a conta gotas, vão revelando o passado. É um bom filme, um tanto pretensioso, talvez, e por vezes desnecessariamente hermético. Leonardo Sbaraglia está muito bem como o complicado Marcos e Darín, sujo e barbudo, faz o bom trabalho de sempre. Em cartaz nos cinemas.


João Solimeo

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Relatos Selvagens

"Relatos Selvagens" é composto por seis episódios cheios de ironia e humor negro. O filme é escrito e dirigido por Damián Szifrón e é uma co-produção entre a Argentina e a Espanha (representada por ninguém menos que Pedro e Agustín Almodóvar). O humor de Szifrón é afiado mesmo nas situações mais absurdas.

A primeira história se passa em um avião em que, misteriosamente, todos os ocupantes parecem ter alguma relação com um homem chamado Pasternak. O final é engraçadíssimo.

No segundo episódio, um homem pára em um pequeno restaurante de beira de estrada durante um temporal. A garçonete (Julieta Zylberberg) o reconhece; foi ele quem causou a morte do pai dela e assediou a mãe. Por anos ela sempre quis estar de frente com ele para lhe dizer poucas e boas. Mas a cozinheira (Rita Corteze) tem uma sugestão mais assustadora (e tentadora).

O terceiro episódio é, talvez, o melhor do filme. Ele mostra o que acontece quando dois homens estão atrás do volante de um carro. Leonardo Sbaraglia está dirigindo um carro de luxo em uma estrada e tenta passar outro carro, velho e sujo, dirigido por Walter Donado. Os dois se "estranham", Leonardo baixa o vidro e ofende o dono do outro carro. Alguns quilômetros à frente, porém, o carro de luxo é obrigado a parar na beira da estrada por causa de um pneu furado e o outro carro estaciona para tirar satisfações. Segue-se uma escalada da violência conforme cada um tenta mostrar ao outro quem é o mais forte.


No quarto episódio, o grande Ricardo Darín (que já foi visto nos cinemas por aqui em outro filme episódio este ano, "O que os homens falam") é um engenheiro de demolições que se vê enredado em um mar de corrupção e burocracia kafkanianas quando tenta recuperar seu carro, que havia sido guinchado injustamente pelo departamento de trânsito. Darín é o grande astro do cinema argentino e tem posição de destaque no pôster do filme. É sobretudo um ótimo ator e neste episódio não é diferente. O final é deliciosamente irônico.

O quinto episódio trata do tema da impunidade. Um rapaz de família rica, voltando de um bar na BMW do pai, atropela uma mulher grávida e foge da cena do acidente. O pai (Oscar Martinez) chama o advogado (Osmar Núñez) para tratar do assunto e eles planejam colocar um "laranja" para assumir a culpa pelo atropelamento. Os diálogos entre o pai e o advogado são ótimos. Qual o preço da liberdade de um filho?

O último episódio trata de infidelidade e problemas conjugais em plena cerimônia de um casamento. A noiva (Erica Rivas) descobre que a amante do marido está na festa e resolve se vingar dele. As consequências são desastrosas.

"Relatos Selvagens" foi um grande sucesso na Argentina e concorreu à Palma de Ouro no Festival de Cannes. Também foi o filme escolhido para tentar uma vaga ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro pela Argentina. A alta qualidade de todos os episódios faz com que o filme não caia no problema de outros exemplares do gênero, que geralmente alternam curtas bons com outros ruins. Há uma continuidade visual e temática entre os episódios muito interessante. Os problemas do casamento de Darín parecem explodir no episódio da noiva. O carro visto como arma no episódio dos dois motoristas causa a morte de uma mulher grávida em outro episódio. A opressão da vida urbana moderna, violência, estresse e burocracia caberiam perfeitamente no Brasil. Para não perder. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.

