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quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

O Mundo Depois de Nós (Leave the World Behind, 2023)

 O Mundo Depois de Nós (Leave the World Behind, 2023). Dir: Sam Esmail. Netflix. Suspense pós-apocalíptico bem interessante que estreou hoje na Netflix. O elenco é ótimo, Ethan Hawke, Julia Roberts, Mahershala Ali, entre outros. É aquele tipo de suspense que Shyamalan poderia ter feito (me lembrou bastante "Sinais", de 2002). Pena que o filme comece muito bem mas vá "esvaziando" para o final.

O filme começa com uma família indo para uma casa na praia. Ela é enorme e moderna, muito bem decorada e com uma bela piscina. Tudo muito bonito, mas algumas coisas estão erradas; a internet está com problemas; o celular começa a falhar e, em seguida, a televisão sai do ar. Na praia, em uma bela sequência, um petroleiro enorme sai de curso e invade a areia. À noite, há uma batida na porta e um homem negro (Mahershala Ali) muito bem vestido, está na varanda, acompanhado da filha. "Essa é nossa casa", ele diz. Ele explica que houve um blecaute em Nova York e eles gostariam de passar a noite.

O que se segue é uma série de situações cada vez mais estranhas e assustadoras. Assim como em "Sinais", em que a família de Mel Gibson estava isolada em uma casa enquanto "alguma coisa" estava acontecendo no mundo, aqui não é diferente. O clima de tensão vai ficando cada vez maior conforme coisas inexplicáveis acontecem, como ruídos ensurdecedores que acontecem no meio da noite; algumas poucas notícias, desencontradas, aparecem em forma de mensagem de texto.

Há uma tensão racial (e sexual) constante na relação entre a família branca e "perfeita" e a outra, de pai e filha negros. A personagem de Julia Roberts, em um racismo pouco velado, não consegue acreditar que Mahershala Ali seja o dono de uma casa tão grande, e seja tão culto e rico. Ele, por outro lado, claramente sabe mais do que ele está falando, e tenta proteger a filha, Ruth (Myha'la). Já os filhos de Ethan Hawke e Julia Roberts vivem sob uma bolha; Rose, a menina, está desesperada porque queria ver o episódio final de "Friends" e a internet não está funcionando. Há referências a outras séries de TV como "The West Wing" (e uma cena me lembrou bastante "Lost"). É um bom suspense, que lida com nossas paranoias como a pandemia e imagina como seríamos inúteis se acordássemos, um dia, sem internet e celular. Tá na Netflix.

domingo, 24 de julho de 2022

As Últimas Estrelas de Cinema (The Last Movie Stars, 2022)

As Últimas Estrelas de Cinema (The Last Movie Stars, 2022). Dir: Ethan Hawke. HBO Max. Belíssimo documentário idealizado pelo ator Ethan Hawke sobre a vida, obra e casamento (não necessariamente nesta ordem) do casal formado por Paul Newman e a atriz Joanne Woodward. Só o primeiro episódio (de seis) está disponível na HBO Max, mas já é interessante o suficiente para render uma resenha. Hawke foi convidado por uma filha de Newman e Woodward para fazer o documentário, que é baseado em centenas de horas de gravações feitas por Newman, amigos, empresários, ex-esposa e vários outros. Só que havia um problema: Newman havia destruído todas as fitas, deixando para trás apenas as transcrições. Ethan Hawke resolve a situação de modo interessante; em plena pandemia, ele entrou em contato com atores e amigos como George Clooney, Laura Linney, Vincent D'Onofrio, Sam Rockwell, Karen Allen, entre outros, para gravar trechos dessas transcrições. Estas vozes, gravadas via Zoom, são ilustradas com dezenas de imagens de arquivo, fotos e cenas dos filmes de Paul Newman e Joanne Woodward. O resultado é não só um retrato da vida das "últimas estrelas do cinema" como é também uma metalinguagem sobre como fazer um documentário.

