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quarta-feira, 29 de junho de 2016

O Cinema da Empatia de Steven Spielberg

No vídeo abaixo tento mostrar como Spielberg cria interações entre seus personagens, que imitam uns aos outros, gerando empatia com a plateia. A imitação é a forma uma das formas mais simples de comunicação; ao imitar o outro, você mostra que o compreendeu e que está do lado dele. O recurso também pode gerar momentos cômicos, como na cena de "Indiana Jones e a Última Cruzada".


Steven Spielberg: The Cinema of Empathy from João Solimeo on Vimeo.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Cavalo de Guerra

Steven Spielberg e os animais, via de regra, estiveram em lados opostos em seus filmes. "Tubarão" (1975) registrava o medo do diretor pelos animais aquáticos, assim como "Jurassic Park" (1993) mostrava que a relação de Spielberg com a natureza, como a de Indiana Jones com os répteis, não era muito amigável. Até mesmo o caminhão de "Encurralado" (1971) era visto mais como uma fera do que como uma máquina e, ao "morrer", o caminhão tanque soltava um lamento que lembrava um animal ferido.

Aos 65 anos e o diretor mais popular da história do cinema falado, Steven Spielberg faz seu primeiro filme em que um animal, o cavalo Joey, é o protagonista. Curioso o quanto o filme se parece com a animação "Spirit - O Corcel Indomável" (2002), produzido quando a DreamWorks (estúdio do qual Spielberg é dono) ainda era considerada uma competidora da Disney na animação tradicional. De fato, em muitas partes, "Cavalo de Guerra" parece uma versão em live action do desenho produzido por Jeffrey Katzenberg, o que não é um demérito. Acertadamente, Spielberg trata o cavalo Joey como um animal o filme todo, não caindo no recurso fácil de antropomorfizar demais a criatura, dando-lhe "sentimentos" humanos. Apesar do protagonista ser o cavalo, são as pessoas que chamam a atenção neste belo drama de guerra. A paisagem pedregosa de Devon, no Reino Unido, lembra a de "Depois do Vendaval" (1952), de John Ford (filme referenciado em "E.T. - O Extraterrestre", 1982), e é neste local que nasce o cavalo Joey, assim batizado por Albert Narracott (Jeremy Irvine). O rapaz é filho do teimoso agricultor Ted (Peter Mullen) que, contrariando a vontade da esposa Rose (a ótima Emily Watson), havia adquirido o cavalo em um leilão. Joey é um belo animal, mas não é adequado para arar o terreno que a família aluga do Sr. Lyons (David Thewlis), que ameaça tomar-lhes a propriedade. Interessante como Spielberg opõe "homem versus máquina" ao mostrar Lyons (e seu filho mimado) sempre andando de automóvel, enquanto os Narracott dependem da tração animal para tirar o sustento da terra.

Com o início da I Guerra Mundial, em 1914, Joey é vendido ao exército (contra a vontade do garoto Albert) e parte para a França. "Cavalo de Guerra" então se divide em uma série de "episódios" interligados pelo animal que tem diferentes donos no transcorrer da trama. Spielberg se vale de ótimos atores europeus como Niels Arestrup (de "O Profeta", 2009) ou Lian Cunningham (de "Borboletas Negras", 2011) para interpretar franceses, alemães ou soldados britânicos. Pena que ele não teve a coragem necessária para fazê-los falar em suas línguas originais (todos falam em inglês), mas seria ousado demais para o público médio americano, que abomina filmes legendados. Visualmente, porém, Spielberg está seguro como sempre. Poucos dominam seu olhar para enquadramentos e soluções visuais, e há cenas de extrema beleza, como o ataque da cavalaria britânica em meio a um campo dourado de trigo ou o uso sutil das pás de um moinho para encobrir uma cena de execução. As cenas de batalha são coreografadas milimetricamente em belos deslocamentos de câmera. E quando o cavalo fica preso em arame farpado no campo de batalha, há uma cena tocante e engraçada em que combatentes inimigos se juntam para tentar soltar o animal.

Steven Spielberg nunca teve medo de ser dramático, até piegas, para trazer o público para junto de seus filmes. O final de "Cavalo de Guerra" é uma homenagem ao cinemão hollywoodiano épico, mítico, passado em um pôr-de-sol que parece ter vindo diretamente de uma cena de "...E o Vento Levou" (1939) ou dos Westerns de John Ford. A direção de fotografia, excelente, é de Janusz Kaminski, que colabora com Spielberg desde "A Lista de Schindler" (1993), e a montagem clássica é do veterano Michael Kahn; tudo  acompanhado pela trilha de John Williams, que musicou todos os filmes de Spielberg (com exceção de "A Cor Púrpura",  1985) desde "A Louca Escapada" (1974). "Cavalo de Guerra" recebeu duas indicações ao Globo de Ouro 2012 (Melhor Filme Dramático e Trilha Sonora) e com certeza estará entre as indicações ao próximo Oscar. Melhor do que tudo isso é dizer que "Cavalo de Guerra" é um filme bonito de se ver, de preferência na tela grande do cinema.