Câmera Escura

terça-feira, 30 de julho de 2013

Tese sobre um Homicídio

"Filme argentino com Ricardo Darín" já se tornou praticamente um chavão. O competente ator de 56 anos é figura quase obrigatória no cinema de nossos vizinhos (ou, talvez, só venham para cá os filmes em que ele interpreta?). O caso é que só neste site, nos últimos anos, resenhamos "Elefante Branco", "O Segredo dos seus Olhos", "Abutres", "Um Conto Chinês", "Amorosa Soledad", "A Dançarina e o Ladrão" e "O Filho da Noiva".

Darín está de volta com o mesmo visual e praticamente o mesmo personagem que fez em "O Segredo dos seus Olhos", ou seja, um advogado que se envolve com a investigação de um crime brutal cometido contra uma moça. Ele é Roberto Bermudez, um professor de Direito Criminal que testemunha, junto com sua sala de pós-graduação, a cena de um crime: em pleno estacionamento da imponente Faculdade de Direito de Buenos Aires é encontrado o corpo de Valeria Di Natale, uma garçonete que foi violentada, estrangulada e ainda esfaqueada. Um detalhe chama a atenção de Roberto; um pingente em forma de borboleta lhe faz lembrar de uma conversa que teve com um de seus alunos, Gonzalo (Alberto Ammann), que lhe dissera que "todos os dias uma borboleta é morta sem que seja feita justiça". Em uma daquelas montagens que lembram o seriado americano "CSI", Roberto imagina a cena do assassinato e fica convencido de que o criminoso é Gonzalo. O aluno é filho de um conhecido de Roberto e há uma suspeita de que, no passado, Roberto teria tido um caso com a mãe do rapaz.

O filme, dirigido por Hernán Goldfrid, é tecnicamente competente (o trabalho sonoro é muito bem feito) e se baseia nas fórmulas clássicas do suspense. O roteiro de Patricio Vega pretende deixar uma dúvida na platéia: Roberto tem razão em suas suspeitas contra Gonzalo ou é tudo fruto da sua imaginação? Estaria Roberto agindo contra o aluno simplesmente pela arrogância do rapaz? Ou por estar obcecado com a garota morta? Suas ações se tornam ainda mais duvidosas quando ele se envolve com a irmã da vítima, Laura (Calu Rivero), a quem ele quer, ao mesmo tempo, proteger e usar para pegar o assassino. Há várias referências ao mestre do gênero, Alfred Hitchcock, como a cena em que Darín dá o pingente da morta para a irmã usar (em um plano tirado diretamente de "Um Corpo que Cai", de 1958). O último plano, então, é praticamente uma refilmagem do final de "Cidadão Kane", clássico de Orson Welles, de 1941. O final é problemático. É interessante a ideia de deixar o espectador na dúvida sobre o que aconteceu ou não, mas um thriller de suspense pede, mesmo que clichê, uma resolução, e fica a impressão que os realizadores não quiseram se comprometer. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Elefante Branco

A força de Ricardo Darín ("Um conto chinês", "O segredo de seus olhos") é tamanha que basta um plano para estabelecer todo um personagem. E é o rosto dele que abre "Elefante Branco", mais uma parceria entre o grande ator argentino e o diretor Pablo Trapero. Os dois trabalharam juntos no barra pesada "Abutres", um retrato cruel da máfia das indenizações na Argentina. 

Em "Elefante Branco", Trapero e Darín mergulham nos problemas de uma enorme favela nas cercanias de Buenos Aires onde moram 30 mil pessoas. Darín é o padre Julián, o pároco que reza missas, faz batismos coletivos, ajuda menores infratores e toca um projeto de revitalização de uma área dominada pelo "elefante branco" do título: um imenso prédio abandonado que havia sido construído décadas antes para ser o maior hospital da América Latina, promessa que ficou só no esqueleto. O padre é ajudado por uma assistente social engajada, Luciana (Martina Gusman, também de "Abutres") e por um padre belga chamado Nicolás (Jérémie Renier, de "O Garoto da Bicicleta"). Nicolás sente-se mal por haver sobrevivido a uma chacina em uma vila na Amazônia Peruana e foi recrutado pelo padre Julián para tomar seu lugar.  O personagem de Ricardo Darín esconde um segredo: está com um diagnóstico médico fatal e, provavelmente, não tem muito tempo de vida.

