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terça-feira, 26 de março de 2013

Linha de ação

"Linha de ação" não é um filme fácil de julgar. Certamente não é nenhuma obra-prima e está longe de ser original, mas o elenco é sólido e cheio de estrelas como Russell Crowe ("Intrigas de Estado"), Mark Wahlberg ("O Vencedor") e Catherine Zeta-Jones. O roteiro, para um filme com um título brasileiro genérico como este (na linha de "Conduta de risco", o que isso significa?) é bem mais complicado do que precisaria ser, pecando por excesso. Wahlberg é Billy Taggart, um "tira" de Nova York que mata um suposto estuprador a sangue frio e é levado a julgamento. Uma manobra política o livra da condenação, mas ele fica devendo um favor ao prefeito Nick Hostetler (um Russell Crowe bem exagerado), que a cobra sete anos depois: em plena campanha política, Hostetler contrata Taggart para seguir a primeira dama, que supostamente está tendo um caso.

A tocaia à mulher do prefeito, interpretada por Catherina Zeta-Jones, é feita com todas aquelas cenas que você já viu em dezenas de outros filmes, como um carro seguindo outro pelo trânsito de Nova York, o detetive tirando fotos da "vítima" de longe, etc, mas estas cenas, apesar de previsíveis, são suficientemente bem feitas para manter a atenção. O roteiro até dá ao personagem de Wahlberg uma fiel assistente, como naqueles filmes clássicos de detetives, interpretada pela israelense Alona Tal. Os dois descobrem que a primeira dama, de fato, está vendo outro homem, que é ninguém menos que o coordenador da campanha do adversário de Crowe à prefeitura de Nova York.

O filme é dirigido por Allen Hughes (que fez o interessante "O Livro de Eli" em 2010), e consegue manter a trama interessante até a metade do filme. É no roteiro de Brian Tucker que "Linha de ação" derrapa, principalmente do meio para o final. O que poderia ser um bom thriller policial tenta se tornar um filme político, com subtramas confusas sobre exploração no mercado imobiliário, um assassinato mal explicado e  há até a sugestão de temas como inclusão sexual. Sem falar em outra subtrama desnecessária que envolve a namorada de Wahlberg, uma atriz iniciante chamada Natalie (a caliente Natalie Martinez) que está lançando seu primeiro filme independente, o que provoca uma cena de ciúmes no personagem de Wahlberg.

Apesar de tudo isto e dos vários furos no roteiro, "Linha de Ação" até certo ponto funciona, sendo melhor indicado para uma sessão em casa, no DVD.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Ted

Era uma vez um garotinho que não tinha amigos. Até  que, em uma noite de Natal, ele ganhou um ursinho de pelúcia chamado Ted; o garoto desejou que  ele fosse vivo de verdade e seu amigo pelo resto da vida. Como era noite de Natal, seu desejo foi realizado e os dois viveram felizes para sempre. Ou não.

"Ted" é criação de Seth MacFarlane, da série "Uma Família da Pesada" (Family Guy), e o filme é como um conto de fadas estrelado pelas novas versões de Beavis e Butthead. O garotinho cresceu para se transformar em John Benett (Mark Wahlberg), um adulto irresponsável de 35 anos que ainda se diverte com Ted, seu ursinho, mas em brincadeiras bem diferentes dos tempos de criança. Os dois passam grande parte do tempo no sofá experimentando drogas e vendo televisão. Ted continua fofo, mas a voz engrossou e ele se tornou um drogado que solta uma frase chula atrás da outra. Por mais improvável que pareça, um cara como John tem um emprego em uma locadora de carros e uma bela namorada, Lori (Mila Kunis), com quem está junto há quatro anos. Lori trabalha em uma empresa grande, onde todos os dias tem que aguentar as "cantadas" de um chefe que tem nome de cachorro, Rex (Joel McHale). Ele é irritante, mas é rico, ambicioso e muito mais adulto do que John. Apesar de amar muito o namorado, Lori gostaria que ele deixasse o ursinho de lado e se tornasse, finalmente, "gente grande".

