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sexta-feira, 21 de maio de 2021

A Última Nota (Coda, 2019)

A Última Nota (Coda, 2019). Dir: Claude Lalonde. Netflix. O filme é bonito, muito bem interpretado e, para quem gosta de música clássica, tem bela trilha sonora de Chopin, Beethoven, Bach, Schumann, entre outros. Mas talvez seja comportado demais. O grande Patrick Stewart interpreta um pianista chamado Henry Cole. Ele está de volta aos palcos depois de uma tragédia pessoal mas, mesmo para um músico experiente como ele, não está fácil. Logo na abertura o vemos suando e lutando para chegar ao final de uma apresentação para duas mil pessoas. Seu agente, Paul (o bom Giancarlo Esposito) faz o que pode para tentar acalmá-lo e mantê-lo se apresentando, sem muito sucesso.

É então que entra Helen Morrison (Katie Holmes), uma jornalista do The New Yorker que havia trocado as teclas do piano pelas do computador. Há uma afinidade instantânea entre o velho pianista e a (relativamente) jovem jornalista. Henry promete uma entrevista a ela e os dois passam a se ver frequentemente, trocando histórias, caminhando por parques, restaurantes, hotéis e apresentações de piano. Quando Henry tem crises de pânico antes de tocar, Helen está sempre por perto para acalmá-lo. Não fica muito claro, a princípio, se há um romance entre os dois ou se é uma forte amizade, mas Stewart e Holmes estão à vontade juntos e as cenas entre os dois são bonitas.

O caso é que o roteiro não tem gás suficiente para manter o filme funcionando. É tudo muito bonito, as apresentações de piano são bem feitas e há belas paisagens seja nos EUA ou na Suíça, onde se passa parte do filme. É bastante melancólico também, com citações ao filósofo Nietzsche, Goethe, entre outros. O filme (que certamente não é o "filme Netflix" habitual) parece que vai terminar em várias ocasiões, mas estica além do necessário. Patrick Stewart, como era de se esperar, está excelente. Tá na Netflix.
 

terça-feira, 21 de outubro de 2014

O Último Concerto

Um quarteto de cordas é composto pelo primeiro violino, segundo violino, viola e violoncelo. Os quatro devem tocar como se fossem um único instrumento, complementando e apoiando um ao outro. O quarteto "A Fuga" toca há 25 anos e, na superfície, é afinado a harmonioso. Em um ensaio, porém, o violoncelista Peter (Christopher Walken) percebe uma dificuldade em acompanhar os outros. "Nosso vibrato está diferente", diz Daniel (Mark Ivanir), o metódico e perfeccionista primeiro violinista do conjunto. Peter vai consultar um médico e descobre que está com os primeiros sinais do Mal de Parkinson. Para um violoncelista, isso pode significar a aposentadoria. Para "A Fuga", perder Peter poderia representar o fim do quarteto.

"O Último Concerto" é escrito e dirigido pelo austríaco Yaron Zilberman. Foi produzido em 2012, mas lançado só agora nos cinemas brasileiros, mostrando um dos últimos trabalhos do grande ator Philip Seymour-Hoffman ("Antes que o diabo saiba que você está morto"), que morreu no começo deste ano. Hoffman, muito bem como sempre, interpreta Robert, o apaixonado segundo violinista do grupo. Ele é casado com Juliette (Catherine Keener, de "Onde vivem os monstros"), que toca viola; os dois têm uma filha adulta, Alexandra (Imogen Poots) que também é violinista. Um dos temas do filme é como a vida de um instrumentista clássico é dominado pela música. Músicos, como todo artista, têm um ego bastante grande; como administrá-lo em um quarteto? (leia mais abaixo)


O anúncio da possível aposentadoria de Peter e sua troca por uma violoncelista desperta nos membros da "Fuga" sentimentos que ficaram reprimidos durante 25 anos. Robert (Hoffman), por exemplo, resolve que não quer mais ter um papel secundário no grupo e quer alternar com Daniel o lugar de primeiro violinista. Juliette (Keener) não sabe se quer continuar no quarteto se Peter sair e as atitudes de Robert fazem com que ela duvide do próprio casamento. Daniel, o frio e equilibrado primeiro violinista, se vê tentado a seguir o coração em um romance complicado com Alexandra. Não demora muito para que todos estejam em pé de guerra.

Filmes sobre música não são raros e costumam seguir algumas fórmulas (curiosamente parecidas com as dos filmes sobre esportes). Há o treinamento rigoroso e o abrir mão da vida pessoal pela carreira. Há a vaidade em se apresentar em público. Há o desejo de se atingir a perfeição e conquistar a performance perfeita. Filmes como "Encontro com Vênus" (1991), de István Szabó, "O Concerto" (2009), de Radu Mihaileneau, "O Quarteto" (dirigido pelo ator Dustin Hoffman em 2012), entre vários outros, seguem estas fórmulas.

"O Último Concerto" não é diferente. O filme deve muito à qualidade do elenco. Christopher Walken, particularmente, está ótimo, fugindo um pouco da caricatura e criando uma interpretação sincera como um músico veterano. O mundo apresentado pelo filme pode não ser do agrado do grande público. A música clássica, infelizmente, não é tão popular por aqui quanto é nos Estados Unidos ou Europa. Tanta dedicação como a apresentada pelos personagens pode parecer exagerada para a maioria das pessoas. Tocar música clássica requer não apenas o dom, mas treinos rigorosos para tentar alcançar a intenção do compositor. 

O quarteto para cordas nº 14, Opus 131, de Beethoven, apresentado no filme, foi interpretado pelo Quarteto de Cordas Brentano. Em cartaz no Topázio Cinemas, em Campinas.