Pablo Trapero dirige com ousadia em longos planos sequência que acompanham os atores por entre os andares do prédio em ruínas e vai com eles até a capela caindo aos pedaços que Julián chama de sua "paróquia". As questões políticas são mostradas de frente pela lente de Trapero, que denuncia a omissão do Estado e a opulência mal disfarçada da Igreja. Julián tenta fazer a ponte entre a pobreza da favela, com seus traficantes de drogas, viciados e pessoas passando necessidades com o bispado, que não quer se envolver politicamente na região. A questão do celibato também é colocada em cheque. O jovem padre Nicolás e a bela Luciana acabam se envolvendo física e emocionalmente e o filme encara o romance proibido dos dois de forma pragmática, não descambando para o melodrama. Eles têm uma missão a cumprir e são conscientes disso, apesar de não negarem a atração que sentem um pelo outro. Tudo culmina com uma sequência impressionante de desocupação da área pela polícia argentina que Trapero orquestra com maestria. Filme pesado e forte que trata de questões atuais e relevantes. Visto no Topázio Cinemas, em Campinas.

sábado, 5 de novembro de 2011

Um Conto Chinês

Há algo de Magnólia (1999), filme de Paul Thomas Anderson, no roteiro de Um Conto Chinês (escrito e dirigido por Sebastián Borensztein). O filme começa de forma absurda, mostrando um casal chinês em uma linda paisagem; eles estão em um barco no meio de um lago cinematográfico e o rapaz está para pedir a moça em casamento quando, de repente...uma vaca cai do céu e destrói o barco. Lembrou-se de Magnólia?

Corta para Buenos Aires, para a loja de ferragens de Roberto (o onipresente Ricardo Darín). Ele é um solteirão que leva sua vida seguindo uma série de rituais, do modo como toma o café-da-manhã à hora que vai dormir (sempre no minuto exato). Na loja, ele chega a contar quantos parafusos o fornecedor enviou e, quando não bate exatamente com o que diz o pacote, liga para reclamar. Sua vida regrada começa a mudar com a chegada de Mari (Muriel Santa Ana), uma mulher que está claramente apaixonada por ele, apesar da frieza de Roberto. Mas a rotina dele muda pra valer no dia em que o chinês Jun (Ignario Huang) é jogado de um táxi aos pés de Roberto. Jun havia sido roubado pelo taxista e não fala uma palavra de espanhol. A única referência que ele tem é um endereço tatuado no braço. Roberto o leva até o local mas não há ninguém da família de Jun por lá. Roberto a princípio larga o chinês em um ponto de ônibus, debaixo de chuva, mas acaba voltando e o levando para casa.

A convivência entre os dois se torna um exercício de paciência para Roberto, que tem sua rotina atrapalhada pelo hóspede chinês. Jun começa a fazer pequenos serviços em troca de poder ficar na casa, mas até quando essa situação vai durar? As autoridades não são de grande ajuda e a língua é um obstáculo e tanto. Em cenas engraçadas, eles usam até um entregador de comida para traduzir o que Jun está falando. Roberto continua com seu modo difícil de ser e Jun acaba encontrando ajuda em Mari, que continua tentando conquistar o coração de Roberto. O filme é esteticamente bonito, com cenografia precisa e bom trabalho de fotografia. Lugares poucos vistos de Buenos Aires no cinema, como o bairro chinês, ganham destaque. Ricardo Darín continua uma série de bons filmes e é, de novo, corpo e alma deste. A influência de Magnólia continua em uma mania de Roberto, que é colecionar histórias estranhas que recorta das páginas dos jornais. O final do filme vai mostrar como o mundo é cheio de coincidências estranhas.  Em cartaz no Topázio Cinemas.


segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O Homem ao Lado

Leonardo (Rafael Spregelburd) é um designer famoso internacionalmente; sua principal criação, uma cadeira futurista que é a principal atração de seu site (depois de uma foto dele mesmo) já vendeu 500 mil unidades pelo mundo. Sua casa não poderia deixar por menos e Leonardo mora com a esposa e a filha adolescente em uma obra assinada por Le Corbusier que é atração turística.