Newman e Woodward foram casados por cinquenta anos, fizeram grandes filmes e doaram milhões de dólares para a caridade. Eram bonitos, talentosos e, também, ativistas políticos. No começo, Newman parecia que ia ficar eternamente na sombra de astros como Marlon Brando, com quem era frequentemente comparado, e James Dean. A morte prematura de Dean deu a Newman a chance de bilhar e tentar sair da sombra de Brando. Nem tudo eram flores na relação do casal. Newman era casado e tinha três filhos quando começou um tórrido caso com Woodward, que durou cinco anos. Ethan Hawke entrevista uma das filhas dele com a esposa anterior e ela diz que o divórcio acabou com a vida da mãe dela. O documentário também mostra os bastidores do famoso Actor´s Studio, que formou toda uma leva de lendas do cinema. Pena que a HBO Max não lançou todos os episódios ao mesmo tempo.

sábado, 24 de setembro de 2016

Sete Homens e Um Destino (2016)

Claro que o que todo mundo vai perguntar se este filme é melhor do que a versão consagrada de 1960, dirigida por John Sturges. A resposta, claro, é não. Poucas coisas são mais cool do que Yul Brynner em um cavalo, certo? Ainda mais quando acompanhado de gente como Steve McQueen, Charles Bronson, James Coburn, Robert Wagner, etc (sem falar de Eli Wallach). A nova versão, porém, é bem melhor do que se poderia esperar, principalmente por causa do elenco.

Denzel Washington todo de preto montado em um cavalo não é nenhum Brynner, mas é, a seu modo, bastante cool. Chris Pratt está bem como o substituto de McQueen e o resto do elenco é composto por um ótimo Ethan Hawke (um pistoleiro traumatizado pela Guerra Civil), Vincent D´Onofrio como um rastreador, Buyng-hung Lee como um chinês especializado em facas, Manuel Garcia-Hulfo como um pistoleiro mexicano e Martin Sensmeier como um índio comanche. Como se vê, a versão "século XXI" da história primeiro contada por Akira Kurosawa em "Os Sete Samurais" (1954) tenta ser bem mais "inclusiva" do que o elenco totalmente branco do Western de Sturges. Há ainda um papel feminino bastante forte interpretado por Haley Bennett, que faz uma viúva que contrata Washington e seu bando para proteger uma pequena cidade de um cruel minerador chamado Bogue (Peter Sarsgaard, apropriadamente asqueroso mas um tanto exagerado).


O roteiro (co-escrito por Nic Pizzolatto, da extraordinária série True Detective, da HBO) segue de perto as versões de Kurosawa e Sturges, com algumas modificações. O grupo montado por Denzel Washington não só é mais diverso como também é mais ambíguo, principalmente na sua motivação. A versão de 1960 deixava claro que os camponeses podiam pagar muito pouco para os pistoleiros; já aqui, apesar do pagamento também ser pequeno, há implícita a promessa da divisão da grande quantidade de ouro que há nas minas da cidade. A direção é de Antoine Fuqua, que já trabalhou com Denzel Washington antes em "Dia de Treinamento" (também com Ethan Hawke) e "O Protetor". Fuqua dirige bem, sem pressa nem aquelas câmeras tremidas da maioria dos filmes modernos de ação. Há um bom senso da geografia da cidade e seus arredores. Os atores são bem dirigidos e há boa química entre Washington, Pratt e a garota, Bennett. A trilha foi a última composta por James Horner, que morreu em acidente aéreo em 2015, e tem várias de suas assinaturas conhecidas (como uso da flauta japonesa, o shakuhachi).

O ritmo lento é uma vantagem e um desvantagem. As (boas) cenas de ação acabam ficando um pouco dispersas pelos 132 minutos de filme. Quando as balas começam a voar, porém, vale a pena a espera. Dificilmente vai virar um clássico, mas para um Western moderno esta versão rende uma boa sessão de cinema.

João Solimeo

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Boyhood (SPOILERS)

"Boyhood" poderia ter sido apenas um grande feito técnico, um filme feito por um mesmo diretor e equipe por um período de doze anos, mas é muito mais do que isso. É um dos filmes mais humanos e gostosos de se ver já feitos. 

Richard Linklater, o diretor, é produtor independente e verdadeiro filósofo do mundo contemporâneo. Seu primeiro grande sucesso foi "Antes do Amanhecer" (1995), que acompanhava um dia na vida de Ethan Hawke e Julie Delpy enquanto passeavam pelas ruas de Paris. A história do casal foi revisitada aproximadamente de dez em dez anos em "Antes do Pôr do Sol" (2004) e "Antes da Meia-Noite" (2013), e pudemos ver como os personagens envelheceram e mudaram durante este período de quase vinte anos.