domingo, 14 de agosto de 2011

Super 8

Nos anos 60, nos Estados Unidos, um garoto "nerd" chamado Stevie pegou a câmera de 8 milímetros do pai e começou a fazer imagens com ela. Umas das primeiras foi um acidente de trem feito com um modelo; Stevie faria uma série de filmes de guerra, terror e ficção-científica com os amigos da escola. Com estas obras debaixo do braço, mais um curta metragem em 35mm chamado "Amblin", Stevie (sobrenome Spielberg) visitou os estúdios da Universal, em Hollywood, e se tornou o diretor mais jovem contratado pelo estúdio. Ou assim conta a lenda. O fato é que o Super-8, a menor bitola da película cinematográfica (que tem geralmente 35mm no cinema profissional) foi a escola de muitos diretores, como Spielberg, George Lucas, Martin Scorsese, James Cameron e tantos outros. Em uma época pré "home video" e décadas antes das câmeras digitais, era com o Super-8 que as famílias registravam seus aniversários e viagens e os futuros cineastas aprendiam a disciplina de filmar com cartuchos que duravam no máximo três minutos.


Corte para o Século XXI. Um diretor "nerd" chamado J.J. Abrams (de "Lost" e "Star Trek") propôs ao diretor Steven Spielberg uma parceria. O resultado, "Super 8", é uma bem intencionada homenagem não só ao formato de filmes caseiros mas, antes de tudo, ao cinema de Steven Spielberg. Há várias citações ao "mestre da fantasia" (como já foi chamado Spielberg), como o roteiro passado em uma cidade pequena, garotos andando de bicicleta, raios de luz cruzando a tela e um mistério que pode, ou não, ter vindo do espaço. Vale dizer que, por mais bem intencionada que seja a produção, a obra fica um pouco aquém do esperado.


Em 1979, com a chegada das férias de verão, o garoto Joe Lamb (Joel Courtney) e um grupo de amigos resolvem fazer um filme de zumbis. Joe está animado com a perspectiva de trabalhar com a bela Alice Dainard (a precoce Elle Fanning, de 13 anos), que aceitou fazer um papel. Uma noite todos vão à estação de trem da cidade para filmar uma cena e então (em clara citação a Steven Spielberg) testemunham um espetacular acidente entre um trem e uma caminhonete. A cena, diga-se de passagem, é a melhor do filme, e os efeitos sonoros foram feitos por Ben Burtt (antigo colaborador de Lucas e Spielberg). Nos destroços do trem os garotos encontram centenas de estranhos cubos brancos, e Joe vê que "alguma coisa" foge de um dos vagões. Os garotos pegam a câmera de Super-8 (que havia filmado o acidente) e desaparecem do local logo antes da chegada de um grupo do exército. O acidente e a presença do exército mudam a rotina da pequena cidade de Lilian, Ohio. Coisas estranhas começam a acontecer; os cachorros fogem; motores e aparelhos elétricos desaparecem misteriosamente; a eletricidade falha. De tantos em tantos minutos, em cenas coreografadas para que o espectador não veja o que está acontecendo, pessoas são atacadas por "algo". O que está acontecendo?


J.J. Abrams é bom diretor ("Star Trek" é impecável) mas está longe de ser um Spielberg na hora de lidar com cenas de ação ou emoção. "Super 8" flui bem quando foca nos garotos fazendo seu filme de zumbis ou vagando pela cidade, mas certas nuances escapam às mãos do diretor. A relação entre Alice e Joe poderia render muito mais, até porque falta ao jovem ator o que sobra de talento em Fanning. Em uma cena em que os dois estão vendo imagens em Super-8 da mãe de Joe, por exemplo, Alice se emociona e chora de verdade enquanto o garoto não demonstra nada. E por que será que Abrams é obcecado por monstros escondidos? Assim como em "Lost" e em "Cloverfield" (produzidos por ele), a criatura em "Super 8" permanece invisível por quase todo o filme. Isso é interessante para criar suspense, sim, mas após certo tempo o recurso acaba cansando (e, assim como em "Cloverfield", quando é revelado, o monstro parece mais feio do que realista).