Não deixa de ser interessante que, no mundo politicamente correto de hoje, um filme como "Ted" tenha sido feito. Há situações engraçadas geradas pelo absurdo de ver um ursinho de pelúcia agindo como um canalha completo, viciado em drogas e mulheres. Quando se esperaria ver, em um filme de um grande estúdio americano, uma cena de sexo entre um boneco e uma loirona? A voz de Ted é feita pelo próprio MacFarlane, que também escreve, produz e dirige o filme. Claro que é tudo uma grande bobagem e há algumas sequências em que se percebe que o filme está apenas girando em círculos. Sam J. Jones, o ator de "Flash Gordon", filme ultra brega produzido em 1980, aparece como ele mesmo em uma festa promovida no apartamento de Ted. Jones tira sarro de si e do personagem, mas a sequência é longa e é só mais uma desculpa para mostrar outras cenas com drogas e nudez. O relacionamento entre John e Lori passa por todos os clichês esperados e é de se admirar o fato de que Mila Kunis, aparentemente, leva o papel a sério. Já Wahlberg, com 41 anos, não convence muito como um "garotão" de 35. As cenas de drogas e o tema "adulto" da produção levaram a censura brasileira a classificar o filme para maiores de 16 anos, o que não impediu um caso pitoresco, tipicamente brasileiro, de um deputado querer proibir "Ted" de ser exibido em território nacional. Sim, o filme não é para crianças e os cinemas que permitirem a entrada de menores de 16 anos na sala (como fez o deputado, que levou o filho de 11 anos ao cinema, segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo) deveriam ser punidos. Quando for lançado em DVD, espera-se que a embalagem deixe bem claro que o conteúdo não é adequado para crianças. Quanto aos adultos, "Ted" rende algumas risadas e nada mais. Visto no Kinoplex, Campinas.


terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O Vencedor

Filmes de boxe seguem uma fórmula. É a clássica história do derrotado que tem que lugar contra seus problemas pessoais, sua família, seu físico e, no final, contra um oponente de carne e osso. É terreno fértil para o drama e para os clichês. O que, então, faz de "O Vencedor" um filme a ser visto? Em primeiro lugar, o elenco, em especial o britânico Christian Bale, famoso por se entregar de corpo e alma aos pergonagens que interpreta. Bale ganhou o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante em Drama neste ano e pode repetir o feito no Oscar, ao qual foi indicado. Ele interpreta Dicky Eklund, um viciado em crack que é uma lenda na pequena cidade em que vive por sua carreira como boxeador. Ele chegou a derrubar o lendário Sugar Ray Leonard, embora alguns digam que Leonard teria tropeçado.

Dicky e sua mãe Alice (Melissa Leo, também premiada com o Globo de Ouro e indicada ao Oscar) vivem agora de agenciar Micky (Mark Wahlberg), o meio irmão mais novo de Dicky, em lutas de boxe. Micky é bom, mas a mãe e o irmão estão mais preocupados com eles mesmos do que com a carreira dele. Após uma luta especialmente violenta, em que Micky é surrado por um oponente dez quilos mais pesado, ele começa a pensar em tomar as rédeas de sua vida. Ele conta com o apoio da namorada Charlene (Amy Adams, indicada ao Oscar), uma garçonete. A direção de "O Vencedor" é de David O. Russell, diretor do bom "Três Reis" (1999) e do esquisito "Huckabees, A Vida é uma Comédia" (2004). Russell estava parado desde esta última produção e volta em grande forma, ganhando inclusive uma indicação ao Oscar. O passo do filme desenvolve bem os personagens, principalmente a complicada família de Micky. A casa está sempre cheia e agitada por suas sete irmãs, todas falando ao mesmo tempo e, aparentemente, vivendo do pouco que Micky ganha para apanhar nos ringues.

Christian Bale, apesar da posição "coadjuvante", carrega o filme nas costas. O ator está mais magro e com os tiques e maneirismos comuns aos viciados em drogas. Seu personagem é sempre o centro das atenções, onde quer que ele vá, mesmo ficando claro que ele não passa de um fracassado. Uma equipe de televisão o segue por toda parte supostamente para gravar sua volta aos ringues quando, na verdade, está fazendo um documentário sobre viciados em crack.

Mark Wahlberg, um dos produtores do filme, é bom ator. Seu personagem cresce gradualmente em importância e, apoiado por Charlene, consegue a inédita chance de disputar o titulo mundial. Todo mundo sabe como o filme vai terminar, mas isso não importa. "O Vencedor" foi um dos dez indicados a Melhor Filme no Oscar é um bom exemplo de como um roteiro pode retrabalhar os clichês de um gênero e fazer um bom espetáculo.