Assim, o conceito por trás de "Boyhood" não é exatamente uma novidade para Linklater, mas a passagem dos anos fica mais evidente e fascinante de se ver no período relativamente curto de um único filme. O garoto Mason (Ellar Coltrane) começa o filme por volta dos 5 anos e termina com quase 18, ao entrar na faculdade. Vê-lo crescer na tela é como acompanhar a vida de um filho ou um sobrinho. Do olhar inocente e cabelos louros do menino até o rapaz de voz grossa, barba e cabelo comprido é um longo caminho.

O mesmo vale para os outros atores em cena, como a garota que faz a irmã de Mason, Sam (Lorelei Linklater, filha do diretor), Patricia Arquete (Olivia, a mãe) e o parceiro habitual de Linklater, Ethan Hawke (Mason Pai).

Apesar do título, "Boyhood" não é só um filme sobre a infância; é sobre a família moderna e os papéis que cada um tem que viver para se adequar a uma sociedade em constante mudança. Mason e Samantha são como nômades, mudando constantemente de casa e família conforme a mãe (muito bem interpretada por Patricia Arquette, vencedora de um Globo de Ouro no último domingo) tenta montar um novo lar ao lado de outro marido de tempos em tempos. Ela não consegue ficar sozinha ou acredita que o filhos precisam da figura constante de um pai? Ela não fica parada no tempo, volta a estudar e acaba se tornando professora universitária até descobrir a resposta.

O pai biológico (Ethan Hawke), aliás, está longe de ser um mau sujeito. Apesar de um tanto imaturo, Mason Pai se preocupa com os filhos e tenta estar presente o máximo possível, mesmo com as constantes mudanças de Olivia e as crianças pelo Texas. O filme mostra seu crescimento tanto quanto o dos filhos. Ele dirige um carro esportivo (o mesmo por várias fases do filme) e tem sonhos de se tornar um músico, mas a vida real, aos poucos, o coloca em um caminho mais "responsável". Ele se torna corretor de seguros e até começa uma família nova. A sequência em que ele leva os filhos para conhecer a nova família, aliás, é muito boa e mostra como é uma típica comunidade do Texas. No aniversário de Mason, por exemplo, a avó lhe presenteia com uma Bíblia enquanto que o avô lhe dá uma espingarda. (leia mais abaixo)


Há quem diga que "nada acontece de verdade" em "Boyhood", mas o fato é que Linklater não escreve como quem está fazendo um filme tradicional, com surpresas, tragédias e revelações para apimentar a trama. "Boyhood" é sobre a vida e apesar de haver pelo menos um momento bastante tenso no filme (quando o alcoolismo do primeiro marido de Olivia fica mais agudo), o resto do filme lida com as alegrias e tristezas da vida real.

O garoto Mason é o protagonista principal e Linklater teve muita sorte ao encontrar o ator Ellar Coltrane. Ele é bonito, sério e tem o olhar pensativo de alguém que guarda muito para si. Fica fácil confundir as coisas e achar que, na verdade, ele não é tão bom ator e só está interpretando a si mesmo, mas não deve ser tão simples.

Mason tem que lidar com as constantes mudanças de casa, a perda dos melhores amigos da escola, os primeiros flertes com as garotas, álcool, etc, como todo garoto normal, mas nada tem aquele tom exagerado e dramático de um filme tradicional. Há ótimas cenas (como a que Ethan Hawke tenta explicar sexo seguro para a filha adolescente) em que Mason fica só sentado por perto, observando tudo. Há, provavelmente, muito de Linklater no personagem do garoto, que acaba se interessando por fotografia e partindo, provavelmente, para uma carreira dedicada às imagens.

Com duas horas e quarenta e cinco minutos de duração, "Boyhood" passa como uma ótima viagem. Uma hora o filme tem que terminar e o destino de Mason, seus pais e a irmã ficam apenas na imaginação do espectador. A não ser que Linklater continue fazendo este filme pelos próximos 12 anos e tenhamos uma continuação lá por 2027. Eu não duvido que isto aconteça.

João Solimeo

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Uma Noite de Crime

Em 2022, os Estados Unidos estão vivendo dias com baixo desemprego e criminalidade graças a uma nova lei instituída pelos novos "Pais da Nação" (referência aos "Founding Fathers", os revolucionários do século 18 que libertaram o país do domínio britânico); a lei institui que, um dia por ano, todos os crimes são permitidos, incluindo assassinato. Na teoria, este dia de expurgo (tradução melhor para o título original, "The Purge") serviria para "limpar" o país da violência ao permitir que todo cidadão liberasse sua "besta interior", em um efeito catártico. Na prática, a lei permite uma limpeza social e racial uma vez por ano, uma vez que os mais atingidos são os pobres e indefesos.