Uma manhã Leonardo é acordado por marteladas insistentes. A câmera o acompanha pela casa enorme até uma parede em comum que dá para o vizinho de trás, que está abrindo uma janela. O vizinho é Víctor (Daniel Aráoz), um homem de fala grave que explica pacientemente a Leonardo que tudo o que ele quer é um pouco de Sol. Leonardo retruca, dizendo que a janela não só é ilegal como vai invadir a privacidade de sua família. Está estabelecido o impasse e se inicia uma das situações mais complicadas do mundo moderno, que é como lidar com o outro.

O filme dos diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat guarda curiosa semelhança com outro filme argentino lançado recentemente, "Medianeiras", também passado em uma Buenos Aires descaracterizada e moderna. "Medianeiras", inclusive, menciona as pequenas janelas ilegais feitas pelos argentinos para poder trazer um pouco de luz e ventilação para suas moradias. "O Homem ao Lado" soa como uma acidental continuação em que, do outro lado da janela, está um homem de classe alta, muita cultura mas pouco traquejo social. A família de Leonardo é tão limpa e asséptica quanto a casa futurista em que vivem, e a figura extravagante de Víctor lhes parece semelhante à dos bárbaros que chegaram ao Império Romano.

A idéia não é original; o cinema está cheio de exemplos bons e ruins de filmes que mostram os problemas de convivência entre vizinhos. "O Homem ao Lado" se distingue pela ironia com que o roteiro vê as diferenças sociais entre eles. Apesar da atrapalhação causada pela janela e pela obra do vizinho, a presença de Víctor traz cor nova à vida de Leonardo, que em um jantar com amigos discorre sobre como tem lidado com a situação, que ele descreve como "uma experiência antropológica". Há uma cena muito engraçada em que as marteladas do vizinho são confundidas como parte de uma música "concreta" que Leonardo e um amigo estão escutando. O filme é um tanto longo e repetitivo, mas "O Homem ao Lado" é outro exemplo do bom cinema argentino. Visto no Topázio Cinemas de Campinas.

Câmera Escura

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Medianeiras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual

Escrito e dirigido por Gustavo Taretto, "Medianeiras" é simpático e inteligente. É passado em Buenos Aires mas poderia facilmente ser ambientado em São Paulo, Nova York, Tóquio ou qualquer cidade grande do mundo. Econômico nos diálogos, o filme conta a história de Martín (Javier Drolas) e Mariana (Pilar Lópes de Ayala, de "Lope"), dois solitários cujo mundo interior é contado ao espectador através de narrações e colagens de imagens. O estilo lembra muito o usado pelo roteirista e diretor brasileiro Jorge Furtado em filmes como "Ilha das Flores" ou "O Homem que Copiava", embora em um ritmo mais lento.

Martín e Mariana moram a poucos metros de distância em Buenos Aires, mas não se conhecem. Eles compartilham as mesmas angústias de milhões de pessoas no mundo inteiro; solidão, isolamento, dependência de anti-depressivos e problemas de relacionamento. A namorada de Martín foi para os Estados Unidos para passar um mês e nunca mais voltou, deixando com ele a poodle de estimação. Mariana acabou um relacionamento de quatro anos e está morando no mesmo apartamento em que vivia antes do namoro. Martín é um web designer e não lhe falta serviço, mas vive enfurnado em uma kitnete entulhada de monitores, tabuleiros de xadrez, action figures e outras quinquilharias de um nerd solteiro. É hipocondríaco e está se recuperando de uma síndrome de pânico; o primeiro site que criou foi, não por acaso, para seu psiquiatra. Já Mariana é arquiteta mas nunca construiu nada, por falta de oportunidades. Ela ganha a vida criando vitrines para lojas; sozinha em casa, ela conversa com os manequins.