sexta-feira, 13 de junho de 2008

Fim dos Tempos

A musa criativa parece ter abandonado M. Night Shyamalan nos últimos anos. O diretor, roteirista e produtor que surgiu praticamente do nada para uma indicação ao Oscar e grande sucesso com "O Sexto Sentido", em 1999, vem acumulando uma série de fracassos. Gostei bastante dos filmes que seguiram "O Sexto Sentido", como "Corpo Fechado" (Unbreakable, 2000) e "Sinais" (Signs, 2002). Shyamalan mostrava criatividade nos roteiros e grande domínio no terreno dominado pelo mestre Alfred Hitchcock, o suspense. "Sinais", principalmente, é um filme feito praticamente só de suspense, baseado em boas interpretações e um belo roteiro. Com "A Vila" (The Village, 2004), o namoro do diretor com público e crítica começou a se romper. Eu acho a primeira parte do filme magnífica, com ótimas interpretações, grande suspense e maravilhosa trilha de James Newton Howard. Mas a parte final desagradou a muita gente, com certas "surpresas" reveladas de forma capenga e um final duvidoso. Mas as críticas tocaram forte no diretor e ele resolveu se "vingar" com seu próximo filme, "A Dama da Água" (Lady in the Water, 2006), em que abertamente ataca os críticos de cinema criando um personagem caricato e, mostrando falta de modéstia, escalando a si mesmo para um dos papéis mais importantes (ou auto-importantes) do filme. Foi mais um fracasso.

E então eu vi o cartaz acima e pensei, "opa, ele está de volta". Lembra muito o cartaz de "Contatos Imediatos do Terceiro Grau", não? Pois é, mas o filme está longe disso. Todos os elementos de um "filme de Shyamalan" estão presentes: há o herói relutante e solitário vivido por Mark Wahlberg; há a esposa meio fria e distante, Alma (interpretada por Zooey Deschanel); há "algo" excepcional acontecendo no mundo, mas isso é visto pelo ponto de vista de um universo pessoal, e assim por diante. Sem motivo aparente, as pessoas que passeiam pelo Central Park, Nova York, em uma bela manhã começam a agir de forma estranha e a se matar. Operários da construção civil despencam, aos montes, dos prédios para as ruas lá embaixo. Guardas de trânsito se matam com as próprias armas, e assim por diante. Os noticiários atribuem o fato a um ato terrorista e as notícias logo chegam aos ouvidos de Elliot Moore (Wahlberg), um professor de ciências da Filadélfia. As autoridades recomendam a evacuação em massa das grandes cidades e ele parte de trem com a esposa, um colega da escola e sua filha para o interior. Mas a "praga" começa a se espalhar para as cidades vizinhas e logo para toda área nordeste dos Estados Unidos. A premissa seria interessante para um episódio curto de "Além da Imaginação", mas é um pouco fraca para manter a atenção em um filme de longa metragem. Como a "ameaça" é invisível, Shyamalan tentou dar a ela a forma de um vento que apenas agita as folhas das árvores por onde passa, mas o resultado não é muito eficiente.

E ele insiste em criar pequenos "incidentes" no roteiro que serviriam para humanizar os personagens mas que, no fundo, apenas tiram o foco da história e soam, a bem da verdade, um pouco ridículos. Por exemplo, a esposa de Elliot não só sofre de algum tipo de paranóia e síndrome de pânico, mas também recebe ligações misteriosas no celular de um tal de "Joey" que, no fundo, foi apenas um colega de trabalho com quem ela jantou uma vez. Para que criar esta história paralela se ela não vai ser aproveitada pelo roteiro? E o que dizer de outra história paralela lançada no início do filme, de que as abelhas teriam simplesmente desaparecido sem deixar vestígios?

Há certas cenas criadas com o objetivo de fazer rir mas que provocam o efeito contrário. Mark Wahlberg, por exemplo, tenta convencer um homem dentro de uma casa que ele é "real" cantando uma musiquinha sem motivo aparente. Em outra cena, acredite, ele começa a conversar com uma planta. E para quem criou personagens infantis tão interessantes em O Sexto Sentido, Corpo Fechado e Sinais, Shyamalan poderia ter se esforçado mais no personagem da garotiha adotada por Elliot e a esposa.

Assim, "Fim dos Tempos" até que começa bem, mas vai se esvaziando e ficando cada vez mais sem sentido conforme vai chegando ao fim. Mark Wahlberg se revela limitado no papel que poderia ter ficado melhor nas mãos de Joaquin Phoenix, por exemplo, com quem Shyamalan trabalhou em "Sinais" e "A Vila". Quanto ao diretor, talvez ele ainda tenha liberdade criativa dos estúdios para fazer seus filmes porque, provavelmente, eles custem relativamente pouco para serem produzidos. "Sinais" foi feito praticamente todo em uma só locação, e "O Fim dos Tempos" é passado quase todo com apenas alguns atores em campos neutros no interior dos Estados Unidos. Para quem depende tanto de um bom roteiro, Shyamalan precisa voltar aos bons tempos.
ps: tem muita gente, eu inclusive, confundindo o título brasileiro do filme. O certo é "Fim dos Tempos", e não "Fim dos Dias", que é um filme com o Swarzenegger.