Visto desta forma, a premissa de "Uma Noite de Crime" até promete um filme com alguma profundidade. Puro engano. Produzido por Jason Blum (da série "Atividade Paranormal") com baixíssimo orçamento (US$ 3 milhões de dólares), a trama é só uma justificativa para um "slasher" de terror B, daqueles em os personagens agem da forma menos inteligente possível para garantir os sustos da platéia. O elenco conta com Ethan Hawke, que adora fazer filmes de baixo orçamento e é amigo pessoal dos produtores, além de Lena Headey, a rainha Cercei Lannister de "Game of Thrones", no papel da esposa em perigo. Hawke interpreta James Sandin, o principal vendedor de uma empresa que instala equipamentos de segurança. Por causa da "noite do crime", ele enriquece rapidamente ao vender portas blindadas e sistemas de alarme avançados para toda a vizinhança onde mora. Para ele, tudo está correndo às mil maravilhas em sua família, composta por esposa dedicada e um casal de filhos adolescentes. Acontece que nesta "noite do crime" em especial algo dá errado; o filho de James, Charlie (Max Burkholder) fica com pena de um mendigo que vê pelas câmeras de segurança da casa e o deixa entrar para se proteger.


Alguns minutos depois a casa é cercada por um grupo de jovens vizinhos, todos ricos e educados, mas assassinos sanguinários que vieram reclamar seu direito de matar. Todos eles vem vestidos com seu "kit de filme de terror" particular, ou seja, com máscaras horrendas e facões pingando sangue. Eles conseguem cortar a luz da casa, a invadem, e então se desenrolam todos aqueles clichês que fazem a delícia dos fãs do gênero. Casa às escuras, a família resolve se separar (naquela lógica de filmes de terror) e ir cada um para um canto para enfrentar os invasores. Há várias cenas de corpos sendo atingidos por tiros de grosso calibre, machadadas, facadas, correrias no escuro e entes queridos salvos (ou não) no último instante. No fim das contas, um filme que tinha uma premissa interessante se desenrola como dúzias de outros filmes de suspense/terror que existem por aí. De qualquer forma, "The Purge" fez grande sucesso nas bilheterias americanas (e mais ainda mundo afora), recuperando várias vezes seu baixo orçamento, o que significa que continuações estão a caminho.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Atraídos pelo Crime

Não há nada de novo em "Atraídos pelo crime", filme policial que estréia neste final de semana. O que o impede de ser dispensável, no entanto, é um bom elenco sob a direção segura de Antoine Fuqua. O filme conta a história de três policiais, em situações que você já viu antes: Eddie (Richard Gere) é um policial que está a uma semana da aposentadoria. Ele é alcoólatra e mal visto pelos colegas de farda. Sal (Ethan Hawke) é casado, tem vários filhos e a esposa está grávida de gêmeos. Para complicar, ela é asmática e sofre com o mofo nas paredes da casa velha onde vivem. Sal não é exatamente um tira corrupto, mas vem roubando dinheiro apreendido em batidas policiais para comprar uma casa nova para a família. Tango (Don Cheadle) é um policial infiltrado na comunidade negra e amigo do chefão local, Caz (Wesley Snipes), que acabou de sair da prisão. O sonho de Tango é deixar o trabalho infiltrado e ter um trabalho policial "normal", atrás de uma mesa de escritório.

Todas essas histórias são clichês do gênero policial, assim como a estratégia do roteiro de mantê-las em linhas separadas de ação, entrecortadas pela montagem. Mas, como disse, a direção e interpretação mantêm a experiência interessante. Don Cheadle, particularmente, está muito bem como o policial infiltrado que, como costuma acontecer nestas situações, não sabe mais direito a quem deve lealdade. Todas as suas cenas com Wesley Snipes são muito bem conduzidas, em diálogos rápidos e bem interpretados. Ethan Hawke é um ótimo ator, apesar de estar se repetindo. Ele já interpretou o mesmo "tipo", até com o mesmo penteado e barba, em vários outros filmes, como "Antes que o diabo saiba que você está morto", ou "Dia de Treinamento", do mesmo Antoine Fuqua. Richard Gere faz o que pode com o velho clichê do policial que está para se aposentar. As três histórias (ou quatro, contando Wesley Snipes) se cruzam em alguns momentos, mas vão em um crescendo até um ótimo (e violento) final, que vale o filme.