Com citações a "Tubarão", "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", "Os Goonies", "E.T. O Extraterrestre", entre outros, sobram homenagens mas falta um pouco de talento ao filme de Abrams. "Super-8" está pronto para uma boa "Sessão da Tarde", mas nada além. Imperdível: durante os créditos, o filme de zumbis que os garotos estavam fazendo é exibido na íntegra.


segunda-feira, 14 de julho de 2008

Wall-E

Engraçado como o cinema americano está fatalista ultimamente. É filme atrás de filme mostrando a Terra (ou os Estados Unidos, o que para eles é a mesma coisa) destruída por alguma catástrofe natural, um vírus, um meteoro, ou o que seja. O exemplar mais novo deste "gênero" vem dos estúdios da PIXAR na forma de um robô que, aparentemente, é o último ser "vivo" do planeta (sem contar uma barata que lhe faz companhia). Falar bem da PIXAR é chover no molhado, mas vamos lá: que filme bem feito tecnicamente. Os artistas "nerds" do estúdio californiano enchem a tela (e os olhos dos espectadores) com literalmente milhares de pequenos detalhes impressionantes. Não há um frame sequer desleixado em um filme da PIXAR, e é por isso que eles se tornaram o estúdio de animação mais bem sucedido e criativo do mundo nos últimos anos.

O robô é chamado de Wall-e (que é a sigla para "alocador de lixo terrestre", ou algo assim), e sua única missão na vida é compactar o lixo em cubos e empilhá-lo em montanhas de dejetos. Estamos aproximadamente no ano de 2800, se minhas contas estiverem corretas, e a Terra se tornou, literalmente, um monte de lixo da superfície até a órbita, cheia de restos de satélites. O filme começa com uma surpresa, uma canção do musical "Hello Dolly", dirigido pelo gênio sapateador Gene Kelly, em 1969, com Barbara Streisend e Walter Matthau no elenco. Explica-se, a música é tocada pelo pequeno robô o tempo todo durante seu turno de trabalho, e ele guarda uma velha (muito velha) fita VHS do filme em sua "casa", um furgão cheio de bugigangas e peças de reposição. O cenário é impressionante e a trama vai sendo revelada aos poucos através de objetos de cena e outdoors animados que vão contando a história da humanidade: o mundo se tornou inabitável e os seres humanos fugiram para o espaço. Para trás ficaram robôs como Wall-e com a missão de limpar tudo e tornar o planeta habitável novamente. Mas 700 anos se passaram, o lixo se acumulou em pilhas maiores que os arranha-céus das metrópoles e os robôs foram parando um por um, com exceção de Wall-e que, fiel a seu propósito, continua trabalhando sem parar.

O filme é co-escrito e dirigido por Andrew Stanton, responsável por "Procurando Nemo", e ele comete algumas ousadias. Grande parte do animado é passado sem nenhum diálogo, apenas com imagens e expressões de Wall-e para passar a história. Há um sem número de referências, mas a principal (e que vai se tornando cada vez mais óbvia) é o clássico "2001 - Uma Odisséia no Espaço", de Stanley Kubrick, que também tinha uma longa primeira parte passada no "silêncio" de uma Terra sem seres humanos. O filme tem um visual espetacular e uma "câmera" quase sempre em movimento, com constantes mudanças de foco e pequenos movimentos que parecem sugerir o ponto de vista de outra máquina. A tecnologia da computação gráfica percorreu um longo caminho desde que Toy Story estreou nos cinemas em 1995.

A solidão do pequeno robô termina quando uma gigantesca nave desce dos céus e dela sai outro robô, muito mais avançado tecnicamente do que Wall-e. Na verdade é "uma" robô chamada EVA, que veio à Terra procurar por sinais de vida. Wall-e se "apaixona" perdidamente por ela e tenta conquistá-la seguindo as cenas que sempre viu no musical "Hello Dolly". EVA só quer saber de sua missão e, de fato, ela encontra uma pequena planta e entra em "hibernação". A nave volta e retorna ao espaço com EVA a bordo, e Wall-e vai de carona. As cenas da viagem espacial são de uma poesia tocante e servem de ponte para a segunda parte do filme, passada dentro de uma gigantesca nave espacial onde os descendentes da Humanidade vivem. E a visão não deixa de ser assustadora. A nave (ou o novo lar dos humanos) é mostrado como um gigantesco shopping center em que as pessoas, gordas e sedentárias, são conduzidas de um lado para o outro em cadeiras flutuantes, se comunicando apenas por programas de "chats" e seguindo a mesma moda. É obviamente uma crítica à sociedade de consumo que produziu todo aquele lixo que destruiu o planeta e um retrato do americano médio, consumista, gordo e infantilizado. Se não estivesse assistindo a uma animação "para crianças" feita por um grande estúdio americano, juro que acharia que estava vendo uma crítica ácida e adulta ao mundo em que vivemos.

Wall-e tem um pouco de E.T., um pouco de Star Wars, um pouco de 2001, e muito da cultura pop atual. Quando Wall-e liga, por exemplo, faz o mesmo som que meu iMac 600 da Apple fazia (e, creio, os Macs ainda fazem ao ligar). A mensagem ecológica está meio batida hoje em dia, mas o filme é maior do que isso. E a PIXAR impressiona novamente com sua mágica de conseguir misturar alta tecnologia na produção com um coração que bate em seus roteiros elaborados. E que venha o próximo Oscar.