sexta-feira, 13 de junho de 2008

Fim dos Tempos

A musa criativa parece ter abandonado M. Night Shyamalan nos últimos anos. O diretor, roteirista e produtor que surgiu praticamente do nada para uma indicação ao Oscar e grande sucesso com "O Sexto Sentido", em 1999, vem acumulando uma série de fracassos. Gostei bastante dos filmes que seguiram "O Sexto Sentido", como "Corpo Fechado" (Unbreakable, 2000) e "Sinais" (Signs, 2002). Shyamalan mostrava criatividade nos roteiros e grande domínio no terreno dominado pelo mestre Alfred Hitchcock, o suspense. "Sinais", principalmente, é um filme feito praticamente só de suspense, baseado em boas interpretações e um belo roteiro. Com "A Vila" (The Village, 2004), o namoro do diretor com público e crítica começou a se romper. Eu acho a primeira parte do filme magnífica, com ótimas interpretações, grande suspense e maravilhosa trilha de James Newton Howard. Mas a parte final desagradou a muita gente, com certas "surpresas" reveladas de forma capenga e um final duvidoso. Mas as críticas tocaram forte no diretor e ele resolveu se "vingar" com seu próximo filme, "A Dama da Água" (Lady in the Water, 2006), em que abertamente ataca os críticos de cinema criando um personagem caricato e, mostrando falta de modéstia, escalando a si mesmo para um dos papéis mais importantes (ou auto-importantes) do filme. Foi mais um fracasso.

E então eu vi o cartaz acima e pensei, "opa, ele está de volta". Lembra muito o cartaz de "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", não? Pois é, mas o filme está longe disso. Todos os elementos de um "filme de Shyamalan" estão presentes: há o herói relutante e solitário vivido por Mark Wahlberg; há a esposa meio fria e distante, Alma (interpretada por Zooey Deschanel); há "algo" excepcional acontecendo no mundo, mas isso é visto pelo ponto de vista de um universo pessoal, e assim por diante. Sem motivo aparente, as pessoas que passeiam pelo Central Park, Nova York, em uma bela manhã começam a agir de forma estranha e a se matar. Operários da construção civil despencam, aos montes, dos prédios para as ruas lá embaixo. Guardas de trânsito se matam com as próprias armas, e assim por diante. Os noticiários atribuem o fato a um ato terrorista e as notícias logo chegam aos ouvidos de Elliot Moore (Wahlberg), um professor de ciências da Filadélfia. As autoridades recomendam a evacuação em massa das grandes cidades e ele parte de trem com a esposa, um colega da escola e sua filha para o interior. Mas a "praga" começa a se espalhar para as cidades vizinhas e logo para toda área nordeste dos Estados Unidos. A premissa seria interessante para um episódio curto de "Além da Imaginação", mas é um pouco fraca para manter a atenção em um filme de longa metragem. Como a "ameaça" é invisível, Shyamalan tentou dar a ela a forma de um vento que apenas agita as folhas das árvores por onde passa, mas o resultado não é muito eficiente.

E ele insiste em criar pequenos "incidentes" no roteiro que serviriam para humanizar os personagens mas que, no fundo, apenas tiram o foco da história e soam, a bem da verdade, um pouco ridículos. Por exemplo, a esposa de Elliot não só sofre de algum tipo de paranóia e síndrome de pânico, mas também recebe ligações misteriosas no celular de um tal de "Joey" que, no fundo, foi apenas um colega de trabalho com quem ela jantou uma vez. Para que criar esta história paralela se ela não vai ser aproveitada pelo roteiro? E o que dizer de outra história paralela lançada no início do filme, de que as abelhas teriam simplesmente desaparecido sem deixar vestígios?

Há certas cenas criadas com o objetivo de fazer rir mas que provocam o efeito contrário. Mark Wahlberg, por exemplo, tenta convencer um homem dentro de uma casa que ele é "real" cantando uma musiquinha sem motivo aparente. Em outra cena, acredite, ele começa a conversar com uma planta. E para quem criou personagens infantis tão interessantes em O Sexto Sentido, Corpo Fechado e Sinais, Shyamalan poderia ter se esforçado mais no personagem da garotiha adotada por Elliot e a esposa.

Assim, "Fim dos Tempos" até que começa bem, mas vai se esvaziando e ficando cada vez mais sem sentido conforme vai chegando ao fim. Mark Wahlberg se revela limitado no papel que poderia ter ficado melhor nas mãos de Joaquin Phoenix, por exemplo, com quem Shyamalan trabalhou em "Sinais" e "A Vila". Quanto ao diretor, talvez ele ainda tenha liberdade criativa dos estúdios para fazer seus filmes porque, provavelmente, eles custem relativamente pouco para serem produzidos. "Sinais" foi feito praticamente todo em uma só locação, e "O Fim dos Tempos" é passado quase todo com apenas alguns atores em campos neutros no interior dos Estados Unidos. Para quem depende tanto de um bom roteiro, Shyamalan precisa voltar aos bons tempos.
ps: tem muita gente, eu inclusive, confundindo o título brasileiro do filme. O certo é "Fim dos Tempos", e não "Fim dos Dias", que é um filme com o Swarzenegger.

4 comentários:

Renato Maschetto disse...

Solimoes, eu curti "A Vila", e gostei ate' certo ponto de "A Dama da Agua" (a trilha sonora e' muito boa). Nao gostei de Unbreakable, e pra mim Sinais e' o melhor dele, com 6o. sentido logo atras.
Nao vi esse novo ainda, mas vamos ver, com certeza. A patroa gosta do Shamalayualalyualayalaman!
Abraco!

João Solimeo disse...

Tudo bom, Maschetto? Todas as trilhas do Shyamalan (ou Shamalayualalyualayalaman, hehe) são feitas pelo James Newton Howard, que é muito bom. Minha trilha preferida dele é justamente de "A Vila", que é um filme que eu "amo odiar", hehe.
Abraços!

Oz disse...

"Fim dos Dias" é o filme do Schwarzenegger lutando contra o diabo. O filme do Shyamalan se chama "FIM DOS TEMPOS".

Abs

João Solimeo disse...

Opa, verdade, hehe. Já vi essa confusão em vários sites por ai.
Abraço.