ps: há várias cenas neste filme em que as legendas brancas do cinema são praticamente invisíveis. Para quem entende inglês, tudo bem, mas várias pessoas estavam reclamando. As distribuidoras deveriam investir no tipo de legenda com borda ou sombra, mais visíveis.


quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Antes que o diabo saiba que você está morto

Filme do veterano diretor americano Sidney Lumet (Dia de Cão, Sérpico), com ótimo elenco e edição fragmentada, o filme nem sempre funciona direito, mas quando funciona é ótimo. Lumet ganhou um Oscar honorário por sua carreira quando completou 80 anos. Ao invés de se aposentar, continua trabalhando e fazendo filmes como este, com a vitalidade de um garoto. "Antes que o diabo saiba que você está morto" é um filme de assalto, gênero muito usado no cinema americano, mas é mais do que isso. O assalto serve de ponto central de uma trama que envolve problemas familiares, traição, sexo e drogas. Ethan Hawke (que começou no cinema com "Sociedade dos Poetas Mortos", em 1989) é Hank, um personagem que os americanos chamam de "looser" (perdedor, derrotado). Ele está separado da esposa, que não perde uma oportunidade sequer de cobrar os meses atrasados da pensão alimentícia que ele deve à filha adolescente. Hawke cria um homem patético, sempre com um sorriso no rosto que tenta, sem sucesso, disfarçar um desespero constante. Ele tem um irmão mais velho, Andy (o sensacional Philip Seymour Hoffman), que é aparentemente bem sucedido e bem casado com Gina (Marisa Tomei, extremamente sexy, mas frágil). Só que as aparencias enganam. Andy é viciado em drogas, está desfalcando a empresa em que trabalha e o imposto de renda está no seu pé. A esposa tem problemas de auto-estima e está tendo um caso com o cunhado.


Um dia Andy chama Hank e lhe apresenta um plano: roubar a joalheria de um shopping em um sábado de manhã. É o plano perfeito: o local é meio afastado, não haveria muitos clientes no local, o seguro pagaria tudo e, por ser um negócio familiar, a única pessoa tomando conta seria uma velha senhora. Detalhe: os donos da joalheria são os pais de Andy e Hank. Claro que vai dar tudo errado.


Lumet apresenta esta história de forma não linear, tendo o roubo como ponto de partida para, em montagens paralelas que vão e voltam no tempo, ir apresentando a história dos personagens. Às vezes é um pouco confuso, mas sempre intrigante. E, nos dias puritanos e infantis por que passa o cinema americano, é bom ver um filme que não tem pudores ao apresentar cenas de violência e de sexo. A primeira cena do filme, aliás, mostra uma das cenas mais ousadas de sexo (entre Philip Seymour Hoffman e Marisa Tomei) que vi nos últimos anos. Marisa Tomei, aliás, está surpreendente. Ela sempre foi uma atriz mediana, que ganhou um Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por "Meu Primo Vinny", de 1992, que muita gente acha que foi um engano, ou uma brincadeira do apresentador, Jack Palance. E falar bem da interpretação de Philip Seymour Hoffman já se tornou lugar comum. Notem como ele tenta passar um ar "cool", de quem está em controle o tempo todo, mas aos poucos vai perdendo a paciência principalmente com o irmão mais novo. O elenco ainda conta com Albert Finney como o pai de Andy e Hank, um homem que sempre foi muito duro com o filho mais velho e leniente com o mais novo.


Cheio de reviravoltas, "Antes que o diabo saiba que você está morto" é um bom filme, de um veterano do cinema.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

GATTACA


Esses dias revi Gattaca, esta inteligente ficção-científica escrita e dirigida por Andrew Niccol em 1997. Niccol é o competente roteirista por trás de "O Show de Truman", dirigido por Peter Weir em 1998, que tratava de um reality show que acompanhava a vida inteira de um rapaz (Jim Carrey) sem que ele soubesse. Niccol se dedica a tocar na ferida de certos aspectos da nossa sociedade, como a exposição da mídia (em "O Show de Truman" ou em "SIMONE", escrito e dirigido por ele), ou as consequências do comércio de armas (em "O Senhor da Guerra", com Nicholas Cage, roteiro e direção de Niccol). Em "Gattaca", Niccol imaginou uma sociedade em que, segundo uma frase do próprio roteiro, a discriminação foi levada ao nível da ciência. O código genético não só já foi todo desvendado como os pais podem encomendar os filhos segundo as maiores probabilidades de sucesso físico e mental. Os membros desta nova geração são chamados de "válidos" e, por força do próprio código genético, têm lugar garantido nos melhores postos da nova sociedade. As crianças geradas no modo tradicional são chamadas de "filhos de fé", "filhos do amor" ou, mais preconceituosamente, de "inválidos". A eles são destinados os postos de faxineiros e outras ocupações "menores", a não ser que haja um modo de burlar o sistema.