Há dezenas de referências "pop" que, nos dias de hoje, são reconhecíveis em qualquer lugar do mundo. Há citações a "Star Wars", "O Estranho Mundo de Jack" (Tim Burton), "Manhatan" (Woody Allen), "Feitiço do Tempo" (filme em que Bill Murray acorda todos os dias no mesmo dia, uma sutil comparação com a vida repetitiva dos personagens), jogos de videogame etc. E há uma referência importante tirada do livro infantil "Onde está Wally?", em que o famoso personagem tem que ser encontrado no meio de uma multidão de anônimos. É bastante inteligente o modo como o diretor/roteirista se utiliza destas referências para criar uma história bastante humana sobre a individualização da sociedade. Buenos Aires é também uma personagem e uma metáfora. Em um de seus monólogos, Mariana diz que a tecnologia prometeu poder controlar a temperatura de casa pelo celular, para encontrar o apartamento quentinho quando se chega em casa. "É porque não vai ter ninguém nos esperando", diz ela. O filme foi muito bem recebido no último Festival de Gramado, onde ganhou o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro. Visto como cortesia no "Topázio Cinemas".

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Abutres

Dirigido por Pablo Trapero, "Abutres" é um retrato visceral da máfia das indenizações na Argentina. Um letreiro informa que morrem oito mil pessoas por ano em acidentes de trânsito, cem mil pessoas na última década, em nosso país vizinho. Héctor Sosa (Ricardo Darín) é um advogado que teve a licença revogada e que agora presta serviços para uma organização chamada de "Fundação". Eles são especialistas em negociar com as companhias de seguros em nome das vítimas de trânsito, ficando com quase todo o dinheiro. Sosa é um "abutre", assim chamado por passar a noite seguindo ambulâncias e procurando por clientes em potencial em hospitais, nas ruas e até mesmo em velórios.

Luján (Martina Gusman) é uma médica que trabalha atendendo vítimas em longos plantões. Sua primeira imagem a mostra se injetando uma droga que a mantém calma e capaz de enfrentar a estressante jornada de trabalho. Luján e Sosa se conhecem quando ela é chamada para atender um acidente. Ele já está no local, aparentemente prestando socorro à vítima, quando a ambulância chega. Os dois passam a se encontrar várias vezes em outras ocorrências e começam um romance conturbado. Ricardo Darín ficou conhecido no mundo como o ator preferido do diretor Juan José Campanella, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro ano passado com o ótimo "O Segredo dos seus Olhos". Gusman é sócia do diretor Pablo Trapero na "Matanza Cine", produtora de "Abutres".

Trapero rodou o filme com a câmera digital RED, e a imagem é um misto de cinematográfico e jornalístico. "Abutres" é um filme bastante cru e, por vezes, chocante. A máfia das indenizações não se limita a explorar acidentes comuns, mas também em forjá-los. Há uma cena bastante forte em que Sosa aplica um remédio em um "cliente" e, enquanto conversa com ele, pega uma marreta e lhe quebra a perna. Claro que suas atividades não serão bem aceitas por Luján, que ainda tenta manter alguma ética médica. Sosa também está querendo largar tudo, mas seus superiores, através de ameaças físicas e psicológicas, não vão deixar.

Há vários planos sequência muito bem filmados pelo diretor de fotografia Julián Apezteguia, que mantém a câmera na mão e enquadra os personagens de forma documental. O plano final é brilhante, um belo trabalho de fotografia, direção e interpretação dos atores. E o cinema argentino, novamente, mostra como se podem fazer filmes sérios aqui por nossas bandas.