É aqui que entra Vincent (Ethan Hawke), um "inválido" que desde criança sonhava em trabalhar em GATTACA, a empresa responsável por enviar astronautas para o espaço. O nome GATTACA foi criado por Niccol a partir das bases do DNA, Guanina, Timina, Adenina e Citosina. Todos os funcionários, ao entrar na firma, têm que colocar o polegar em um identificador que tira uma gota de sangue e analisa o DNA. Para enganar o sistema, uma terceira classe de indivíduos existe nessa sociedade; eles são chamados de "escadas emprestadas", fraudadores que usam amostras de sangue, tecido, unhas, urina e qualquer outra forma de identificação genética de outras pessoas. Vincent usa a identidade de um antigo nadador chamado Jerome Morrow (Jude Law, no papel que o revelou no cinema). Jerome tentou se matar após pegar "apenas" segundo lugar em uma competição no exterior, mas acabou em uma cadeira de rodas. Ele vive escondido da sociedade e "empresta" (aluga, na verdade) seu material genético para Vincent, que usa pontas de dedo falsas, por exemplo, para enganar os identificadores genéticos de GATTACA. No início do filme vemos como Vincent limpa impecavelmente sua estação de trabalho para tirar os seus traços genéticos. Ao mesmo tempo ele discretamente espalha fios de cabelo e pedaços de unha de Jerome pelo local. O esquema está funcionando bem e Vincent, por seus próprios méritos (apesar do código genético "inferior"), vai subindo de posição na empresa e é o selecionado para a próxima missão a Saturno. O problema é que, mesmo nesta sociedade "superior", um brutal assassinato acontece em GATTACA e uma investigação cuidadosa é iniciada. Será que Vincent vai conseguir enganar até a polícia e seus métodos de investigação cuidadosos?

O filme tem orçamento relativamente baixo mas é muito inteligente no uso de cenários (a escada do apartamento de Jerome, por exemplo, lembra uma dupla hélice de DNA), no figurino "retrô" baseado nos filmes de detetive, no roteiro inteligente e no elenco que inclui Uma Thurman, Alan Arkin e Gore Vidal. Niccol levanta questões relevantes nessa sua parábola tecnológica. Até que ponto o mundo proposto por ele é plausível? Já há hoje uma espécie de "seleção genética" que discrimina pessoas apenas pela aparência, idade, porte físico e cor da pele. Empresas realizam processos de seleção cada vez mais elaborados que incluem o estudo da grafologia (o modo de escrever), dinâmicas de grupo, jogos, entrevistas e, sim, um exame médico completo. O que as impedirá de, em um futuro próximo, selecionar (ou discriminar?) pela informação genética? Niccol também levanta pontos interessantes sobre o determinismo. Uma pessoa bem nascida, portadora de um código genético "perfeito", tem garantia de ser uma pessoa bem sucedida? E quanto à força de vontade? Ela existe ou também pode ser meramente genética?

É um filme extremamente inteligente que pode render várias leituras. É interessante notar certos detalhes que Niccol acrescentou ao roteiro. Jerome, em sua cadeira de rodas, se considera um "inválido" mas empresta seu código genético "válido" para Vincent (que é visto como "inválido pela genética). Há também uma história paralela envolvendo um irmão de Vincent que foi criado geneticamente e, assim, seria "superior" a ele. Mas ele não consegue vencer Vincent em uma prova de natação no mar. Interessante notar que Jerome, quando ainda era atleta, era justamente um nadador e agora é praticamente um "irmão" de Vincent.

O filme foi lançado recentemente em DVD duplo e imagem restaurada. Recomendo também os outros filmes de Niccol citados acima (apesar de "SIMONE" ser fraquinho). Niccol nos faz pensar como poucos nos dias de hoje.